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Sorriam, vamos ao Mundial

por Rogério Costa Pereira, em 20.11.13

A selecção portuguesa de futebol vai ao Brasil disputar o mundial. 
Para esse mundial acontecer, muita pobreza foi escondida debaixo do tapete, para que ninguém a veja e para que se mantenha pobre, porque há uma copa à qual urge encher o bandulho (e os jogos olímpicos vêm logo a seguir). 
Com tudo isto, há muito pouco tempo e dinheiro e ainda menos vontade para dar ao povo o que o povo precisa. Pão, Saúde, Educação. Resta aquele ópio inibidor. 
Mesmo a sério, qual a real substância de tanta alegria? Relativizem e pensem claro, esse sorriso que amanhã levam para o trabalho é feito de quê? O que mudou hoje, exactamente, nas vossas vidas? Que milagre vai acontecer amanhã? Pois, imagino que seja algo como isso. Do género nada. 
Nas vidas dos brasileiros, pelo contrário, esta copa está a mudar muito. Melhor, durante o tempo em que esteve e estará a ser trabalhada, o Brasil social parou. Isso é mudar muito, porque nada se alterou num país que tinha tudo para mudar o que realmente interessava.
A propósito ou nem por isso, Ronaldo é realmente um poço de energia, de talento e de querer, mas de muito trabalho, também. Tem muito do que falta à escandalosa maioria do povo português. Agora a sério, donde vem isso que hoje vos enche a alma?
Lembram-se da pobreza de que falei lá atrás? Aquela que quem manda e desmanda insiste em esconder debaixo do tapete? Pode ser que resolva sair de novo de onde a escondem e ir também assistir à copa. Aí sim, teríamos um verdadeiro Mundial. O povo brasileiro já mostrou do que é capaz. Quem sabe? É que a miséria tem tendência, nos povos portadores de alma, a dar-se mal com a afronta, e a virar ganas, e depois raiva. Se esse jogo começar, não vai acabar aos noventa minutos.
Imagino que anseiem por um bom Mundial. Eu desejo o mesmo, acreditem. Só espero é que se alastre e um dos jogos seja em Portugal. Um jogo por país. Um verdadeiro Mundial. 
Continuem a sorrir, a sério. Eu estou a fazer o mesmo, acreditem.

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publicado às 01:54


Todas as revoluções são impossíveis... até se fazerem

por Rogério Costa Pereira, em 11.10.13

No facebook, uma amiga de longa data, que não vejo há cerca de quinze anos (emigrou, em versão “fuga de cérebros” – e que cérebro ela é!) perguntou-me algo como: “tu que és político e sabes destas coisas... e vives em Portugal! Achas que há alguém que possa salvar o país depois da desgraça Sócrates + Coelho (não esquecendo os anteriores)? Esta pergunta não tem ironia nenhuma, é que gostava mesmo de saber!”

Sei que, efectivamente, não há ponta de ironia no que a Ana me pergunta, mesmo quando refere “tu que és político e sabes destas coisas”. Não sei se sei “destas coisas”, digamos que tenho uma ideia acerca destas coisas. A minha, obviamente; que não é imutável e que foi construída em cima de muita reflexão, muito Ouvir e Falar, muitas argoladas, muitos erros de análise e ainda mais erros perpetrados nas urnas do sufrágio “democrático”. Parto sempre de um Princípio. Não sou dono da verdade, embora defenda as minhas verdades, à minha maneira, a cada tempo; e isso possa passar por inflexibilidade. E defendo-as como sei e nunca saio de uma discussão como entrei nela. Aqui há dias, “consegui” ser chamado de comunista e anti-comunista primário, pela mesma pessoa, em menos de meia hora. Nada disto está relacionado com trocas mais ou menos azedas de palavras que tive há alguns meses com autores da pegada, no Ouvir e Falar. E não penso que o meu passado, porque um dia votei em indivíduos que hoje abomino, me traga uma espécie de capitis diminutio que me impeça de evoluir e de ter chegado onde estou hoje, certo que para trás mija a burra e não enfio duas vezes o pé no mesmo buraco; assim o reconheça como tal. O meu passado não me impede o presente e não me corta a palavra. E ao contrário do que foi propalado neste mesmo blogue, e leu quem quis e o post está aí para quem o quiser reler, há algo de que faço questão. Não dizer nada nas redes sociais que não diga na cara das pessoas. Penso poder afirmar, com segurança e sem me pôr em bicos de pés, que não me podem acusar de falta de frontalidade e de franqueza. Adiante.

Sou tão político como gostava que qualquer um fosse, não no sentido pejorativo da palavra, que foi corrompida por estes trastes que ora estrangulam a res publica. Mas no sentido de dar a cara por aquilo que acredito e nunca o fazer em busca de tachos. Em suma, assumo-me Político; não porque integro um partido ou movimento ou porque viva cegamente à sua sombra, mas porque ataco quem devo atacar e defendo quem e o que devo defender em prol daquilo que acredito ser o melhor para o futuro do meu filho. Um dia, acusaram-me de usar a defesa do futuro do meu filho, e por extensão, o meu filho, como escudo. Sem sequer comentar tão infames palavras, explico que “o meu filho” é também para ser lido no sentido lato. O meu filho merece um futuro, um país onde possa viver. De onde não o mandem embora. Porque Portugal é dele. Dele e de todos os filhos deste país. A defesa dum futuro “higiénico” para o Francisco, e sem que ele deixe de ser a moral da minha história, é obviamente a defesa de Portugal. Tristes daqueles que têm vergonha de se levantar de manhã e de assumir a luta contra os biltres que nos retalham Portugal e o vendem à peça.

Quanto à pergunta da Ana. Não me parece que seja no nosso tempo que Portugal se reintegre ou se reencontre. Ou integre e encontre, que este país sempre andou ou a cavalo ou a fazer de mula de interesse alheios. José Gil chamou-lhe medo de existir. A nossa essência existe, não duvido disso, e identifico-a várias vezes. Mas a verdade imediata é que parece que navegamos e navegámos sempre ao som do vento. Descobrindo “Brasis” onde deviam estar “Índias”. Andamos empurrados e sem destino certo. E se calha termos água para um mês, bebemo-la num dia. E adiante de novo, que isso é conversa para outro post.

O facto de não acreditar que seja nos próximos tempos que Portugal se revolucione e revolucione, e para isso é necessário começar pelas mentalidades, não é razão (muito pelo contrário) para ficarmos parados, à espera que o relógio faça o trabalho sozinho. Cabe-nos ir limpando o caminho e tornar os acessos menos difíceis às gerações que se seguem e, assim, impedir que este estado neofascista tire a esperança à esperança. Facilmente podemos ser “acusados” de "sonhadores". É o meu insulto favorito. Sempre que me chamam isso − ou lírico ou algo semelhante − tenho a certeza que o caminho é este. Quanto ao depois? Também já há muito trabalho feito nessa área (e isso também dava outro post), mas para já só quero que me tirem a porra da pata de cima do pé, que “me” estão a magoar. E, naturalmente, eu não gosto; e a dor começa a ser insuportável. Daí advém outro perigo, é certo. E urge estar atento. A dor pode cegar. Falo dos extremismos, e penso principalmente nos fachos que tem já pata e meia no sistema. Há que ter “um olho no burro e outro no cigano”. No imediato, quero mesmo que me tirem a pata de cima. Não me satisfaz ficar quieto a ver a bola e à espera que um milagre aconteça. Ou descrente, a encolher os ombros enquanto grito golo. Não há milagres.

Neste momento todos temos uma parede à frente. Uns dizem que é impossível deitá-la abaixo, porque sempre ali a viram, nasceram e viveram com ela. Ali, naquele sítio e com aquela cor. Eu olha para ela e vejo apenas uma parede. Que, como qualquer parede que impede o caminho, vai abaixo. Quando me perguntam se o vou conseguir sozinho, eu respondo que se tu vieres já somos dois. Um segundo antes do 25 de Abril, poucos acreditavam nele. Refiro-me à população 9-to-5 e depois casa e depois jantar e novela e bola e cama e uma queca nos fins-de-semana e depois 9-to-5 (mutatis mutandis àqueles tempos que não vivi). Quem estava mais por dentro, porém, sabia que era uma questão de dias. Mas a maioria estava-se bem nas tintas e viveria com aquela outra parede, daquela outra cor, sem bufar até ao fim dos dias. Este nosso inimigo é, porém, bem mais poderoso. Não tem cara. Ou tem muitas caras, se preferirem.

Vivo numa ditadura mascarada de democracia que me "permite" e até "agradece" eu dizer estas coisas publicamente (essa parte está de alguma forma referida nestoutro post que escrevi hoje), mas eu também quero que eles as leiam. Não me incomoda que não os incomode. Faz parte do meu sistema.

Como vês, Ana, é extremamente difícil. Marcamos para amanhã? 

Todas as revoluções são impossíveis... até se fazerem.

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publicado às 21:23


Post-Democracia

por Licínio Nunes, em 12.06.13
Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo! Uma mãe-solteira do estado americano do Utah, conseguiu recentemente vender a sua testa (!), recebendo USD $10 000 por fazer uma tatuagem permanente, publicitando um casino online; as tatuagens temporárias valem menos, para quem estiver interessado. Em algumas cidades da Califórnia, os presos (por crimes não violentos) podem pagar $90 por noite, em troca do privilégio de terem uma cela individual, calma e confortável, sem que os presos não-pagantes os incomodem. Por USD $7 500, qualquer um se pode oferecer para testar novos produtos farmacêuticos, com o preço final dependendo dos efeitos do produto e do desconforto previsível do teste. Ainda não se podem comprar crianças, mas já é possível alugar o útero duma mulher indiana por $8 000. Porquê parar? Se alguém se disponibilizar para ser um escravo temporário (digamos, por 14 anos, como no Velho Testamento), não terá grandes dificuldades em encontrar empresas online, dispostas a disponibilizar o produto nos mercados adequados; a troco de uma comissão adequada, claro, mas é assim que o mercado funciona. É assim que se implementa aquele princípio sacrossanto da liberdade de contrato, que Adam Smith e os seus fiéis todos os dias juram defender. Em nome do progresso, pois com certeza.



O filósofo americano Michael Sandel faz-nos estas e outras perguntas da forma mais directa: O Que É Que Não Está À Venda? No fim de contas, todos aqueles exemplos (e muitos outros), mais não são do que o exercício daquela liberdade essencial. Num ponto qualquer do caminho, deixámos de ser Economias de Mercado para nos transformarmos em Sociedades de Mercado. E o facto simples, é que ninguém o fez por nós, fomos nós cidadãos do tal "mundo livre" que o fizemos. Foram os cidadãos americanos que elegeram livremente um actor de telenovelas chamado Ronald Reagan; foram os cidadãos britânicos que elegeram livremente a bruxa má do Oeste. Fomos nós, o colectivo dos cidadãos eleitores de Portugal, que elegemos o único fulano que eu conheça, que começou a trabalhar aos 37 anos. O autor diz-nos que está mais do que na hora de nós todos, os ainda-soberanos, decidirmos colectivamente quais são os limites do mercado.

Talvez o aviso venha demasiado tarde. Os gregos acordaram hoje a pensar na Junta dos Coronéis, mas provavelmente a sua memória engana-os. No fim de contas, o actual parlamento grego tem toda a legitimidade para votar os Actos da Habilitação de Poderes que forem considerados necessários. O tal rapazola que começou a trabalhar mais tarde do que os filhos do sr. Kadahfi tem toda a legitimidade para pedir ao nosso parlamento que lhe habilite os dele. E o parlamento votará favoravelmente e o nosso presidente, a quem não devemos chamar palhaço promulgará. Bem-vindos então, aos dias da post-democracia. Não digam a ninguém "Nós não sabíamos", senão o fantasma da Marlene Dietrich vai atormentar as vossas noites. Aquilo que nos separa a todos do caos, é apenas a linha frágil dum piquete de greve grego.

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publicado às 20:45


Qual seria a diferença?

por Licínio Nunes, em 03.06.13
Imaginemos que no dia 3 de Novembro de 2000, aqueles judeus americanos idosos, residentes no Estado da Florida, que se levantaram da cama para irem votar, tinham conseguido evitar ser confundidos pelos boletins de voto mais absurdos que já alguém desenhou, e que tinham evitado acabarem por votar no anti-semita Pat Buchanan, em vez do candidato da sua escolha. O que seria diferente? Em que é que este malfadado século seria diferente?

Os planos da Al-Qaida, para um ataque aos Estados Unidos eram antigos, e foram preparados durante vários anos. Perante os eventos do 11 de Setembro de 2001, o estado americano reagiria como reagem sempre os estados-soberanos, ao serem atacados. Nada teria sido muito diferente, com a excepção dum pequeno pormenor. Obviamente, o presidente Al Gore não teria permitido que Ossama Bin-Laden se escapasse por entre as malhas que vagamente rodearam os seu refúgio nas montanhas de Tora-Bora. A estas horas, muito provavelmente, a aviação americana e britânica continuariam a impor as mesmas zonas de exclusão aérea e os iraquianos continuariam a ser dominados por um regime nojento e a usarem as escolas e outros equipamentos sociais que esse regime nojento pagava com o petróleo que conseguia contrabandear através das suas fronteiras; os xiitas do delta dos dois rios continuariam no fundo de todas as escalas sociais, a única diferença sendo, que não teriam milícias armadas para protegerem o seu direito a permanecerem no fundo de todas as escalas sociais. O fundamentalismo islâmico seria hoje uma nota de rodapé nos livros de História, a única diferença real, seriam as vítimas que não teriam existido.

