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PIM-PAM-PUM

por Rogério Costa Pereira, em 15.07.11

Com a morte. Hoje levei com a morte. E bateu-me mal, assim de uma forma estranha — não foi dor, como acontece quando me morrem pessoas próximas; não foi sensação de vazio, nada semelhante. Foi uma espécie de empurrão. Ao mesmo tempo pelas costas e pela frente. Dado à velocidade da luz, que nem saí do mesmo sítio. Tipo acorda pá, qualquer dia és tu. Podias ter sido tu. Não te lembras deste?, quem diria que o ceifava neste dia? Deu-me para aqui, podia-me ter dado para aí. Estás a ver como isto é? Espécie de banca francesa — a fortuna que sai dum corno.

Claro que a mandei para a puta que a pariu, que tenho um filho que aprendeu agora a andar e corre para mim quando chego da labuta e diz papá-papá-pápa. E dá-me abraços e beijos e dá-me sorrisos. Era o que mais faltava, que fosse comigo — não estou para aturar abusos idiotas de idiotas; e deixei-lhe isso bem claro.

Mas, confesso, foi só garganta — ainda os tenho bem apertadinhos. Podia mesmo ter sido. Esta cena da morte é um bocado pim-pam-pum e um gajo às vezes anda de gavetas desarrumadas e de repente dói-lhe uma unha e não é nada não é nada — é só uma unha. Vou amanhã ver disso, hoje tenho mais que fazer. E vai-se a ver e valia a pena ter ido mais cedo, que com estas idades a coisa depois foi sempre galopante. E tão novo e o caralho. Não aguentou o galope, essa é que é essa.

Mas porquê este desatino todo com esta morte? Esta morte de hoje. Todos os dias morre gente conhecida, mais ou menos velha, mais ou menos amiga, mais ou menos próxima. Francamente, não faço ideia. Sei que me sinto agoniado. E que agora que escrevi isto ainda me sinto pior. E não devia ser para isso que um gajo escreve, para depois se sentir pior. Agonia por agonia bembondam as causadas a ouvir todos os dias a senhora de foice ao ombro. Aos berros de pim-pam-pum. 

Pim-pam-pum.

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VACAS COM ASAS E OUTRAS CENAS ASSIM ESTRANHAS

por Rogério Costa Pereira, em 14.07.11

Recebi um hoje um telegrama (é certo, um telegrama!) de um senhor que habita numa casa que em tempos tive o azar de tomar de renda — coisa cheia de humidades, bolores e fungos vários e que, em virtude dessa tamanha insalubridade, em boa hora acabei por abandonar.

E dirigia-me uma série de palavras, o cavalheiro em causa, fulano de boa pinta cheio de conhecimentos e de uma inteligência e sagacidade que sempre me tomam de espanto. Dizia que ao olhar pela janela virada a poente da casa que em má hora fora minha tinha visto uma vaca. Uma vaca com asas. E cor-de-rosa. E a voar. E que por tetas levava torneiras de madeira rústica, indiciando que não era leite o que no respectivo ventre albergava. Dizia-me isto tudo, o senhor, quando de repente acrescentou: e olhe (faculto-vos o discurso directo), encontrei cá por casa uns escritos seus, coisas que deixou em gavetas esquecidas, aquelas do armário do tecto da cozinha, mesmo atrás da porta que dá para a sala, e aquela que está debaixo da sanita, e lembrei-me de lhe pedir se os posso publicar, assim duma forma que eu cá sei, juntamente com outras letras que outros ex-inquilinos e antigos proprietários, veja-se a coincidência, deixaram nas mesmíssimas gavetas. Como os deixou para ali, esquecidos ou lembrados, acrescentava ele, presumi que pudesse ser mesmo para isso, para que eu lhes possa dar o uso que bem entender.

 Achei tão estranha e fabulosa a parte do pedido (já sou eu outra vez) que acabei por lhe responder apenas à questão da vaca, coisa bem mais corriqueira. Que sim, que quando lá vivi também a tinha visto muitas vezes, só que da janela virada a nascente - terá agora mudado de rumo. Certamente por uma questão prática.

