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Mas que chatice, pah…!

por Licínio Nunes, em 06.02.14
O que será que transforma o assunto do aquecimento global numa espécie de «teste do papel de tornessol», que separa as pessoas de bem daquelas que o não são? Não faço ideia, porque, se alguém me perguntasse, começaria sempre por dizer que existem aqui assuntos com um elevado potencial de confusão. Comecemos pelo princípio, pois.


  • «Aumento de temperatura média» é uma das poucas formas humanamente inteligíveis para referir as quantidades astronómicas de energia envolvidas.

  • Muitas pessoas, ou quase todas, manifestam uma dificuldade real em se relacionarem com fenómenos que estão manifestamente muito longe da sua experiência quotidiana, sem que esta dificuldade as transforme em pessoas de mal.

  • Existem apenas três processos de transmissão de calor. Quando fazemos passar uma corrente de ar através do radiador dum automóvel, estamos a utilizar o mais lento e menos eficaz de entre eles: o processo de condução, que segue leis lineares entre paredes planas e leis logarítmicas entre paredes curvas; muito mais eficaz (e mais rápido), é o fenómeno que ocorre sempre que uma massa de qualquer fluído é sujeita a diferenciais de temperatura, ou seja o processo de convecção, que segue leis quadráticas; o processo de radiação segue leis quárticas e a transmissão de energia ocorre a uma muito elevada percentagem da velocidade da luz. Será que dá para começar a perceber porque é que a acção humana consegue perturbar e de forma muito rápida o equilíbrio entre a radiação incidente e a radiação rejeitada para o espaço?

  • A energia de um fotão é proporcional à quarta potência da temperatura absoluta do corpo emissor (daí o ponto anterior). 99% da atmosfera são moléculas simétricas, dois átomos de oxigénio, ou de azoto, unidos um ao outro por uma ligação covalente; estas moléculas são virtualmente transparentes em todas as bandas de energia.

  • Depois fica o 1% restante, uma parte do qual são as moléculas assimétricas, como o dióxido de carbono, responsáveis pelo efeito de estufa: são opticamente transparentes na banda do visível (alta energia - baixo comprimento de onda) e opacas à «radiação térmica», grosso modo, a partir dos 288 ºK (a temperatura média da superfície dos oceanos). A radiação de corpo negro resultante do aquecimento da superfície, das construções, do relevo, «não sai», literalmente.

  • Veja-se que, sem efeito de estufa, não existiria vida à superfície da Terra, porque a atmosfera seria um imenso lago de azoto líquido. Não é o «efeito de estufa» (que tem sempre que existir, com atmosferas como a terrestre) que está em causa; o que está em causa é o desequilíbrio induzido pela actividade humana. E este é o ponto em que o tal «teste do papel de tornessol» começa a actuar...

  • A Teoria do Corpo Negro Radiante permite-nos usar um vocabulário unificado, ou seja, uma qualquer emissão pode ser descrita pela temperatura absoluta do emissor. A luz visível anda entre os 3000 ºK da cromosfera e os 6000 ºK da fotoesfera; aquela radiação térmica começa abaixo dos 300 ºK (oceanos), prolonga-se pelos trezentos e poucos das massas verdes do planeta, até cerca dos 315 ºK (a temperatura corporal dos mamíferos superiores). Qual é a temperatura dos gases à saída do tubo de escape dum automóvel? Ou da chaminé duma fábrica?

  • Este é o ponto em que o Sherlock Holmes se recusou a aceitar o caso da antropogénese: «Caro Holmes, não há aqui mistério. O(s) culpado(s) deixam impressões digitais por tudo quanto é sítio...» Vamos resumir: não existe nenhuma fonte estacionária de radiação entre os 350 ºK e os 550 ºK, para além da actividade industrial humana.



Não gosto de muitas das abordagens deste assunto. A minha terá pelo menos tantos defeitos como aqueles que encontro em outras. Mas algo subsiste. Estamos a falar de energia; os vórtices polares são energia, as tempestades marítimas são energia, os ventos ciclónicos são energia. Ninguém (em seu perfeito juízo) disse que «aquecimento global» significa que as temperaturas reais vão aumentar este ou aquele valor. Logo, a partir de certo ponto, aquilo que fica não são confusões; isto NÃO é uma confusão: é uma pessoa de mal. E já agora, as moreias frontais dos glaciares que restam, no hemisfério Norte, estão neste momento a avançar. Depois, lá pela primavera, vai recomeçar o parto dos icebergs...

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publicado às 16:13


Para onde foram as flores?

por Licínio Nunes, em 24.06.13
Amanhã, 25 de Junho de 2013, o Homem Mais Poderoso do Mundo vai "apresentar a sua visão" a respeito das alterações climáticas e como as combater. Tenho dúvidas a respeito do poder concreto do tal "homem mais poderoso...", mas este é dos casos em que esse poder existe. O que ele irá dizer, pode oscilar entre a proverbial montanha que pare um rato, até a uma enorme cavacada — nada de insultar classes profissionais dignas.