Mas imaginemos que, em 2004, o presidente Al Gore teria reparado num jovem político do Illinois, que já na altura levantava grandes esperanças e, para marcar o seu próprio lugar nos tais livros, o teria convidado para fazer parte da sua lista. O vice-presidente Obama teria vencido facilmente as eleições de 2008, tanto mais que, sem os excessos inacreditáveis dos outros, os que foram, a crise financeira de 2008 teria sido atrasada e os sub-primes americanos teriam continuado a inchar durante mais dois anos. O essencial já estava presente, inscrito na pedra, aquando da revogação do Glass-Steigall, com a a assinatura "William Jefferson Clinton". As bolhas europeias, essas, continuariam a inchar durante mais dois anos, propulsionadas pelos bancos franceses e alemães e pelas suas taxas de reservas, entre os 5% e os 3%.

As bolhas iriam rebentar, claro. Com o nome Lehman Brothers ou outro, mas ninguém duvida que o presidente Obama tivesse mostrado a decisão que o caracteriza e, pela sua actuação pronta, tivesse assegurado a sua própria re-eleição, a dois anos de distância. Nada seria muito diferente, com a excepção das festas do chá americanos, que não teriam existido. A chanceler alemã estaria a dizer, por esta altura que, e cito, "...negociar em dívida soberana, não pode ser o único negócio em todo o Mundo, que não envolve riscos..." (sic). Mas as bolhas estariam a rebentar, ou já teriam rebentado, e seriam ainda muito maiores. O presidente Hollande iria demorar mais um ano, coisa menos coisa, até perceber que o problema não eram os bancos cipriotas, mas sim os franceses. Bem acompanhados do outro lado do Reno claro, que os alemães nunca deixam os seus créditos por mãos alheias. Nada seria muito diferente. A única diferença seriam as vítimas.

Por estas bandas, as bolhas que finalmente teriam rebentado, dariam origem a uma grande vaga de fundo, neste período pré-eleitoral que estaríamos a viver e o primeiro-ministro José Socrates estaria prestes a ser substituído por uma maioria absoluta, mais maioritária ainda do que as da Travessa do Possolo. Rapidamente, o verdadeiro agente histórico viria ao de cima, e por estas horas, o Senhor. Prof. Dr. Oliveira Gaspar estaria já a treinar o seu grande motto, "Orgulhosamente acompanhados!". A única diferença real seriam as vítimas que não teriam acontecido.

A única grande diferença, teriam sido as vítimas que não teria havido, desde o Iraque até à Baixa da Banheira. Este seria um século muito mais simpático, mas nada de essencial seria muito diferente. A diferença seriam as crianças, e essa é toda a diferença do Mundo. Raios partam os judeus da Florida!

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publicado às 18:03


As maldições fósseis (VI): O paradoxo verde

por Licínio Nunes, em 28.05.13
Pareceu-me um matemático...

Franklin Roosevelt, a respeito de John Maynard Keynes


Vamos imaginar que eu sou o executivo duma companhia de petróleo. Nada de coisas mixurucas, uma das Grandes Irmãs.

Sendo um "homem do petróleo", eu não sou um CEO de aviário; nasceram-me os dentes dentro do ramo e conhece-o como a palma das minhas mãos. Como também gosto mais de dinheiro do que da minha família toda, o estado das coisas não me agrada. E sendo um homem do petróleo, aquele calo no sítio onde os macacos se sentam, diz-me que tenho ao meu dispor o maior corpo de conhecimento, jamais acumulado por qualquer empresa privada. Está na hora de tirar partido dele. Fui ter com o meu pessoal de Investigação & Desenvolvimento e disse-lhes isto:

— Meus senhores, como é do vosso conhecimento, o nosso espectro de produção é 40-20-40 (50-10-40 na versão americana). 40% de produtos leves, de alto valor e alto preço. Mais 20% de produtos intermédios, de valor ainda muito interessante. Finalmente, 40% de produtos pesados, coisa de uva mijona. Não perdemos dinheiro com a uva mijona, mas não consegue passar disso. Portanto, quero que vocês me digam o que é preciso e quanto é que vai custar, para que daqui a 10 anos, o nosso espectro passe a ser algo como 60-30-10. Não mais de 10% de uva mijona.

Eles fizeram lá um daqueles conciliábulos, por sinal bastante rápido, para o que é comum na malta de I&D, e responderam-me:

— Olha, boss. Isto não tem nada que saber. O hidrogénio é o elemento mais abundante do Universo, mais de 30% da sua massa total é hidrogénio e o que para aí não falta é água. Abre os cordões à bolsa e daqui a dez anos (ou menos) tens aquilo que pretendes.

Eu disse-lhes "Muito bem. Preparem tudo, porque eu tenho que verificar mais um pormenor. Depois dou-vos a resposta final". Fui ter com os meus contadores-de-feijões, com os meus economistas e coloquei-lhes o assunto.

— Caríssimos, o nosso pessoal de I&D assegura-me que daqui a dez anos, poderemos estar a produzir muito mais gasolina e muito mais gasóleo, e muito menos fuel pesado. Vai-nos custar os olhos da cara, mas mais do que vale a pena. Ora a situação é simples: aquilo que vendermos hoje ao preço do fuel, não vamos ter amanhã, para vender ao preço da gasolina. Por isso, quero que digam qual deve ser a percentagem das nossas reservas que devemos guardar, para este propósito.

Estes, nem piscaram os olhos. A resposta foi imediata:

— Zero, boss. A resposta é ZERO! Mantém-te firme nos essenciais: Drill, baby, drill! Burn, baby, burn! Lembra-te do principal de HH.(1)

Foi nesta altura que eu decidi estar na hora de os "homens do petróleo" começarem a untar a barriga com manteiga de amendoim e darem lugar aos produtos de aviário. No fim de contas, os Mexias deste Mundo têm tudo o que é necessário para os tempos que correm, e ainda conseguem ser mais malandros do que eu.




Esta história é completamente inventada, mas os pontos essenciais não são. Em particular, a resposta final dos contadores-de-feijões. Está connosco desde 1931 e é matemática pura; Teoria dos Conjuntos, pura e dura. A citação inicial é um fait-divers sem qualquer importância na actualidade. Roosevelt e Keynes sabiam bem da sua influência mútua e, aquando duma deslocação académica de Keynes aos Estados Unidos, foi arranjada aquela entrevista, a única entre os dois homens. Não saltou qualquer patanisca. Keynes assumiu a posição snob dum dandy inglês, sim, aquele americano era um rapaz bem intencionado e esforçado mas..., não passava dum labrego lá das berças do Novo Mundo. Roosevelt foi muito mais sintético. Disse apenas aquela frase, que na época e sendo aplicada a um economista, era um insulto subtil e profundo. A sofisticação matemática não era nada bem vista, os economistas deviam limitar-se a recolher dados e interpretá-los, usando o bom senso e o seu conhecimento da economia real. Harold Hotteling viu o seu trabalho ser rejeitado por diversas revistas académicas, devido à sua "dificuldade matemática" e o Journal of Political Economics, da Universidade de Chicago, publicou-o antecedido de solenes avisos: "Cuidado, que este assunto requer uma sofisticação matemática fora do comum".

Aquele trabalho seminal não foi ignorado, nada disso. As folhitas de cálculo do gaspar hão-se de estar mais pranhas do que um ovo com as fórmulas de Hotteling, nenhum economista lhes consegue escapar. O que eles não querem que se saiba, são as conclusões, tão puramente matemáticas como o resto. As "duas economias" não são invenção minha, são a conclusão incontornável da análise de Hotteling. As economias de recursos renováveis podem ser tudo e mais alguma coisa, e à vista do pano é que se talha a obra; as economias de recursos exauríveis são loucas, e, mais do que isso, são um exemplo do falhanço total do mercado.

Num quadro de recursos não-renováveis, existem apenas três estruturas possíveis e todas três são más. A pior (dificilmente alguma vez terá existido) é o mercado livre. A outra a seguir (a mais comum, na prática) é o duopólio; podemos associá-lo à ideia de cartel, embora vá para além disso. A alternativa menos má é o monopólio. Hotteling comentou como, em algumas hipóteses sendo verificadas, os monopólios públicos conseguem ser ligeiramente melhores, ligeiramente menos negativos (!) do que os monopólios privados. Mas não mais do que isso. A economia de recursos exauríveis é amaldiçoada, culpem a Teoria dos Conjuntos.

Tudo isto nos leva ao Hans. Ao meu e ao Hans real, o mais importante. No fim de contas, seria inconcebível que a mesma cultura que produziu Leibniz e Kant, tivesse ficado reduzida a produzir clones rastejantes do Fritz.

Hans-Werner Sinn é professor de economia e reparou num pormenor paradoxal: à medida que as alternativas renováveis se vão tornando mais eficientes e mais acessíveis, os donos de recursos fósseis são presenteados com a escolha entre venderem hoje a baixo preço e venderem amanhã a um preço ainda menor. Adicionalmente, se os donos dos fósseis forem confrontados com a possibilidade da introdução de controlos regulatórios, obrigando-os a manter uma parte das suas reservas no subsolo, isso irá aumentar a pressão para os extrair e vender o mais rápido possível, enquanto essa regulação não existe.

Acontece que, e isto não é para provocar o Hans, o paradoxo não tem que ser verde. Como foi que a Alemanha Nazi travou a 2ª Guerra? Foi um conflito já muito mecanizado e os alemães nunca tiveram acesso a outras fontes petrolíferas, para além dos campos de Ploesti, na Roménia, que nunca foram grande espingarda. Como foi que eles conseguiram? A resposta: com o recurso a combustíveis sintéticos. Mais de 75% de todos os combustíveis líquidos, usados pela máquina militar-industrial nazi, foram destilados a partir do carvão. São ainda mais porcos do carvão, mas isso é irrelevante para o meu argumento. As patentes-base datam do início do século XX, tanto o processo de Bergius como o Fischer-Tpropsch têm mais de cem anos. No início deste século e perante o aumento dos preços petrolíferos, resultante da procura chinesa, algumas empresas americanas tentaram voltar a utilizá-los. Falharam, porque o mercado com que eles contavam para o arranque lhes foi vedado. A administração Bush, que negava as alterações climáticas, usou a legislação ambiental, herdada das administrações Clinton, para proibir (!) o Pentágono de comprar combustíveis sintéticos destilados do carvão. E pronto, já disse tudo de positivo que sou capaz de dizer a respeito do George W.

O paradoxo não tem que ser verde, qualquer alternativa produzirá os mesmos efeitos, o Hans sabe-o bem. E o que é que ele propõe? David Hilbert e Karl-Fiedrich Gauss concordariam, Beethoven seria capaz de compor uma sinfonia em sua honra. Hans-Werner Sinn propõe um Monopólio Mundial e um Governo Mundial.

Ah! É um governo mundial muito suave, muito kantiano. Baseado nas Nações Unidas e capaz de ser construído gradualmente e por consenso. Mas não é menos mundial por isso, nem menos monopolista, por melhor que o autor o disfarce e fá-lo muito bem e de forma muito convincente. Em absoluto, vale a pena lê-lo. Nem sequer me importava de dar para este peditório. Pura e simplesmente não acredito que a urgência do assunto o permita.

E pronto! Isto conclui as maldições e confesso que escrevo estas frases com um suspiro de alívio. Resta o mais importante, a superação, mas as cores são outras. Vamos começar com um poema.
Vastos, vastos, nove rios atravessam a China
E apenas um caminho-de-ferro de Norte a Sul


Mao Tse Tung — Para onde foi o Grou Coroado? (2)




(1) O "principal" é um termo que já fez parte do léxico português. Eça de Queirós usou-o várias vezes e não como um estrangeirismo. Não faço a menor ideia porque é que caiu em desuso. Refere-se àquela parte do capital que não se gasta; só se gastam os lucros do capital.

(2) Estou a citar de memória. Aquele livro é uma raridade e o mais certo é tê-lo perdido.

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publicado às 22:37


Nenhum homem é uma ilha,
Inteiro em si próprio.
Todos são uma peça do continente,
Uma parte do todo.
Se um torrão for levado pelo mar,
A Europa fica diminuída,
Como se fosse um promontório.
Como se fosse a tua casa,
Ou a casa de um dos teus amigos.
A morte de um homem diminui-me,
Pois eu sou parte da humanidade.
Por isso, não perguntes por quem os sinos dobram,
Eles dobram por ti.

John Donne — Nenhum homem é uma ilha

Recordo-me de ouvir a minha falecida mãe dizer que ainda se recordava do tempo em que não havia frigoríficos, mas já não se recordava como "...se faziam as coisas..." nessa altura. Ao longo do tempo, aquele esquecimento selectivo (!) começou a assumir um sentido claro para mim. Comecei a associá-lo àquela ideia vaga a que chamamos progresso. Pessoalmente, recordo-me de, lá pelo início dos 1980's, ter ido algumas vezes a uma fábrica de gelo que existia então em Cacilhas, junto ao rio. Não me lembro, de todo em todo, o que ia lá fazer, mas o que terá gerado a persistência da memória, foi provavelmente uma sensação física: havia sempre um ligeiro odor a amoníaco no ar; naquela altura, aquela fábrica — grandota, alimentava toda a frota artesanal e uma boa parte da frota costeira e do largo — ainda usava compressores de amónia. Nada de errado, diga-se. Continuam a ser utilizados hoje em dia, talvez sobretudo pelos escandinavos e não há nada de errado na sua utilização, desde que em ambientes industriais controlados.

