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eu...

por autor convidado, em 31.12.12

...não desejo uma coisa que é impossível, um melhor ano, a ti, que permitiste a eleição e manutenção deste governo, e por termos sido despedidos de empresas que trabalhavam para o TGV e outras infraestruturas pagas pela UE, por não termos com que pagar as obrigações que adquirimos, com a estabilidade sempre prometida, de um povo que lutou por isso...
entretiveste-te com as 7 maravilhas, as palermices das bandeiras e dos futebóis, para eles há dinheiro e meios, para tratarmos da saúde de nossos idosos e doentes crónicos, não há! pedem-nos contenção nos gastos com a saúde, e nas escolas crianças são despejadas de casas e vão para as aulas, sem nada no estômago, talvez na escola lhe dêem qualquer coisa...
quando o ano termina, com tudo vendido ao desbarato a impérios capitalistas e mais do mesmo, que em qualquer altura, não se importam de matar pela fome e pelo nojo que têm pelas classes desfavorecidas...
ainda me dizes: um bom ano?
não pode ser, tu assim o permites...! e os outros olham para ti, quando preferiste ir para a praia e ir atrás de estórias, bem contadas e orquestradas, e continuas ad aeternum a acreditar nisso, que até gastas mais do que deves, quando tu não tens bancos e é para eles que vai o dinheiro, que os usurários, muito asquerosamente e cheirando a sangue, nos passam para as nãos daqueles que traíram a economia de um país por interesses pessoais e agora lavam as mãos, como se nada de passasse e ainda mais lucros obtiveram com isto, e os devedores de bancos falidos, dão-se ao luxo de não pagarem muitos milhões, porque sim, tudo têm e podem, porque seja que grau de Justiça for, está do lado desses ladrões bem-vestidos e aparentados...
não quero o teu jogo, de aponta-dedos e de poucas armas em punho... que ano querias? 
comerás o que semeaste...
... e eu também, os meus também, por culpa TUA!

Elfo Mor

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publicado às 02:13


Faltava um bocadinho assim!

por autor convidado, em 14.10.11

Ok, eu sei que meia hora é pouco, que o ideal era acoplar um divã à máquina porque o camião não precisa, já traz de origem.
Não pensem em meia hora, que lembra números fracionados e de dividir. Pensem antes em 30 minutos e 30 minutos vai fazer toda a diferença, se não vejamos:
Numa empresa com 2000 trabalhadores, são mil horas a mais e com mil horas a mais já dá para um quadro de pintor mediano para o gabinete do chef, ou juntinho durante um mês, dá para um Mercedes ultimo modelo.
Para pequenos empresários, não deixa de ser também atrativo. 30 minutos multiplicado por uns quantos, já permite mudar o colégio do puto, levar a madame mais uma ou duas vezes ao cabeleireiro, ou em ultima análise ir mais umas quantas vezes às putas.

Fernando Nogueira Gonçalves

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publicado às 10:51


Ficou caro, disse ela, mas fica-te bem, disse eu

por autor convidado, em 10.09.11

Estive toda a manhã a trabalhar, desde que comecei, lá por perto das onze da manhã. Até que acabei, uma hora depois. E basta. E depois de almoço, uma soneca. E a seguir escrever um poste. E a seguir enviar o poste para o meu blogue com barriga de aluguer. E vinha para aqui. E cruzei-me com duas miúdas. Uma mais velha que a outra, e reparei melhor. Que as miúdas deram nas vistas. Vinha eu na moto e voltei para trás. E fui confirmar.

(Está um dia lindo como só na minha terra, com um sol radioso e uma brisa ligeira, sem a ventania que os transmontanos para aqui trazem quando de férias em Agosto, e ia ali ao bar junto aos barcos ler o resto do livro do Paulo Castilho, que a história, qual história, já me enjoa, mas agora tenho que acabar, que os únicos livros que deixei por acabar de ler são os Lobo Antunes, e que, em boa verdade, mal os comecei, e o Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez, também, convenhamos, que cem anos é muito tempo).

E que me cruzei com duas miúdas, sendo que umas delas, há bem pouco tempo, a confundiram com a minha mãe, por duas vezes. Uma da primeira vez. E da segunda vez para confirmar, talvez. Mas acontece que é a minha mulher, na sua, e minha, juventude dos cinquentas. Que ali ia com a minha filha. E eu fiquei baralhado. Mas então, afinal, qual é a minha filha e qual é a minha mulher.

(Ficou caro, disse ela, mas fica-te bem, disse eu. Que se lixe o dinheiro, que está bué de bué de fixe. O cabelo está lindo. Igualzinho. Ao teu cabelo. Mas não o rapes muito, mesmo que fiques careca. Eu gosto na mesma).

Quando sair daqui vou voltar de moto, que foi como vim. Devagar. Que foi como vim. Também. Ou não. Logo se vê. Dá-me um abraço… Não quero mais nada… Já me perdi... Estive longe… Estive tão perto. Canta o rádio. Aqui. Ali. Atrás de mim. E que me aperte sem apertar… É nesse abraço que eu descanso. Diz a Paula que é o Miguel Gameiro, e que tem músicas porreiras. E aconselha que eu vá ao youtube. Mas primeiro tenho que pagar a bica, se bem que se eu sair daqui a duzentos e tais à hora. Na moto. Ninguém me apanha. Nem a Paula.

João José Fernandes Simões

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publicado às 14:24


Quando se vira o bico ao prego

por autor convidado, em 10.09.11

Sói dizer-se que quando se vira o bico ao prego é que sabemos o que dói. Porque ao longo de uma vida profissional intensa e cheia de muitos episódios tive poder sobre os outros. Mas um dia aquele (meu) poder podia cair-me em cima. E caiu. E aqui se sentem as nossas fragilidades. Não as fragilidades de quem não tem a consciência tranquila. Tendo-a. Mas as de quem fica nas mãos dos outros (poderes). E estavam lá todos.