Duvido que esta venha a ser a conclusão final. A escolha do local tem um peso simbólico muito grande, do lado de lá do Atlântico. Georgetown é a escola da governação e da administração pública e há séculos. Por isso, sinto-me capaz de fazer uma aposta: Barack Obama irá anunciar o fim do pipeline Keystone. Está em muito mau estado, a Columbia Britânica anunciou recentemente a proibição da versão mais curta. Não é vinculativa e o governo federal canadiano pode anular a decisão. Não pode ir contra a decisão daquilo a que os canadianos chamam As Primeiras Naçãoes e estas opõem-se frontalmente. De forma mais resumida, o caminho mais curto (cerca de 600 milhas) para o escoamento das areias betuminosas da província de Alberta está vedado; resta o mais longo (cerca de 5 vezes mais) até ao Golfo do México. Pode acabar amanhã, o assunto está dentro do âmbito do poder executivo do presidente americano.

Se isto acontecer, ou quando isto acontecer, será rigorosamente a primeira vez na História em que um produtor maior de hidrocarbonetos fósseis se verá impedido de levar o seu veneno até aos sagrados mercados. Claro que também é possível que o senhor Obama queira afirmar de facto a tal "liderança americana" e anuncie o estabelecimento de limites fixos ("hard cap") para a emissão de dióxido de carbono. Se o fizer, estará efectivamente a antecipar-se ao governo chinês, que pondera fazê-lo para 2016, mas a este respeito, se alguém me desse vinte euritos para apostar, eu colocaria cinco no "sim", outros cinco no "não" e guardaria o restante para mim.

Vem tudo isto também, a respeito do pronunciamento recente da Presidenta Dilma. Ficámos a saber que o Brasil irá reservar as receitas do petróleo para investir na educação do seu Povo. Acontece que o "petróleo brasileiro" ainda não existe.

Enquanto produto vendável, ainda não existe. Está naquela fase do trólaró que eu já referi nestas páginas. É um produto de muito má qualidade, azedo (o que quer dizer, com elevado teor de contaminantes) e inusitadamente ácido; comparado com a rastemenga canadiana continua a ser um néctar de deuses. Parece que o Brasil planeia fazer com ele algo semelhante ao que a minúscula Noruega fez com o petróleo do Mar do Norte. Não o irá conseguir, e sim, existe algo de profundamente injusto em tudo isto.

Ha-Joon Chang chamou-lhe "...dar um pontapé no escadote...", como se alguém usasse um escadote para subir à altura pretendida, e depois lhe desse um pontapé, para evitar que outros consigam seguir na sua peugada, e sim, é exactamente isso que os freis tomases da mundialização fazem. Acontece que, neste caso, é a única coisa a fazer: 80% das reservas fósseis conhecidas são in-queimáveis e esta é a mãe de todas as bolhas financeiras. Tudo somado, desde a bolha japonesa do início dos 1990's, passando pelos sub-primes americanos da última década, até às desgraças europeias presentes, não passam de bolinhas de sabão, sopradas por uma criança.

O Mundo até pode começar a acelerar amanhã mesmo. Como o mostra o caso brasileiro, nada será simples. Um chinês diria provavelmente "...que possas viver em tempos interessantes...", sem nos explicar que há muito de maldição naquela prece. Por esta triste Europa, as direitas mais rançosas e as esquerdas mais inúteis, acusam-se mutuamente de reaccionarismo e de acordarem os velhos demónios. Ambos têm razão. A nós, ficam-nos apenas as perguntas do Pete Seeger: "Quando iremos aprender?"




Where have all the flowers gone?
Long time passing
Where have all the flowers gone?
Long time ago
Where have all the flowers gone?
Girls have picked them every one
When will they ever learn?
When will they ever learn?

Where have all the young girls gone?
Long time passing
Where have all the young girls gone?
Long time ago
Where have all the young girls gone?
Taken husbands every one
When will they ever learn?
When will they ever learn?

Where have all the young men gone?
Long time passing
Where have all the young men gone?
Long time ago
Where have all the young men gone?
Gone for soldiers every one
When will they ever learn?
When will they ever learn?

Where have all the soldiers gone?
Long time passing
Where have all the soldiers gone?
Long time ago
Where have all the soldiers gone?
Gone to graveyards every one
When will they ever learn?
When will they ever learn?

Where have all the graveyards gone?
Long time passing
Where have all the graveyards gone?
Long time ago
Where have all the graveyards gone?
Covered with flowers every one
When will we ever learn?
When will we ever learn?

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publicado às 19:14


As maldições fósseis (VI): O paradoxo verde

por Licínio Nunes, em 28.05.13
Pareceu-me um matemático...

Franklin Roosevelt, a respeito de John Maynard Keynes


Vamos imaginar que eu sou o executivo duma companhia de petróleo. Nada de coisas mixurucas, uma das Grandes Irmãs.