Mas assim, nunca teriam existido frigoríficos domésticos. Os fluídos refrigerantes sempre constituíram uma área de nicho, especializada e frustrante, em grande medida. Os melhores eram ou muito tóxicos ou muito combustíveis; alguns, eram as duas coisas. Foi imediatamente antes e durante a 2ª Guerra que investigadores da DuPont de Nemours realizaram descobertas surpreendentes: ao substituir algumas cadeias carbono-hidrogénio, em hidrocarbonetos saturados, por átomos de flúor, a molécula resultante tornava-se menos combustível ; ao fazer uma substituição análoga por átomos de cloro, a substância resultante tornava-se menos tóxica. O inventor principal, tornou-se notório ao realizar algumas demonstrações..., digamos, inebriantes, tais como inalar as novas substâncias — que viriam a ser designadas por freons — e depois soprar o gás inalado para apagar a chama duma vela. Era quase inacreditável, aquelas substâncias eram não-tóxicas, não-combustíveis e extremamente baratas de produzir. Ligeiramente (?) inebriantes; a alegria do inventor, após as demonstrações, era..., ahn! Uma pedrada das antigas, mas daí decerto que não viria mal ao Mundo. Parecia demasiado bom para ser verdade. E era. Mas foi assim que o frigorífico da minha mãe se tornou possível.



A relação com as maldições dos hidrocarbonetos fósseis não é óbvia, mas é essencial. Cerca de 99% da massa total da atmosfera é formada por moléculas simétricas: azoto e oxigénio, dois átomos do mesmo elemento, ligados um ao outro. Estas moléculas são virtualmente transparentes a todas as bandas de radiação. A luz do Sol que passa através delas, aquece-as, mas muito, muito ligeiramente. As outras, que tornam a Vida possível no nosso Planeta, naquele 1% restante, são assimétricas e diferencialmente opacas a bandas específicas de radiação. Uma destas, é formada por três átomos de oxigénio e acumula-se sobretudo na alta atmosfera. Chamamos-lhe ozono e já todos ouvimos falar nele.

A camada de ozono absorve a radiação com frequências superiores ao violeta extremo e torna a Vida possível. Os freons destroem a camada de ozono e este é um exemplo concreto da ideia contida no título: os venenos rápidos, os que matam muito depressa, podem não ser os mais perigosos. A nossa espécie consegue ser inteligente, colectivamente inteligente, sobretudo quando apanha um cagaço a sério. O processo que conduziu, desde a confirmação do buraco da camada de ozono, sobre o pólo Sul, até ao Protocolo de Montreal, demorou pouco mais de quatro anos. A camada de ozono, essa..., está aleijadita, mas lá vai recuperando. Às vezes, conseguimos ser inteligentes.



A outra molécula assimétrica, sem a qual a Vida na Terra não seria possível, é um caso mais complicado e requer muito maior preparação. A ASHRAE chama-lhe R744 e tem vindo a atrair interesse crescente como refrigerante e substituto dos freons e dos halons que lhes sucederam. Tem um índice de deplecção do ozono igual e zero e um índice de aquecimento global igual a 1; alguns dos halons previstos no Protocolo de Montreal, como substitutos temporários dos freons, têm índices de aquecimento global superiores a 1000. Vá lá minha gente! Cliquem neste link, e com excepção dos que já souberem, os outros vão ter uma surpresa muito grande.

Os hidrocarbonetos fósseis são outro exemplo da dicotomia venenos rápidos-venenos lentos. E pelo motivo mais simples deste Mundo: todos eles contêm contaminantes. A industria petrolífera classifica os crudes (entre outros critérios) em "doces" e "azedos". Um crude "sweet" é aquele que contém um teor mássico de enxofre inferior a 0,6% em massa; todos os outros são "sour". E a situação simples é que, em qualquer combustão, o enxofre que estiver presente nos reagentes, vais estar presente nos produtos. SOX! Sem tirar nem pôr. Há um problema com esta mensagem e o problema é que requer explicação, o que provavelmente lhe faz perder eficácia. Sobretudo em redes sociais, muitos, ao verem aquelas três iniciais, são capazes de pensar que o assunto tem a ver com peúgas sujas. Mas não tem. Vamos escrevê-lo como deve ser escrito: SOx; o x significa é irrelevante!, pois estamos a falar em radicais ácidos que, na presença de água líquida, dão origem a ácidos fortes. Será que se começa a perceber porque foi que eu disse que a diferença entre PCI e PCS é essencialmente não utilizável?

Nem todos os hidrocarbonetos fósseis têm a complexidade do crude. Alguns campos de gás natural, na Sibéria, conseguem produzir gás extremamente puro e de forma consistente. Alguns atingem os 98% de metano. Os 2% restantes são praticamente só sulfito de hidrogénio. Ainda alguém se recorda daquela fronteira entre crudes doces e azedos? É que isto ainda vai piorar.

O ar atmosférico é essencialmente azoto, e o azoto é uma substância inerte. Inerte, mas pouco. Todo e qualquer processo de combustão produz NOx. Mesma mensagem que a anterior a respeito de peúgas velhas, mas com a diferença de que esta é ainda mais incontornável. É claro que o teor de NOx pode oscilar entre o vestigial (apenas detectável por técnicas laboratoriais sofisticadas) e o letal. É o que acontece quando queimamos combustíveis pesados e, sobretudo, carvão. Chuvas ácidas, alguém ainda se lembra? Foi um assunto premente em todo o terço-norte industrializado, lá pelos inícios da década de oitenta do século passado.

Veneno rápido, solução rápida. Mas neste caso, temos que nos debruçar um pouco sobre a solução. Uma parte substancial do problema está associado à "indústria pesada" e sobretudo, à produção de energia eléctrica por via térmica. Para o carvão, hoje dominante, controlar a emissão de radicais de azoto, de NOx, significa reduzir as temperaturas adiabáticas de chama. Não vale a pena entrarmos no detalhe, pois estamos, mais uma vez, perante o dilema do título e perante a mesma opção. O carbono negro mata muito mais devagar do que as chuvas ácidas. Sobretudo quando estamos a queimar carvão, a opção que resta, consiste em controlar a granulometria das partículas sólidas emitidas. Na esperança (!?) de que estas se dispersem por uma área substancialmente maior. Talvez não sejam muitos os que são capazes de o assumir, mas os engenheiros, por vezes, também ficam reduzidos à crença nas fadinhas etéreas. Neste ponto, peço aos que estejam a pensar que o problema está limitado aos muito sujos hidrocarbonetos pesados, que reparem no que algumas das maiores empresas mundiais — estou a falar da enorme indústria automóvel — fizeram, a respeito dos combustíveis leves, ui, ui, muito limpinhos: passaram o problema e os custos respectivos aos seus clientes.

Hoje em dia, não há forma mais barata de produzir electricidade, do que a via térmica do carvão — com excepção das muito complicadas centrais nucleares francesas, de primeira geração. Mas o que significam os números oficiais? Os portugueses não se devem sentir muito mal, quando são confrontados diariamente com o falhanço de todos os números oficiais. A mentira que nos atinge hoje é apenas uma parte e pequena da grande mentira fóssil global. Se a indústria térmica do carvão fosse obrigada a assumir os custos que hoje lhe é permitido varrer para debaixo da carpete, o seu valor acrescentado desaparecia, pufh! E isto antes dos custos do carbono. Apenas os custos resultantes do envenenamento lento.

Devo dizer que não concordo em absoluto com o teor do artigo do sr. Krugman, no link anterior. Usei-o porque é mais directo do que o intrincado (mas não em demasia) trabalho original. De qualquer forma, o link para o original de Nordhaus et al. está lá também. Não é apenas um assunto de saber quais devem ser os preços da energia eléctrica, doutra forma estaríamos meramente a colocar um preço no envenenamento lento de muitos seres humanos. O problema real é mais simples. John Donne, naquela citação inicial, compreendeu-o. Porque é que nós não somos capazes de fazer o mesmo?

Se aquele inglês, mal saído da Idade Média, foi capaz de o compreender, porque motivo é que o Fritz não é capaz? Depois da n-ésima agressão, começo a suspeitar que nunca vai ser capaz de compreender. O Fritz que se dane! Vamos ter que nos amanhar sem ele, e, se preciso for, contra ele. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo e na pior altura possível. Quando as coisas correm mais ou menos bem, muitos são os que se conseguem preocupar com a sorte dos Ursos Polares; quando a situação é aquela que é hoje, neste País..., os Ursos Polares que se fodam.

Vamos mais fundo. Vamos até onde a dor dói. Será que aqueles pais que hoje, pela manhã, vestem os seus filhos para irem para a escola, sem saberem se eles irão comer durante todo o dia, têm disponibilidade para se preocuparem com as implicações dos 400 ppm de CO2 na atmosfera? Será que eu teria coragem para lhes tentar explicar? Cada um lida com estes assuntos à sua maneira. A minha, consiste em tentar perceber aquilo que os chineses, na sua sabedoria milenar nos dizem: maldição encerra sempre dois sentidos inseparáveis; ameaça e oportunidade. Decidi-me a escrever esta série de posts, por ter a consciência (ou a presunção, vai dar no mesmo) de compreender os problemas envolvidos. Neste momento, tenho apenas duas certezas. A primeira, é que, no que a maldições diz respeito, a procissão ainda mal saiu do adro; a segunda, a mais chinesa das duas, é que os Gaspares são todos iguais. Ou acabamos com eles ou eles acabam connosco.

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publicado às 00:28


As maldições fósseis (I): x + y = x + y

por Licínio Nunes, em 06.05.13
Os cidadãos da União Europeia pagam em média 11,7 cêntimos por kWh de energia eléctrica, antes de impostos. E viva o Eurostat, que sempre serve para alguma coisa! Isto significa que deveriam pagar cerca de 1,43 euros por quilograma de combustíveis. No entanto, o custo dos fósseis anda pelos 84-87 cêntimos, esqueçam o Gaspar por uns instantes. Como é? Será que a energia eléctrica está excessivamente cara, ou serão os combustíveis que estão demasiadamente baratos?

A resposta é ambos (!), mas o assunto requer alguma base para ser compreendido. É muito simples, tem que ser muito simples, pois até o senhor Mário Soares foi capaz de o entender. Recordo-me distintamente, lá pelos idos de 1980 de o ter percebido e de o ter comentado nestes exactos termos: "...isto tem mesmo que ser muito simples!". 1 quilograma de equivalente petróleo (KEP) são 44 MJoule; que é como quem diz 12,2 kWh, a energia absorvida por 122 lâmpadas de 100 W que estivessem ligadas durante uma hora. Convém referir que este número foi recentemente revisto ligeiramente em baixa, mas para mim é mais ou menos como o acordo ortográfico: 44 MJoule e acabou a conversa!

O interesse desta unidade resulta dum facto físico simples: os combustíveis fósseis têm todos um PCI (Poder Calorífico Inferior) muito próximo; é uma distribuição muito estreita e aquele valor é a média: 5% para baixo temos o orimulsion, 5% para cima temos o gás natural. Note-se que PCI é uma unidade industrial imprecisa, e nem outra coisa é pretendida. É definido como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando todos os produtos da reacção estão em fase gás. Podemos colocar aqui uma primeira fasquia térmica, tão imprecisa como o resto: 200º C.

No entanto, define-se também Poder Calorífico Superior (PCS), como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando toda a água resultante da reacção está já em fase líquida. Outra fasquia térmica, tão imprecisa como a anterior: 40ºC. O conceito de PCS aproxima-se do conceito formal de entalpia de reacção e destrói por completo a uniformidade do KEP. O gás natural é essencialmente metano, em cada 16 quilogramas de metano existem 4 quilogramas de hidrogénio, o produto da combustão do hidrogénio é a água e o calor latente de condensação da água é substancialmente superior ao seu calor sensível (aquele que se manifesta por diferenças de temperatura): 55,5 MJoule por quilograma, quase 25% mais do que o valor do KEP. No essencial, a diferença não é utilizável.



Os hidrocarbonetos fósseis são substancias malditas. Tal como os cavaleiros do Apocalipse, estas maldições são essencialmente três, mas ao contrário das maldições bíblicas, estas estão fortemente hierarquizadas e é preciso começar pelo mais simples. A mais simples das maldições dos hidrocarbonetos fósseis, é que x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio produzem sempre x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio e, obviamente, as fadinhas dos gaspares são completamente impotentes ante a racionalidade simples da sôdona física, moça bacana, que, quanto a mim, tem apenas o senão de ser demasiado tolerante perante a loucura.

O petróleo bruto é uma matéria-prima muito rica, mas está já desequilibrado, à partida. Demasiado carbono para demasiadamente pouco hidrogénio e o processo de destilação acentua dramaticamente este desequilíbrio. A partir duma tonelada de crude, produzimos cerca de 40% de destilados leves, produtos de alto valor e baixo número de carbono, tais como as gasolinas, os GPL's e os petróleos de jacto. Se tivéssemos queimado apenas gasolinas, desde o início da Revolução Industrial, ninguém nos levava presos. Mas a sôdona física não deixa, pelo que produzimos também cerca de 20% de produtos intermédios, gasóleo e outros óleos diesel, zona esta onde tudo começa a deslizar. Finalmente, produzimos 40% de pesados, fuel e naftenos. E nesta zona, existem compostos alifáticos com números de carbono superiores a 3 000. Estamos a falar de macro-moléculas, com mais de 3 000 átomos de carbono e muito pouco hidrogénio. Será que se começa a perceber porque é que a bolha vai mesmo rebentar?

Deve ser dito que aquele espectro de produtos que eu descrevi de forma grosseira, 40-20-40, é típico da Europa e do Extremo-Oriente, mas não é geral. Os americanos produzem substancialmente mais gasolina e menos gasóleo. Produzem os mesmos 40% de pesados. x + y = x + y !

Neste ponto, levanta-se uma dúvida: as companhias petrolíferas não perdem dinheiro com aqueles 40% de produto pesados, que fique claro, mas..., ah! é uva mijona. Ora, as petrolíferas representam um dos maiores corpos de conhecimento armazenados pela espécie humana. Por isso, porque é que eles não se decidem a hidrogenar o fuel, para poderem vender o produto final ao preço da gasolina? Será que não gostam de dinheiro? Esta pergunta é demasiado difícil, para este ponto da discussão. Vamos tentar responder a uma outra pergunta mais fácil: a Rússia é a Arábia Saudita do gás; será que o senhor Putin não gosta de dinheiro?

