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Parabéns, Mia. Nunca ganharás o Nobel. Escreves bem demais. E, como se não bastasse, o teu pensar incomoda os não-pensantes. Mas essa cena dos prémios de literatura devia ser automática. Um gajo escrevia "A varanda do Frangipani" e pimba... Nobel. Talvez o da Paz, também, pelo teu estar e ser nesse teu Moçambique que agora resolveu ensandecer sem máscaras. Que a guerra, essa, nunca chegou a terminar. Em suma, como lutas em ambos os campos, é certo que não ganharás nem um nem outro. Ou não fosses tu um homem de Paz e de Letras. O da Literatura acabará um dia por ser ganho pelo Excel e o da Paz pelas agências de rating. Hoje em dia, não ganhar um Nobel é ganhar um Nobel. Já ganhaste os que interessam. E acima de tudo já ganhaste o que te interessa. Falta agora ganhar Moçambique. Boa sorte, Mia. "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos."


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publicado às 02:51


“Sozinho-me num canto”

por Rogério Costa Pereira, em 04.08.13

Mudo hábitos, seres e pareceres. Perante a ordem estuporada das coisas que me arrasava os sentidos, inquietei-me. Perguntei-me do errado que estava, e até do errado que era. E inquietei-me ainda mais. Que mudar o estar pode ser simplesmente complicado, mas mudar o ser ultrapassaria a hipocrisia, jogo que não aceitaria que me jogasse. Arrisquei. E parti em branco, pronto a aceitar o que a natureza me devolvesse. E igualmente pronto a agir em harmonia com esse reflexo.

Importava despir-me de vícios, despir-me de mim e olhar-me – e olhar o mundo – sem preconceitos ou prejuízos. Andei entre o sereno e o irritado. Entre o matado e o matador. Vi-me justo e reconheci-me injusto. Não fiz de tudo, mas palmilhei cada canto do meu ser. Vi-me ao espelho vezes sem conta e deixei que o espelho me devolvesse o reflexo mais vezes do que as que nele me vi.

Há coisas que demoram anos, há outras que demoram dias. Outras há, ainda, que não chegam a demorar − são o que são. Sempre assim foram e nem o homem as consegue mudar. É assim a natureza delas. São mas podiam Não Ser. Um olhar. Uma sombra. Um seguir em frente em vez de virar na primeira esquina. Um dia de chuva inesperado. Uma boleia com a pessoa certa. Ou com a pessoa errada. É o que é. E são normalmente estas coisas que acabam por nos moldar a vida. De forma decisiva e irrevogável – dou por mim homem que chegue para ainda ter um dicionário onde a palavra irrevogável não foi nem pode ser revogada.

Não têm donos, estas vozes. Não têm agenda – quem agenda um dia de chuva em pleno Verão? ou uma perna partida? E, no entanto, não há nada de tão definitivo na nossa agenda – na nossa vida − como o que não pode ser agendado.

Olhei para trás, para os lados, para baixo e para cima. Não olhei em frente uma única vez. Era hora de presentes e passados, não de coisa tão efémera como o futuro, que deixa de o ser a partir do momento em que o é. Planos fazem-se, desfazem-se e refazem-se. O Hoje em função do Ontem. E o futuro não passa de uma consequência do que disse agora e atrás. Do que cabe e não cabe na agenda. E, pobre, nunca chega a ser. Quando o futuro nasce, dá por si Presente. Ao primeiro olhar já é Passado.  

E por aqui andei, a olhar estes e aqueles caminhos que trilhei e que aos quarenta e um anos aqui me trouxeram. A este texto que esteve para não ser. E que tem a importância que tem. Nenhuma. Podia estar a fazer dezenas de coisas mais produtivas – a descansar os olhos na Estrela ou simplesmente a fechá-los.

Não pretendo fazer um balanço. Nem a mim mo devo, muito menos a esta página em branco. Mas estes dias foram dias de chuva no Verão. E continuarão a ser. E calha a ser agradável porque calha a estar calor. E apetece-me escrever. Este texto não foi agendado, pensado ou calculado. Apetece-me escrever. E apetece-me escrever apenas porque me apetece. Escrever. Esse apenas que por vezes me domina.

