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2013 será o que NÓS fizermos dele

por Rogério Costa Pereira, em 31.12.12

Quando há um ano exonerei 2011 (que já foi o que foi), não fazia a menor ideia do ano que se nos iria atravessar na garganta. Imaginava que seria muito mau. Mas não tanto como foi. E nunca um pedaço de caminho ficou tão bem demarcado como este ano que ora termina. No seu início, com a entrada em vigor do OE para 2012 (que foi rectificado para pior 3 ou 4 vezes), e no seu fim, com a promulgação do OE para 2013. Por um pulha que nos enfraquece e ensombra vai para três décadas. Que jurou a Constituição em que agora cospe. 2012 trouxe, e também pelo que atrás disse, a sombra do fascismo. Basta atentar no desdém com que um secretário do estado nos manda não ficar doentes. Não sentisse ele as costas quentes por essa sombra dos infernos e não ousaria.

Mas tudo começou bem antes. Com o medo.

Tudo começou com um país que se perdia. Que se perde. Que se perdeu sempre e que insiste em perder-nos. Onde insistimos em perder-nos. Ainda um dia destes lia o Dacosta, na narrativa Nascido no Estado Novo, dizer algo como, cito de memória: “Em oitocentos anos de história tivemos oitenta anos de liberdade.”

Isso, dizia ele, explica parte do que somos. Ou tudo. Somos o país, e agora já sou eu a falar, do “agarrem-me que eu vou-lhe aos cornos”. E enquanto o dizemos, colocamos os braços para trás para que alguém efectivamente nos agarre. Esperançados nisso mesmo. Eis a estátua que teríamos. Mulheres e homens parados no tempo, parados no lugar, vociferando ameaças que nunca concretizarão. De braços esticados para trás.

Quando é que isto avança? Como canta o Sérgio, “Só neste país É que se diz: Só neste país”. Só neste país, digo eu, é que se vai andando, ao invés de se andar. Uma espécie de país condor. Com dor aqui, com dor ali. Sem darmos conta que a única coisa que nos dói, que temos realmente partido, é o dedo com que os fortes apontam o caminho. O dedo que os fracos usam para apontar as dores imaginárias que garantem sentir, por dentro e por fora. Mas o único problema é estar partido, o indicador. O indica-dor.

Queremos passar por esta vida sem que a vida dê por nós. Não queremos incomodar ninguém, mas também não queremos ser incomodados. Essencialmente, não queremos ser, não queremos estar. Queremos que nos deixem em paz. Queremos a certeza de um talhão reservado no cemitério. Para usar depois de beber uns copos, de mandar umas quecas, de ter uns filhos, de usar umas gravatas e uns vestidos catitas, de tirar uns cursos. De mandar umas arrochadas atrás dos monitores e fazer de conta que ganhámos a imortalidade e depois um gajo morre e tem lá muita gente a dizer que éramos uns tipos porreiros, que não deixávamos nada por fazer, nada por dizer. Doesse a quem doesse. Mas raramente doeu a quem devia ter doído. A quem merecia ser magoado.

O problema é quando saímos para a rua e entramos na tal posição de que falo acima. Ou de bico calado. Porque “já não vale a pena”. Ou nem sequer saímos porque joga o Benfica ou porque nos dói muito num sítio qualquer que se calhar nem sequer temos. Mas dói.

Temos medo de pisar a relva. O rei manda não pisar a relva. E nós não pisamos, passamos ao lado. Vamos pelo caminho mais comprido, aquele que nos afasta do destino com que num assomo de coragem até ousámos sonhar. Mas não vale a pena, porra. Não vale a pena. Afinal, é só o nosso futuro, o futuro dos nossos filhos. É só isso. O nosso presente. E o nosso abúlico presente é o presente que deixamos para os nossos filhos, que, ensinados pela nossa sombra, deixarão prenda igual aos filhos deles.

E assim por diante, por uma história inteira de um país que nunca teve de coragem de o ser. Não fossem meia-dúzia de heróis e de visionários, nem nome este país teria. Restar-nos-iam umas cabeçadas na bola, com 22 macacos a correr atrás dela. E gritamos todos golo e chamamos nomes ao árbitro e vamos para a rua festejar e gozar com o que usa a outra camisola. Vamos festejar o quê, caralho? O facto de nos projectarmos nuns heróis de cuecas?

Não fossem alguns que ousaram pisar o risco. Achando…; achando letras e terras e pedras. Violando normas. De estilo e da praxe. Não fossem eles e merecíamos que um vento nos varresse para o quinto dos infernos. Por termos feito nada em prol do que podemos ser, do que poderíamos ter sido.