Voltemos por instantes ao crude. É bombeado desde umas centenas de metros até à superfície, para depois ser bombeado umas largas centenas de quilómetros, antes de ser armazenado temporariamente num terminal de carga; depois, é carregado num navio, para fazer uns milhares de milhas através do oceano, antes de ser descarregado para um novo armazenamento temporário num terminal de descarga; a seguir, vai ser bombeado mais umas centenas de quilómetros até ser novamente armazenado numa refinaria para, final e misericordiosamente, ser processado. À boca da refinaria, os produtos finais têm uma componente de custos de armazenamento e transporte de cerca de 2,4-2,5% dos custos (!) finais. É extremamente barato transportar e armazenar líquidos.

O gás natural (GN) é essencialmente metano, e o metano é um gás muito mal-comportado. Os custos de transporte e armazenamento (?) do GN disparam para mais de 25% do preço final. Ora, acontece que o GN pode ser facilmente e a baixo custo transformado em metanol — o mais simples dos hidrocarbonetos, transformado no mais simples dos alcoóis — junto aos campos de gás, claro, para depois ser transportado ao custo dos líquidos. O senhor Putin ganharia cerca de mais $190 dólares em cada tonelada. Porque não o faz?

O senhor Putin gosta de dinheiro! Acontece apenas que ele também não passa de mais um vendedor de produtos amaldiçoados e é tão incapaz de deixar de o ser como os outros. Pior ainda, se ele fizesse aquele negócio altamente lucrativo que eu referi, estaria a mostrar aos seus clientes que podem passar sem ele. Acontece também que já alguém o fez.

George Olah recebeu o prémio Nobel da Química em 1994 e já este século, juntamente com outros colegas, dedicou-se a mostrar-nos como a maldição fóssil não é destino. Para Além do Petróleo e do Gás mostra-nos como as matérias-primas essenciais são apenas a água e o dióxido de carbono atmosférico (!!!). Devo dizer que não gosto do metanol enquanto combustível, as 500 milhas de Indianapolis que se danem, mas é completamente irrelevante. A maldição não é destino, malditos seremos nós, se não o escutarmos.

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publicado às 01:41


O Animal

por Licínio Nunes, em 27.03.13
Estou a escrever este post para reclamar o meu sagrado direito à parvoíce. A RTP irá transmitir hoje a mais antecipada, receada, comentada, dissecada, adivinhada, lamentada, entrevista, desde talvez, a primeira das "conversas em família" do sr. Marcelo Caetano: o Animal volta ao pequeno ecran em horário nobre.

Podem ocorrer surpresas. Não ficarei surpreendido se tal acontecer, mas o mais provável é que os que gostam dele o adorem, que os que não gostem o odeiem e que aqueles para quem, como eu, o assunto não tem substância, tenham que concluir que fizeram mais uma vez figura de tolos, ao não serem capazes de pensar em melhor forma de perder tempo.

Mas até pode acontecer que O Animal decida chamar merda à merda e, por exemplo, reclamar a demissão imediata daquele Zé Manel holandês que conseguiu, à primeira oportunidade, mijar três vezes seguidas fora do balde em menos de 24 horas.

Não acredito que o faça, porque duvido que O Animal tenha realmente algo de animalesco, o que implicaria ter..., nada de ordinarices, pelo menos em português..., aquilo a que os nosso vizinhos do lado chamam los cojones suficientes para isso. Não por míngua de oportunidades e temas, note-se. Confrontado com a geração de políticos mais medíocre e incompetente, que este continente estafado já conheceu, pelo menos desde os dias em que Calígula decidiu nomear o seu cavalo senador, qualquer gatinho meigo conseguiria rugir que nem um leão; se apenas o quisesse. Se não fosse também um zémanel.

O problema não é "O Animal". Olha, zémanel, se tu és um daqueles talvez 320 000 portugueses que, periodicamente, oscilam entre o ps e o psd e assim mantêm a ilusão da alternância democrática e quiseres saber onde residem realmente os problemas que te oprimem e esmagam, faz uma coisa simples: olha para o espelho e vais ver o alojamento real desses problemas, ali, entre as tuas orelhas esquerda e direita. O problema, zémanel, és tu. Tu e a tua cabeça. Infelizmente, a única que tens.



Another head hangs lowly,
Child is slowly taken.
And the violence caused such silence,
Who are we mistaken?

But you see, it's not me, it's not my family.
In your head, in your head they are fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are crying...

In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie,
Hey, hey, hey. What's in your head,
In your head,
Zombie, zombie, zombie?

Another mother's breakin',
Heart is taking over.
When the vi'lence causes silence,
We must be mistaken.

It's the same old theme since nineteen-sixteen.
In your head, in your head they're still fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are dying...

In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie,
Hey, hey, hey. What's in your head,
In your head,
Zombie, zombie, zombie?


The Cranberries — Zombie

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publicado às 19:07

Encaro com horror o desfecho [do discurso]. Nós não somos inimigos, mas sim amigos. Não devemos ser inimigos. Embora a paixão os possa ter levado ao ponto de ruptura, não deve ser-lhe permitido que quebre os nossos laços afectivos. Os acordes místicos da memória, estendendo-se de todos os campos de batalha e túmulos de patriotas, até todos os corações vivos e todas as pedras de todas as lareiras, por toda esta vasta terra, irão ainda entoar o coro da União, quando forem de novo tocados, como certamente o serão, pelos melhores anjos da nossa natureza.

Abraham Lincoln — 1º Discurso Inaugural

Slavoj Zizek achou importante importante contrapor e denunciar aquilo a que ele chama (por outras palavras) ...O optimismo dos fundamentalistas de livre mercado.... Óptimo! No entanto, os seus argumentos são fracos e, pior ainda, são defensivos. Para arrumar uma parte delicada numa única penada, seria bom que Zizek começasse a ler com regularidade A Pegada, e não o digo por mim, mas por todos os autores, e pela leitura mais objectiva da qual sou capaz.

Outro assunto que deve ser arrumado com presteza, tem a ver com um dos bestsellers que Zizek cita (o outro não o li), como exemplos da disseminação mediática daquele "progresso". Os melhores anjos da nossa natureza, sub-titulado Razões para o declínio da violência, até pode ser dito conter conclusões animadoras: existe um declínio objectivo da violência; até os terríveis conflitos do século vinte foram, relativamente ao total da população, menos assassinos do que, por exemplo, as guerras da religião que devastaram este continente no passado, já sem falar dos morticínios sangrentos dos campos de batalha napoleónicos; a própria violência do poder é hoje incomparavelmente menor, do que no tempo em que os condenados eram empalados ou assados vivos em touros metálicos, com uma abertura no lugar da boca, para que a populaça pudesse ouvir os gritos do supliciado.

Ora um dos motivos que me levaram a lê-lo teve a ver com algum do trabalho anterior do Steven Pinker, nomeadamente a sua conclusão, a respeito da 2ª guerra do Iraque, de que as sociedades avançadas ainda conseguem fazer a guerra e de forma extremamente letal, mas já não conseguem estar em guerra, ou seja, já não conseguem transitar para aquele nível de empenho colectivo, com que meio-mundo se confrontou com o restante, durante os séculos passados. Por isso também o recurso da antiga administração Bush àquilo que, noutros tempos, todos chamariam mercenários; por isso também o recurso àqueles meios hiper-tecnológicos em que o homem com o dedo no gatilho está sentado ante uma consola de vídeo, a milhares de quilómetros de distância. As conclusões do autor são animadoras, mas ele avisa-nos frontalmente que não as devemos encarar como a manifestação dalgum "gene bonzinho", mas como a resultante de processos históricos que levaram à concentração do poder militar no estado, ao seu monopólio da violência, em paralelo com o aumento do controlo desse mesmo estado -- e dos seus agentes -- pelo colectivo dos cidadãos; se esses processos entrarem em reversão, tudo o resto seguirá o mesmo caminho. É um pouco já a isso que assistimos hoje, na Europa; é pelo menos, um pouco a isso que assistimos quando os organismos policiais seguem e intimidam organizadores de manifestações pacíficas. E todos sabemos do que estou a falar, não sabemos?

Slavoj Zizek pega no assunto pela ponta certa: a questão não é saber se "...as coisas afinal até melhoraram...", durante este ou aquele período de tempo, mas como é que a realidade concreta se relaciona com as expectativas das populações onde alguma coisa, no computo final e aritmético, "...alguma coisa melhorou". Tal como ele o expôs, poderia contrapor-se que, no fim de contas, algumas dessas expectativas eram apenas irrealistas; é muito isso que nos dizem a nós, hoje, latinos.

Mas depois falha, ao não levar a crítica àquele "optimismo neo-liberal" às suas últimas consequências. Comecemos pelo tal cantoçhão britânico que ele refere (quem quiser que procure no artigo inicialmente citado. Eu, não o propago): a maior parte são apenas mentiras, factualmente falsas, como a tal "idade da abundância de energia"; outras, são banalidades que nada têm a ver com o assunto e, em última análise igualmente falsas — se o capitalismo neo-liberal é assim tão progressista, porque carga d'água é que a malária ainda não teve o mesmo destino que, por exemplo, a varíola? A resposta simples é que não há lucros substanciais a realizar com a sua erradicação, ao contrário daquele outro exemplo.

Todas as discussões a respeito do optimismo e do pessimismo são, ao fim e ao cabo, a velha questão de saber se um copo, contendo exactamente metade da sua capacidade total de líquido, está meio cheio ou meio vazio. Esta imposição do optimismo aos descrentes e revoltados, é, como não poderia deixar de ser, algo completamente diferente, apenas um mecanismo de controlo da revolta e das aspirações dos que sofrem. No fim de contas, porque é que os alemães estão tão optimistas? Será porque ainda não lhes tocou a eles, ou será porque os seus sacrossantos défices orçamentais estão a ser equilibrados à custa dos países devedores, como o nosso? E o que acontecerá quando aqueles violinos de tombadilho do Titanic, que maviosamente cantam a "competitividade" da economia germânica se afundarem nas águas geladas do desaparecimento dos seus clientes? Ou será que aqueles toscos teutões pensam realmente que as "novas elites" chinesas irão continuar eternamente a comprar mercedes e bmw's, em vez de os fabricarem elas próprias, ou de importarem algo correspondente, por exemplo da Coreia, que está ali mesmo ao lado e que não tem as cargas históricas e emocionais dos Lexus, ainda talvez demasiadamente japoneses para o seu próprio gosto?

Zizek tem razão, ao colocar o acento tónico nas expectativas. Mas este é um acorde que tem que ser feito ressoar com mais ânimo. Os seres humanos criam expectativas e formulam prognósticos para o futuro, próximo ou algo mais longínquo. Não sei se esta tendência inata é devida a algum gene da antecipação temporal, ou se é um processo cultural muito básico, pelo menos desde que os homens do Neolítico tiveram que começar a antecipar e a confiar na próxima colheita. Seja qual for a sua origem, este impulso predictivo está em nós. E quando é defraudado, gera sofrimento. Ninguém gosta do sofrimento, com a excepção dos que vivem à sua custa. Mas mais do que isso, ninguém gosta das desigualdades gritantes e obscenas, excepto aqueles que com elas lucram.

Aquela frase no título inquieta-me. Já o disse, mas começo a compreender melhor porque me inquieta; porque tem tudo a ver com expectativas e porque há assuntos que só podem encontrar paz, se nos pudermos referir a eles num pretérito bem mais do que perfeito. Acho que a minha revolta mais antiga contra a injustiça aconteceu após ter feito o exame da 4ª classe. Na altura, tinha que se fazer a seguir, também um exame de admissão ao secundário; um de dois, para ser mais preciso, conforme se destinasse a permitir o acesso o acesso ao liceu, ou ao ensino técnico e comercial. Lembro-me do choque. Mas lembro-me sobretudo porque a minha falecida mãe o sentiu, e sentiu-se na necessidade de abordar o assunto. Porque é que existiam aquelas aptidões, de primeira e de segunda? ...Porque, em relação a alguns dos meus colegas, as famílias tinham a necessidade de que o seu percurso até à vida activa, fosse curto e direccionado para fins concretos... Mas porque é que os outros, os outros teriam que deixar de ser meninos e meninas, aos dez anos de idade? ...Porque muitas situações eram ainda bem piores, do que aquelas de que ela falara...

É isto que inquieta e é isto que magoa. A compreensão de que a realidade pode recuar ao passado, disfarçada de progresso. E o que inquieta mais, é a percepção bem realista de que o pior ainda pode estar para vir.



The killer lives inside me: yes, I can feel him move.
Sometimes he's lightly sleeping in the quiet of his room
but then his eyes
will rise and stare through mine;
he'll speak my words and slice my mind inside...
Yes the killer lives.

The angels live inside me: I can feel them smile.
Their presence strokes and soothes the tempest in my mind;
And their love
can heal the wounds that I have wrought,
They watch me as I go to fall - well, I know I shall be caught
While the angels live.

How can I be free?
How can I get help?
Am I really me?
Am I someone else?

But stalking in my cloisters hang the acolytes of gloom
and Death's Head throws his cloak into the corner of my room
and I am doomed
But laughing in my courtyard play the pranksters of my youth
and solemn, waiting old man in the gables of the roof -
he tells me truth...

I, too, live inside me and very often don't know who I am;
I know I'm not a hero - well, I hope that I'm not damned.
I'm just a man
and killers, angels, all are these:
Dictators, saviours, refugees in war and peace
as long as man lives...

I'm just a man
and killers, angels, all are these:
Dictators,
Saviours,
Refugees.