Sendo um "homem do petróleo", eu não sou um CEO de aviário; nasceram-me os dentes dentro do ramo e conhece-o como a palma das minhas mãos. Como também gosto mais de dinheiro do que da minha família toda, o estado das coisas não me agrada. E sendo um homem do petróleo, aquele calo no sítio onde os macacos se sentam, diz-me que tenho ao meu dispor o maior corpo de conhecimento, jamais acumulado por qualquer empresa privada. Está na hora de tirar partido dele. Fui ter com o meu pessoal de Investigação & Desenvolvimento e disse-lhes isto:

— Meus senhores, como é do vosso conhecimento, o nosso espectro de produção é 40-20-40 (50-10-40 na versão americana). 40% de produtos leves, de alto valor e alto preço. Mais 20% de produtos intermédios, de valor ainda muito interessante. Finalmente, 40% de produtos pesados, coisa de uva mijona. Não perdemos dinheiro com a uva mijona, mas não consegue passar disso. Portanto, quero que vocês me digam o que é preciso e quanto é que vai custar, para que daqui a 10 anos, o nosso espectro passe a ser algo como 60-30-10. Não mais de 10% de uva mijona.

Eles fizeram lá um daqueles conciliábulos, por sinal bastante rápido, para o que é comum na malta de I&D, e responderam-me:

— Olha, boss. Isto não tem nada que saber. O hidrogénio é o elemento mais abundante do Universo, mais de 30% da sua massa total é hidrogénio e o que para aí não falta é água. Abre os cordões à bolsa e daqui a dez anos (ou menos) tens aquilo que pretendes.

Eu disse-lhes "Muito bem. Preparem tudo, porque eu tenho que verificar mais um pormenor. Depois dou-vos a resposta final". Fui ter com os meus contadores-de-feijões, com os meus economistas e coloquei-lhes o assunto.

— Caríssimos, o nosso pessoal de I&D assegura-me que daqui a dez anos, poderemos estar a produzir muito mais gasolina e muito mais gasóleo, e muito menos fuel pesado. Vai-nos custar os olhos da cara, mas mais do que vale a pena. Ora a situação é simples: aquilo que vendermos hoje ao preço do fuel, não vamos ter amanhã, para vender ao preço da gasolina. Por isso, quero que digam qual deve ser a percentagem das nossas reservas que devemos guardar, para este propósito.

Estes, nem piscaram os olhos. A resposta foi imediata:

— Zero, boss. A resposta é ZERO! Mantém-te firme nos essenciais: Drill, baby, drill! Burn, baby, burn! Lembra-te do principal de HH.(1)

Foi nesta altura que eu decidi estar na hora de os "homens do petróleo" começarem a untar a barriga com manteiga de amendoim e darem lugar aos produtos de aviário. No fim de contas, os Mexias deste Mundo têm tudo o que é necessário para os tempos que correm, e ainda conseguem ser mais malandros do que eu.




Esta história é completamente inventada, mas os pontos essenciais não são. Em particular, a resposta final dos contadores-de-feijões. Está connosco desde 1931 e é matemática pura; Teoria dos Conjuntos, pura e dura. A citação inicial é um fait-divers sem qualquer importância na actualidade. Roosevelt e Keynes sabiam bem da sua influência mútua e, aquando duma deslocação académica de Keynes aos Estados Unidos, foi arranjada aquela entrevista, a única entre os dois homens. Não saltou qualquer patanisca. Keynes assumiu a posição snob dum dandy inglês, sim, aquele americano era um rapaz bem intencionado e esforçado mas..., não passava dum labrego lá das berças do Novo Mundo. Roosevelt foi muito mais sintético. Disse apenas aquela frase, que na época e sendo aplicada a um economista, era um insulto subtil e profundo. A sofisticação matemática não era nada bem vista, os economistas deviam limitar-se a recolher dados e interpretá-los, usando o bom senso e o seu conhecimento da economia real. Harold Hotteling viu o seu trabalho ser rejeitado por diversas revistas académicas, devido à sua "dificuldade matemática" e o Journal of Political Economics, da Universidade de Chicago, publicou-o antecedido de solenes avisos: "Cuidado, que este assunto requer uma sofisticação matemática fora do comum".

Aquele trabalho seminal não foi ignorado, nada disso. As folhitas de cálculo do gaspar hão-se de estar mais pranhas do que um ovo com as fórmulas de Hotteling, nenhum economista lhes consegue escapar. O que eles não querem que se saiba, são as conclusões, tão puramente matemáticas como o resto. As "duas economias" não são invenção minha, são a conclusão incontornável da análise de Hotteling. As economias de recursos renováveis podem ser tudo e mais alguma coisa, e à vista do pano é que se talha a obra; as economias de recursos exauríveis são loucas, e, mais do que isso, são um exemplo do falhanço total do mercado.

Num quadro de recursos não-renováveis, existem apenas três estruturas possíveis e todas três são más. A pior (dificilmente alguma vez terá existido) é o mercado livre. A outra a seguir (a mais comum, na prática) é o duopólio; podemos associá-lo à ideia de cartel, embora vá para além disso. A alternativa menos má é o monopólio. Hotteling comentou como, em algumas hipóteses sendo verificadas, os monopólios públicos conseguem ser ligeiramente melhores, ligeiramente menos negativos (!) do que os monopólios privados. Mas não mais do que isso. A economia de recursos exauríveis é amaldiçoada, culpem a Teoria dos Conjuntos.