Não é estranho que alguns dos nossos maiores da literatura e das artes se tenham posto a andar antes do tempo, no momento em que eles decidiram. Foi Unamuno que nos chamou um país de suicidas. Penso que foi a Natália Correia que até quis fazer (ou fez mesmo) uma série de conferências ou algo que o valha dedicado a esses ilustres suicidados. Assim de repente, lembro-me do Mário Sá-Carneiro, do Antero, do Camilo. E, palavra puxa palavra, lembro-me desse eterno grupo jantante, como se lhe referia o Eça, os Vencidos da Vida, que para além do Eça, integrava o Ramalho, o Guerra Junqueiro, o Oliveira Martins e mais uns quantos (sem menosprezo para os ditos quantos; não os nomeio porque não estou para ir ver deles à net e fazer de conta que me lembro ou que sei o que não sei).

O nome, Vencidos da Vida, dizia mais ou menos ao que vinham. E vinham mesmo. Desiludidos, anunciando que renunciavam aos sonhos que os tinham feito mover. Porém, ironia, acabaram por entre todos e de uns para outros, ganhar ali alguma ilusão, para logo depois se voltarem a desiludir.

Mas essa desilusão, que só sente quem se ilude, sente-se doutra forma neste Portugal pós fim-de-mundo. Mas não é a mesma desilusão daqueles que atrás nomeei. Essa era uma ilusão de quem dizia Vamos! Mas olhava para trás e para os lados e via ninguém. A ilusão dos de hoje, passe a cruel generalização assente no meu olhar, é a ilusão dos que querem que tudo corra bem, nada fazendo por isso.   

Mas rezam, rezam muito. Somos um país de rezadores. Vamos a Fátima ao pé-coxinho e de joelhos para obter em troca um favor. E choramos muitos, muito… E quando vem o papa choramos ainda mais. E lá acabamos por fazer qualquer coisa pelo nosso desejo, mas depois os loiros vão para a senhora da oliveira ou para o ovni ou lá para que porra foi aquela que não aconteceu.

Lembro-me agora de uma história que conto ao meu filho; de um menino que tinha más notas e a quem apareceram génios, três, e cada um a seu tempo lhe concedeu um desejo, e o desejo desejado era sempre o mesmo. Ter boas notas. Que sim, menino. Mas que em contrapartida era necessário que fosse para casa e estudasse. E não é que as notas começaram a subir? E o menino convencido que era dos génios, não percebendo que era dele mesmo.

Não me apetece escrever mais. Este ano lutei e sinto que perdi todas as lutas, sem uma única excepção, falhei os objectivos imediatos que me moveram. Mas sabem que mais? Não me sinto derrotado. Sinto que ganhei algo. E não tenho vergonha de olhar nos olhos grandes do meu filho. Vou continuar a lutar, a dar a cara pelos que se sentam no sofá, incomodados e acomodados. Porque, dizem eles, “o que é que um tipo pode fazer?” E pelos que querendo, não podem. Que outras lutas já os mataram. Lutarei acima de tudo pelos filhos que pusemos no mundo e que não merecem a herança que nos querem obrigar a deixar-lhes. Sei que terei companhia, sei de quem tem peito para dar às balas que aí vêm. Não atrás de mim, mas ao meu lado. Que as lutas fazem-se de braço dado.

Ora termino. Este 2013 vem com letras atrás, OE, e com a pandilha que as pariu. Os meus votos são que as tiremos de lá. E os tiremos de lá. Creio que o Martim Silva, editor de Política do Expresso, tem razão no que dizia ainda há pouco num canal de informação (não sei em qual). E confesso que não tinha pensado nisso. O TC, ao contrário do que fez o ano passado, não vai mandar para 2014 o reajuste da ilegalidade. A parte inconstitucional do OE cairá este ano. Em Março ou Abril. A inevitável derrapagem na execução orçamental do primeiro trimestre, juntamente com o dinheiro que esta vilanagem vai ter de devolver ao povo roubado, vão obrigar a medidas de austeridade acrescidas. A coligação rebenta. Em Março ou Abril o governo cai. Haverá novas eleições. Se o PS ganhar o povo tem o que merece. Mais memorando. Outra música, a mesma letra.

Quer-se uma esquerda unida em 2013. Pelo futuro dos nossos filhos, pensem, PORRA! Por uma vez na puta da vida! PENSEM! Não tenham medo de ser felizes. Eu só tenho medo de uma coisa. De ter medo.

The laughing heart (Tom Waits reads a Charles Bukowski poem)

Bom ano! Façam por isso e acreditem que sim; que NÓS podemos!

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publicado às 16:22


Héróóóóis du máááár...

por Rogério Costa Pereira, em 11.11.11

Relvas

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publicado às 13:33


Estava a ver que não!

por Rogério Costa Pereira, em 11.11.11

Finalmente, a expressão "vontade inquebrantável" foi utilizada no Parlamento. Obrigado, Luís Montenegro. Vamos a eles, catano! (haja pachorra...)

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publicado às 13:13

"Um dia ele ainda te vai surpreender, vais ver. Tu não estás a par, não sabes da missa metade". Perdi a aposta; realmente, nem nos meus piores sonhos esperei algo assim. Este homem, seguro de nome, é a personificação do coxear político, do medo em geral e também do medo de honrar o partido do qual é secretário-geral presidente. Do medo de ser gente, apenas porque não quer ser igual à oposição grega (excelente referência). Eis pois refeita a União Nacional, nome escolhido por Salazar para o silêncio, que entendia que "partidos" eram sinónimos de partir.

