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Hoje, a memória e a morte

por Rogério Costa Pereira, em 20.07.12

Hoje morreu um salazarista convicto.
Hoje morreu um homem que foi cúmplice na perseguição, agressão e detenção, pela PIDE e pela GNR, de estudantes durante a crise académica de 69. 
Hoje morreu um homem que, em 30 de Abril desse ano, ameaçou o país com as seguintes palavras "a ordem será restabelecida em Coimbra" (a ordem acabou por ser restabelecida, sim, mas no dia 25 de Abril de 1974).
Hoje morreu um homem que escreveu romances históricos. 
Já chorei muitas mortes este ano. 
Hoje não o farei.
Hoje morreu um homem.
Hoje não morreu a memória.

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publicado às 18:15


Do Paraíso

por António Leal Salvado, em 12.05.12

O trabalho era danado, que a gente aos 30 anos não pode dar negas - mas havia um prémio todas as noites. Uma imperial para fazer companhia e uma coca-cola para amaciar o sabor - e a seguir era o paraíso a dobrar. Os standards, as síncopas e os contratempos elevavam-nos até à porta - mas eu entrava, mesmo lá dentro do céu, era quando os manos Moreira abriam a jam. Sentava-me no meio dos timbalões etéreos e esperava que o miúdo arrancasse das teclas o mel todo que elas só lhe davam a ele - e bebíamo-lo todos pelos ouvidos. Vinham as minhas falsas entradas e era diferente o sorriso do Babá - a complacência dos manos parava-lhe no sorriso de homem prematuro. Prematuro. Mavioso como as colcheias - parar para quê? Parecia impossível que o meu deleite não fosse maior que o gozo dele! E a madrugada entrava sempre por aquele sonhar - dormia comigo, sozinho na cama de casal, o sorriso das notas do Babá.

Hoje é 25 anos depois. E hei-de adormecer menino, no meio de baquetas mágicas atrás do sorriso das teclas do Babá - aquele miúdo de olhar terno e profundo. E hei-de acordar desinfeliz - no paraíso que me ficou daquele homem imenso. Prematuro. Pela sua condição de génio.

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publicado às 01:58


A25A - RTP memória

por Luis Moreira, em 21.04.12

Por se considerar de interesse, divulgamos a informação que o Júlio Isidro nos transmitiu:

No dia 25 de Abril a RTP-Memória realiza uma emissão especial a começar às nove da manhã, com o título genérico "UM DIA DE LIBERDADE" e na qual serão transmitidas na íntegra as Galas "Vozes de Abril" de 2008, "Vozes que Abril abriu" de 2009 e "República de Abril" de 2010. Para além disso, são convidados para entrevistas que decorrem nos intervalos das galas, Joaquim Letria, João Gobern, Alice Vieira, Eduardo Gageiro, Batista Bastos, Luanda Cozetti e José Fanha. A linha temática das conversas é a Liberdade nas áreas de  actividade dos convidados, antes e depois da Revolução dos Cravos.

Cerca das 20 horas e a encerrar este dia de memória, será transmitido o documentário "A consciência de Abril - Melo Antunes".

Cordiais saudações

Vasco Lourenço

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publicado às 08:30

... de brandos costumes

por Miguel Cardoso, em 07.02.12

(imagem daqui)

 

Ainda se lembram da sentida declaração de pobreza do presidente Aníbal? Escrever hoje sobre isso quase se assemelha a fazer arqueologia ou exegese bíblica. Se a “espuma dos dias” de Boris Vian fosse um país, era Portugal, onde a memória não dura um bater de asas e o Q.I. dos naturais fica em suspenso no domingo-de-colocar-a-cruzinha-depois-da-missa. Ainda assim, chegou para meia-dúzia de entendedores, levados pelo impulso vai-não-vai da “tesão do mijo”, se apressar a hipotecar-lhe a carreira política. Assim, sem fazer por menos. Caramba, o homem vai a caminho dos 73 e já leva na testa um post-it amarelo a anunciar o has-been. Daqui para a frente, pouco mais que sofá, fatia de bolo-rei e chinelos ao xadrez em frente à Júlia Pinheiro, como bom e vigilante senador da nação. Como se ser desbocado tivesse implicações no que quer que seja. Só uma brisa que passa, a lusa indignação é coisa de dias e de usar no café para fazer peito aos amigos. Passa com uma boa noite de sono.