Peter Hammil — Man-erg

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publicado às 23:28


"Que possas viver em tempos interessantes"

por Licínio Nunes, em 27.02.13
Aquando das últimas eleições americanas, fui para a camita pelas 03:30, com seis fusos horários a mais e a certeza reconfortante de que o Mundo, na manhã seguinte, não estaria em pior estado do que nessa altura; mais de duzentos e cinquenta milhões de americanos foram às urnas, num dia de trabalho (!) e despacharam tudo em poucas horas.

Hoje, quarta-feira, consegui saber pela primeira vez, que os italianos elegeram 162 candidatos do movimento M5S, do Zé Grilo. Parece que a Itália está ingovernável...

...Ou pelos, assim o dizem as cabeças falantes do costume. Se um país onde existe uma maioria — de moscambilha e é irrelevante — na câmara baixa do parlamento, e vários caminhos para maiorias pontuais na câmara alta, está ingovernável, então, tenho que concluir que Portugal esteve ingovernado (excepto pontualmente) até 1987, e depois, de 1995 até ao início deste século. Mais. Tenho que concluir que os países do norte da Europa, cujos sistemas eleitorais dificultam propositadamente a obtenção de maiorias absolutas, estão ingovernados há longas décadas. Acho que alguém se esqueceu de informar os escandinavos deste facto, mas adiante.

Dum ponto de vista material, as leituras das cabeças falantes caiem pela base. Da mesma forma que um estatístico bem anónimo fez cair as mesmas cabecitas lá do sítio, mais as caixas de ressonância do(s) poder(es) instituídos na outra margem do Atlântico. Se há algo que une aquelas duas personagens improváveis, o Nate Silver e o Zé Grilo, esse algo é totalmente material e dá pelo nome de Internet. Aprendam a viver com ela! Todos temos que aprender, pois veio para ficar. Hoje como no início, é uma experiência prática a respeito de sobrevivência. E é uma experiência bem sucedida, o resto cabe-nos a nós, assim como cabe aos eleitos do M5S italiano. Gosto do pouco que sei a seu respeito.

Dum ponto de vista material, o que o Zé Grilo fez, foi mandar a Televisão à merda. E ganhar. Talvez seja Sol de pouca dura; teria preferido uma ruptura mais convencional (!), na linha da que o Syriza grego pareceu capaz de protagonizar, no Verão passado, mas a realidade material não se preocupa nada como os meus gostos. "Que possas viver em tempos interessantes!" é uma maldição; chinesa e muito antiga. Interessantes, eles são e malditos ainda mais. Nenhum de nós pediu para viver nestes tempos; estivemos ocupados a viver, apenas. Com umas patetices pelo meio, e não há nada de errado nisso. Hoje, estamos a ser agredidos, de forma feroz e niilista; nada de vivo cresce nos ground zero pós-troika; nada de humano consegue com-viver com os mutantes sádicos que nos torturam, apenas o seu nada cresce.

Estes são tempos interessantes. São os Dias da Ira e ressoam como um trovão por toda a Europa. A nós de mantermos os olhos fixos no objectivo.



E tu? Onde vais estar no próximo 2 de Março?

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publicado às 21:01


Para acabar de vez com o marxismo — Introdução

por Licínio Nunes, em 08.02.13
In the clearing stands a boxer and a fighter by his trade.
And he carries the reminders of every glove that laid him down,
Or cut him, 'till he cried out, in is anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving", but the fighter still remains.


— The boxer, Paul Simon

O que me levou a ler O Capital, foi a introdução escrita pelo autor (na edição que eu li). Os membros da Liga dos Comunistas achavam que aquela primeira parte, a Teoria do Valor, era demasiado difícil para os principais destinatários. Por aquela altura, os operários que sabiam ler (poucos), tinham aprendido à sua custa, em associações de auto-ajuda, algumas de inspiração religiosa — sobretudo em países de tradição protestante — outras simplesmente operárias; estavam a dar os primeiros e árduos passos no caminho do conhecimento. Serem submetidos a um assunto extremamente abstracto e, à primeira vista, sem grande relação com a respectiva experiência quotidiana, parecia a muitos um problema insuperável: "Camarada, não seria melhor omitir aquela primeira parte?"

Marx recusou. Não sei se ele conhecia Roger Bacon e o seu "O conhecimento é poder". O mais provável é que o conhecesse, mas se esse não foi o caso, reinventou-o. Aceitou que o problema elevava a sua própria fasquia de exigência, enquanto autor, por forma a tornar o assunto mais próximo do real tangível e mais perceptível, mas omiti-lo, nunca. Isso teria sido um insulto aos seus destinatários. Talvez tenha exagerado nos exemplos, fazendo que muitas partes nos apareçam hoje como datadas, mas aí, a verdadeira responsabilidade passa a assentar sobre os nossos ombros.

Contudo, o facto simples é que, enquanto corpo de pensamento, Marx está hoje em muito mau estado. Noam Chomsky afirmou que quaisquer palavras que terminem em 'ismo', ou em 'ista', pertencem à História da Religião, nunca à História da Ciência. A afirmação vai muito para além da crítica às formas de "socialismo real", presentes e sobretudo passadas, e entra directamente pela natureza última daquilo a que chamamos linguagem, mas não podia ser mais certeira.

O facto simples é que, por exemplo, se Sadi Carnot regressasse aos nossos dias, vindo dum qualquer Olimpo, apanharia um susto enorme, quando lhe dissesse-mos que o ciclo-limite de Carnot é a forma mais geral de descrever todas as transformações de energia, microcosmos incluído, e apenas com a excepção das condições que, por dizerem respeito a transformações directas de massa em energia, requerem uma generalização relativista. Não seria fácil, e sobretudo, não seria rápido, explicar ao autor original, a justeza do epónimo. Marx e Engels reconheceriam imediatamente a vasta maioria daquilo a que (ainda) chamamos marxismo.

Facto simples é também a necessidade. De uma economia centrada nos seus actores reais: nós; de sociedades capazes de albergarem e se enriquecerem com a enorme diversidade dos seres humanos; de civilizações capazes de darem aos nossos filhos aquilo que as do passado nos deram a nós próprios: um futuro, possível, primeiro, e humano, acima de tudo e que para que valha a pena.



É por isso que considero Marx indispensável, mas e que fique claro, um Marx suficientemente enriquecido para que o próprio tivesse já grandes dificuldades em o/se reconhecer, tal como Newton teria grande dificuldade em se reconhecer, por exemplo, quando falamos de quasi-Newton. Para isso, temos que perceber como chegámos ao 'ismo'. E aos 'istas', sem os quais nenhum sistema de crenças é possível.

Marx foi "vítima" de dois ingleses de finais do século XVIII e de um compatriota seu contemporâneo. Ele e muitos de nós, claro. Do primeiro desses ingleses, podemos dizer até, que os equívocos a que deu origem tiveram motivos nobres. Edward Gibbon é por muitos considerado o fundador da História moderna, mas a sua atitude de crítica cerrada a todas as formas de religião organizada, levaram-no a passar sobre o verdadeiro Império Romano como raposa por vinha vindimada; ao ler-mos Declínio e queda do Império Romano, somos facilmente levados a pensar que os gregos passaram quase mil e duzentos anos a discutir o sexo dos anjos. Gibbon acabou por ser um contributo inestimável para o paroquialismo da Europa ocidental — e das suas emanações neo-mundistas — do qual apenas nos começamos a libertar.

Quanto àquele outro alemão, do qual nenhum dos seus compatriotas, quer-me parecer, se conseguiu ainda hoje libertar, confesso que necessito de toda a artilharia pesada a que conseguir deitar mão. Pode ser dito que Hegel foi o "pai" de todos os totalitarismos modernos. Marx pensou ter resolvido o assunto ao embarcar na discussão, já de alguma forma estafada no seu tempo, a respeito do dualismo mente-corpo, idealismo vs. materialismo. Talvez a resolução de tão bacoca questão seja mais recente do que eu a faço, mas se tal é o caso, podemos dizer que essa resolução tem a assinatura de dois portugueses, Hanna e António Damásio, com a colaboração — totalmente involuntária — de um outro contemporâneo de Marx.

Quanto ao segundo daqueles ingleses, nada de bom consegue ser dito. Adam Smith é normalmente encarado como um pensador "suave". Pode-se concordar com ele ou discordar, mas muitos vêm-no como "um tipo simpático". Smith foi um mentiroso. Se Gibbon violou o seu próprio método histórico, na prossecução do seu objectivo favorito, Adam Smith mentiu para enganar e iludir os seus leitores. E o facto simples, é que Marx engoliu aquela trapaça do "dinheiro como mercadoria" por completo, isca, anzol e linha.

Marx é indispensável para que haja um futuro. Mas não é urgente, porque a agressão de que hoje somos alvos não é económica. É financeira, e é monetária. E é também algo que parecemos termo-nos tornado demasiado tímidos para articular. Se falar em fascismo parece hoje descredibilizar à partida o texto em que é referido, pois muito bem, falemos naquilo que realmente é e sempre foi: Peste! E que ninguém se iluda: esta agressão pode ter protagonistas menores com legenda de coisa humana, borges e relvas; merkels até. Tem um único nome e esse nome é Guerra. E nenhum de nós a escolheu, é-nos imposta. E é por isso que o caminho para a vencer tem uma fórmula segura, testada por mais de 2000 mil anos de História: "Conhece o teu inimigo e conhece-te a ti próprio; assim vencerás cem batalhas".



Este post é o início dum projecto de maior fôlego e de maior ambição; veremos se excessiva. Como todas as viagens, começa com um único passo. Mas começa também com o seu próprio testemunho, com a sua pegada. Nunca poderia ser dado em melhor local do que este.

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publicado às 00:34

Um comprimido torna-te enorme,
Outro comprimido torna-te minúsculo.
E os que a mamã dá,
Nem aquecem nem arrefecem.
Pergunta à Alice,
Quando ela tiver três metros d'altura.
E se fores caçar coelhos,
Sabendo já que vais cair,
Diz-lhes que uma lagarta, fumando nargilé,
Te disse para perguntares à Alice,
Quando ela estiver pequenina.
Quando as peças do xadrez
Se levantam e te ordenam para onde ires,
Quando um cogumelo selvagem
Faz a tua mente girar devagar,
Pergunta à Alice,
Acho que ela vai saber.
Quando lógica e proporção
Tiverem caído, redondas, no chão
E o Rei Branco falar por anagramas
E a Rainha Vermelhas se desfizer em fúria,
Recorda o que o batente da porta te disse:
"Pensa pela tua cabeça!"

— White Rabbit, Grace Slick

Ninguém fala noutra coisa, o relatório do fmi, o relatório do fmi... Hoje, duma assentada, o Esquerda[ponto]Net, propõe-nos três artigos a respeito do tal relatório do fmi. Uff! Mudaram de título ao quarto, para irem finalmente direitos ao assunto.

Penso não ser muito difícil perceber a razão do enfoque: "Ah...! O pessoal não grama o fê-mê-i, bora!". Lamento muito, pessoal, mas é um erro. Não estou a dizer que o tal fê-mê-i não mereça umas boas castanhadas, mas o enfoque é um erro político. E um erro que nada ajuda no essencial. Como nunca gostei que me assobiassem para beber água, decidi seguir o conselho da Grace Slick e pensar pela minha própria cabeça, lendo o dito cujo.

Primeiro pormenor, e não é de somenos: o link anterior é para o site do jornal Público; na primeira página, encontra-se um link significativo – para um documento oficial do FMI (!) – e é este: Linhas Orientadoras para Divulgação de Informação Técnica. Não será difícil compreender que o desgoverno português violou aquelas regras, da forma mais saloia e mais gritante, e pelos motivos mais baixos deste mundo e do outro. O resto é outra loiça e porcelana que eu bem conheço: aquilo é um relatório de consultadoria.

Já fiz muito trabalho de consultadoria e há um documento que tenho bem presente no meu espírito: tem por título Manual do Consultor e contém uma única folha. Na frente, uma única frase. Esta:

Albarda-se sempre o burro à vontade do dono.

Sei que estou a divulgar segredos corporativos, por isso..., não faz sentido esconder o resto. Na outra face daquela folha única, encontramos apenas uma definição, a definição do métier e dos seus praticantes:

'Consultor' é um homem que conhece trezentas maneiras de foder e não conhece nenhuma mulher.

Esta definição não é tão literal como pode parecer..., significa que..., bem..., um consultor não é responsável pela implementação da..., ahn! assistência técnica..., ora bolas! Já estou lixado, que se dane. Cada leitor que pense o que muito bem entender.

No que respeita ao essencial, os factos são simples: o coelhito começou a falar em "refundação" nos finais de Outubro de 2012; o relatório é datado "Janeiro de 2013". Este não é o "plano do fmi"; esses são apenas gajos que verificam aquela definição acima, e que fazem o que o dono do burro quer que se seja feito; dizem-lhe como fazer o que ele quer ver realizado. Este é o plano do coelho branco, do gaspar cinzento, do borges furta-cores e do relvas alucinogéno. É o seu ódio à simples ideia de coesão social; é a sua baixeza e incompetência gritantes. Em cada linha, em cada vírgula. Até, talvez, no espaço em branco das margens. Talvez nos espaços em branco ainda mais do que no resto: ...quando um cogumelo selvagem faz a tua mente girar devagar..., o absurdo consumou-se e o coelho branco está no poder.



I've seen the Future, brother / And it is murder. – Leornard Cohen

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publicado às 22:35

Não entres tão depressa nessa noite escura — António Lobo Antunes
Do not go gentle into that good night


Ainda Janeiro não vai a meio e já a promessa dum admirável mundo novo se adensa sob um céu razoavelmente azul. Antigamente, estes eram os dias dos Reis; dias para guardar o presépio, ainda com o brilho dos olhos das crianças bem frescos na memória; para deitar fora o pinheirito do Natal, testemunha verde dum Planeta que se renova ante nós, todos os anos. Eram dias para cantar as janeiras: Já nos cansa esta lonjura / Só se lembra dos caminhos velhos / Quem anda à noite à ventura.