Tudo isto nos leva ao Hans. Ao meu e ao Hans real, o mais importante. No fim de contas, seria inconcebível que a mesma cultura que produziu Leibniz e Kant, tivesse ficado reduzida a produzir clones rastejantes do Fritz.

Hans-Werner Sinn é professor de economia e reparou num pormenor paradoxal: à medida que as alternativas renováveis se vão tornando mais eficientes e mais acessíveis, os donos de recursos fósseis são presenteados com a escolha entre venderem hoje a baixo preço e venderem amanhã a um preço ainda menor. Adicionalmente, se os donos dos fósseis forem confrontados com a possibilidade da introdução de controlos regulatórios, obrigando-os a manter uma parte das suas reservas no subsolo, isso irá aumentar a pressão para os extrair e vender o mais rápido possível, enquanto essa regulação não existe.

Acontece que, e isto não é para provocar o Hans, o paradoxo não tem que ser verde. Como foi que a Alemanha Nazi travou a 2ª Guerra? Foi um conflito já muito mecanizado e os alemães nunca tiveram acesso a outras fontes petrolíferas, para além dos campos de Ploesti, na Roménia, que nunca foram grande espingarda. Como foi que eles conseguiram? A resposta: com o recurso a combustíveis sintéticos. Mais de 75% de todos os combustíveis líquidos, usados pela máquina militar-industrial nazi, foram destilados a partir do carvão. São ainda mais porcos do carvão, mas isso é irrelevante para o meu argumento. As patentes-base datam do início do século XX, tanto o processo de Bergius como o Fischer-Tpropsch têm mais de cem anos. No início deste século e perante o aumento dos preços petrolíferos, resultante da procura chinesa, algumas empresas americanas tentaram voltar a utilizá-los. Falharam, porque o mercado com que eles contavam para o arranque lhes foi vedado. A administração Bush, que negava as alterações climáticas, usou a legislação ambiental, herdada das administrações Clinton, para proibir (!) o Pentágono de comprar combustíveis sintéticos destilados do carvão. E pronto, já disse tudo de positivo que sou capaz de dizer a respeito do George W.

O paradoxo não tem que ser verde, qualquer alternativa produzirá os mesmos efeitos, o Hans sabe-o bem. E o que é que ele propõe? David Hilbert e Karl-Fiedrich Gauss concordariam, Beethoven seria capaz de compor uma sinfonia em sua honra. Hans-Werner Sinn propõe um Monopólio Mundial e um Governo Mundial.

Ah! É um governo mundial muito suave, muito kantiano. Baseado nas Nações Unidas e capaz de ser construído gradualmente e por consenso. Mas não é menos mundial por isso, nem menos monopolista, por melhor que o autor o disfarce e fá-lo muito bem e de forma muito convincente. Em absoluto, vale a pena lê-lo. Nem sequer me importava de dar para este peditório. Pura e simplesmente não acredito que a urgência do assunto o permita.

E pronto! Isto conclui as maldições e confesso que escrevo estas frases com um suspiro de alívio. Resta o mais importante, a superação, mas as cores são outras. Vamos começar com um poema.
Vastos, vastos, nove rios atravessam a China
E apenas um caminho-de-ferro de Norte a Sul


Mao Tse Tung — Para onde foi o Grou Coroado? (2)




(1) O "principal" é um termo que já fez parte do léxico português. Eça de Queirós usou-o várias vezes e não como um estrangeirismo. Não faço a menor ideia porque é que caiu em desuso. Refere-se àquela parte do capital que não se gasta; só se gastam os lucros do capital.

(2) Estou a citar de memória. Aquele livro é uma raridade e o mais certo é tê-lo perdido.

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publicado às 22:37

Em última análise, existem apenas dois tipos de sociedades. Umas podem ser chamadas 'fechadas' e as outras 'abertas'. [...]O drama das sociedades abertas é que têm que permitir a actuação dos seus inimigos.

Karl Popper, in A Sociedade Aberta e os seus Inimigos

Quando me propus escrever esta série de posts, sabia antecipadamente que o assunto se iria tornar progressivamente mais difícil e pelo facto simples de existir uma hierarquia clara nos problemas sociais e civilizacionais gerados por aquela que é ainda (!) a nossa civilização. A primeira — e última, que fique claro — assente em combustíveis fósseis.

As duas primeiras maldições são simples. Resultam de restrições físicas e a única coisa que a sôdona física nos diz é por onde não podemos ir e quais são os buracos que iremos encontrar, ao longo do caminho. A terceira, o trólaró do "Há petróleo no Beato!" parece ser um assunto já de outra natureza, mas continua a ser uma restrição física. O tempo decorrido entre a descoberta duma qualquer jazida fóssil e a sua produção plena nunca consegue ser inferior a uma década. O facto de as sociedades envolvidas sentirem, de facto, os seus efeitos muito depressa — veja-se o exemplo da Escócia e da Noruega, com a descoberta do petróleo do Mar do Norte — está já na interface entre a física e a economia e mostra-nos como existe alguma margem de manobra em torno das maldições fósseis. Chama-se inteligência colectiva e não é pelo facto de ser rara que se revela menos importante.