À falta de partidos, esse excesso democrático, fica a Petição em defesa da democracia, da equidade e dos serviços públicos, que de seguida assino. Eis alguns dos actuais 1902 subscritores, tudo gente insana, que nada sabe de números, nem da importância que uma percentagem tem na nossa vida: Alfredo Barroso, Ana Benavente, André Freire, António Arnaut, António Costa Pinto, António Avelãs, Elísio Estanque, Eurico Figueiredo,Frei Bento Domingues, João Caupers, Jorge Miranda, Jorge Reis Novais, José Adelino Maltez, Marina Costa Lobo, Nuno Portas, Pedro Adão e Silva, Pedro Marques Lopes. Abaixo subscrevem, para além do mais: "Essas medidas, que comprimem brutalmente o nível de vida dos portugueses, são múltiplas: a eliminação dos subsídios de férias e de Natal dos servidores públicos e dos pensionistas, em 2012 e 2013; a eliminação das promoções e progressões na carreira, bem como o corte de salários (entre 5 e 10 por cento), apenas para a função pública (FP); o aumento de meia hora de trabalho diário para o sector privado; o brutal aumento da carga fiscal, sobretudo sobre consumidores e assalariados, ampliando o fosso de rendimentos entre capital e trabalho e as desigualdades sociais, num dos países mais desiguais da UE." 

«Brutal», «excessivo», «iníquo», «desproporcionado», «desrazoável», «gravíssimo», «punitivo», eis o Orçamento de Estado 2012. Não o subscrevam, caso queiram, aqui.

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publicado às 00:31


Os inSeguros (e o trabalho que me poupam, que está tudo dito)

por Rogério Costa Pereira, em 04.11.11

  • "(...) Sejamos claros: o que esta decisão mostra, preto no branco, é que este Partido Socialista como tal (não grande parte dos seus militantes, como é óbvio) saiu mesmo, esperemos que provisoriamente, do campo de batalha da esquerda, por muito condescendente que se seja na definição dos limites da mesma. Resta-lhe o terceiro lugar no pódio do arco da (tristíssima) governabilidade – lugar que até está livre, quem sabe se à sua espera (...)" [Joana Lopes]
  • "(...) Para mim tudo se resume a uma pergunta: este é um orçamento necessário ao país ou um ataque liberal a pretexto das dificuldades que atravessamos? Parece evidente que é o segundo caso e isso impede o PS de equacionar apoiá-lo. Assim sendo, o que está em causa é onde deve estar o PS, não é o IVA dos restaurantes. Deve o PS estar nos debates que aí vêm nos próximos anos à frente da oposição, como seu maior partido e maior partido da esquerda portuguesa? Ou, pelo contrário, caucionar pelo silêncio ou a discrição o dito ataque liberal? O instinto centrista do PS leva-o pelo segundo caminho e a abstenção no OE 2012. A intuição de liderança da esquerda leva-o pelo primeiro e impõe já o voto contra. Este é que e o verdadeiro momento de definição do que será o novo ciclo político do PS. (...) [Paulo Pedroso]
  • "(...) Estamos falados quanto a esta direcção do PS. António José Seguro faz ofício de corpo presente, quer dizer, vota nim - independentemente do conteúdo do documento e independentemente da atitude da maioria quanto ao debate da proposta. A politiquice sobrepõe-se à política. Política é contrastar propostas, bater-se por elas, aquilatar do mérito relativo de cada posição, argumentar, representar ideias alternativas. Politiquice é ficar pelo aspecto geral das coisas. Seguro fica pela politiquice quando entrega os pontos (diz o que vai votar) sem apresentar as suas alternativas, sem dizer o que quer. Será que, afinal, o PS não quer nada de diferente do que propõe o governo? Ou será que o PS não faz ideia nenhuma de como fazer diferente? Isso seria grave, porque a única maneira de não exilar a política para a rua é manter a política (a alternativa) a funcionar dentro das instituições. (...)" [Porfírio Silva]
  • "(...) Nada obriga o PS a caucionar medidas que extrapolam o compromisso assumido no Memorando de Entendimento com atroika. Sempre que as relações pessoais entre os dirigentes máximos do PS e do PSD se sobrepuseram aos interesses nacionais (como aconteceu com Guterres e Marcelo e acontece agora com Passos e Seguro), quem perde é o país, a democracia e o PS. Ao afirmar que a abstenção do PS representa «um voto a favor da viabilidade da continuação de Portugal na zona euro», argumento que por si só justifica o voto contra, Seguro ultrapassou a linha da decência. (...)" [Eduardo Pitta]

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publicado às 23:18


As razões e a razão, em cinco linhas

por António Leal Salvado, em 04.11.11

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publicado às 16:45


OE 2012 - versão áudio

por Rogério Costa Pereira, em 18.10.11

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publicado às 10:43

E o jornalista ficou-se? Ficou pois!

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publicado às 21:18


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