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As doenças infantis da Esquerda — I: A perguiça

por Licínio Nunes, em 27.02.14
Este devia ser um livro importante. O livro que faltava. Não é, o "livro que faltava" continua em falta. Durante anos, li múltiplos excertos, vi os muito interessantes vídeos de promoção, até que disse para mim mesmo "...é desta".

E o primeiro contacto não podia ser melhor. "A doutrina do choque" de Naomi Klein, na edição portuguesa da Smartbook tem um buraco na capa, tal como teria sido provocado por uma bala. O início da "Introdução" já o conhecia, daqueles excertos que referi e apenas renovou o meu sentimento de asco perante a exibição do Mal. O Mal existe. No meio da destruição cataclísmica de Nova Orleães, resultante do furacão Katrina — e em grande medida, da incompetência do Governo de George W. Bush — Milton Friedman descortinou uma oportunidade, "[...]a oportunidade de reformar de forma radical o sistema educativo", acabando com as escolas públicas e substituindo-as por um sistema de vouchers, a serem gastos em "instituições privadas", realizando assim "[...]uma reforma permanente.", fim de citação.

Não sei se o "Tio Miltie" tinha "666" gravado no meio da testa, mas sei que a sua invocação me faz desejar que o Inferno exista, para que ele lá esteja a apodrecer em agonia permanente, até à consumação dos séculos. Mas sei também que a hipótese razoável é que Friedman não tenha sido a Besta do Apocalipse. Apenas uma grandessíssima besta.



Agora, e para entrar no tema deste post, uma besta sem dúvida, mas não um calão. Porque uma das doenças infantis da esquerda é a sua óbvia e manifesta preguiça intelectual. Comecemos pelas palavras. A designação mais comum para a narrativa dominante é a de "neoliberalismo" (baralha por completo os americanos e Naomi Klein dedicou alguns parágrafos a tentar superar o "ruído" gerado), substituída por vezes por "ordoliberalismo", germanismo obscuro e, tanto quanto me consigo aperceber, sem qualquer interesse. Os seus adeptos chamam-lhe "doutrina (ou síntese) neoclássica".

Ora para que algo possa ser "neoclássico", tem primeiro que ter existido algo como uma Teoria Clássica. E existiu. A expressão foi inventada por John Maynard Keynes para designar o conjunto de teorias económicas que ele próprio tinha ensinado durante muitos anos. Vejamos a sua síntese:

[...]O facto de os seus preceitos, aplicados à prática serem austeros e por vezes intragáveis, deu-lhe uma aura de virtude. O poder sustentar uma superstrutura lógica vasta e coerente conferiu-lhe beleza. O poder explicar muitas injustiças sociais e crueldades aparentes como incidentes inevitáveis da marcha do progresso, e mostrar que, em geral, as tentativas de modificar esse estado de coisas provavelmente causaria mais danos do que benefícios emprestou-lhe autoridade. O ter propiciado alguma justificação para a liberdade de actuação do capitalista individual atraiu-lhe o apoio das forças sociais dominantes, agrupadas atrás da autoridade.


O que falta nesta descrição para descrever a tal "neo-síntese"? Teríamos que acrescentar o zelo evangélico, o extremismo da crença absoluta e a confiança em "leis inexoráveis", mas não muito mais. Talvez não seja preciso dizer mais do que isto:

Quem, como eu, acreditar que a liberdade do intelecto é o principal motor do progresso humano, não pode deixar de se opor a [...] tanto como à Igreja de Roma. As esperanças que [...] inspiram, são, no essencial, tão admiráveis como as que são instiladas pelo Sermão da Montanha, mas são sustentadas tão fanaticamente num caso como no outro e igualmente susceptíveis de produzir os mesmos danos.