O que me fez andar para aqui às voltas, como um cão a tentar morder o rabo, foi ter-me apercebido que as minhas palavras a respeito das erupções de violência, quando a curva de Hubbert sofre aquelas inflexões qualitativas, podem ser lidas quase ao contrário daquilo que eu quis dizer. Para começar, eu não estava a dizer algo como "...descobri uma nova lei da história...". As leis da história são apenas o exercício do direito humano à estupidez, de Marx aos gasparídeos. Muito diferentes, que fique claro, mas com um ponto comum e esse ponto comum é maleita de que eu não sofro : a crença em leis da história.

O período de tensão actual (desde o início do século), resulta do ponto mais complicado da curva de Hubbert, ou seja, o pico da produção. No entanto, os actores principais, sentiram essas tensões de forma completamente diferente. Bush & Co. sentiram-nas como a necessidade de controlar a oferta, tal como o senhor Saddam tinha sentido as tensões dos choques petrolíferos dos anos setenta, e reagiram exactamente da mesma forma, a única diferença é que uns invadiram o Irão e os outros invadiram o Iraque. Resultados semelhantes.

Os choques de preços do início do século, esses, foram o resultado de os líderes chineses terem sentido a necessidade de assegurar a sua própria procura, percebida como estando numa fase de crescimento exponencial; exactamente o mesmo que franceses e britânicos sentiram, no tempo do Sykes-Picot. Mesmas necessidades, resposta diferente. Que seja do meu conhecimento, não houve sangue derramado, como consequência dos choques de preços do início do século. A diferença chama-se, novamente, inteligência colectiva.

Não estou a tentar justificar o regime chinês, que fique claro. Estou apenas a tentar abocanhar a minha própria cauda, e acho que já encontrei uma maneira de o fazer. Isto é a Internet, portanto, peço aos leitores que façam um exercício simples. Agarrem numa folha A4 e listem todos os episódios de agressão externa chinesa, durante os últimos 2 000 anos. Nada de tergiversar. Se teve origem em território chinês e foi dirigida ao exterior, é chinesa (incluindo os episódios resultantes da expansão mongol).

Ninguém conseguiu encher a primeira página, pois não? Agora, regressem àquela resma de papel A4 e comecem a listar os episódios de agressão externa do Reino da Suécia, durante os últimos 800 anos. A expansão viking dos séculos anteriores nem sequer é para aqui chamada. Então, a resma de papel chegou, ou já estava nas lonas? Talvez aquele intangível e indefinível a que chamei inteligência colectiva exista, no fim de contas.

Voltemos então às maldições. O paradoxo de Popper, que citei no início, não é assunto de opinião, não é coisa passível de "...eu acho que..."; as achações e as crenças não são para aqui chamadas. É apenas uma construção lógica. Se algumas sociedades são abertas, então têm que permitir a actuação dos seus inimigos. Tanto o Adolfo como a Guidinha dos limões, recentemente falecida, subiram ao poder usando os mecanismos de abertura das suas próprias sociedades. Um, para o tirar de lá, foi preciso destruir meio continente; quanto à segunda, foi impossível evitar que se metastizasse numa catrefa enorme de gaspares. Continuamos sem saber o que lhes fazer, sem destruir a outra metade do mesmo continente. E isto porque o lema de Popper tem um corolário: se existem apenas dois tipos de sociedades, existem apenas dois tipos de economias. Umas são de recursos exauríveis, as outras de recursos renováveis.

Dizer que um qualquer bem é um recurso renovável, não significa que a respectiva economia seja um mar de rosas. A água e a energia são os dois recursos primordiais para a existência de grupos sociais organizados. A água, não só é renovável como é indestrutível. Faça-se o que se fizer, o total de água do planeta permanece constante. O problema é que nós não "bebemos água"; bebemos água potável, o que a torna um recurso crítico. O primeiro de todos a ter sido regulado pelo Estado. O que faria Ramsés, se lhe aparecesse um qualquer gasparídeo a propor privatizar a água potável? Acho que mandava que lhe atassem as mãos e os pés à cauda de quatro cavalos diferentes e que chicoteassem as garupas dos quatro ao mesmo tempo. Hmmm! É capaz de ser uma ideia...

Quanto ao outro daqueles recursos primordiais, a energia, não tem que ser, à partida, uma coisa ou outra. No entanto, as energias fósseis são um caso de economia de recursos exauríveis; em absoluto, são o único caso. Em cada quilograma de aço que sai das siderurgias, existe uma percentagem elevada de "aço antigo"; não é preocupação ecológica, é o facto de ser mais barato fazê-lo desta forma, do que processar apenas minério de ferro recém-extraído. Os combustíveis fósseis, queimam-se e acabou. Em última análise, não há nada que nos consiga proteger da lógica inexorável da economia de recursos exauríveis; nem a tal inteligência colectiva, mesmo esta só resulta durante períodos limitados de tempo. Acho que estou só a respirar fundo, antes de contemplar a sua loucura essencial.

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publicado às 23:18

Nota: Este post teve que ser editado para substituir a imagem da curva de Hubbert, visto ter recebido uma notificação, indicando que o peakoil.com não permite a linkagem directa do seu conteúdo. No hard feelings.