O juiz presidente. E mais outros dois, um e uma, juízes. Num tribunal colectivo. E um procurador. Este último com pose inquisitória. E este último, ainda, em atitude complexada, porque não julga, antes acusa, antes de mais acusa. Este último, ainda, numa acusação preconceituosa, vezes de mais. E este último, ainda, porque está à direita daqueles e não no centro da decisão. O procurador. Subalternizado.

Todos fazendo lembrar «os tempos do bibe infantil». E também os advogados, deste lado e daquele, ou daquele e deste lado, que nem sempre os da verdade.

E ficamos presos num «infantário» que nos aperta os calos, mesmo quando não os temos, sobretudo quando não os temos. Que não tenho calos, mas que já os senti. Apertados. É que, mesmo quando a consciência está tranquila, se ficamos à mercê dos (outros) poderes até os tomates ficam apertados. Tanto, que quase desaparecem. Por muito que se disfarce. E não me venham com tretas. É que pode ser uma espécie de lotaria. E às vezes é. Mesmo que as coisas acabem bem, só que, entretanto, ficam estragos não reparáveis. Quase sempre.

João José Fernandes Simões

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publicado às 10:20


Hoje estou sem paciência para escrever, por isso

por autor convidado, em 08.09.11

Apenas vos conto esta cena. Que merecia ser escrita num blog, se o tivesse, mas acontece que ainda não me apeteceu criar um e tenho quem me ouça, o que basta. Então, é como segue. Adiante.

Fui aos correios enviar um vale. De correio. É que recebi uma carta para pagar uma taxa moderadora, com o aviso de que tenho dez dias para fazer o seu pagamento voluntário, caso contrário, lixo-me.

E diz lá na carta que estou a ser “notificado” mas também diz que estou a ser “informado” o que, convenhamos, são termos que quanto à sua força jurídica não são nada a mesma coisa, nem por lá perto.

E a taxa moderadora para pagar pode ser elevada, muito elevada, precisamente, sem tirar nem pôr, que a quantia de 1.10€. Atenção que são 1.10€ e não 1,10€. O que significa que a diferença entre um ponto e uma vírgula pode fazer a diferença de milhões. E se for de milhões, então, a coisa fica por uma fortuna. Colossal.

Vejam bem que, se não fizer o pagamento voluntário, a coisa a multiplicar «num valor cinco vezes superior» pode ser a minha desgraça. Chiça.

Então, para afastar desgraças, fui enviar o vale. De correio. Aos correios. E o envio do vale custou-me 1,48€. Sim, aqui é mesmo 1,48€ e não 1.48€. O que significa que a taxa moderadora me ficou em 1,10€, atenção, se for com vírgula, mais 1,48€ das despesas de envio. E se àqueles valores somar o tempo perdido na deslocação, o tempo que perdeu o funcionário dos correios, que, por acaso, acho que foi por acaso, era uma funcionária, e que até estava com umas trombas de segunda-feira (Rogério, por favor, não publique isto depois de hoje, ou então tem que ser só na próxima semana, claro, na segunda-feira). Dizia eu.

Que a somar àquela fortuna, ainda há o trabalho que dou a quem me publica estas coisas numa chafarica de um blog, mais o tempo que demorei a chatear o gajo que nunca mais me tem o barco pronto e que tem oficina mesmo ali e que aproveitei para passar por lá. Ao pé dos correios. Onde fui enviar o vale. De correio.

E o hospital, que, neste caso, fica a 50 quilómetros para lá mais 50 para cá, não tem outra forma de pagamento disponível aos utentes, que por coincidência também são os próprios doentes e que podem não poder sair de casa nos próximos dez dias. E a alternativa restante seria enviar um cheque, com a curiosidade de, neste caso, também teria que ir. Aos correios. Mas acontece que eu não uso cheques há mais de 15 anos, porque, porque, porque… E o que têm vocês com isso.

Quando podia demorar segundos a pagar isto pela Internet. Mas o hospital não deve ter Internet em condições. Porque enquanto lá estive, no “Barbeiro de Celas”, a rede, de facto, ia abaixo muitas vezes.

E é assim a minha vida. Hoje não me apeteceu escrever, mas fica o episódio contado. Sempre deu menos trabalho. Ah… E os correios também não têm Multibanco, vá lá saber porquê (por acaso até sei…). Desculpem lá, portanto, o tempo que vos fiz perder.

João José Fernandes Simões

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publicado às 10:15


Melros não serão, de certeza absoluta

por autor convidado, em 05.09.11

A reunião foi convocada para o viveiro de aquicultura, por horas do almoço, a um sábado, e pela tarde adentro. Picam o ponto os caciques. Objectivo: definir a estratégia da conquista da câmara. Nem o dono da agência funerária lá faltava, o padre não foi. Conhecia bem o presidente da concelhia, de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. E estava o presidente da distrital (um bom filho da mãe, ia para dizer da puta, mas a mãe não tem culpa) e que não estava de acordo com o presidente da concelhia sobre o candidato a apresentar às eleições para a câmara. O presidente da concelhia queria uma figura política com peso nacional e impunha um seu amigo, acabado de deixar uma vice-presidência no parlamento europeu. O presidente da distrital queria um candidato local, pouco lhe importando se tinha ou não peso nacional.