No que me respeita, e quem me conhece (decidi agora que vou publicar este texto) já o percebeu, o essencial do balanço já está feito e as conclusões tiradas. Mudar. Formalmente, umas coisitas (que nem sequer passarão nas palavras ditas sem olhos; coisas cá minhas). Substancialmente, na minha essência, no que me move aí a conversa é outra. Vou mudar, sim. A ponta de um corno.

Vou mudar nada.

Dou por mim torcido duma humildade tamanha que concedo que tudo o que sou faz parte de mim. Errado ou certo, é este o meu Ser. Paradoxalmente, esta opção pela destemperança de nada mudar é a certeza de que mudarei as vezes que forem necessárias para tornear os obstáculos que tentam impedir-me a essência.

Abomino o injusto mas sou-o demasiadas vezes. Nada mudará, neste ponto. Continuarei tentar ser mais justo a cada agir. Mas não cederei a nenhum tipo de pressão, não tatuarei um código de barras na testa, e, neste aspecto, nunca deixarei de dizer nunca ao inditoso “nunca digas nunca”. Direi sempre nunca ao que merece um redondo e bem torneado nunca.

Nunca me venderei. Serei fiel que nem um cão rafeiro (malvista palavra) aos meus Princípios. E nunca Princípio meu terá duas caras. Nunca vendi a minha palavra, dizendo outra. Nunca pisei uma mão que não merecesse ser pisada. Continuarei a Olhar de forma a que ninguém ouse chegar-se-me para me recadar instruções de como agir.

E continuarei a ser inadvertidamente injusto, sempre na esperança de o ser cada vez menos. Com a certeza de que abomino a perfeição e tenho paciência nenhuma para a dita – não acredito em fantasmas.

O título deste texto foi retirado de uma esquina de “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra”, de Mia Couto. Assim como dali roubo as frases com que quase termino esta coisa. Continuarei a lutar contra este vil “portador assintomático de vida” que nos quer matar os filhos. Lutarei a luta de Fulano Malta, na explicação que dela deu o padre Nunes a Mariano: "teu pai lutou para que fôssemos todos ricos, partilhando essa grande riqueza que é, simplesmente, não haver pobreza".

Esta foi uma semana em que andei de olhos fechados. “Certas coisas vemos melhor é com os olhos fechados”.     

E vi tanta coisa. Continuo vivo e agora respiro melhor. E afinei-me. Estou cada vez com pior feitio, graças a muito esforço e dedicação ao germe do dito. Isto do mau feitio tem uma certa piada; verdade-verdadinha tantas vezes repetida que o dito se virou como que às avessas e passou a desculpa de quem me usa como desculpa para não ser gente – há merdas que só se resolvem à bengalada.

Acima de tudo, continuo pai do Francisco e certo de que nunca serei estrangeiro em mim.

E agora voltem lá acima e ouçam a Compañera, do Patxi Andion. Critiquem-me o que quiserem e quanto quiserem. O jogo foi feito para ser jogado, não para nos jogar. Esta é a minha certeza. Assim como é certo que "sozinho-me num canto" é apenas um título indicativo de meia-dúzia de estares; nunca foi a minha realidade. Como ainda há dias disse a um rapazito, não luto apenas no tempo que o tempo me deixa livre. As coisas não se vão fazendo, fazem-se. E há tanta coisa para fazer! 

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publicado às 02:31


Poesia ao nascer do dia - Mia Couto - A Demora

por Luis Moreira, em 02.06.12
 O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de Mia Couto 

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publicado às 08:00

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de Mia Couto 

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publicado às 08:00


Poesia ao nascer do dia - Mia Couto - A Demora

por Luis Moreira, em 09.05.12
 O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de Mia Couto 
         
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Poesia ao nascer do dia - Mia Couto

por Luis Moreira, em 14.11.11
 
 
Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

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