Em 1916, franceses e britânicos dividiram as posses do finado, antes de lhe terem feito o enterro. Oficialmente, recebeu o nome de Acordo da Ásia Menor, mas entrou para a História Universal da Infâmia com os apelidos dos seus autores directos, o senhor Sykes e o senhor Picot, altos funcionários dos respectivos ministérios dos negócios estrangeiros. O assunto era petróleo, mas a forma concreta do mapa resultante, essa, era o resultado duma coisa esdrúxula, chamada "teoria das placas paralelas", que não merece grande descrição. Se olharmos para o mapa que se segue, constatamos que o eixo da parte francesa é aproximadamente paralelo ao eixo do Cáucaso -- cujas reservas já eram conhecidas -- e que a parte britânica (para além da faixa costeira do Mediterrâneo) era orientada, grosso modo, no sentido noroeste-sueste, mais ou menos paralela às descoberta que uma outra personagem muito complicada tinha efectuado nos territórios da Pérsia. Pormenor a reter: a zona britânica estendia-se, a sul, mais ou menos até aquilo que é hoje o Qatar e quanto ao resto do Golfo e à Península Arábica, enfim..., era um deserto que todos os sabiam onde ficava e onde ninguém queria ir, com excepção de um ou outro visionários desvairados.



O assunto foi mantido no máximo segredo, mas não podia ser ocultado de todos os aliados. O Império Russo foi informado. Depois, em 1917, após a Revolução de Outubro, Lenin tornou aqueles documentos públicos e cairam o Carmo e a Trindade: os italianos, que tinham realizado um esforço militar considerável no Mediterrâneo, armaram um escaracéu enorme e foram muitas as vozes que se ergueram, nos Estados Unidos, dizendo "...esses europeus não têm emenda, tragam os nossos rapazes de volta e eles que se matem uns aos outros...". Foi com grande dificuldade que Woodrow Wilson conseguiu manter a coligação favorável à participação na Guerra. Perante o escândalo, franceses e britânicos começaram a meter os pés pelas mãos, prometendo uma parte do Arquipélago Grego à Itália, uma parte dos Balcãs à Grécia e outras trafulhices que tais. As placas continuaram paralelas e a Península Arábica continuou um deserto onde ninguém queria ir. Os mandatos da Liga das Nações, limaram as arestas do Sykes-Picot que entravam pela Anatólia dentro e os britânicos perderam o interesse pela extremidade sul da sua própria placa. Nada de muito relevante.

Depois, em 1925 estalou na Arábia uma revolta tribal contra o Sharif de Mecca e os britânicos, aqueles colonizadores tão inteligentes, convenceram o filho do Sharif, Faisal al-Hashimi (o príncipe Faisal do Lawrence da Arábia e dos Sete Pilares) a esquecer aquele deserto que todos sabiam onde ficava e aonde ninguém queria ir e assumir o trono do recém-criado Reino do Iraque. Foi um dos efeitos da erupção de cogumelos, designada por monarquias hashemitas, com origem na conferência de Versalhes, mas os seus patronos britânicos não estavam interessados em mais nada senão na sua própria placa. Faisal sai completamente do quadro desta história, mas não teve qualquer influência nos acontecimentos seguintes.

O que os britânicos, aqueles colonizadores tão inteligentes não sabiam, é que aquela revolta tribal não tinha acontecido por acaso. Uma companhia americana, chamada Standard Oil da Califórnia, tinha realizado prospecções petrolíferas em segredo e tinha acertado no jackpot. Os americanos não foram mãos-largas, 50 000 libras esterlinas em empréstimos e mais 5 000, pelo primeiro ano de produção, mas já lá diz o povo, p'ra quem é, bacalhau basta. Os membros do clan de Saud não sabiam exactamente o que era uma libra esterlina, a única exigência que fizeram foi de o pagamento ser efectuado em ouro. Em 1939, foi fundada a companhia privada mais importante da História, a Arabian American Corporation, ou ARAMCO. O propósito inicial, era o de alimentar o complexo militar-industrial nazi, pelo que a companhia foi alvo duma nacionalização punitiva temporária, decretada em 1943 por Franklin Roosevelt. O petróleo do Médio-Oriente não teve qualquer intervenção no conflito. A bomba de gasolina dos aliados, incluindo, em menor parte, a União Soviética, foram o Texas e o Oklahoma.

O que o senhor Rockfeller, aquele investidor tão inteligente não sabia, era que tinha acabado de escancarar a caixa de Pandora, mantida entreaberta durante séculos pelas tempestades de areia da Península Arábica. As aspirações do clan de Saud ao sharifado de Mecca tinham raízes históricas. O império otomano foi, nas palavras de Ferdinand Braudel, "um poder displicente". Os turcos otomanos procuravam sempre líderes locais, em quem sentissem que podiam depositar alguma confiança, e depois mantinham um núcleo de tropas seguras a uma distância segura, para qualquer eventualidade. Por meados do século XVII, as cidades santas de Mecca e Medina, mas também os principais portos da região, Yenbo e Jedahh eram de facto governadas pelo clan de Saud. E estes manifestavam-se incapazes de dominar as revoltas periódicas das tribos beduínas do deserto que, sobretudo quando incidiam naquelas regiões costeiras, davam origem a inevitáveis episódios de pirataria, extremamente complicados numa faixa marítima tão estreita como o Mar Vermelho. Ora, os interesses do império otomano na região, consistiam essencialmente em assegurar a liberdade e segurança da navegação. Por isso, quando aqueles episódios de pirataria aconteciam, o império intervinha. No princípio ou no fim, nunca se esquecia de punir o clan de Saud pela sua incompetência, o que, logo à partida, os tornava ainda mais incapazes para fazer frente à revolta seguinte.