Achava eu (sendo eu também um bom filho da puta, ainda por cima desconfiado quanto a filhos da mãe) que o presidente da distrital preferia um candidato da sua confiança, mesmo que em prejuízo de um candidato teoricamente mais forte (sim, sim, que estas coisas são muito de teorias, e também de práticas) e que não fosse apenas da confiança do presidente da concelhia. Pois. E disse ao meu amigo de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. Onde é que ia? Ah! Que o presidente da distrital lhe andava a fazer assim a modos que a folha, porque eu sabia de contactos dele com um tipo que andava em manobras para ser o próximo candidato a presidente da concelhia. Não sei se estão ver? Claro! Feito com o presidente da distrital. E avisei que se pusesse a pau. E o candidato da confiança do presidente da distrital até era o meu médico de família, por acaso casado com a mulher daquele, também médica, mas que até podia ser enfermeira. Pois. Mas isto são teorias minhas, que quanto aos factos são mesmo assim.

Acontece que o candidato do presidente da distrital perdeu a câmara, que foi ganha por um filho da puta ainda maior, este sim, da puta e da mãe, vindo de lá de baixo na companhia, putativa, de uma socialite das revistas que a gente lê quando esperamos na sala de espera do dentista, por exemplo, que até podia ser de um ginecologista, não no meu caso que talvez fosse mais apropriado um especialista daqueles que nos enfiam o dedo no cu para medir o tamanho da próstata (lá está esta palavra a dar erro, quando próstata se escreve próstata, mas que coisa!). Pois. E então o tal que andava em manobras, achava eu (e achava bem) contra o meu amigo de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. E já me perdi outra vez! Já sei! Foi derrotado em eleições antecipadas para presidente da concelhia. E lá andei eu com o meu amigo por montes e vales e pelas residências dos presidentes das juntas de freguesia, e por donos de agências funerárias, a arregimentar votos para o meu amigo, assim a modos, então, já conhece aqui fulano (que era eu) e coisa e tal, assim para impressionar, que eu era um tipo importante. Estão a ver? E por conta de quotas pagas de militantes até então à revelia (e que ainda deve ter sido uma boa maquia) lá conseguiu ganhar e manter-se como presidente da concelhia. Mas foi sol de pouca dura, porque só durou alguns meses tanta foi a vilania. Novas eleições, então. E perdeu, finalmente.

Lembrei-me destas vidas passadas, não há muitos anos, porquê? É que por conta de outras desgraças, hoje, ia a passar por de cima da ponte. E olhei para os viveiros que estão em obras há algum tempo. Consta que foram comprados pelos espanhóis e que, em vez de fabricar robalos e douradas, como dantes, vão passar para linha de fabricação de pregado (não estou bem a ver que raio de peixe é, mas acho que é assim parecido com a solha, e se não for, então, passa a ser, pronto, melros não serão, de certeza absoluta). E onde é que eu quero chegar com esta conversa? Pois. Muito simples: É que aqueles viveiros foram comprados à manga, por conta, na altura, de apoios europeus a fundo perdido e com orçamentos inflacionados, para dar para os todo-o-terreno que floresceram nesse tempo, e para dar a mais não sei quem mas que não vou aqui dizer, nem é preciso, mas a mim não foi, juro. E o negócio, porque não tinha escala para se aguentar, foi ao fundo, por conta da concorrência do reles robalo e dourada que são importados dos, também falidos, gregos e que não valem uma merda quando comparados com os que eu ali pescava, e em boa verdade também comia. À borla, bem entendido, e se querem saber, antes que mo perguntem. Pois: O que um gajo tem que escrever para desopilar!

João José Fernandes Simões

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publicado às 14:29

Evito passar por lá, sequer olho para lá. Evito. Porque fujo. De lutos que não fiz, ou que ainda vou ter que fazer. Passo pelo monte e não olho para lá em baixo. Para aquele sítio. Passo lá em frente e viro o olhar. Penso que devo lá ir e fujo desse pensar. Penso se não estou a ser mórbido em pensar nestas “coisas” que me atormentam. Mas não estou. Apenas tenho uma difícil relação com essas “coisas”. E escondo-me. Dentro de mim.

Já pensei em falar com o homem dos mármores. E pedir para mudar a lápide. Que apenas lá fique. Que os amo. Sem palavras escritas, apenas com este pensamento. Que os amo. Mas os pensamentos não se escrevem numa lápide em uma pedra de mármore. E incomodam-me as flores. De plástico. Que lá põem. E incomodam-me as flores que eu lá devia pôr. Mas que não sejam de plástico. Mas eu acho que as flores. Que as flores não servem para isso, nem sequer as de plástico.

Também já pensei em pedir ao homem dos mármores que retire as fotografias da lápide. Porque as fotografias me incomodam. Também me incomodam. As fotografias. Naquela lápide. São os meus espíritos que dançam. Porque olham para mim num olhar que me faz sentir culpas. De culpas que eu sei não ter. E que (eu sei) não me atribuem.  

E me incomoda porque me é difícil entrar naquele quarto. Onde me esforço em não olhar para trás. Eu sei que não me perseguem. Mas esse pressentimento. Persiste. E, por vezes, até estremeço com um barulho qualquer. Como se um dedo pudesse estar, ali, apontado para mim. De noite, então. 

Mas eu sei o que me incomoda. O que me incomoda. É que não consigo fazer lutos. Fujo. É que apesar de ter estado sempre por perto. De até beijar no último leito o corpo frio. Mas o corpo frio já não sente tal ternura. Uma ternura que faltou tantas vezes quando não devia levantar a voz. Quando devia dar beijos num corpo quente. E talvez, então, não sentisse a necessidade de plantar árvores.