Entretanto, num país que parece outro mas é o mesmo, estou eu a ocupar o sofá e a coçar-me ao ouvir João Pereira Coutinho e José Manuel Fernandes, com a inteligência de fase lunar, curvada para minguante, que os caracteriza, a afirmar que, sim senhor, antes levar uns trocos e embalagens de arroz ao Presidente e à sua Maria em jeito de gozo e ir rindo, que fazer como os gregos e sair para a rua partir montras. Felizmente, dizem eles em uníssono, os portugueses, nós, eu, somos um povo de brandos costumes. Espartilham-nos num modo-de-ser inócuo como se de uma qualidade se tratasse… Aquilo a sair-lhes da boca e eu a ouvir: “papalvos”, “cornos mansos” e “coninhas”. Brandos costumes é bom, brandos costumes é bom, brandos costumes… Não, não te estou a sodomizar… Olhai além os lírios do campo… Brandos costumes é bom… Pronto, já está, estás a ver que não doeu nada! Era inevitável, tinha mesmo de ser, as pessoas não compreenderiam que fosse de outra forma… Toma lá outra coisa em que pensar, a tua equipa que não ganha, o Carnaval desmascarado, o (des)acordo ortográfico, a Ana Drago a vergastar um deboytado do PSD, o que seja, para teres assunto na pausa do café, desde que longe dos ouvidos do patrão-que-é-mais-ou-menos-primo-do-vereador-que-não-elegeste-mas-que-agora-é-presidente-porque-o-outro-foi-para-melhores-pastagens, ou ir derramando pelos blogues em jeito de lamber os tomates. Faz-te bem. É catártico. Tens de ir deitando cá para fora. Deita filho, deita, chama-me nomes agora, mas não te esqueças de vir pedir a bênção quando for lá à terra e de me colocares o catraio nos braços para a fotografia. E entretanto alombas com mais um aumento dos transportes, toca a ladrar, ok, já chega, senta, lindo menino, querias folgar mas quatro feriados já cá cantam, não sejas piegas, engole mais um aumento das taxas moderadoras, festinha no cachaço pelo bom comportamento, trabalha, trabalha, já não te lembras das portagens pois não? E nunca tiveste subsídio de Natal e de férias. Foi uma impressão que te deu.

E uma voz cá dentro, recalcada por décadas de domesticação a sussurrar a medo… “Porra, faz qualquer coisa, aponta, fixa tudo o que fazem, tudo o que dizem, tudo o que te tiram e te calam, não esqueças, aponta, faz uma lista… É importante recordar… que não te tirem a memória, o que tu és, o teu passado, o deles não começou há uma semana, aponta, lembra os outros… Porra, faz qualquer coisa, manifesta-te. COMO SE ADIANTASSE ALGUMA COISA, impõe aos gritos um super-ego amansado.

“Coninhas”? Eu? Do que é que estávamos a falar?