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O RANCOR

por Rogério Costa Pereira, em 13.07.11

É uma palavra feia. Rancor. Tem som de ódio, cor de desadoração. Cheira a aversão, o toque reage-lhe com repulsa, às vezes com (mera) embirração. Tem sabor de orgulho que cega. É uma palavra feia, pois. Ai de quem, coagido pelos sentidos reféns — dizem que são cinco nos homens, seis nas mulheres (o que as desculpa ainda menos) —, se aconselha por ela. O cheiro da sobranceria, o barulho do tijolo cru, a imagem do berro que ninguém compreende, a sensação da razão em fuligem. E tudo assim preferir, alimentando-se da altivez de quem prefere cair a agarrar-se.

Com rancor se faz e se desfaz. Países e paixões. Não sendo o rancor, o mapa dos homens seria talvez diferente, conceda-se. Estaríamos a falar inglês, alemão, castelhano. Latim? O rancor é também nosso, português e mais, e ai de quem nunca por ele se alumiou. Alucinou. Porque fomos rancor, somos (usem a desculpa com moderação).

Ao nascer, berramos raivosos. Ao morrer, gritamos vingativos. A causa é a mesma: rancor. A puta da luz que nos ensombra. Assombra?

Há, porém, quem pareça decidir viver assim, respirando só esse estar — certo da certeza de que a culpa não lhe pertence. Ainda que não haja culpa, ainda que as coisas sejam mesmo assim. Ainda que o delito seja das coisas que são. Só por serem.

Às vezes (quase sempre), o rancor serve apenas para roer a alma (a nossa e a dos outros), que os países já se inventaram e as paixões repousam na serenidade do que é ou do que foi. É também isto, o rancor: exculpação, projecção no outro do que correu menos bem.

Em suma, e do rancor: às vezes sim, outras vezes não.

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UM SACO DE PLÁSTICO AZUL

por Rogério Costa Pereira, em 12.07.11

O velho fez-me lembrar a minha avó. A minha avó, aos 90 anos, insiste em contar-nos as suas paixões de infância, os seus segredos mais escondidos — coisas outrora irreveláveis, ainda que tal revelação se aplacasse com mais avé-marias num dia do que aquelas que ela poderia rezar num ano. As misturas de tempos, de pessoas, dos salões grandes e arrumados das memórias antigas com as arrecadações amontoadas das lembranças mais recentes, como diz o Chico. Mas o que mais me trouxe à memória — como o pensamento vai saltando de galho em galho sem pancada nos cornos que o impeça —, foi o enterro da minha avó, há meia-dúzia de tempos. Cova aberta, no único metro quadrado de terreno que as suas posses lhe permitiram deixar aos vivos — irónico usufruto. Descido o caixão, e quando já se terminava a função, noto um saco azul, volumoso, ali esquecido ao lado. Que eram os ossos do meu avô, que ali tinham estado todos aqueles anos. Na cova. Ainda eu não tinha acabado de perguntar que lhe fariam e já o saco azul era atirado para cima do caixão acabado de arrecadar, como se de um saco de ossos se tratasse. E era um saco de ossos, não sentiu nada. E terra por cima de tudo, à pazada, que ninguém lá foi atirá-la à mão. Nem um torrão que fosse. Ali ficarão, até que os cemitérios entrem em desuso ou ali caiba um centro comercial. Os ossos da minha avó, quando o tempo desfizer o caixão, e os ossos do meu avô, separados por um saco de plástico azul. Já estou arrependido.

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O HOMEM-GARNISÉ

por Rogério Costa Pereira, em 11.07.11

O homem-garnisé é dono da verdade absoluta, aquela de que todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções — feitas de infâmias, cobardia e despeito —, o homem-garnisé deita as cartas de forma imponente, vai sempre a jogo, ainda que não lhe conheça as regras. Paradoxalmente, só assim age (só assim é) fora do seu habitat natural. Neste, uma singular salinha com uma cadeirinha virada para um espelho, o homem-garnisé aceita-se como é.

Quando vai à procura de alimento e se afasta do espelho, o homem-garnisé transfigura-se. Não quer voltar ao assento redutor. Esquece-se da imagem pouca que o espelho lhe revela e confia no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe revela.