João José Fernandes Simões

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publicado às 21:23


O meu Jardim

por autor convidado, em 03.09.11

Por falta de paciência para tratar do jardim contratei os serviços de um jardineiro, tarefa que, dizem alguns, ajuda a ter paciência, mas que no meu caso assim não acontece. E a minha mulher tem paciência para isso mas não tem saúde. E eu tenho saúde, por enquanto, mas não tenho paciência. Pedi ao jardineiro para encher o jardim de árvores. De árvores de fruta, e não de palmeiras que apenas parecem bem. De árvores que me lembrem a vida e não de palmeiras, egoístas, que roubam a água e secam o resto.

Uma árvore é pelo meu Pai. Outra pelo meu Irmão. Outra pela minha Mãe. E outra pelo Gigio, que está ali, para onde o levei a passear pela última vez, ao colo e a chorar, que alguém ou algo lhe roubou o andar, e que também é de família. E uma outra árvore que em momentos de maior fraqueza me incomoda e me empurra para uma tristeza que faz doer. E que eu não quero que seja plantada, nunca.

João José Fernandes Simões

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publicado às 20:44


Continua, um dia destes (3)

por autor convidado, em 31.08.11

A rigidez implodiu, e implorou que não fossem lá a casa, que ia ser um problema familiar grave, e uma fraqueza é sempre de compreender em certas circunstâncias da vida, afinal, e as partes ficaram recolhidas, amorfas, sem vida. O aposentado, de bancário, estava assustado

O ponto estava programado para a partir das vinte e uma, em zonas mais discretas até menos, quase logo que descia a noite, na cidade, elas iam aparecendo nos lugares do costume, há anos arrendados num aluguer com renda de contrato escrito nas entranhas da intimidade. Elas

Voltaram para trás, prescindiu-se do bilhete de identidade necessário para se identificar nestes imprevistos, não foram lá a casa, o aposentado ficou mais sereno, não por ele, mas por ela, mas levando o sermão de que bem podia satisfazer necessidades num quarto de pensão, seria escusado a vergonha assim passada, enxovalho demais, desnecessário, e o bancário agradecido. Que a mulher

Tomavam conta da rua, satisfaziam apertos de quem carecia, estabelecidas por conta própria ou avençadas a um qualquer chulo, para pagar necessidades, delas e outras as mais das vezes dos vícios do chulo, os filhos na escola, obras em casa, mulheres lindas, algumas, outras, nem por isso, mas todas vendendo a alma, as que ainda a tinham.

A mulher não podia devido a uma doença, argumentou, mas então, tantos quartos por aí, com uma aposentação que deve dar para isso, também para isso, mas enfim, que são fraquezas, tentações, necessidades, e que ainda não tinha internet onde se fazem estas coisas a toda a hora e onde até se fazem filhos gerados em filmes a três dimensões.

João José Fernandes Simões

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publicado às 11:05


Continua, um dia destes (2)

por autor convidado, em 30.08.11

As serras eram subidas a suar de esforço, aflito, recuperando em íngreme descida, pelo mesmo caminho mas em sentido inverso, em idas e vindas que o levava e trazia em mais de doze horas de viagem, dando apitos nas curvas, onde quase parava e se descia dos estribos, e subia. Umas jovens riam

A viagem era longa e desproporcionada, doze horas, levando apenas três a chegar a um terço da viagem mas daqui demorava o resto do tempo até chegar ao alto, com paragem dormida em bancos de carruagens estacionadas em Campanhã e só depois, pela noite toda, fazendo o rio que fugia e aparecia. E

Eram estagiárias de engenharia florestal, bonitas, elas as três, em início de carreira, havendo por isso que prestar comissão em terras dos confins, lá por Bragança, onde se namorava no castelo com vista para a cidade, até voltarem cá para abaixo se a paixão das serras as não apegasse. Por amores

O rio espreitava nas curvas de soslaio ou fazia companhia lado a lado na itinerância da viagem, dentro do comboio chovia ou fazia sol conforme o tempo, e quando chovia se abria o chapéu para fechar os buracos do tecto da carruagem, e outros cumpriam a tropa com semanas de campo nas serras de Samardã e crosses logo na primeira hora de instrução no circuito onde corriam automóveis, vestindo cuecas compridas para suportar o frio das neves do Marão, e de botas com dois pares de meias altas ao comprimento do joelho. Vindo

Voltou uma delas, pelo menos, por amor a um engenheiro, daqui, que assim se chamava, o engenheiro, e acabou a desmerecer a Alda, engenheira florestal, vindo a passar um mau bocado, muito magra em elegância desfrutada naquele comboio mas agora mais por culpa do divórcio. Uma besta, o engenheiro.

A Coimbra fazer exames a meio da semana, de cadeiras do curso que ficaram atrasadas, estudando por sebentas de empréstimo, já tão riscadas de tanto serem estudadas, até conseguir uma oral, que garantia mais uma escapadela cá abaixo, a juntar às consultas de simuladas dores de dentes, porque se estava tão longe, vindo de volta a Campanhã, à sexta-feira. E depois, outras doze horas.

João José Fernandes Simões

 

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publicado às 11:05


Continua, um dia destes (1)

por autor convidado, em 29.08.11

A irrequietude nem na velocidade desvanecia, não uma velocidade elevada e que às vezes resolve, porque a condução suave moderava as ideias que corriam, estas sim, em velocidade imparável. Pensava na forma

O pai esperava com o cinto pelas costas que era como ele achava de melhor dar educação, era assim que entendia como arrumar as ideias do filho já nesse tempo irrequieto. Sempre atrasado

De materializar o que corria sem travão numa mente esmagada por pensamentos de hoje e de ontem, e dos confins do tempo preso na consciência. Custou seis euros e noventa

O comboio vinha nesse tempo quase sempre à tabela e obrigava a uma corrida galgando os carris e saltando para cima do estribo, mesmo a tempo de conseguir chegar à primeira aula. O comboio era

O preço da péne que permite guardar as ideias usando um qualquer computador, desmaterializando a arrumação de pensamentos que se avolumam e que se perdem se não forem logo passados para o papel. Mesmo usando-a

Ainda do tempo dos cowboys, e mesmo com os estribos que permitiam um salto fácil nem sempre conseguia ir à primeira aula, sendo garantido a tareia correctiva com o cinto de pouco mais que meio metro pelas costas abaixo e pela barriga das pernas. Para aprender a levantar cedo.

