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As Docinhas

por Licínio Nunes, em 07.12.13
"Não quero ser emotivo mas este é um dos grandes momentos da minha vida."
Nelson Mandela, a propósito do seu encontro com as Spice Girls

"Uffh! O preto já morreu"
Grande Líder Laranja, mestre em Docinhas


Cada país tem as suas Spice Girls, as nossas são as Docinhas e como todas, nunca conseguem perceber qualquer ironia. O meu primeiro contacto de ontem com as Docinhas, ocorreu na rtp, quando o Zé Manel, o inigualável, o único, verdadeiramente nosso, Durão, tirou os óculos com que tinha conseguido ver as provas da existência das armas de destruição em massa de Saddam, para permitir que uma maquilhagem lacrimosa debitasse por ele a primeira (para mim) eulogia de Nelson Mandela.



Muitas outras se seguiram, mas podem ser classificadas em duas grandes categorias: as outras e as Docinhas. Tal é o poder do Homem que, até na hora da morte, conseguiu expor o vazio absoluto destas últimas. Do João de Deus a meter os pés pelas mãos, com a, imagine-se, iniciativa de algum embaixador, na origem ao voto de Portugal na Assembleia Geral da ONU; do habitual Cavaco, sempre serventuário de todos os poderes percebidos, com a habitual vergonha na cara, de lesma, que tanto quanto eu sei nem cara têm. Do mestre em Docinhas da S. Caetano à Lapa que nem conseguia concluir o comentário, tantos eram os considerandos necessários para ocultar a sua reacção instintiva.

A respeito dos outros, muito haveria e haverá a dizer; talvez começar por notar que, morto, Nelson Mandela representa uma ameaça ainda maior do que vivo. Para já, fica o espectáculo inigualável das Docinhas. Há duas em falta, mas até ao funeral de estado ainda sobra tempo. Uma é a muito nossa Docinha do Caldas que, ou eu me distraí, ou ainda não aproveitou a oportunidade única para fazer o que faz melhor, isto é, exibir publicamente o seu cinismo. A outra, o Grande Prémio, a super-Spice, ocorrerá quando o George W. elogiar Mandela. Nesse dia, o Mundo rejubilará. Até lá, Ubuntu, Madiba!


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publicado às 16:09


Uma pergunta impertinente

por Licínio Nunes, em 06.03.13
Tinha jurado a mim mesmo que não iria escrever nada a respeito do falecimento de Hugo Chavez. Como estas juras se fazem para serem desrespeitadas, eis-me aqui a justificá-la com um argumento do mais elíptico que imaginar se pode; com uma única frase de um texto com o qual eu concordo, pelo menos em parte:

E a política simula sempre a religião - em vez da missa o comício, em vez do santo o mártir, em vez do altar o púlpito[...]

Realce meu. Mas, para que se perceba o realce, eis então a pergunta impertinente:

Como se chama aquela praça de Veneza, onde fica situada a catedral de S. Marcos?

Impertinente e mázinha que ela é! A única coisa que tenha a alegar em minha defesa, é que não é da minha lavra; foi formulada pelo filósofo americano Daniel Denett, num livro, em absoluto, a ler e a manter como referência. A resposta não podia ser mais simples: não fica, porque não existe nenhuma catedral de S. Marcos, em Veneza. Existe a basílica de S. Marcos uma das obras-primas mais antigas da arquitectura bizantina. E esta resposta, leva-nos directamente ao meu pretexto retorcido para, afinal, acabar por escrever a respeito de Hugo Chavez: santos e mártires, no original, significa rigorosamente o mesmo, sendo que a primeira palavra nos chega a partir da sua raiz latina, enquanto que a segunda nos chega pela sua raiz grega, a original; a Hagia Sofia do culto ortodoxo é rigorosamente a mesma Santa Sofia do panteão católico. A diferença real é histórica e tem um nome simples: hagiografia. Todos os historiadores concordam que Constantino se terá, de facto, convertido ao cristianismo, mas apenas nos últimos anos da sua vida; a sua adesão inicial foi estritamente política. No entanto, o cristianismo até aí, não tinha nada do necessário para ser viável como religião de massas. Como a necessidade é sempre a mãe mais fecunda da invenção, tudo foi inventado e, digamos, à pressão: uma nova arquitectura, uma nova pintura, uma nova iconografia. Contudo, nenhum culto é suficientemente impressionante sem heróis, e como Homero não estava disponível, era preciso caçar com..., gato, digamos. Eis a origem da História da vida dos mártires.

Os teólogos gregos aperceberam-se de que estavam a pisar terreno minado. Tomaram uma precaução simples: todos os mártires teriam que pertencer ao passado, já naquela altura. Pelas nossas bandas da parolice latina, aquela precaução passou despercebida, e o resultado pode ser dito ter sido o confuso politeísmo por decreto, que entre outros, nós portugueses, levámos a todo o Mundo. Ponto. E já não tenho mais como evitar o assunto.

Mal conheço a América do Sul e são terras que nunca me despertaram grande interesse. Acho que sempre alberguei a presunção arrogante de que o seu essencial podia ser encontrado, sem esforço físico, nas páginas de Neruda, de Marques e do Borges, claro. O único, o nosso, o Jorge Luís. Mas por isso também, sei que Hugo Chavez seria sempre um herói para o seu povo, apenas pela sua carreira de militar profissional. Por ser índio. E mais não seria necessário, num continente onde — basta ler Isabel Allende — ainda pelo início do século vinte, os latifundiários tinham o direito de pernada, que é como quem diz, o privilégio de provar as noivas dos seus empregados.

Mas isto não justifica o endeusamento, nem sequer a obra feita, porque aquilo que genuinamente define os heróis genuínos é o desapego ao poder. O Che vem-nos imediatamente à ideia. E, no entanto, Ernesto Guevara, até pela sua humildade, não é um bom contra-exemplo. Chamem-lhe o que quiserem, foi o proprio Hugo Chavez quem fez subir a fasquia da comparação. E o contra-exemplo nem nomeado precisa de ser.



O regozijo obsceno dos anti-chavistas não deve ser comentado, pois não há forma de tocar na merda sem nos sujarmos. Mas as esquerdas têm que parar de oferecer o flanco, sobretudo quando a agressão é mais selvagem. Se os heróis são essenciais, pois muito bem! Que o critério da sua escolha seja exigente, mas sobretudo, que seja coerente. Ainda vivo, Nelson Mandela é já património de toda a raça humana. Hugo Chavez será apenas aquilo que os seus sucessores forem capazes de fazer da Venezuela. Que o julgamento se faça.

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publicado às 21:58

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