Fora da salinha, o homem-garnisé vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, o homem-garnisé é todo um sistema judicial. Na toca onde guarda os alimentos, o homem-garnisé faz teatros de marionetes digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Como é ventríloquo manhoso, o homem-garnisé lança as vozes que quer aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

O homem-garnisé faz músicas de uma nota só. E, tomando-nos por iguais, quer-nos pôr a dançar.

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, o homem-garnisé afeiçoa-se. Deixa-se haver. Aceita ser a voz do dono que lhe dá ração longe daquele retrato fiel. O dono do homem-garnisé, note-se, raras vezes não é também ele um homem-garnisé. E por aí adiante. Ou por aí atrás, se quisermos ser mais precisos.

O homem-garnisé tem de provar que é corajoso - só assim lhe dão que comer - e para isso faz-nos uma sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que lhe dão. E depois diz: comam-comam, foi o meu dono que mandou e eu garanto que é de primeira qualidade.

E há quem coma e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pede para repetir, que está muito boa. São outros homens-garnisés. E o homem-garnisé incha de flato. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O homem-garnisé está agora enorme. Leva imensa gente à toca que arranjou longe da salinha com a cadeirinha virada para o espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Homens-garnisés, todos. Levam cromos para trocar. Mais ingredientes podres para as sopas, meias-histórias, coisas de vão de escada. Contam, como se lhes houvessem sido dirigidos, piropos ouvidos de passagem. Ali, na toca sem reflexos, decidem o que o homem-garnisé há-de opinar - entre irmãos de desgraça. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado. Escusa de tramar tão baixinho, o homem-garnisé, que já todos o conhecem. Já todos sabem o que dali vem – o que dali não vem. E ele sabe disso e é precisamente isso que não o deixa crescer (esta parte ele não sabe).

Quando acasala, o homem-garnisé fá-lo com os da sua igualha, para que dali não saia mula ou macho. E nisto tem facilidades, que um homem-garnisé reconhece outro ao primeiro olhar. Andam ao mesmo, por sombras, e encontram-se muitas vezes nas tais tocas sem espelhos. E amam-se e depois odeiam-se.

Entre a salinha reveladora e o sol enganador, o homem-garnisé já escolheu. Escolheu ser pequenino. Não o pisem.

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O REMORSO DE GENTE

por Rogério Costa Pereira, em 10.07.11

Eça traçou-nos o perfil à espadeirada. Se percorrermos os seus romances, contos, cartas, acabamos por dar de caras, aqui e ali, com o filho da mãe e com a prima, com o doutor e com o vizinho. O deputado e a puta. O sério e o trafulha. O circunspecto e o fogoso. O cão e o gato. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Estamos lá todos. Ainda que sem absoluta correspondência, é raro não obter, cortando daqui e colando ali, o retrato de alguém conhecido. Não há defeito ou feitio que Eça não tenha passado para o papel.

De todos os retratos traçados, o mais marcante – por ser o que mais predomina na selva – é o de Dâmaso Cândido de Salcede, o da adresse riscada e corrigida para Grand Hôtel, Boulevard des Capucines, Chambre nº 103.

Ao longo da vida, pude encontrar aqui e ali partes desse ser untuoso, escorregadio e gelatinoso. Desse sujeito em forma de jogo de aparências, onde nada é o que parece mas em quem, paradoxalmente, tudo acaba por ser deliciosamente óbvio. Esses dâmasos da vida encontram-se por todo o lado, aparecem-nos à frente em qualquer tipo de circunstância e ficam ali, presos ao chão por uma mola, a fazer poing-poing-poing.

A partir de certa altura, comecei a encará-los como um jogo com a natureza. A mãe dita coloca-me à frente um dâmaso, ou um braço dele. Nas olheiras de uma segunda-feira de manhã ou nos fumos de um sábado à noite. Na caixa de um supermercado ou de beca vestida. A qualquer momento, em qualquer lugar. É um pacto que temos, eu e a essência. Ela, quando lhe dá na gana, atira-me com um. A minha comissão é dar com ele, apontá-lo a dedo. Normalmente ganho, outras vezes aceito ter perdido, que nem todos são assim tão óbvios – atributo que ganharam quando perceberam o óbvios que são. Folha daqui, ramo dacolá e vão tapando as vergonhas.