Algures, ou aqui mesmo, e mesmo que seja num computador que seja de quem for.

João José Fernandes Simões

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publicado às 11:05


O Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos

por autor convidado, em 26.08.11

Depois de trocar uns comentários sobre gaivotas e melros no meio do fastio que me começa a dar fazer controlos sobre a gestão dos outros, armado em espécie de bufo de custos operacionais. Chegou a hora de almoço

Na sala continuava a dormitar no sofá (hoje é um dia mau) e percebi que não dava para ir ao Tapas onde ontem num dia que pareceu normal. Comeu um robalo inteiro

Consegui enviar o controlo que me faltava, embora sempre com a ralação da internet sem fios a andar devagar no escritório, no local, preciso, onde devia andar mais rápido. E fui ver

Ontem à noite entusiasmou-se com a pressa de recuperar peso (se vier a recuperar, o que não sei, não) e o chouriço do caldo verde foi pesado para um corpo aleijado e que não ajuda. Nada

Fui tratar do bife, que já estava a adivinhar, porque ficou de reserva, e coisa rápida, grelhado, como eu gosto e só com sal. E fez-se uma canja, e por aí ficou, ela, e voltou. Ao sofá

E eu, na cozinha, acendi a luz para ver na escuridão de um dia que, embora um pouco cinzento, está cheio de luz, aqui junto à janela de onde olho para os arrozais do Mondego. Fui fazer um descafeinado, que isto passa (e vai passar, tem que ser)

(Sendo, entretanto, distraído por um sms no telemóvel, que estava esquecido do lado de lá da casa na sala da frente, estou na cozinha que fica atrás, e me dão a notícia de que o Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos) mas eu não lhes perguntei nada

(Acho mesmo que um dia vou responder ao desafio de escrever um livro, que só eu leia, e que um amigo meu vai editar, e que ele também vai ler porque é um tipo simpático). Hoje é um dia mau, sem saber se vou continuar a ler, ou a escrever, porque a trabalhar, chega. Por hoje

(A canja fez-me bem). Veio ter comigo, e disse-me. Talvez o dia ainda venha a valer a pena, penso para comigo, só. Levantou-se

João José Fernandes Simões

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publicado às 14:33


Sendo assim vou contar o resto da história

por autor convidado, em 24.08.11

É que o cliente do meu amigo advogado tinha apenas dois ou três dentes que eram dele, porque o resto da cartilagem foi um leasing feito a um dentista, sendo este também meu amigo. E uma das armaduras, logo uma de um dos da frente, aquilo andava sempre a desmontar-se. O cliente do meu amigo advogado, e também cliente do meu amigo dentista, vinha lamentar-se, a mim, que queria ir ao Brasil e que não podia comer fruta sem correr o risco de ficar desarmado, mais, é que o pior seria de correr o risco do dente mal encanado se encanar por outras bandas.

Pois ia ao Brasil pela época da fruta ainda mal madura e não queria fazer má figura, ainda por cima que era com tal que melhor ainda a coisa funcionava, que, quanto ao resto, já empancava mais do que se alavancava. Acho eu, que pela idade que ele tinha e sendo eu menos usado cá sei do que já não vou vendo. 

E já agora vos dou conta que foi pelo Brasil que fez fortuna em dono de padarias, lá para as bandas de Santos onde tinha apartamento à beira da praia (também, se é isso que querem saber, este apartamento me foi oferecido, mas nesta já não embarquei), dizia, que fez fortuna, em tempos idos de escravaturas, e que ainda hoje por lá há, e cá, ao que dizem as notícias, como outros assim fizeram, também, nas roças do cacau e do café e que depois por cá apareceram e multiplicaram os ainda escudos por essa altura em fortunas colossais sobretudo na compra de terrenos e em construção em tudo por quanto foi sítio e a avença (municipal) assim dava uns jeitinhos.

O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, era, de facto, um mulherengo incorrigível, com apetência por jovens que a vida fez delas putas ainda em idade de crianças.

Mas acabou com um fim triste (e merecido, embora eu ache que ninguém merece fins tão malvados) bebendo do próprio veneno. Pois um dia com o cio se fez a uma funcionária de uma bomba de gasolina, e de gasóleo, e onde também se deve poder encher os pneus e pôr água no radiador se o ar for preciso e a água já se tiver gasto. E a coisa acabou mal. Tão mal que nunca mais foi visto.

Com a assinatura falseada se vendeu o jipe para onde se vendem jipes assim, com documentos também falseados. E muito dinheiro se levantou em caixas multibanco e em cheques, até que a mulher dele tal estranhou. E foi-se a ver e o cliente do meu amigo advogado e do meu amigo dentista foi apanhado numa rede de bandidos com quem estava feita a tal funcionária. O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, acabou encontrado a fazer entulho numa barragem. Azar.

João José Fernandes Simões

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publicado às 15:00


Embora conduzisse como as senhoras

por autor convidado, em 23.08.11

(O Paulo Castilho que espere, embora o livro esteja muito bem escrito mas muito arrumadinho para o meu gosto. É que, primeiro, tenho umas coisas para dizer).

Estamos a falar da mesma treta, ia antes para dizer que estamos a falar da mesma merda, mas não quero ser mal-educado, por isso fico-me pela mesma treta.