A idade da razão deve arder e delirar ao fechar do dia
Rasga, Fulmina a morte da luz.


Hoje, as máscaras caiem, uma após outra. Sabemos, sem margem para dúvidas, ao que vêm o pedro e a laura. Para o pedro e a laura, "Estado Social" é uma expressão feia, neo-alvo das neo-janeiras, indomitamente exorcizados pelo habitual coro (coiro?) dos imbecis. Que importa ser o tal demónio da coesão social, a condição sine qua non para a existência daquele agente histórico a que chamamos consumidor? "Em frente, soldados da fé!"..., nem que seja com um camelo à cabeça.

Mesmo que os sábios, no seu final, saibam que a escuridão é certa,
Porque as suas palavras não se bifurcaram em raios,
Não deslizam suavemente nessa noite escura.

Houve-se hoje, com demasiada frequência, aquela frase que coloquei no título: "Isto nem no tempo do Salazar...". Inquieta-me: a que será que me obriga a "idade da razão", como escolhi traduzir o verso de Dylan Thomas? Evoca-me memórias desse tempo, como quando o meu avô paterno se sentou, pela primeira vez, à frente duma televisão. A minha avó tinha-o convencido a ir a casa da filha mais nova, assistir à reportagem da inauguração da ponte sobre o Tejo: "Era isto que querias que eu visse? Já os conheço a todos". Lá se deixou convencer a comprar o caixote, Telefunken, claro. Mas depois não olhava para ele. A sua fonte principal de notícias era um rádio, um monstro a válvulas, Grundig, claro, onde ele costumava ouvir o Fernando Pessa, nos noticiários da BBC, durante a guerra; "São todos uns boches, mas ninguém faz rádios como eles".

Homens bons, na última onda, chorando o brilho
Com que os seus actos frágeis teriam dançado numa baía verde,
Rasgam, Fulminam a morte da luz.




Lembro-me dum salão de bilhar, em Almada, coisa de alto gabarito (para quem gostar da arte, claro). Ainda existe, mas..., ah! perdeu o carisma. E lembro-me dum fulano que por lá sempre parava. Um dia disse-me "...tu falas demais...". Logo me avisaram: "cuidado que o gajo é um bufo da Pide"; bem o sabia. A sensação desagradável, foi que aquele bufo gostava de mim, e estava a tentar proteger-me. Desapareceu, depois do 25 Abril, nunca mais o vi.

Os violentos que capturam e cantam o Sol no no seu voo
E aprendem demasiado tarde que o choraram na sua rota,
Não deslizam suavemente nessa noite escura.

Lembro-me. De ouvir contar histórias sem fim a respeito dos tempos do "racionamento"; já era taludo, e já depois do 25 de Abri, quando fiquei a saber, com espanto ingénuo, como esse racionamento, o tempo do "Livro-vos da guerra mas não vos livro da fome", se iniciou para exportar bens alimentares para a Espanha nacionalista de Franco, entre 1936 e 1939. Tudo a bem da balança comercial, claro.

Homens graves, próximos da morte, vendo com vista deslumbrante,
Como olhos cegos podem arder, tais meteoros, e sorrir
Rasgam, fulminam a morte da luz.

Lembro-me da Cecília Jonet, ou da Isabel Supico-Pinto, ou lá como é que a megera da comendatriz se chamava, e do asco que me causava aquela solicita propaganda de guerra. Não me lembro dos soldadinhos que ela adorava, que nunca conheci nenhum. Esses, acho que só as mães os recordaram; talvez os filhos que nunca viram e que nunca os viram a eles.

E tu meu pai, nesse teu cume triste,
Amaldiçoa-me, abençoa-me, com as tuas lágrimas ferozes, te peço.
Mas não deslizes suavemente nessa noite escura.
Rasga, fulmina a morte da luz.


Compreendo hoje que não conheci "Os tempos do Salazar". Assisti ao extertor da sua agonia, mas nada do que eu relembro, por memória própria ou próxima, tem a ver com os dias que vivemos. Falámos e abusámos da palavra fascismo, ao ponto de o termos banalizado. Hoje, assistimos a algo diferente, à ascensão do monstro, que na sua encarnação anterior, teve lugar nos anos trinta e quarenta do século passado. É a mesma agressão, a mesma arrogância, na criação dum "mundo novo". O mesmo desprezo e a mesma loucura. Não vou comparar os dias de hoje com os tempos da "sardinha para três"; esses, nunca os conheci. Mas se há algo que eu sei, é que todas as encarnações do monstro têm algo em comum e esse algo chama-se dor. Se há algo que eu sei, é que a dor dói.



N.B.: O título do Lobo Antunes é incontornável como glosa do primeiro verso de Dylan Thomas. Os restantes, como é óbvio, só me comprometem a mim.

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publicado às 22:44

It's coming to America first,
the cradle of the best and of the worst.
It's here they got the range
and the machinery for change
and it's here they got the spiritual thirst.
It's here the family's broken
and it's here the lonely say
that the heart has got to open
in a fundamental way:
Democracy is coming to the U.S.A.


— Democracy, Leonhard Cohen


...Ou como os poetas também se enganam. Ou talvez não seja um erro, e o essencial esteja contido naqueles dois primeiros versos, Está a chegar à América primeiro / O berço do melhor e do pior. Devo dizer que não acompanhei o folhetim a respeito de como é que o ti Aníbal ia justificar o facto de violar os juramentos solenes que fez, não os violando, mas passando a bola, ou mais exactamente, chutando para canto.

Em vez disso, dediquei-me a tentar perceber como é que, no berço do melhor e do pior, os herdeiros daqueles respeitáveis figurões que na Versalhes de antigamente — a do Chiado, claro — bebiam chá frio ("Perfeitamente, cavalheiro. Do Alentejo ou da Bairrada?"), iam ser torcidos e levados ao redil, por um Presidente fresquinho na sua legitimidade democrática renovada. Parece que o "homem mais poderoso do Planeta" conseguiu exactamente o mesmo que o ti Aníbal: evitar a vergonha mais imediata e adiar o essencial para daqui a três meses.



Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, não fora haver este fulano... Aqui há uns anos, toda a gente lhe chamaria "geek". Depois, durante o ciclo eleitoral de 2008, as suas previsões do resultado final e a exactidão das mesmas, levaram o New York Times a convidá-lo para manter um blog no seu site; durante o mais recente ciclo eleitoral americano, o 538 (o número total de grandes eleitores, que tudo decidem), teve mais visitas do que o resto do site. E mais uma vez, bingo! Resultado final: 50 a 0. O fivethirtyeight acertou em todos os resultados; até a Florida passou do rosa-pálido dos republicanos, para o azul-bebé dos democratas, embora só na véspera da eleição.



O problema aqui, é que a frequência com que o Nate Silver acerta, começa a tornar-se assustadora. Mais uma vez, enquanto a maioria dos comentadores especialistas e as grandes cabeças-falantes dos media americanos sublinhava a irracionalidade dos eleitos republicanos, e a sua sujeição às correntes mais extremistas do tal partido do chá (da Bairrada?), o 538 afirma e consubstancia exactamente o oposto: os congressistas republicanos estão a ser extremamente racionais, no que respeita aos seus incentivos pessoais.

Então e por cá? Estará o ti Aníbal a ser irracional, ou exactamente o contrário? Será que o pedrocas é o tolo que parece, ou sabe, melhor do que nós, que o "Portugal profundo" não o desamparará? Será que o Tózé tem que fazer algo mais, para além de esperar que a maçã podre do poder lhe caia no colo? Nenhuma destas dúvidas é reconfortante, mas a verdadeira resposta para os nossos problemas, essa, podemos encontrá-la na voz profética do poeta, mas só pode nascer das nossas mãos: Primeiro tomamos Manhattan, depois tomamos Berlin.

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publicado às 22:29

Fazem o deserto e chamam-lhe paz
— Tacitus


A ano de 2013 começa com maus presságios. A presidência que temos publicou um OGE inconstitucional; talvez. Se o tivesse enviado para fiscalização preventiva, estaríamos perante um texto talvez inconstitucional. Assim, estamos perante uma situação igual à de 2012. Talvez. Ou então, até poderemos estar perante um caso de sucesso: talvez já não valha a pena fazer nada.

Talvez a economia tenha caído uns 20%, desde o seu pico em 2007 e esteja a crescer de forma acelerada, para retomar o valor que tinha no início do século, ou antes disso. Talvez a população deste país tenha conseguido cumprir pelo menos, alguns dos seguintes requisitos:


  1. Não seja capaz de pagar a renda da casa, ou a respectiva hipoteca, nem as contas da água e da luz.

  2. Não seja capaz de manter a sua habitação adequadamente aquecida no Inverno.

  3. Não seja capaz de fazer face a despesas inesperadas.

  4. Não tenha possibilidade de comer carne, ou outra fonte de proteínas, com regularidade.

  5. Não tenha possibilidade de gozar férias.

  6. Não consiga ter uma televisão.

  7. Não consiga ter uma máquina de lavar.

  8. Não consiga ter um automóvel.

  9. Não consiga ter um telefone.



De acordo com as definições oficiais do Eurostat, os portugueses que verificarem três das condições acima, estarão numa condição de privação material; os que verificarem quatro ou mais condições, estarão numa situação de privação material severa. Isso não impedirá que este país seja declarado um exemplo de sucesso.

Talvez os vencimentos mínimos tenham caído para cerca de $168 USD (sim, dólares americanos) por mês; talvez mais de 250 000 portugueses estejam a emigrar, em cada ano. Não será por isso que uma qualquer Jonet de coturno internacional se coibirá de nos declarar "...um caso de sucesso...".

Será que tudo isto parece forçado? O facto simples é que não estou a falar do futuro: estou a falar do passado



Estou certo que a Jonet gostaria mais desta.



Ou então desta, talvez. Todas são copyright do New York Times.



A nós, a todos nós, cabe-nos fazer como que os sonhos das Jonets não se concretizem.



Lie still, sleep becalmed, sufferer with the wound
In the throat, burning and turning. All night afloat
On the silent sea we have heard the sound
That came from the wound wrapped in the salt sheet.

Under the mile off moon we trembled listening
To the sea sound flowing like blood from the loud wound
And when the salt sheet broke in a storm of singing
The voices of all the drowned swam on the wind.

Open a pathway through the slow sad sail,
Throw wide to the wind the gates of the wandering boat
For my voyage to begin to the end of my wound,
We heard the sea sound sing, we saw the salt sheet tell.
Lie still, sleep becalmed, hide the mouth in the throat,
Or we shall obey, and ride with you through the drowned.


— Dylan Thomas, Lie still sleep be calmed in The Falklands Suite

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publicado às 23:54

Este é mais um post a que eu dei o mesmo título-base — Crónica antecipada duma revolução inevitável — de outros anteriores. O motivo é simples: isto não vai acabar bem! Nunca acabou, porque seria agora que as coisas seriam diferentes? Até os chineses Han se conseguiram libertar do jugo mongol e, vejamos, nem o Relvas nem o Passos são exactamente um Genghis ou um Kublai. Como vai acontecer, não faço a menor ideia. Quando vai acontecer, também não sei, mas a este respeito é fácil estabelecer um limite superior: antes de 2050! Não, não é tranquilizador, mas é uma afirmação segura.

É que o Planeta está a aquecer, e a velocidade do aquecimento está a aumentar, porque cada vez emitimos mais dióxido de carbono para a atmosfera. O carvão será a principal fonte de energia em breve. Noticias péssimas mas inevitáveis: as potências emergentes não vão hipotecar a sua chance de desenvolvimento, para tirarem as castanhas do lume, num braseiro que não foram eles que acenderam. Estão já a fazer muito mais do que o "terço norte industrializado", a Europa, os Estados Unidos e o Japão, fizeram durante duzentos anos de Revolução Industrial. Inevitavelmente insuficiente, mas a questão política aqui, é que os gaspares e as merkels estão a destruir a coesão social, que a abordagem dos assuntos globais exige: quando a crise bate à porta, os ursos polares..., que se podam, como diria o Pernando. No planeta passos, as pirâmides de Gizé, obra de homens e mulheres livres e remunerados acima da média, nunca teriam sido construidas.

A temperatura média da atmosfera irá aumentar, algures entre os optimistas 2º C do protocolo de Kyoto e os virtualmente catastróficos 4ºC, cada vez mais inevitáveis. Isto significa energia. Mais energia na atmosfera. Quanta? É relativamente simples. O calor específico do ar, cp, é muito aproximadamente igual a 1 KJoule por quilograma e por grau Kelvin; a massa total da atmosfera é aproximadamente 5 × 1018 quilogramas. Por isso, depois de multiplicarmos os ingénuos 2º C de Kyoto, por 5 (e dividirmos pelo coeficiente adiabático, cp/cv, igual a 1,4), o resultado é aproximadamente 7,1 × 1018 KiloJoule. Ainda não dá para perceber, pelo que o mais aconselhável é adicionar seis zeros ao KiloJoule e dividir pela "latência" da atmosfera, e o resultado torna-se mais perceptível: cerca de 25 milhões de GigaWatt, ou seja, aproximadamente 25 milhões de reactores nucleares. Ora, como a Terra suportaria, no limite, cerca de 8000 coisas destas, aqueles números implicariam esventrar, escavacar, mineirar até ao tutano, mais ou menos 3000 Sistemas Solares como o nosso. Convenhamos que é muito mais simples queimar carvão e hidrocarbonetos fósseis, e libertar o dióxido de carbono produzido na atmosfera...