Tudo isto para dizer que nunca – mas nunca, mesmo – tinha pensado encontrar O ser em toda a sua grandeza, de forma tão aparatosa, tão óbvia e tão declarada como me aconteceu recentemente. Ao primeiro vislumbre, que nem foi visual, ouvi logo do imenso clarão negro que dali emanava. E o meu coração acelerou – tu queres ver?, pensei.

Era (é) de forma tão esplêndida, o espécimen, que até fiquei algo enfeitiçado, por dessa feita me estar a ser dado como que um prémio por anos e anos de esforço e dedicação à cata de. Parecia o modelo de Eça, o da adresse corrigida ele mesmo. O original tão original que fazia o original parecer incompleto. Até errado. Eis o homem, pensei. E agora vou escrever um livro.

Apareceu de abraço sempre armado, de elogio sebento na ponta da língua e da pena. Mas, dissesse o indivíduo o que dissesse, escrevesse sobre o que escrevesse, eu só conseguia ler algo como isto: “Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia chic! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos às colchas”. Sentei-me e esperei e nunca fui às colchas com ele. Avisei quem tinha de avisar e quem podia dispor-se a ir às colchas. Esperei sentado. Não pelo tempo que a coisa ia demorar – que não perspectivava ser muito –, mas porque queria assistir de cadeira ao espectáculo que eu sabia inevitável, esperando que ninguém querido se magoasse.

Lamentavelmente, não foi assim. Talvez o meu aviso – desculpei-me – tenha sido um pouco tímido, talvez as pessoas não lhe tenham ligado muito. Fosse o que fosse, confessei-me depois, a verdade é quando a coisa se deu – o artigo plantado na Corneta do Diabo – até eu fui surpreendido, sem tempo de ir a correr ao Palma Cavalão (também esta curiosa personagem, director da Corneta, começa por aí a proliferar, qualquer dia dedico-lhe uns louvores).

Não era nada disso. Afinal, também o Eça tinha ficado aquém, percebi então. E eu com ele. Estávamos perante algo de novo, mistura de rematada insídia, intrujice cobarde e tiro nas costas. Qual Cavalão qual quê? O que eu tinha entre mãos era algo bem mais complexo. Não exigia o recurso – ainda que metafórico – a directores de jornais como o Cavalão, corruptos e caluniadores. O caso que se me apresentava, e essa foi a minha falha, é que aquele Dâmaso era auto-suficiente. Um Dâmaso-Cavalão. E nesse caso – pus-me nos sapatos dele –, para quê recorrer a outsorcing?

Com esta mistura explosiva é de chamar cópia ao original, que esse que eu conhecia e tinha antevisto e aprendido era só o velho e gasto Dâmaso. Cobarde, repelente, filho-de-agiota-agiota-é, vigarista, aldrabão, impostor, egoísta, sem réstia de ser homem – um cabrão, em suma. Este, sendo tudo isso, era mais ainda. Uma verdadeira e inútil aberração, espécie de prejuízo de pôr um burro a fornicar uma égua.

Andava ele, soube-se depois, de porta em porta a dizer: eu estive lá e sei dos recônditos. Eu conto! Quem dá mais? Não te chega? Não é suficientemente escabroso? – olha que ele chamou àquele filho da puta. Toda a gente já sabe? Então eu tenho aqui outro segredinho acabado de inventar – podes chamar-lhe investigação, se o publicares. Dou-te o que quiseres, quando quiseres, onde quiseres. É preciso é que me pagues com alguma coisa que me enfraqueça a dor que sinto. A dor de não ser gente.

(eu) Eu não sei o resto da história – que ainda está para vir –, mas adivinho-a. Nada te resolverá o problema, minúscula realidade!, nem à esquerda nem à direita. Nasceste com essa dor de não ser gente e há-de ser essa dor que te há-de enterrar, num cemitério deserto, sem ninguém a acompanhar os teus restos com forma de homem sem nunca o teres sido.

E até na morte serás falso.