(Aquele Eduardo Barroso é um chato com o-meu-querido-seportingue e com o-meu-filho-diz-que-foi-pénalti e o Fernando Seara é assim a modos que muito intelectual a falar de futebol e, pior que isso, enjoa a sua conversa de que não-interessa-não-interessa e também o tenente-coronel-árbitro-comentador que usa um penteado rapado com uma carapinha que só lhe falta os brincos para se parecer com o Cristiano Ronaldo, mas que ponha uns com diamantes que assim tem mais estilo).

É que detesto o politicamente correcto de chamar mentiroso usando eufemismos de inverdades e de não verdades, além de que tais termos não existem, vá lá, concedo que não verdade ainda pudesse ser uma não-verdade. Mas não é coisa nenhuma. É mentira. Ponto.

Mas uma verdade também pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. É que dizia-me um advogado meu amigo que teve que dizer a um seu cliente: olhe, eu acho que me está a mentir, mas, então, vamos construir a verdade em cima da sua mentira.

E tinha razão o meu amigo advogado, porque o seu cliente ganhou a causa e foi buscar mais de dez mil euros pelo salvado de uma viatura acidentada depois de muita guerra com a seguradora. Eu explico, então.

O cliente do meu amigo advogado tinha alguma proximidade comigo, embora eu fugisse dele como o diabo da cruz, mas eu estava com o rabo preso porque tinha caído na asneira de aceitar, em tempos, a estadia numa sua casa de férias. À borla, pois claro. Mas que ele me quis cobrar. (Já explico porquê).

(É que tenho que me concentrar no que estou a querer dizer, mas o Eduardo Barroso continua histérico e a fazer de conta que está a ralhar com o Fernando Seara, se bem que já quase andaram à chapada. Ó Eduardo, ó Eduardo, é melhor começar a retratar-se, é pénalti-é-pénalti-é-pénalti. Estes tipos distraem-me, caramba).

Mas (então, vamos lá) estava eu a explicar que o cliente do meu amigo advogado tinha-me preso pelo rabo, de modos que me pediu que fosse testemunha de um acidente em que foi interveniente. E eu aceitei ser testemunha de abonação, porque, em boa verdade, eu sabia que embora conduzisse como as senhoras o facto é que procurava ser sempre o mais cuidadoso possível, ou tão possível quanto era capacitado.

Mas a casa de férias ficou cara, pois o que ele queria era: sabe, se você aceitasse testemunhar como se viesse comigo e dissesse que eu vinha na minha mão e que o outro é que veio para cima de mim (ou de nós, se eu aceitasse).

Concluindo que fui dispensado de ser testemunha de abonação, porque era de presencial que lhe interessava. Mas eu não me dou bem com uma verdade que pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. E assim fiquei sem casa de férias na Manta Rota. E o que vos conto não é uma não-mentira. É verdade. Foi.

(Vou continuar com Domínio Público, pág. 98, avancemos, capítulo IX, Os nossos indígenas). Indígenas, pois!

João José Fernandes Simões

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publicado às 15:00


Ao preço de mixórdia

por autor convidado, em 21.08.11

Olhou para mim com o ombro esquerdo e o pescoço meio torcido para a mesma banda. E confidenciou num sorriso meio irónico que lhe apetecia desopilar. Já nos conhecemos de há mais de vinte anos em lides de prende e solta. Eu prendendo. E ele soltando. E compreendi que o bafio dos processos era um bom argumento para arejar, em jeito de mudar de vida. Vinha acompanhado dos apaniguados, em jornada eleitoral. Em dia, em noite, de conjuntos musicais e de ranchos folclóricos em ritmos de acordeões com músicas e cantares de vira para aqui e de vira para lá.

Em algumas tertúlias ouvia falar de chapeladas com votos que mudam de secção no mesmo dia e à mesma hora e de quotas pagas a propósito, num dom de omnipresença que é de espantar. Mas não ligava muito, estava ali com alguns amigos para conviver e votava em quem me apetecesse. Em boa verdade, confesso, já não votava sequer, porque tinha, e tenho, um certo despeito pelos políticos. Que não pelas suas pessoas, pois não será por tal defeito que se desapegam de algumas virtudes. E alguns, se bem que cada vez mais poucos, são boa gente. E, afinal, há gente boa em todo o lado, e má também.

Mas foi com surpresa que vi em papel de político o magistrado judicial que conheci por terras de outras bandas, só mais tarde sabendo que nascemos no mesmo ano, e na mesma terra. E na mesma maternidade, e, quem sabe se não nos conhecíamos já de tempos mais idos mas que a memória, por muito precoce que possa ser, é de impossível reminiscência. Com surpresa, pois foi. Que o vi. Em papel de político. E com surpresa maior porque foi como independente. Mas. Apenas após ter saído do partido da concorrência umas escassas semanas antes. Coisas que me espantam mas que já não me surpreendem.

E ambos conhecemos um rapaz com carreira na delinquência. Que eu prendia. E ele soltava. E que eu soltaria se fosse ele a ter que o prender. Andaria hoje pela casa dos trintas, não fora um voo mal planeado que o levou a estatelar-se. De um quarto andar. De um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo. Directo lá de cima. Mas sobreviveu àquele voo. Como um gato com sete vidas. E, afinal, ele era um sobrevivente de algumas vidas, que resgatou com fome, tantas vezes ou quase sempre. Uma fome de falta de ter que comer e que satisfazia com a astúcia do saber dos que sabem enganar gananciosos. A vender de tudo, sempre surripiado a alguém, e sempre com a arte de saber enganar os que sabem que o que compram pode ter sido surripiado mas que não deixam de comprar ao preço de mixórdia.