Confrontados com o círculo vicioso, os membros do clan de Saud realizaram uma aliança político-militar com um outro grupo tribal, com origens no outro lado da Arábia e que praticava uma forma de Islão muito antiga, mas que tinha sobrevivido apenas em locais isolados e remotos. Em troca daquele apoio, o clan de Saud concedeu ao clan de Wahhabi plena jurisdição em todos os assuntos de natureza religiosa. Foi uma novidade absoluta, pois em toda a história do Islão sunita, o poder temporal devia sempre exercer também o poder religioso, mas a novidade permaneceu esquecida por entre as areias do deserto arábico, até ser renovada e institucionalizada aquando da formação da Arábia Saudita. O investimento Wahhabita começou a internacionalizar-se em finais dos 1950's, com predominância naquela região na margem direita do Indo, entre o recém-formado Paquistão e o Afeganistão. Há quem afirme que, hoje em dia, três em cada quatro novas mesquitas erigidas em todo o Mundo, são-no com dinheiro Wahhabita, não sei se corresponde à verdade, mas o facto é que, ao pensarmos nos trágicos acontecimentos do início deste século, aquele provérbio popular americano, a respeito do que acontece quando as galinhas fugidas voltam ao galinheiro para chocar os ovos, vem imediatamente à mente. Não é uma análise racional e eu sei-o. Adiante, que é preciso encontrar um caminho para fora da espiral de loucura.



O modelo de Hubbert tem exactamente a mesma idade do que eu e as controvérsias que tem gerado são um dos exemplos do trólaró a que aludi anteriormente. Hoje em dia, ninguém o nega, nem os executivos das companhias petrolíferas, nem sequer o ministro saudita do petróleo. Apenas discutem datas. Esquecem o mais importante. Estou numa minoria ridícula com o que vou dizer a seguir, mas peço aos leitores que façam algo simples. Peço que olhem para as datas e tentem localizar os pontos de inflexão: quando a curva inicia o seu percurso exponencial, no início do século vinte — o Sykes-Picot e as suas tragédias; quando a curva muda de exponencial para logarítmica — os choques petrolíferos dos 1970's, continuados pela guerra Irão-Iraque, até à invasão do Koweit e o que se seguiu; quando o pico acontece — a segunda Guerra do Iraque, que ainda não terminou. Estamos hoje a aproximarmo-nos de uma nova zona de inflexão, os Estados Unidos voltaram ao tempo dos geiseres petróliferos. A única coisa que eu não sei, é de quem vai ser o sangue derramado.

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As maldições fósseis (I): x + y = x + y

por Licínio Nunes, em 06.05.13
Os cidadãos da União Europeia pagam em média 11,7 cêntimos por kWh de energia eléctrica, antes de impostos. E viva o Eurostat, que sempre serve para alguma coisa! Isto significa que deveriam pagar cerca de 1,43 euros por quilograma de combustíveis. No entanto, o custo dos fósseis anda pelos 84-87 cêntimos, esqueçam o Gaspar por uns instantes. Como é? Será que a energia eléctrica está excessivamente cara, ou serão os combustíveis que estão demasiadamente baratos?

A resposta é ambos (!), mas o assunto requer alguma base para ser compreendido. É muito simples, tem que ser muito simples, pois até o senhor Mário Soares foi capaz de o entender. Recordo-me distintamente, lá pelos idos de 1980 de o ter percebido e de o ter comentado nestes exactos termos: "...isto tem mesmo que ser muito simples!". 1 quilograma de equivalente petróleo (KEP) são 44 MJoule; que é como quem diz 12,2 kWh, a energia absorvida por 122 lâmpadas de 100 W que estivessem ligadas durante uma hora. Convém referir que este número foi recentemente revisto ligeiramente em baixa, mas para mim é mais ou menos como o acordo ortográfico: 44 MJoule e acabou a conversa!

O interesse desta unidade resulta dum facto físico simples: os combustíveis fósseis têm todos um PCI (Poder Calorífico Inferior) muito próximo; é uma distribuição muito estreita e aquele valor é a média: 5% para baixo temos o orimulsion, 5% para cima temos o gás natural. Note-se que PCI é uma unidade industrial imprecisa, e nem outra coisa é pretendida. É definido como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando todos os produtos da reacção estão em fase gás. Podemos colocar aqui uma primeira fasquia térmica, tão imprecisa como o resto: 200º C.