É que nas costas dos outros vemos as nossas. Não sabes (eu sei que não), mas ensino-te se puderes: por mais que digamos mal uns dos outros – aquele “nós certos, eles errados” que te chega às ventas –, somos homens e mulheres. Tu és um verme e a gente – gente! – já percebeu.

Nem chegas a ser cabrão, que nem nunca terás quem te possa pôr os cornos. És apenas um remorso de gente.

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DEUS EXISTE E EU CONTO-LHE UMA HISTÓRIA TODAS AS NOITES

por Rogério Costa Pereira, em 09.07.11

Que Deus não existe, dizem. Parvoíce. Deus existe e eu conto-lhe uma história todas as noites — ando agora a ler-lhe o Pinóquio (antes foram os Maias para crianças — noto que ele estranha a mudança, vejo-o nos cocós, que andam menos consistentes). Há dois anos e meio, Deus escrevia-se com minúscula. Era o deus das guerras, o deus da barbárie, o deus redutor dos massacres em nome de, o deus das mortes nas gémeas. deus e o petróleo, a urina de deus. O diabo; deus era o diabo. O diabo dos homens e da puta que os pariu. Nunca me servi dele, com excepção de uma revolta intestinal sem casa de banho à vista. Nem ele de mim. Nasceu o Francisco e tudo mudou. deus cortou as barbas e passou a Deus. Era uma vez um puto. Este meu Deus tem um feitio tramado, porque aos 30 meses ainda se julga um deus. Eu sou o braço esquerdo, a mãe é o direito. Julga ele. Neste Deus, que está no sorriso e no choro, já assentei umas belas dumas palmadas. Já mandei Deus de castigo para o quarto. Este Deus usa fraldas, duas de pano para dormir e uma descartável para fazer as coisas que só Deus pode fazer por ele (vamos acabar com isso no Verão, introduzindo-lhe a tirania do pitó — e ele a nós a prepotência da cama molhada). Este Deus, ao contrário do outro, dá-me sorrisos. Diz-me "papá, não vás trabalhar" (traduzo para os incréus, ignaros na língua Dele). Eu explico-lhe as coisas e ele entende. Deus magnânimo assimila. O problema é a sopa e a negociação que a coisa envolve. Digo-lhe para comer só uma colher, ele diz não, eu proponho três e ele decide-se por dez. Done!, e damos cinco. Quando Deus está presente, sinto-me um negociador do FBI num livro de Kafka. Deus não quer, eu quero. Acabo por convencer Deus que é ao contrário, que ele quer e eu não. Raras vezes a coisa não resulta, ó tirania dos homens.

Neste momento, passa da meia-noite, Deus está a dormir. Antes de dormir, disse-me, como faz todas as noites: àputo-puto (amo-te muito, na língua de Deus). E depois pregou-me um susto: “Bu!”.

Se o diabo está nos detalhes, Deus está ali ao lado, a dormir. Aquela tábua onde me agarro, onde ele se agarra, onde a minha mulher se agarra. Tudo o que nos une aos três. Isso é Deus. O outro, o do paga agora e livra-te do fogo dos infernos, nunca se mostrou e não o concebo. Não lastimo a minha falta de fé, porque a tenho. Fé no amanhã. No próximo passo do meu filho, o pontapé na bola, o dizer puta em vez de porta (que embaraços já me causou). Que mais se pode querer de Deus, para além da vontade de correr para casa para o ver? O meu pequeno grande Deus. Quinze quilos de matéria divina (com a fralda limpa pesa menos).

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tresmalhados

por Rogério Costa Pereira, em 09.07.11

Clique na imagem (uma word-cloud das palavras que mais usei) e dê uma vista de olhos no que de menos mau (o critério é, obviamente, meu) fui escrevendo pelos tempos e lugares da minha blogosfera. Esta actualização (a última já era velha de um ano) é dedicada ao António. Apenas porque me apetece, voltarei a publicar, aqui mesmo, um a um e do primeiro ao último, os textos supra amarrados. Interromperei esta espécie de auto-plágio que cometo, no dia em que consequir voltar a escrever. No entretanto, entre as velharias republicadas, continuarei a escrevinhar sobre a espuma dos dias.

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