O rapaz que ambos conhecemos sobreviveu àquele voo, de um quarto andar, de um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo, directo lá de cima. Até que um voo mal planeado o levou desta para melhor ou sabe-se lá para aonde. Um voo mal guiado por adentro da veia já sumida. Começou por cheirar e depois por meter. Na veia. Na veia já sumida. Até que se sumiu. Eu gostava daquele rapaz. E o presidente. Da câmara. Hoje desembargador. Também. Quem sabe se, por estas coisas, decidimos ambos mudar de vida.

João José Fernandes Simões

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publicado às 19:08


A (minha) irmã lá saberá porquê

por autor convidado, em 20.08.11

(Não sei do meu Fernandinho, devia estar ali ao fundo da cama, mas deve ter pensado que eu não lhe estava a ligar nenhuma. E foi para a outra sala).

E dando voltas à cabeça sobre se devia confidenciar. Já. A conversa que tive hoje com a (minha) irmã de uma irmandade religiosa, uma conversa que valeu mil vezes o pudim esquecido da sobremesa e que só terminou quando percebemos que o pessoal da cantina do hospital precisava de acabar de arrumar a loiça. E nós, os dois, para ali numa conversa sem fim. Sem fim. Porque o fim é sempre o mesmo. É que não consigo encontrar um sentido para a religiosidade que exclua a essência do ser humano, o de ser pessoa na sua materialidade plena. Um sentido que justifique a discriminação da mulher no sacerdócio. Um sentido que exclua o matrimónio no sacerdócio. Um sentido que explique os fundamentalismos religiosos. Entre tantas exclusões que as religiões excluem. Um sentido que justifique a pedofilia (protegida) de demasiados.

A (minha) irmã e eu acabamos a conversa com uma conclusão que foi (para mim) uma inevitável não conclusão. Contei-lhe que, há dias, senti um impulso em entrar naquela capela, mas não o fiz. Que se o fizesse estava a ser fraco, porque estava a recorrer ao (seu) Deus que me acudisse, argumentei que não fazia sentido lembrar-me d’ Ele só quando me vejo no maior aperto da minha vida. Porque nos devemos lembrar todos os dias e não apenas num dia de aflição maior. Mas ela diz-me que devia ter entrado porque o (seu) Deus se lembra e ajuda sempre. Todos. Sem discriminar (não) crentes. Acabámos a conversa dando-lhe dois beijinhos, porque a (minha) irmã os mereceu, mas foi uma conversa inconciliável, ela argumentando com o conceito teológico da vida e eu com a minha incorrigível descrença. Mas ela disse-me que eu tenho um espírito cristão. A (minha) irmã lá saberá porquê. Já eu não consigo saber.

Mas não era da (minha) irmã que eu queria falar, até porque tinha decidido nos próximos tempos dedicar-me a ler o Paulo Castilho e o Leopoldo Brizuela, com 402 páginas prensadas no Domínio Público e 731 em Lisboa. Um Melodrama. E. Também. Acho. Que ando a falar de mais e acabo a ser aborrecido, e, pior que isso, a não dizer nada. Mas ao fim de poucos minutos de leitura fico preso no facto de «no geral o Fernandinho prefere permanecer deitado na minha cama. Mas hoje resolveu andar atrás de mim, passo a passo, sala a sala (…) e fiz um gesto mais largo com o braço e assustei o Fernandinho, que recuou num movimento brusco. Devem ter-se passado coisas sinistras no canil antes de eu o trazer para casa, porque decorrido um ano continua a ter medo de tudo e às vezes põe-se a tremer sem razão nenhuma».

Então percebi o motivo de um dos meus Fernandinhos tremer todo quando o quero ter dentro de casa. Dos três que adoptei é o único que treme quando lhe faço festas. É o único que se encolhe todo quando lhe faço festas. É o único que se assusta comigo quando lhe faço festas. E como ele gosta que eu lhe faça festas. E então percebi que hoje o dia valeu bem a pena. Porque tive uma conversa que valeu mil o vezes o pudim esquecido da sobremesa. Porque percebi a razão de ser do meu Fernandinho tremer todo. Porque dei um beijinho à Joana que tem 23 anos e me parte do coração, de um coração de um não crente que também treme. E que também chora, com uma alma que a (minha) irmã diz que eu tenho. Mas uma alma que eu não encontro. Ou quem sabe se a encontro de vez em quando. Ou então que talvez seja ela a vir ter comigo.

(A Joana que tem 23 anos e me parte o coração foi para casa, mas volta na quarta-feira para uma consulta, com a bolsa cheia de remédios. Que não curam. Apenas. Fazem não doer).

João José Fernandes Simões

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publicado às 20:00

Hoje vi-o a nascer, a oeste, a romper daquele monte, em quase fim de gravidez, para uma lua cheia, imensa, barriguda, que, quando passar em frente ao meu janelão, despido, com a portada aberta, já estarei a dormir, espero, mas não estou seguro que assim seja; Quando o vi nascer estava a vir da foz, do Mondego, e o Sol da Noite despontava, numa gravidez em quase parto, e eu aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) vindo de um jantar, sozinho, e em que tive que esperar por mesa quase uma hora por conta dos àvéques que falam português baixinho e francês em alta vozearia; E lembrei-me; De, há tempos, ter ido ao Porto levar a minha madrinha, que ia apanhar o avião para Bruxelas, e quase ter que encostar o carro tal a selvajaria de lata que me invadia da esquerda e da direita, por cima e por baixo; Como hoje, enquanto esperei quase uma hora por mesa livre para jantar (e eu aflito, não por culpa da próstata, mas da ansiedade) de tal forma que foi um alívio quando entrei no meu quintal; E despejei o que me afligia, deixando de estar aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) numa intimidade apenas partilhada pelos meus cinco cães, que, de tão contentes de me ver, nem se apercebiam que (eu) lhes chovia em cima; E, hoje, vou dormir, mas talvez ainda acordado, à espera do Sol da Noite, que se atrasa cerca de três quartos de hora por dia; E também não percebo a razão de próstata dar erro ortográfico se próstata se escreve próstata. E um dia destes vou falar da Joana, que tem 23 anos…