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publicado às 11:49


A «Solução Final» para a Crise

por Rogério Costa Pereira, em 12.10.11

Pegamos nos alemães (com excepção dos que escrevem nesta pegada), amarramo-los a cadeiras, mantemos-lhes os olhos abertos à força (com aquela geringonça que usaram no Alex da Laranja Mecânica) e é só obrigá-los a revisitar as seis primeiras décadas do século passado. Em fotografia (há umas que eles próprios tiraram e que não podem deixar de lhes ser exibidas), em filme, em prosa, em poesia, em música, em ensaio, em todo o tipo de narrativas históricas, económicas e sociais. Em plano Marshall, também, há que não esquecer.
No final, alguém que lhes diga que não nos estão a fazer favor nenhum. Que o resto do mundo, sim, lhes fez um favor. Ao deixar que se reerguessem e se reunissem. Que o resto da Europa, sim, lhes fez um favor, ao ser estúpida ao ponto de se deixar fazer novamente refém. E, no fim de tudo, soprar-lhes que eles continuam a precisar de nós; afinal, todos os países da Europa os têm como primeiro ou segundo maior fornecedor de bens de primeira, segunda e terceira necessidade. Fomos burros que nem portas, sim, e por isso somos bons clientes. E, ao contrário do que eles chegaram a pensar fazer aos judeus que sobrassem, não os mandámos a todos (aos boches, entenda-se) para Madagáscar. Nem tal nos passou pela cabeça.
Não!, os alemães não nos estão a fazer favor nenhum! Ao mundo, entenda-se. É preciso é estar sempre a alertá-los para isso, que são tipos de memória curta.
Dos franceses, a outra potência deste insólito novo Eixo — Eixo Franco-Alemão, que ironia desavergonhada —, falarei noutro dia. Mas não sem adiantar, desde já, que, para além de padecerem igualmente de problemas de memória, não têm um pingo de vergonha na cara. Nem de amor-próprio ou, se quiserem, de respeito pelo próprio passado.
Em suma, quando a fome se junta com a vontade de comer, tudo se esquece, tudo se apaga. É como se nada houvesse sido, tudo se passa como se a história tivesse começado ontem. Mas não começou, essa é que é essa. E aí é que a porca torce o rabo. Que não peça respeito quem não se dá ao respeito. Que não dê lições quem demonstre não ter aprendido as suas.

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publicado às 10:27

radiografia

por Isabel Moreira, em 17.11.10

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publicado às 16:26

 

Olhas-me nos olhos, em todas as manhãs de Sintra, e beijas-me agarrando com uma mão o meu queixo e com a outra a parte lateral da cara. Estás sentado. Nesse gesto de todos os dias, puxas-me para ti e, chamando-me "anjo", beijas-me com tanta força que no beijo do dia seguinte ainda tenho a cara marcada do beijo da véspera e a pele inundada do teu cheiro de alfazema.

Encontro-te sentado num banco de pedra gasto por décadas de mesmas escolhas e rezas com um papel na mão. Estás de costas e não me vês chegar, hesitante, querendo-te, sem querer interromper um momento que me pareceu de solidão programada. Sento-me a teu lado, não recordo que papéis partilhámos e falamos e, como sempre, me encantas com o poder encantatório da tua voz, que é toda alma.

Vou contigo à Vila e todos, os homens mais simples, para todos invisíveis, todos, mas todos, falam-te sem ser o cumprimento convencional; falam-te com entusiasmo porque tu entusiasmas e pareces viver num abraço contínuo com o mundo que te parece devolver o amor que lhe entregas. Todos confirmam o porquê de não me deixares jamais indiferente, porque és uma pessoa entre as pessoas, mas uma pessoa maior. Porque abraçando a natureza na tua fé quase panteísta ganhas no teu olhar e no teu movimento o verde das árvores e dos arbustos e os bailados climatéricos de tudo o que em teu redor de move. (Quase que uma lágrima tua se assemelha à queda outonal de uma folha dourada).

És imensamente bom. Se andamos pelo mundo à procura de pessoas boas, em ti encontramos a essência dessa bondade que se expande aos outros e ao Universo que a tua vista verde consegue abarcar.

Gostas que te escreva - tu que escreves maravilhosamente, amando sempre -, gostas que, na minha infantilidade, imagine as angústias dos habitantes de uma embarcação secular, engolidos pela fúria do mar, não me sendo possível redescobrir amores concretos perdidos, filhos que aqueles homens se afundando haveriam de evocar, solidariedades súbitas no momento de um fim simultâneo; gostas que te escreva num papel que molhava de café e queimava as extremidades, para que a realidade do meu imaginário fosse mais concreta.