E fica resumido o essencial. Quem tiver curiosidade em saber quais são as expressões em falta ([...]), pode lê-las no original, livremente disponível no Projecto Gutenberg. Mas fica o mais importante por dizer. Por mais asquerosas que as suas posições e o seu evangelismo tenha sido, e foi, Milton Friedman foi um professor de economia. E o seu trabalho académico foi vasto, discutível e árduo. Podemos dizer, como o fez Paul Krugman, que John Maynard Keynes foi uma espécie de Martinho Lutero da ciência económica e que Friedman foi o inevitável Inácio de Loyola, mas continuamos apenas no domínio da analogia e da metáfora. A verdade — como Naomi Klein reconhece — é que os alunos do "Tio Miltie" não eram animados a bajular o mestre, mas a criticá-lo com toda a severidade e energia que conseguissem reunir. As expressões operativas, aqui, são "trabalho vasto" e "trabalho árduo". Vejamos a sua contraposição.

A respeito de como organizar a economia dum estado socialista, V.I. Lenin escreveu em Estado e Revolução: "Não conheço nenhum socialista que tenha tratado destes problemas[...]", porque "[...]nada se consegue encontrar [a este respeito] nos textos dos bolcheviques nem sequer dos mencheviques" e tudo isto porque "dificilmente se encontra na obra de Marx uma palavra sobre a economia do socialismo". Então essas obras e esses textos são a respeito do quê? Resposta: o zelo evangélico, o extremismo da crença absoluta e a confiança em "leis inexoráveis". Claramente, não chega!


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publicado às 13:28


Passos Coelho: putativo Nobel da Economia?

por João de Sousa, em 20.08.12

1º artigo de uma série de 3 dedicada ao pensamento económico de Passos Coelho (na foto)

Por João de Sousa

Muito se tem dito, e escrito, acerca das opções de política financeira e económica do 1º ministro Passos Coelho, alguns elogiando outros denegrindo. A meu ver, todos estão errados.

É comum, entre as mentes menos esclarecidas, aceitar de forma acrítica ou rejeitar sem fundamento, as teorias verdadeiramente revolucionárias e que representam um vigoroso salto em frente no pensamento e conhecimento humanos. Passos está a ser vítima deste tipo de inércia tão característico das pessoas vulgares. Vejamos mais detalhadamente as razões que me assistem na formulação de tão categórica asserção.

Começo por esclarecer os mais cépticos sobre as razões que me têm tolhido o verbo na análise dos aspectos macro-económicos da crise que afecta a zona Euro, em particular, e a União Europeia, em geral. Tal facto deriva apenas do “encolhimento”dos meus rendimentos – assoberbado pelas necessidades do dia a dia, as minhas atenções têm recaído sobre questões cada vez mais pequenas, isto é, micro económicas, como a renda da casa, a alimentação, a conta da farmácia, etc.. Aliás, este processo de shrinkagem tem-se estendido paulatinamente à maioria dos aspectos da minha existência, gerando o interessante paradoxo de as minhas atenções incidirem sobre questões cada vez mais pequenas na razão inversa do tamanho que os meus problemas vão adquirindo.

Mas, retomando o Passos, e o erro de paralaxe dos seus apoiantes e detractores: o que acontece é que o país, e até mesmo o mundo, não estavam preparados para a revolução que este precursor está a introduzir nas Teorias Económicas. Passos Coelho acaba de fundar uma nova escola do pensamento económico que, por razões adiante explicadas, denominarei de Neo-neo-Liberalismo neo-Keynesiano. E que, se houver justiça neste mundo, vai granjear-lhe o merecido reconhecimento à escala planetária, e, porque não, também da Academia Sueca, premiando-o com um justo Nobel da Economia.

É vox populi entre os leitores atentos de “An Inquiry into… Wealth of Nations”, vulgo “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, que a beleza metafísica, quase poética, do fenómeno da regulação dos Mercados resulta da acção de uma “mão invísivel”. E é aqui, pasme-se, que Passos dá início à sua revolução epistemológica. Defensor acérrimo da transparência, Passos inova, articulando, qual demiurgo, as suas convicções morais com o punctus saliens da crença liberal. Com Passos eis que a “mão” se torna não apenas “visível” como até é publicada em Diário da República.

