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Para acabar de vez com o marxismo — Introdução

por Licínio Nunes, em 08.02.13
In the clearing stands a boxer and a fighter by his trade.
And he carries the reminders of every glove that laid him down,
Or cut him, 'till he cried out, in is anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving", but the fighter still remains.


— The boxer, Paul Simon

O que me levou a ler O Capital, foi a introdução escrita pelo autor (na edição que eu li). Os membros da Liga dos Comunistas achavam que aquela primeira parte, a Teoria do Valor, era demasiado difícil para os principais destinatários. Por aquela altura, os operários que sabiam ler (poucos), tinham aprendido à sua custa, em associações de auto-ajuda, algumas de inspiração religiosa — sobretudo em países de tradição protestante — outras simplesmente operárias; estavam a dar os primeiros e árduos passos no caminho do conhecimento. Serem submetidos a um assunto extremamente abstracto e, à primeira vista, sem grande relação com a respectiva experiência quotidiana, parecia a muitos um problema insuperável: "Camarada, não seria melhor omitir aquela primeira parte?"

Marx recusou. Não sei se ele conhecia Roger Bacon e o seu "O conhecimento é poder". O mais provável é que o conhecesse, mas se esse não foi o caso, reinventou-o. Aceitou que o problema elevava a sua própria fasquia de exigência, enquanto autor, por forma a tornar o assunto mais próximo do real tangível e mais perceptível, mas omiti-lo, nunca. Isso teria sido um insulto aos seus destinatários. Talvez tenha exagerado nos exemplos, fazendo que muitas partes nos apareçam hoje como datadas, mas aí, a verdadeira responsabilidade passa a assentar sobre os nossos ombros.

Contudo, o facto simples é que, enquanto corpo de pensamento, Marx está hoje em muito mau estado. Noam Chomsky afirmou que quaisquer palavras que terminem em 'ismo', ou em 'ista', pertencem à História da Religião, nunca à História da Ciência. A afirmação vai muito para além da crítica às formas de "socialismo real", presentes e sobretudo passadas, e entra directamente pela natureza última daquilo a que chamamos linguagem, mas não podia ser mais certeira.

O facto simples é que, por exemplo, se Sadi Carnot regressasse aos nossos dias, vindo dum qualquer Olimpo, apanharia um susto enorme, quando lhe dissesse-mos que o ciclo-limite de Carnot é a forma mais geral de descrever todas as transformações de energia, microcosmos incluído, e apenas com a excepção das condições que, por dizerem respeito a transformações directas de massa em energia, requerem uma generalização relativista. Não seria fácil, e sobretudo, não seria rápido, explicar ao autor original, a justeza do epónimo. Marx e Engels reconheceriam imediatamente a vasta maioria daquilo a que (ainda) chamamos marxismo.

Facto simples é também a necessidade. De uma economia centrada nos seus actores reais: nós; de sociedades capazes de albergarem e se enriquecerem com a enorme diversidade dos seres humanos; de civilizações capazes de darem aos nossos filhos aquilo que as do passado nos deram a nós próprios: um futuro, possível, primeiro, e humano, acima de tudo e que para que valha a pena.



É por isso que considero Marx indispensável, mas e que fique claro, um Marx suficientemente enriquecido para que o próprio tivesse já grandes dificuldades em o/se reconhecer, tal como Newton teria grande dificuldade em se reconhecer, por exemplo, quando falamos de quasi-Newton. Para isso, temos que perceber como chegámos ao 'ismo'. E aos 'istas', sem os quais nenhum sistema de crenças é possível.

Marx foi "vítima" de dois ingleses de finais do século XVIII e de um compatriota seu contemporâneo. Ele e muitos de nós, claro. Do primeiro desses ingleses, podemos dizer até, que os equívocos a que deu origem tiveram motivos nobres. Edward Gibbon é por muitos considerado o fundador da História moderna, mas a sua atitude de crítica cerrada a todas as formas de religião organizada, levaram-no a passar sobre o verdadeiro Império Romano como raposa por vinha vindimada; ao ler-mos Declínio e queda do Império Romano, somos facilmente levados a pensar que os gregos passaram quase mil e duzentos anos a discutir o sexo dos anjos. Gibbon acabou por ser um contributo inestimável para o paroquialismo da Europa ocidental — e das suas emanações neo-mundistas — do qual apenas nos começamos a libertar.

Quanto àquele outro alemão, do qual nenhum dos seus compatriotas, quer-me parecer, se conseguiu ainda hoje libertar, confesso que necessito de toda a artilharia pesada a que conseguir deitar mão. Pode ser dito que Hegel foi o "pai" de todos os totalitarismos modernos. Marx pensou ter resolvido o assunto ao embarcar na discussão, já de alguma forma estafada no seu tempo, a respeito do dualismo mente-corpo, idealismo vs. materialismo. Talvez a resolução de tão bacoca questão seja mais recente do que eu a faço, mas se tal é o caso, podemos dizer que essa resolução tem a assinatura de dois portugueses, Hanna e António Damásio, com a colaboração — totalmente involuntária — de um outro contemporâneo de Marx.

Quanto ao segundo daqueles ingleses, nada de bom consegue ser dito. Adam Smith é normalmente encarado como um pensador "suave". Pode-se concordar com ele ou discordar, mas muitos vêm-no como "um tipo simpático". Smith foi um mentiroso. Se Gibbon violou o seu próprio método histórico, na prossecução do seu objectivo favorito, Adam Smith mentiu para enganar e iludir os seus leitores. E o facto simples, é que Marx engoliu aquela trapaça do "dinheiro como mercadoria" por completo, isca, anzol e linha.

Marx é indispensável para que haja um futuro. Mas não é urgente, porque a agressão de que hoje somos alvos não é económica. É financeira, e é monetária. E é também algo que parecemos termo-nos tornado demasiado tímidos para articular. Se falar em fascismo parece hoje descredibilizar à partida o texto em que é referido, pois muito bem, falemos naquilo que realmente é e sempre foi: Peste! E que ninguém se iluda: esta agressão pode ter protagonistas menores com legenda de coisa humana, borges e relvas; merkels até. Tem um único nome e esse nome é Guerra. E nenhum de nós a escolheu, é-nos imposta. E é por isso que o caminho para a vencer tem uma fórmula segura, testada por mais de 2000 mil anos de História: "Conhece o teu inimigo e conhece-te a ti próprio; assim vencerás cem batalhas".



Este post é o início dum projecto de maior fôlego e de maior ambição; veremos se excessiva. Como todas as viagens, começa com um único passo. Mas começa também com o seu próprio testemunho, com a sua pegada. Nunca poderia ser dado em melhor local do que este.

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