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As listinhas das medíocres gentes

por Rogério Costa Pereira, em 12.10.13

Umas tais ana cristina leonardo e clara ferreira alves consideraram duas vezes numa só lista (*) o Valter Hugo Mãe um autor sobrevalorizado. A mera existência da lista é tão pateta e pedante que dispensa comentários. Este post é portanto sobre as duas senhoras. Provavelmente, não apreciarão a maneira como o Valter insiste na mania de ser um tipo que não nasceu em Lisboa e que não precisa de alinhar nas festinhas de promoção desse além "e o resto é paisagem". Saramago, que não chega (há homens que não morrem) aos calcanhares destas lades, chamou-lhe, ao Valter, algo como "um verdadeiro tsunami literário". Curiosamente, o número dois da Granta portuguesa alberga um texto desse sobrevalorizado. A Granta, essa revistinha conhecida por aceitar qualquer um. A dor de corno deve ser uma coisa fodida. É que obriga as medíocres gentes a fazer cada papelinho.


* ERROS MEUS: A lista não foi elaborada pelas ditas senhoras. Calhou foi os dois indivíduos verem as suas escolhas (e ambos escolheram o Valter) integradas num lista. Mutatis mutandis, mantenho o post.

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publicado às 15:12

 deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo

queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim

valter hugo mãe, in 'contabilidade'
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de valter hugo mãe 

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publicado às 08:00

 brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade

valter hugo mãe, in 'contabilidade'
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de valter hugo mãe 

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publicado às 08:00


O Bom Inverno

por Rogério Costa Pereira, em 22.04.11

Acabei há dias de ler O Bom Inverno, de João Tordo. Trata-se, definitivamente, de algo de novo na literatura portuguesa. João Tordo tem o mérito de fazer das suas fraquezas forças. Assume-as – assume-se!, como bem se vê no recurso ao novelístico House − com folgança e às escâncaras, quase que a gozar connosco. Bom Inverno é um livro que tem um defeito bom – ele há disso, como o cigarro que ora fumo: o livro não se lê, devora-se. É um defeito, sim, mas, no meu caso concreto, é um defeito muito meu – um defeito do leitor, que é glutão. O romance tem – confirmo! − dos melhores diálogos de sempre – de sempre!, e não exagero − da literatura portuguesa. Bosco é o nosso bicho-papão, o homem do saco, metáfora crua de algo/alguém a que cada leitor dará forma/nome. O eterno monstro debaixo da cama que atenta todas as medranças, os tempos da luz acesa no corredor. Os outros actores, e não é à toa que uso esta palavra – actores ­−, são memoráveis (Olivia é um quadro em branco; nem João Tordo saberá exactamente quem ela é – e escrever é mesmo isto, as palavras a atropelar o instrumentalizado autor). Estamos lá todos e, como na vida, todos temos uma parcela da culpa; até da de estarmos vivos. João Tordo entrega-nos o livro em cru e obriga-nos a recorrer aos nossos sonhos e pesadelos para o cozinhar. É um livro manifestamente incompleto, de tão cheio que vem. Nem o facto de utilizar quatro vezes uma das palavras mais detestáveis da língua portuguesa, procrastinar, me tirou do sério; mesmo na altura em que esta antecede o belo adiar tão mais português. E tão mais bonito.

Em suma, fiquei leitor, e penso que com João Tordo e valter hugo mãe estamos bem servidos, por muitos e bons anos. Não podiam ser mais diferentes, quer nos enredos, quer no domínio das palavras, quer na criação de personagens. Ambos, porém, tem algo em comum. Escrevem de forma despretensiosa, coisa que os afasta de José Luís Peixoto, um fulano que tem tudo para dar certo, mas que exibe um umbigo grande demais. E não, nisto da literatura, a humildade não é algo despiciendo.

PS - Não sou crítico literário, já tenho afazeres que bastem, sou um "mero" leitor. 

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publicado às 23:48


Tabacaria* (Adeus ó Esteves!, vou ter saudades)

por Rogério Costa Pereira, em 28.08.10

Álvaro de Campos / Narração por João Villaret / Música por Dead Combo
* Para ler/ouvir antes/depois/durante. Dedicado ao esteves sem/com! metafísica.
a letra )

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publicado às 22:56


Respirar melhor

por Rogério Costa Pereira, em 10.08.10

Logo às primeiras páginas compreende-se que não vamos sair iguais deste livro. valter hugo mãe já me tinha surpreendido com “o remorso de baltazar serapião” — Saramago chamou-lhe terramoto ou algo que o valha. Desta vez, com “a máquina de fazer espanhóis”, estamos perante algo único, um momento ímpar, coisa singular e mais uma porrada de cenas que querem significar isso mesmo. A história da literatura portuguesa vai fazer-se de valter hugo mãe apenas porque valter hugo mãe é o melhor escritor português vivo. Não é exagero, afianço.

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publicado às 16:27


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