As nomeações para cargos públicos, os sucessivos escãndalos do BPN, do Lima, do Loureiro e restante quadrilha, da sua entourage onde brilha como eminence grise o Cardeal Richelieu, digo o Ângelo Correia, as privatizações do sector energético a favor do Estado Chinês, o ministro Relvas e a sua Angola’s connection, o Álvaro, que deve ter fumado parte do relvas, confundindo-o com Erva, a protecção dos especuladores e da banca, etc. etc. Poderíamos ficar aqui a tarde toda a elencar exemplos de como Passos, apesar de Liberal, rompe com o paradigma mater e faz um upgrade teórico para a “mão visível”, como regulador do sistema.

O mesmo se diga quanto ao domínio Público: é conhecida a aversão dos liberais e neo-liberais aos Impostos, em particular, e ao Estado, em geral. Subindo os impostos e empregando os amigos no Governo, Passos estabelece uma nova fronteira no ideário Liberal – o Estado grande é nocivo excepto quando o tamanho resulta de albergar os correlegionários políticos. Os impostos são sempre maus, excepto se contribuírem para redistribuir a riqueza, quer dizer, para empobrecer a larga maioria e enriquecer alguns poucos.

Provar que Passos é Liberal, mesmo que heterodoxo, não representa dificuldade de maior. Mas como sustentar que Passos é, ao mesmo tempo, Keynesiano?

Como se tem dito, qualquer pessoa que tenha lido o “Economics”, do Samuelson, percebe as implicações Keynesianas de algo que Samuelson denomina como “efeito multiplicador”. A introdução de um input externo na economia (por exemplo investimento público) vai gerar Emprego, com impacto no Rendimento das Famílias, logo na Procura Interna e, assim, nos Lucros das empresas, no rendimento do capital traduzido nos Juros e, por fim, nas Rendas. Isto é, o PIB aumenta, o Rendimento Disponível aumenta, logo, a cobrança de impostos cresce igualmente, equilibrando o investimento inicial e permitindo reiniciar o ciclo num plano superior. Daí o nome “multiplicador”!

Um neo-liberal vulgar, fugiria a sete pés desta formulação. Já com um Neo-neo-Liberal como Passos, a coisa fia mais fino, sobretudo, se, tal como o nosso 1º, tiver o arrojo de romper com as ideias feitas e os preconceitos próprios das mentes ordinárias e piegas.

Passos não recusa liminarmente a ideia do “efeito multiplicador”. Pelo contrário, adopta-o, mas introduz-lhe inovações teóricas apenas ao alcance do entendimento dos mais dotados. Tal como qualquer neo-Keynesiano, Passos aceita que a introdução de um input externo na economia vai produzir um “efeito multiplicador”. É por esta razão que o classifico como neo-neo-Liberal neo-Keynesiano. Só que, diferentemente dos restantes Keynesianos, Passos elege como input externo a investir, não capital mas… Trabalho! E Trabalho à borla: é aqui que reside a genialidade de toda a ideia!

Introduzindo o factor de produção Trabalho à borla, Passos obtém igualmente um efeito multiplicador, neste caso, multiplicador da pobreza, do desemprego, das falências, do incumprimento, da infelicidade e da miséria de um modo geral. Estes efeitos, que podem ser considerados indesejáveis pelos mais piegas, não tiram o sono ao nosso 1º uma vez que a substância do seu pensamento político é de natureza… moral. Que querem? O tipo acabou o curso já tarde e não teve tempo de ler aquelas 50 páginas iniciais dos manuais das cadeiras, onde se distinguem os diferentes objectos das ciências, e os digest que constituem a base da sua formação intelectual não abordam este assunto.

Sendo a questão moral e não política… todo o crime merece punição. E, como somos todos culpados – preguiçosos, piegas e culpados, muito culpados – logo, qualquer castigo é merecido! Custe o que custar!

Custe o que custar, bem entendido, aos investidores eleitos por Passos: os Trabalhadores!

Para aqueles que acharem o texto acima tendencioso, sempre lhes digo que o Passos poderá sempre invocar em sua defesa a condição que partilha com muitos colegas seus como, por exemplo, todo o elenco dos Marretas!

Afinal, se também vocês tivessem uma mão enfiada pelo rabo acima, seria muito natural que um destes dias perdessem a voz de barítono e passassem a dizer, em tom de contralto: Achtung! Schnell! Schnell! Deutschland, Deutschland, über alles!

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publicado às 14:00


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