No entanto, define-se também Poder Calorífico Superior (PCS), como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando toda a água resultante da reacção está já em fase líquida. Outra fasquia térmica, tão imprecisa como a anterior: 40ºC. O conceito de PCS aproxima-se do conceito formal de entalpia de reacção e destrói por completo a uniformidade do KEP. O gás natural é essencialmente metano, em cada 16 quilogramas de metano existem 4 quilogramas de hidrogénio, o produto da combustão do hidrogénio é a água e o calor latente de condensação da água é substancialmente superior ao seu calor sensível (aquele que se manifesta por diferenças de temperatura): 55,5 MJoule por quilograma, quase 25% mais do que o valor do KEP. No essencial, a diferença não é utilizável.



Os hidrocarbonetos fósseis são substancias malditas. Tal como os cavaleiros do Apocalipse, estas maldições são essencialmente três, mas ao contrário das maldições bíblicas, estas estão fortemente hierarquizadas e é preciso começar pelo mais simples. A mais simples das maldições dos hidrocarbonetos fósseis, é que x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio produzem sempre x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio e, obviamente, as fadinhas dos gaspares são completamente impotentes ante a racionalidade simples da sôdona física, moça bacana, que, quanto a mim, tem apenas o senão de ser demasiado tolerante perante a loucura.

O petróleo bruto é uma matéria-prima muito rica, mas está já desequilibrado, à partida. Demasiado carbono para demasiadamente pouco hidrogénio e o processo de destilação acentua dramaticamente este desequilíbrio. A partir duma tonelada de crude, produzimos cerca de 40% de destilados leves, produtos de alto valor e baixo número de carbono, tais como as gasolinas, os GPL's e os petróleos de jacto. Se tivéssemos queimado apenas gasolinas, desde o início da Revolução Industrial, ninguém nos levava presos. Mas a sôdona física não deixa, pelo que produzimos também cerca de 20% de produtos intermédios, gasóleo e outros óleos diesel, zona esta onde tudo começa a deslizar. Finalmente, produzimos 40% de pesados, fuel e naftenos. E nesta zona, existem compostos alifáticos com números de carbono superiores a 3 000. Estamos a falar de macro-moléculas, com mais de 3 000 átomos de carbono e muito pouco hidrogénio. Será que se começa a perceber porque é que a bolha vai mesmo rebentar?

Deve ser dito que aquele espectro de produtos que eu descrevi de forma grosseira, 40-20-40, é típico da Europa e do Extremo-Oriente, mas não é geral. Os americanos produzem substancialmente mais gasolina e menos gasóleo. Produzem os mesmos 40% de pesados. x + y = x + y !

Neste ponto, levanta-se uma dúvida: as companhias petrolíferas não perdem dinheiro com aqueles 40% de produto pesados, que fique claro, mas..., ah! é uva mijona. Ora, as petrolíferas representam um dos maiores corpos de conhecimento armazenados pela espécie humana. Por isso, porque é que eles não se decidem a hidrogenar o fuel, para poderem vender o produto final ao preço da gasolina? Será que não gostam de dinheiro? Esta pergunta é demasiado difícil, para este ponto da discussão. Vamos tentar responder a uma outra pergunta mais fácil: a Rússia é a Arábia Saudita do gás; será que o senhor Putin não gosta de dinheiro?

Voltemos por instantes ao crude. É bombeado desde umas centenas de metros até à superfície, para depois ser bombeado umas largas centenas de quilómetros, antes de ser armazenado temporariamente num terminal de carga; depois, é carregado num navio, para fazer uns milhares de milhas através do oceano, antes de ser descarregado para um novo armazenamento temporário num terminal de descarga; a seguir, vai ser bombeado mais umas centenas de quilómetros até ser novamente armazenado numa refinaria para, final e misericordiosamente, ser processado. À boca da refinaria, os produtos finais têm uma componente de custos de armazenamento e transporte de cerca de 2,4-2,5% dos custos (!) finais. É extremamente barato transportar e armazenar líquidos.

O gás natural (GN) é essencialmente metano, e o metano é um gás muito mal-comportado. Os custos de transporte e armazenamento (?) do GN disparam para mais de 25% do preço final. Ora, acontece que o GN pode ser facilmente e a baixo custo transformado em metanol — o mais simples dos hidrocarbonetos, transformado no mais simples dos alcoóis — junto aos campos de gás, claro, para depois ser transportado ao custo dos líquidos. O senhor Putin ganharia cerca de mais $190 dólares em cada tonelada. Porque não o faz?

O senhor Putin gosta de dinheiro! Acontece apenas que ele também não passa de mais um vendedor de produtos amaldiçoados e é tão incapaz de deixar de o ser como os outros. Pior ainda, se ele fizesse aquele negócio altamente lucrativo que eu referi, estaria a mostrar aos seus clientes que podem passar sem ele. Acontece também que já alguém o fez.

George Olah recebeu o prémio Nobel da Química em 1994 e já este século, juntamente com outros colegas, dedicou-se a mostrar-nos como a maldição fóssil não é destino. Para Além do Petróleo e do Gás mostra-nos como as matérias-primas essenciais são apenas a água e o dióxido de carbono atmosférico (!!!). Devo dizer que não gosto do metanol enquanto combustível, as 500 milhas de Indianapolis que se danem, mas é completamente irrelevante. A maldição não é destino, malditos seremos nós, se não o escutarmos.

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