As consequências seriam as mesmas. Mas como escolhemos a forma mais simples de loucura, isso deixa-nos num imbróglio. É que não basta esperar que até lá, alguém invente alternativas: os pontos de não-retorno já foram ultrapassados e estamos a aumentar o problema, de forma abismal, a cada dia que passa. Aquilo que não fizermos hoje, enquanto a pressão ainda não é demasiada, irão os nossos filhos e os nossos netos ter que fazer pela necessidade da sobrevivência física imediata. Vão fazê-lo, mas apenas depois, ou enquanto, chamam meretrizes às respectivas avós e bisavós.

Como esta perspectiva não me agrada, não me agrada mesmo nada, considero preferível estimar quanto é que nos custaria, hoje, abordar o problema de frente. As respostas são duas e a mais importante é estritamente qualitativa: aproximadamente metade do que irá custar aos nossos filhos e netos, lá pela metade do século; a segunda é quantitativa e o trabalho pesado já foi feito por uma agência do governo americano: cerca de 3,5 cêntimos a mais no custo base do kilowatt.hora de electricidade com origem no carvão, cerca de 8,3 cêntimos a mais no custo base de 1 quilograma de gás natural e cerca de 10 e 11 cêntimos a mais nos custos base de, respectivamente, 1 quilograma de gasóleo e de 1 quilograma de gasolina -- e quem preferir continuar a enganar-se a si próprio, fazendo contas em litros de gasolina e metros cúbicos de gás, pois que multiplique os últimos números por 0,8.

Estes números derivam de ainda um outro estudo — notável — patrocinado pelo governo americano, e dizendo respeito aos custos actuais da captura e sequestro do excesso de dióxido de carbono atmosférico, gerado pela actividade industrial humana. Não parecem muito ameaçadores, entre $15 e $25 dólares actuais, por tonelada de dióxido de carbono capturado. A verdadeira ameaça é política.

Aquele trabalho notável que eu referi, tenta subtilmente induzir o governo americano a abordar o assunto como uma prioridade de segurança nacional, logo como um custo social, a ser equitativamente suportado por todos os cidadãos, pois todos estão em risco. Feito à moda do planeta-gaspar, os números acima representam um terço do aumento dos preços hoje, e um sexto do aumento dos preços, daqui a 40 anos. Não deixe que os seus filhos e netos chamem aquelas coisas feias à sua mãezinha.



Porque é nessas alturas que a lucidez dos visionários se torna quase insuportável.


Give me back my broken night
my mirrored room, my secret life
it's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control
over every living soul
And lie beside me, baby,
that's an order!
Give me crack and anal sex
Take the only tree that's left
and stuff it up the hole
in your culture
Give me back the Berlin wall
give me Stalin and St Paul
I've seen the future, brother:
it is murder.

Things are going to slide, slide in all directions
Won't be nothing
Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world
has crossed the threshold
and it has overturned
the order of the soul
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant

You don't know me from the wind
you never will, you never did
I'm the little jew
who wrote the Bible
I've seen the nations rise and fall
I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told
to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going
any further
And now the wheels of heaven stop
you feel the devil's riding crop
Get ready for the future:
it is murder

There'll be the breaking of the ancient
western code
Your private life will suddenly explode
There'll be phantoms
There'll be fires on the road
and the white man dancing
You'll see a woman
hanging upside down
her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets
coming round
tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'

Give me back the Berlin wall
Give me Stalin and St Paul
Give me Christ
or give me Hiroshima
Destroy another fetus now
We don't like children anyhow
I've seen the future, baby:
it is murder

— Leonard Cohen

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publicado às 23:41

O Livro do Génesis diz-nos que Adão foi criado a partir do barro; e depois, Eva foi criada a partir duma costela de Adão. Pense-se o que se pensar a respeito das afirmações anteriores, é perfeitamente claro e pacífico que estamos perante dois casos de criação ex materia, a partir de matéria pré-existente. Bem, então e o resto?

Quanto ao resto, a fonte citada é omissa. Diz apenas que no princípio — então e antes disso? — deus-nosso-senhor criou a Terra e o Sol, e as estrelas do firmamento. Não nos diz a partir do quê. Não nos diz nada a esse respeito. Ora, dum ponto de vista estritamente lógico, podemos muito bem supor que deus não o disse por não ser da nossa conta, ou então, porque os nossos cérebros limitados não seriam capazes de o abarcar. Acontece que todas as religiões reveladas têm dogmas não explícitos (sempre os mais importantes). Para as religiões do Levante, os mais importantes são o dogma da completude — deus-nosso-senhor disse-nos tudo o que havia para dizer — e o dogma da inteligibilidade: disse-o de forma a que todos os seres humanos fossem capazes de compreender.

Em consequência, todos os teólogos da revelação, acabaram por cair sempre todos para o mesmo lado (muitas vezes ao fim de furiosos debates): o Mundo foi criado ex nihilo, literalmente, a partir do Nada. Nada a objectar, o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita, mas..., então, quem foi que criou o dinheiro?

Um desses teólogos, um francês chamado Roger Vadim, disse-nos o que já sabíamos, ou seja, que deus tinha criado a Brigitte Bardot daqueles tempos. Tudo bem! Então e o tógé?



Curiosamente, vivemos o primeiro período histórico em que os teólogos da situação defendem a criação monetária ex nihilo, por privados, de forma explícita. Nunca antes na História houve Gaspares explícitos: muitos cantaram a canção da sereia, mas sem nunca terem a coragem de se assumirem. No fim de contas, esses proto-gaspares também eram representantes do poder soberano. No fim de contas, se a criação ex nihilo era um atributo da divindade, então tinha que estar reservada, por exemplo, para os Reis-deuses da Mesopotâmia; ou então para os representantes de deus na Terra, ou seja, os detentores do poder soberano.

Hoje em dia tudo mudou. Esta é uma mudança bárbara e cruel e muitos ainda não a entendem. Atravessa tudo, na Europa. E apenas um pouco menos no resto do Mundo, e apenas porque os detentores do tal poder soberano nunca arriaram as calças como o gaspar. Um tudo nada, sim. Até aos calcanhares, nem pensar! Nós portugueses somos vítimas, sobretudo porque não compreendemos o que se passa. Vejamos um exemplo que, aparentemente, não tem nada a ver com criação monetária.

Nunca achei Daniel Oliveira um pensador muito importante. Atento, sim, empenhado, sempre, mas não particularmente interessante. Com aquela frase inicial, dum artigo já amplamente (des)comentado, parece no entanto, ter tocado em algo de profundo (sem que o próprio se tenha dado conta, quer-me parecer). Mas vejamos aquela coisa desagradável, que dá pelo nome de factos, e que só preocupa quem se preocupar com a possibilidade de estar errado. É que aquela referência a "Obama um tipo decente" fez-me despertar qualquer coisa na memória, e, veja-se, a minha não estava completamente errada: o post com aquele exacto título foi publicado no 'Arrastão' a 1 de Março de 2007; no primeiro dia, do terceiro mês, do sétimo ano do segundo milénio da nossa era. Naquela altura, Barack Hussein Obama tinha já tornado pública a sua decisão de se candidatar, mas as primárias do partido democrático estavam ainda a mais de um ano de distância, e as eleições presidenciais americanas, de 2008, a mais de dezoito meses de distância.

Dezoito meses! Nem um burro demora tanto tempo para nascer; só mesmo um castendo. Naquela altura, não só Barack Obama não era presidente dos Estados Unidos, como muito poucos seriam aqueles que acreditassem que alguém, com aquele nome, alguma vez o pudesse ser.

Erros, todos os cometemos. Este erro, em particular, tem apenas o interesse de nos remeter para aquele 'algo mais profundo' a que aludi no início. A esta distância, o tal burro, já nem mamão é. Mas o PCP, esse é um assunto incontornável da realidade portuguesa, talvez o único partido político genuinamente português, que existe neste país.

E o PCP move-se. Devagar, devagarinho, que aquilo não é gente para atitudes de sopetão. Nada de piadas alentejanas, acontece apenas que quem quiser 'lêr o PCP' não pode ser dado à ansiedade. Ora, se o assunto fosse, sei lá, o futuro europeu do FCP, eu não estaria a escrever estas linhas. O assunto não me interessaria, nem a proverbial ponta dum chavelho.

Mas como o assunto é o meu País, e como não acredito, não vejo como alguma vez poderá existir um governo de esquerda que não inclua os comunistas portugueses, este é um assunto meu. Luz ao fundo do túnel, só se dermos uma cabeçada na parede e começarmos a ver luzinhas. Nada!

Já tentei (e não foi uma vez nem duas) lançar o debate sobre as causas reais da crise profunda que a todos nos tolhe. A ausência de resultados só poderia desmotivar alguém menos teimoso do que eu, por isso, vou tentar mais uma vez; com ainda outro ângulo sobre a realidade: será que a chamada "banca islâmica" (e a sua prática) é relevante para a situação actual, e para a sua resolução?

A minha resposta pessoal — e é apenas um ponto de partida — é NÃO! A analogia com o PCP é tudo menos meramente situacional; ambas as abordagens revelam uma sabedoria profunda. Acontece apenas que essa sabedoria se perde no ritual, nos epifenómenos duma época que não é a nossa e já não existe. Ambas as abordagens acabam por não fazer mais do que levantar o cú para o ar e afirmar "Allah u-Akbar!". Uns numa direcção, outros noutra; uns numa língua, outros noutra. Tão rigorosamente inúteis uns como os outros.

E contudo, aquela sabedoria profunda continua a ser essencial. Porque a esquecemos, voltámos, mais uma vez, a condenar-nos a reviver as mesmas situações. Como de costume, mais uma vez, com um carácter de farsa. Não menos trágica por isso.

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publicado às 21:59

As últimas eleições americanas tiveram dois vencedores incontestáveis: um dá pelo nome improvável de Barack Hussein Obama, e muitos milhões, pelo Mundo fora, deram um grande suspiro de alívio. Eu incluído. Ficou tudo pelo alívio, mas convenhamos que não é lá muito realista esperar mais do Novo Mundo.

O outro vencedor, ainda mais incontestado e sobretudo, ainda mais improvável, foi um estatístico e blogger chamado Nate Silver. O seu blog — '538' é o número de grandes eleitores no colégio eleitoral que, em última análise, determina o vencedor — acertou em todos os cinquenta estados americanos. Até a Florida mudou do cor-de-rosa pálido dos Republicanos, para o azul-bebé dos Democratas, mesmo na véspera das eleições (e por isso não se reflectiu na previsão final).

Por cá..., bem, por cá, aquela ameba espongiforme e urticante, chamada passos, cita a sondagem do jornal i (outra coisa bem esquisita, diga-se de passagem) como sinal de apoio às suas políticas.

Acontece que o '538', em época de balanço publicou um resumo das sondagens utilizadas no seu modelo Bayesiano. Este é o resumo dos dados usados, ao longo dos meses.



Note-se que um qualquer método estatístico erra quando as suas previsões se afastam do resultado final; está enviesado (bias) quando esses erros se acumulam só num dos lados. O enviesamento da vasta maioria daquelas sondagens é, digamos, notório. O erro, puro e simples, de alguns dos maiores nomes do ramo, deveria ser suficiente para os convidar a dedicarem-se a outra actividade, sei lá, a agricultura hidropónica.

Acontece que os "estudos de opinião" são, hoje em dia, um dos mecanismos preferidos para assegurar a reprodução da narrativa dominante. O sucesso do '538' foi possível apenas porque o processo eleitoral americano gera uma quantidade enorme de informação. A lista a seguir é longa, mas inclui todas as fontes. Neste país, e na Europa em geral, o poder instalado joga na escassez. Não só, mas também, na escassez de informação.



Um dos aspectos mais notórios deste balanço, são os resultados muito bons do estreante Google. O seu método é radicalmente novo e, mais do que isso, é barato. Qualquer um o pode fazer, com custos mínimos. Eis um assunto ao qual vale a pena voltar.

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publicado às 17:01

Gera apenas crianças-homem; Pois não pode a tua natureza destemida compor outra coisa senão machos.

— Macbeth, Acto 1, Cena 7

Interrompi a tradução de O Plano de Chicago Revisitado no ponto em que os autores abordam o conceito essencial de usura. Todas as grandes religiões a condenam; a vasta maioria dos sistemas de poder, ao longo da História, foram suas vítimas, e, no entanto, os detentores daquele pilar do poder que nasce no cano duma espingarda, revelam-se, hoje, incapazes de o afrontar. Recorde-se que os autores rejeitam a definição simplista de usura como “a prática de juros excessivos”, e em vez disso definem-na como “tomar algo em troca de nada” pela utilização calculada do sistema monetário para obtenção de ganhos privados.

"Do ponto de vista histórico, este facto tem assumido duas formas. A primeira forma de usura é a apropriação privada do lucro gerado pelo dinheiro duma qualquer sociedade. O dinheiro privado tem que ser criado pelo empréstimo [pelo crédito], a uma taxa de juro maior do que zero, ao mesmo tempo que os detentores desse dinheiro, devido aos benefícios não-pecuniários da sua liquidez, se contentam em receber uma pequena retribuição, ou mesmo nenhuma.

Portanto, enquanto que parte da diferença entre juros passivos e activos fica a dever-se a uma remuneração do risco, outra parte maior fica a dever-se aos benefícios gerados pelos serviços de liquidez [usar uma ATM, por exemplo, em vez de guardar o dinheiro debaixo do colchão]. Este é um privilégio que, devido aos seus enormes benefícios, é muitas vezes originado por comportamentos rentários intensos. Zarlenga (2002) documenta este facto em múltiplos episódios históricos. Voltaremos a este assunto, a diferença [spread (??!)] entes taxas de juros activas e passivas, ao calibrarmos o nosso modelo teórico.