Orgulhas-te. Fico feliz. Muito.

Passeias por caminhos que não sabia existirem e sabes que, naquele cantinho carcomido pelo musgo, resiste uma rocha porosa de uma beleza que só o teu olhar verde apreende. Passeias comigo e desembocamos no mar, que amas, na tua fé quase panteísta, e velhos pescadores chamam-te pelo teu nome. Vejo, dois passos atrás, que estas incursões tinham lugar antes do meu nascimento. Testemunho a tua beleza na relação com os outros. Amo-te, "meu anjo".

Descemos à praia, cedo demais para que, para além das nossas, visitem a areia gelada outras pegadas que não as das gaivotas. Deitas-te. Imito-te. Viro a cabeça para ti, para confirmar que continuas a fechar os olhos e a inalar a tua fé e a mexer na areia com as mãos agarradas aos braços estendidos, como os de Cristo. Experimento o mesmo. É intransmissível. (Mexerei na areia, deitada de braços estendidos, para o resto da minha vida).

Caminhas, olhando sempre. Parece que é o teu corpo que olha, porque naquele avistar das ondas de cabelos brancos de Deuses do Olimpo, os teus olhos são todo o teu corpo, toda a tua possibilidade. - Vamos? - dizes, sempre cedo demais. Tarde para ti, que tudo absorves com avidez.

Encontro-te avistando a serra, já de noite. Tens um copo na mão, que não é levado à boca, levado que estás pelo casamento das estrelas com as extremidades do Castelo. Tudo isto é belo. E tu estás integrado em tudo isto; só tu te integras na Natureza; nos aconteceres lunares; tu fazes parte. Nós - eu, naquele momento -  somos  intrusos.

Sorris. Iluminas-me, sorrindo.

Antes de partirmos para mais um Inverno, buscamos cadeiras e formamos uma linha humana, no local perfeito, e esperamos, de mãos dadas - calha que fico a teu lado - que a lua cheia espreite por detrás do vinco que separa as duas montanhas, que separa castelo e palácio, e que vá subindo aos céus esplendorosa, amarela, laranja e ao princípio verde - "vermelhanja".

Despedes-te dela e intuindo que é isso que o teu sorriso passivo faz, despedindo-nos nós de ti, meu amor.

És um ser extraordinário. O teu cão deu por isso e, por isso, observava o teu pequeno almoço de torradas com mel, confiante nos cantos de pão que lhe atiravas.

És um ser extraordinário, que sofreu muito, que muito fez sofrer, mas que na minha existência só denunciaste alegria e preocupação por Ela.

Recebo um telefonema e quem atende, o teu amor maior, diz que morreste. Não acredito, no meu choro explosivo, e não me preocupo com a tua morte, mas com a dificuldade em perceber há quanto tempo - e por quê tanto tempo -  que não estou contigo. Subo as escadas de madeira e arranho o cérebro, perguntando-lhe com urgência febril por que razão me parece que te não vejo há anos, se foi hoje que morreste. Não tenho memória de vésperas, o que me parece impossível se todos ou quase todos os dias te via e te amava e te retinha.

Acordo. Percebo então que não foi hoje que morreste mas há mais de dez anos. Mas foi hoje que morreste, meu, nosso, amor. E hoje, tal como há mais de dez anos, quando, com treze anos, alguém recebeu o telefonema real, não aceito que não te tenha visto na véspera.

Estivemos, porém, em vésperas próximas, daí que hoje, quando acreditei que morrias agora, não aceitasse a demolição dessa percepção de tempo próximo.

Morreste há mais de dez anos, mas continua a ser hoje que morreste.

Ficaste na Natureza que amavas: na lua cheia; no musgo; nas rochas; nas estrelas; nas sardas da tua filha. Ainda aparecem por ti.

Mexo na areia por ti.

Ainda cheiras a Alfazema.

 

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publicado às 21:06

Pudesse eu mudar de nome..

por Isabel Moreira, em 09.11.10

..para saudades.

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publicado às 15:31


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