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Post-Democracia

por Licínio Nunes, em 12.06.13
Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo! Uma mãe-solteira do estado americano do Utah, conseguiu recentemente vender a sua testa (!), recebendo USD $10 000 por fazer uma tatuagem permanente, publicitando um casino online; as tatuagens temporárias valem menos, para quem estiver interessado. Em algumas cidades da Califórnia, os presos (por crimes não violentos) podem pagar $90 por noite, em troca do privilégio de terem uma cela individual, calma e confortável, sem que os presos não-pagantes os incomodem. Por USD $7 500, qualquer um se pode oferecer para testar novos produtos farmacêuticos, com o preço final dependendo dos efeitos do produto e do desconforto previsível do teste. Ainda não se podem comprar crianças, mas já é possível alugar o útero duma mulher indiana por $8 000. Porquê parar? Se alguém se disponibilizar para ser um escravo temporário (digamos, por 14 anos, como no Velho Testamento), não terá grandes dificuldades em encontrar empresas online, dispostas a disponibilizar o produto nos mercados adequados; a troco de uma comissão adequada, claro, mas é assim que o mercado funciona. É assim que se implementa aquele princípio sacrossanto da liberdade de contrato, que Adam Smith e os seus fiéis todos os dias juram defender. Em nome do progresso, pois com certeza.



O filósofo americano Michael Sandel faz-nos estas e outras perguntas da forma mais directa: O Que É Que Não Está À Venda? No fim de contas, todos aqueles exemplos (e muitos outros), mais não são do que o exercício daquela liberdade essencial. Num ponto qualquer do caminho, deixámos de ser Economias de Mercado para nos transformarmos em Sociedades de Mercado. E o facto simples, é que ninguém o fez por nós, fomos nós cidadãos do tal "mundo livre" que o fizemos. Foram os cidadãos americanos que elegeram livremente um actor de telenovelas chamado Ronald Reagan; foram os cidadãos britânicos que elegeram livremente a bruxa má do Oeste. Fomos nós, o colectivo dos cidadãos eleitores de Portugal, que elegemos o único fulano que eu conheça, que começou a trabalhar aos 37 anos. O autor diz-nos que está mais do que na hora de nós todos, os ainda-soberanos, decidirmos colectivamente quais são os limites do mercado.

Talvez o aviso venha demasiado tarde. Os gregos acordaram hoje a pensar na Junta dos Coronéis, mas provavelmente a sua memória engana-os. No fim de contas, o actual parlamento grego tem toda a legitimidade para votar os Actos da Habilitação de Poderes que forem considerados necessários. O tal rapazola que começou a trabalhar mais tarde do que os filhos do sr. Kadahfi tem toda a legitimidade para pedir ao nosso parlamento que lhe habilite os dele. E o parlamento votará favoravelmente e o nosso presidente, a quem não devemos chamar palhaço promulgará. Bem-vindos então, aos dias da post-democracia. Não digam a ninguém "Nós não sabíamos", senão o fantasma da Marlene Dietrich vai atormentar as vossas noites. Aquilo que nos separa a todos do caos, é apenas a linha frágil dum piquete de greve grego.

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publicado às 20:45


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