A segunda forma de usura é a capacidade dos criadores privados de dinheiro, de manipularem a sua oferta para benefício próprio, criando uma abundância de crédito em tempos de expansão económica, logo de bons preços das mercadorias, seguida duma contracção do crédito, logo da oferta de dinheiro, em tempos de baixos preços das mercadorias. Um exemplo típico é o ciclo das colheitas, nas sociedades agrárias antigas, mas Zarlenga (2002), Del Mar (1895), bem como os exemplos citados nessas obras, contêm numerosos outros exemplos em que este mecanismo é detalhado. De forma repetida, conduziu à falência de devedores, apropriação de bens dados como garantia, e, em consequência, à concentração de riqueza nas mãos dos credores. Do ponto de vista macroeconómico, tem pouca importância que estes factos sejam o resultado de uma manipulação maliciosa, ou que sejam uma característica inerente dos sistemas [monetários] baseados na criação privada de dinheiro. Também regressaremos a este ponto, no nosso modelo teórico.

Uma discussão extensiva das crises geradas pela dívida excessiva, pode ser encontrada em Hudson e van der Mierop (2002). Foi esta experiência, adquirida ao longo de milénios, que levou à proibição da usura e/ou ao perdão periódico das dívidas, nos textos sagrados das religiões do Médio-Oriente. A mais antiga dessas crises, na História grega, deu origem às reformas de Sólon, em 599 AC, as quais foram uma resposta à crise severa dos pequenos agricultores, em resultado da emissão de moeda metálica com juros, por uma oligarquia rica. É extremamente esclarecedor compreender que, nestes tempos antigos, as reformas de Sólon já continham aquilo a que Henry Simons (1948), um dos principais proponentes do Plano de Chicago, se referiria como “sociedade financeiramente de bem”. Em primeiro lugar, ocorreu um cancelamento generalizado de dívidas, e a restituição de terras que tinham sido confiscadas pelos credores. Em segundo lugar, os produtos agrícolas foram monetizados, pela introdução de preços mínimos oficiais. Visto que a fonte dos meios de pagamento dos devedores agrícolas era o valor dos seus produtos, esta prática transformou a finança da dívida em finança de bens intangíveis. Em terceiro lugar, Sólon disponibilizou uma quantidade muito maior de moeda emitida pelo governo, logo, isenta de dívida, o que reduziu a necessidade de contrair dívida privada. As reformas de Sólon foram de tal forma bem sucedidas, que, 150 anos depois, a República Romana enviou uma delegação à Grécia para as estudar. Tornaram-se a a base para o sistema monetário da República a partir de 454 AC (Lex Aternia), até ao tempo das Guerras Púnicas (Peruzzi, 1985).

Foi também por esta altura que se estabeleceu uma ligação entre as ideias antigas a respeito da natureza do dinheiro e as suas interpretações mais modernas. Isto aconteceu através dos ensinamentos de Aristóteles, os quais tiveram uma influência profunda no pensamento ocidental. Em Ética, Aristóteles afirma claramente a natureza pública/institucional do dinheiro, e rejeita qualquer visão baseada na troca de mercadorias a granel, ao dizer que “ O dinheiro existe não pela Natureza, mas pela Lei”. Os Diálogos de Platão contêm conceitos similares (Jowett, 1939). Esta visão reflectia-se em muitos dos sistemas monetários dessa época, os quais, ao contrário do que afirma uma crença popular entre historiadores monetários, eram baseados em moeda fiduciária emitida pelo Estado e não em dinheiros baseados em mercadorias. Exemplos destes factos incluem o extremamente bem-sucedido sistema monetário de Esparta (circa 750-415 AC), introduzido por Lycurgus, o qual se baseava em discos de ferro, de valor intrínseco baixo, o sistema Ateniense de 390-350 AC, baseado em moedas de cobre e, mais importante ainda, o sistema Romano (circa 700-150 AC), o qual era baseado em placas de bronze e mais tarde em moedas do mesmo material, o qual tinha um valor metálico muito inferior ao seu valor facial.

Muitos historiadores (Del Mar 1895) atribuíram parcialmente o colapso da República Romana ao aparecimento de uma plutocracia que acumulou uma riqueza privada imensa, às custas dos cidadãos em geral. A sua ascenção foi facilitada pela introdução de moedas de prata, de emissão privada, e mais tarde também de moedas de outro, a preços que excediam largamente o seu valor como mercadoria, isto durante o período de emergência criado pelas Guerras Púnicas. Com o colapso de Roma, muito do conhecimento e experiência monetária perdeu-se, no Ocidente. Mas os ensinamentos de Aristóteles permaneceram importantes, pela sua influência nos pensadores escolásticos, em particular S. Tomás de Aquino (1225-1274). Esta é, em parte, a razão pela qual, até à Revolução Industrial, o controlo monetário, no Ocidente, permaneceu nas mãos do Governo, ou da Igreja, e permaneceu inseparável da soberania, em todas as sociedades envolvidas. Contudo, isto iria mudar, e as origens da mudança podem ser ligadas ao aparecimento da banca privada, após a queda de Bizâncio, [4ª Cruzada] em 1204, com governantes progressivamente mais dependentes de empréstimos privados, para financiarem guerras. Contudo, o controlo monetário fundamental, permaneceu em mãos soberanas durante mais alguns séculos. O Banco de Amesterdão (1609-1820) ainda era propriedade do Estado, e mantinha um total de 100% de reservas dos depósitos dos seus clientes. E o julgamento dos 'Dinheiros da Irlanda' (1601) confirmou o direito do soberano a emitir moeda metálica sem valor intrínseco, como promissória de valor, legalmente válida. Foi o decreto britânico da 'Livre Emissão de Moeda', de 1666, juntamente com a fundação do Banco de Inglaterra, de carácter privado, que estabeleceu o precedente do abandono por um soberano, do controlo monetário. Os séculos seguintes oferecem amplas perspectivas para a comparação dos resultados da emissão privada e pública de dinheiro.

Os resultados [desta mudança], para o Reino Unido, são particularmente claros. Shaw (1896) examinou os registo para os diferentes monarcas ingleses, e estabeleceu que, com uma excepção (Henrique VIII), o rei sempre usou a sua prerrogativa soberana de criação de moeda, para beneficio da nação, sem crises financeiras de nota. Por outro lado, Del Mar (1895) estabeleceu que o decreto da 'Livre Emissão de Moeda' gerou uma sucessão de pânicos comerciais e desastres financeiros, completamente desconhecidos até então, e que entre 1694 e 1890 [data da nacionalização do Banco de Inglaterra], nunca houve nenhum período de 25 anos sem uma crise financeira em Inglaterra.
"


Este último parágrafo deveria funcionar como um soco no meio da cara para todos aqueles que continuam a acreditar que o dinheiro existe no análogo a um vasto lençol subterrâneo de petróleo, e que os seus donos têm toda a legitimidade para o emprestarem — ou o negarem (!) — a seu bel-prazer. São ainda uma infeliz maioria, não menos maioritária do que aquela que, durante milénios, acreditou ser a Terra o centro do Universo. A grande diferença, é que as crenças geocêntricas raramente causavam vítimas; esta crença continua a ferir e a tolher a maioria de entre nós. Os gaspares deste Mundo, devem sentir aquele frenesim que Macbeth sentiu ao interiorizar a possibilidade de levar a cabo, impunemente, o assassinato do rei da Escócia. O que os gaspares esquecem, é a outra face da moeda, contida na previsão das três bruxas: "Nada te ameaçará, enquanto a floresta de Birnam não se erguer e marchar para o castelo de Dunsinane."

Os soldados do exército revoltoso cortaram ramos de pinheiro na floresta, para ocultarem o seu número e aterrorizarem os defensores da desordem vigente. A floresta ergueu-se. Vai voltar a erguer-se, quando o sofrimento das vítimas ultrapassar algum limiar insustentável. Não sei quanto tempo mais vai demorar, porque não sei onde está aquela linha do (in)suportável. Formulo apenas um voto: Desta vez, cravos, só no fim!

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publicado às 20:26

Se há imagens que valem por mil palavras, esta que se segue, deveria ter um efeito semelhante ao de um estalo na cara. O gasparídeo que temos prepara-se para gastar, durante o ano de 2013, 70 euros e 48 cêntimos em cada 100, no serviço da dívida pública. Os dados são cortesia do Jornal de Negócios, mas não acho, na minha humilde opinião, que coloquem o facto na sua perspectiva real.

Por isso, usei aqueles dados para fazer o graficozinho que se segue. É impressionante como perante aquela montanha de mais de 120 biliões — e é assim que a Grand Larousse indica que devem ser designadas quantidades de 10 levantado a 9, no âmbito da Notação Latina Clássica — até os poucos biliões da Segurança Social e da Educação, fazem figura de amendoins, na sombra duma sequóia.

Perante factos como estes, a reacção humana razoável, consiste em tentar perceber como chegámos a este ponto. No entanto, existe a tentação muito humana de apontar o dedo ao alvo mais fácil de apontar, exactamente como, perante um motor de combustão interna que gripou, existe a tentação de apontar o dedo ao condutor que não terá verificado o nível de óleo no cárter. Será que o fez? A discussão pode tornar-se longa e, sobretudo, bizantina. Muito mais importante é perceber porque é que os motores precisam de lubrificantes e como é que a resposta a essa necessidade evoluiu ao longo do tempo.



"O historiador Alexander Del Mar (1895) escreveu: “Por via de regra, os economistas políticos não se dão ao trabalho de estudar a História do Dinheiro; é muito mais fácil imaginá-lo e deduzir os seus princípios a partir deste conhecimento imaginário.” Del Mar escreveu [esta frase] há mais de um século, mas a afirmação ainda se aplica hoje em dia. Um exemplo excelente deste facto é a explicação dos compêndios económicos, de acordo com os quais, o dinheiro apareceu em transacções privadas, para responder às necessidades convergentes da procura e da troca de bens.

Tal como é mostrado em Graeber (2011), com base em evidência de carácter antropológico e histórico, não existe sombra de provas que suportem esta narrativa. A permuta de bens era virtualmente inexistente nas sociedades primitivas, e, pelo contrário, as primeiras transacções comerciais tiveram lugar no âmbito de sistemas de crédito elaborados; e os muito posteriores sistemas monetários, tiveram origem nas necessidades do estado (Redgeway 1892), de instituições religiosas (Einzig 1966), (Laum 1924), ou de cerimoniais sociais (Quiggin 1949), e não na necessidade criada por relações de troca comercial privadas.

Qualquer debate a respeito das origens do dinheiro, transcende o domínio do interesse académico, porque conduz directamente a uma discussão a respeito da natureza do dinheiro, a qual, por sua vez, tem uma importância crítica na discussão a respeito de quem deve controlar a emissão de dinheiro. Em particular, a narrativa da origem do dinheiro nas transacções entre particulares, iniciada, no mínimo com Adam Smith (1776), tem sido usada como argumento a favor da emissão e controlo privados da emissão de dinheiro. Até há poucos anos, esta tinha assumido a forma de cunhagem privada de moedas a partir de lingotes metálicos. Embora possa existir, por vezes, envolvimento intenso do estado nestas operações, o facto é que, na prática, os metais preciosos sempre se acumularam na posse de privados, os quais os emprestavam a troco de juros.

Desde o século XIII, este sistema baseado em metais preciosos, foi acompanhado na Europa, e depois suplantado, pela emissão de dinheiro bancário privado, mais adequadamente designado por crédito. Por outro lado, a narrativa histórica e antropologicamente correcta a respeito das origens institucionais do dinheiro, é um dos argumentos a favor do monopólio do Estado de Direito sobre a emissão de dinheiro. Na prática, este estado de coisas assumiu a forma, no passado, de emissão de notas e moedas isentas de juros, embora possa também assumir a forma de depósitos electrónicos.

Existe um outro assunto que tende a gerar confusão, normalmente sob a forma da discussão entre “dinheiro real”, isto é, garantido por metais preciosos, e o dinheiro fiduciário. Tal como documentado em Zarlenga (2002), este debate é essencialmente uma digressão, pois mesmo durante períodos históricos baseados em metais preciosos, a principal razão para o alto valor desses metais resultava do seu papel como dinheiro, resultante da ordem legal vigente, e não das qualidades intrínsecas desses metais. Este assunto é particularmente confuso em Adam Smith (obra citada), que assume uma perspectiva primitiva do dinheiro como mercadoria a granel, apesar do facto de, no seu tempo, o então privado Banco de Inglaterra ter já há muito iniciado a produção de dinheiro fiduciário, cujo valor não tinha qualquer relação com os custos de produção dos metais preciosos. Mais importante ainda, como Adam Smith decerto sabia, tanto o Banco de Inglaterra como outros Bancos privados, criavam contas de depósito para clientes de operações de crédito, que não tinham efectuado qualquer depósito em moedas (ou sequer em notas emitidas por esses bancos).

O debate histórico a respeito da natureza e controlo do dinheiro, é o assunto de Zarlenga (2002), trabalho magistral que traça o debate até à Mesopotâmia antiga, à Grécia e a Roma. Tal como Graeber (2011), ele mostra como a emissão privada de dinheiro levou repetidamente a problemas sociais de grande monta, através da História registada, devido à usura associada a dívidas privadas. Zarlenga não adopta a perspectiva comum de usura como a prática de “juros excessivos”, mas sim como a forma de “tomar algo em troca de nada”, pelo mau uso deliberado do sistema monetário, para gerar ganhos privados."


Este texto é traduzido de O Plano de Chicago Revisitado. Decidi interromper a tradução neste ponto, por motivos de tempo e espaço, mas também porque a secção que se segue é provavelmente a que tem uma importância mais crítica, no que à narrativa (ainda) dominante diz respeito. A vasta maioria das pessoas continua, obstinadamente, a verificar aquela rejeição da evidência de que John Kenneth Galbraith falou. Voltarei ao assunto em breve. Entretanto, espero que, em sentido figurado, todos nós possamos regressar a Chicago.



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publicado às 00:03


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