João José Fernandes Simões

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publicado às 23:49


Assim me apareceu o coronel

por autor convidado, em 16.08.11

Só lhe faltando o boné. De calção e t-shirt e com sapatinho sem meia, estava eu com a minha gerente de conta, e então o coronel, ó comandante. Olhe lá

Bem que você (que sou eu) podia ter agradecido à senhora por lhe ter resolvido o problema, é que nem uma palavra e isso não lhe ficou bem. E

A gerente que me atendia ficou assim-a-modos-que-não-sei-como quanto ao que é que este tipo (que sou eu) terá feito ao coronel. Mas fisgando-me

Um sorriso meio irónico de quem bem conhecia aquele e não sendo normal uma tal intromissão. Inusitada

Na discrição que se é devida no atendimento do Caixa Azul. Deixei a gerente pendurada. E fui ter

Ó senhor coronel. É. Pois. Sabe. Eu. Tenho andado. E assim e assado

Pois é, mas não lhe ficou bem, podia ter (pelo menos…) telefonado à senhora a agradecer, porque se empenhou a resolver o seu problema. Mas

O coronel (pelos vistos…) não percebeu que eu não tenho feitio para pagar favores. Como. Ou ao jeito. Que ele tem (terá…). Mas talvez ainda lhe vá oferecer

Um boné. 

João José Fernandes Simões

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publicado às 11:09


O inspector e as duas disquetes

por autor convidado, em 13.08.11

Para aí há uns seis anos, estava, como estou agora, a ocupar o tempo em conversa com o meu computador, estando a meio caminho entre Lisboa e Nova Iorque, sentado na secretária, aliás, na cadeira da secretária, do gabinete que me tinham dispensado para as tarefas que são a um Inspector acometidas.

Estava a meio da primeira das duas semanas em que por ali andei a fazer estrago e reparei na minha agenda que, naquele dia, terminava o prazo para pagar a electricidade ou o telefone ou outro calote qualquer, daqueles de que não nos livramos todos os meses, se bem que no caso da electricidade, agora, pode ser de dois em dois, e que, já na altura, eu pagava através do caixadirecta.cgd.pt.

Os blogs ainda não se tinham massificado, pelo menos, de tal eu nunca tinha ouvido falar, por isso lia os jornais e espreitava algumas páginas da Internet, sempre com aquele meu feitio metódico, tudo bem organizado com atalhos, para ir directo a quem gostava de ler, alguns ainda sobrevivendo hoje nos mesmos jornais como comentadores e que me ficaram como referências de leitura obrigatória.

Por ali, as coisas até estavam muito bem quanto a equipamento informático, graças à carolice de um estudante de engenharia, que fazia autênticos milagres à época, que até a ordem de serviço já ia, como se fosse hoje, no comboio da Vodafone ou no kanguru da Optimus, sem necessidade de tal serviço se fazer por conta de resmas de papel transportadas em motociclo, e que melhor uso este servia para o serviço de vigilância.

E habituado a recolher a informação para os relatórios, tendo apurado, com a experiência, a criação de matrizes onde condensava a informação que mais tarde analisava já na capital, foi com surpresa que me entregaram duas disquetes, quando este suporte era ainda de uso corrente, já que hoje os portáteis já destas prescindiram, tal a vulgarização das penes amovíveis com capacidade para armazenar informação superior à do disco rígido do meu primeiro computador.

Que um dia deixei cair e que me deixou saudades pela suavidade do seu teclado, quase sensual, tal o prazer que ambos sentíamos em que nos amaciar, era um Toshiba cinzento, com meio giga de disco.

E a minha surpresa, quanto ao motivo de duas disquetes para uns escassos caracteres que cabiam em duas folhas A4, quando me foi respondido que era por não caber apenas numa folha, se tornou deliciosa e gratificante.

Porque aquele profissional quis resolver um problema e, de facto, seria muito aborrecido se, por falta de uma disquete para a segunda folha, a informação de que necessitava viesse incompleta.

(Escrito no Funchal em 5 de Outubro de 2007 e publicado às 01:44)

 João José Fernandes Simões

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publicado às 20:00

30 de Maio de 2011- Estávamos na última semana das «tendas de campanha» eleitoral, para me socorrer das palavras do Nobel Elias Canneti. Pedro Passos Coelho, então futuro Primeiro-ministro de Portugal, lançava mais um importante trunfo: «o PSD e eu próprio não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA (…) nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, e não aumentando ou agravando as taxas de imposto». Passos Coelho falava da sua promessa numa acção de campanha em Valença do Minho.

12 de Agosto de 2011- Pela manhã, os portugueses são surpreendidos com o aumento do IVA do gás e da electricidade em 17 pontos percentuais. Com o Primeiro-ministro de férias, a «boa nova» é avançada pelo (colossal) Ministro das Finanças. Escusando-se a avançar de que forma o Executivo irá proceder aos cortes na despesa, Vítor Gaspar confirmou, acreditamos que inconscientemente, uma velha máxima da acção política: a mentira e o segredo estão estreitamente vinculados à própria essência da arte de governar. De facto, razão tinha Hannah Arendt quando afirmou, no célebre artigo intitulado «Verdade e Política» (1967), «que nunca ninguém teve dúvidas que a verdade e a política estão em bastantes más relações». Quando a mentira organizada domina a res publica, a verdade tem, com efeito, ténues possibilidades de resistir ao assalto do poder. 

Hélder Prior

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publicado às 17:46


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