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Essência da Subtracção

por Luiz Antunes, em 15.09.10

 

Nos últimos anos continua-se a assistir a um fenómeno de rejeição, do ponto de vista moral e estético, sobre a disciplina e rigor; parece que os criadores nacionais continuam a disparar numa guerra já extinta, na tentativa de libertar os corpos dos espartilhos que os encerravam, rompendo todas as normas que governavam a dança.

Esta “estética da recusa” foi postulada pela coreografa norte americana Yvonne Rainer, em 1965 aquando da escrita do seu texto-manifesto em que afirmava: “NÂO ao espectáculo, não ao virtuosismo, não às transformações e à magia e ao uso de truques, não ao “glamour” e à transcendência da imagem da star, não ao heroísmo, não ao anti – heroísmo, não às imaginárias de pechisbeque, não ao comprometimento do bailarino ou do espectador, não ao estilo, não às maneiras afectadas, não à sedução do espectador graças aos estratagemas do bailarino, não à excentricidade, não ao facto de alguém se mover ou se fazer mover”. Mais de quatro décadas passadas, a criação actual parece ainda viver à sombra destas inúmeras recusas – trazidas para Portugal pela geração da Nova Dança (João Fiadeiro, Vera Mantero, Francisco Camacho, etc) tendo sido fundamentais para a evolução/revolução da dança teatral no nosso país – não tolerando uma inversão salutar deste postulado tão datado.

Yvonne Rainner no seu manifesto acaba por recusar a própria dança na frase final “não ao facto de alguém se mover ou se fazer mover”, tendo dito mais tarde que não tinha tido bem a consciência do que tinha afirmado. Mas o sentido parece ser claro: por exemplo, Marcel Duchamp na arte pictórica expôs um objecto cru (um urinol), o ready-made , um objecto paradoxal, simultaneamente artístico e não artístico, representando o despojamento da forma artística; melhor: extraindo da pintura tudo o que lhe não pertence, mostrando que o que se designa por “objecto de arte” não é mais que um conjunto de convenções, tudo é possível de ser transformado num objecto artístico.

A coreografa americana parece ter feito um paralelo, mas indo mais longe que Duchamp, que nunca deixou a ambiguidade do ready-made nunca afirmando “o fim da arte”; Depois de ter recusado todos os elementos que considerava exteriores à dança, não que a sua intenção fosse propor “o fim da dança”, Yvone Rainner viu-se enleada no seu próprio enunciado de recusa absoluta.

Mas em matéria de arte não existe revolução das formas se as posições tomadas não forem absolutas; No fundo “o fim da dança” não era mais que um processo de negação das técnicas, formas e conteúdos, actuando como um principio regulador de um novo movimento progressivo de transformação da “antiga dança”; se o acto de questionar já era de alguma maneira a génese do acto criativo, assume uma força redobrada.

A dança teatral terrivelmente cortante na sua essência devoradora e absoluta interroga-nos constantemente; hoje parece que o questionamento assumiu uma força tal que se sobrepôs à própria resposta, a questão surge como um objecto paradoxal, perdendo o discurso uma linha coerente no sentido da discussão, pois não existem pontos de vista, apenas perguntas, por vezes sem qualquer género de análise ou tratamento. O produto passa a ser a metodologia, o próprio espectáculo. O excesso de questionamento leva à inércia dos corpos. Quando o movimento surge, completamente justificado pelo brilhante acto da pergunta, aparece por si; a dramaturgia é imóvel, as obras parece que já não necessitam falar por si, mas que falem por elas. A realidade trazida para cena acaba por ser mais distante que os contos de fadas, no fundo são contos de fadas mas imperceptíveis, pois o postulado dos corpos reais e desnudos de tudo são distantes e ausentes. No tempo da transdisciplinariedade o conteúdo perdeu-se em detrimento da categorização da obra.

Os excessos por vezes são perigosos e este parece ser barroco mas com formato sneakers minimal.

É urgente “escutar a nossa própria época”, entrar em zonas de risco, devir, reformular e criar uma nova ideia do que são “os conceitos disciplinares e da tradução contemporânea de expressões artísticas multíplices”, sem se ficar preso a postulados datados e assumindo-os constantemente como contemporâneos.

in A23

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publicado às 09:30


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