Quando a 9 de Outubro de 1967, o exército boliviano capturou Che Guevara, foi encontrada na sua posse uma mensagem cifrada, pronta para ser enviada a Fidel Castro. Está reproduzida na imagem a seguir. Quem quiser conhecer a mensagem original, vai ter que ler mesmo até ao fim, porque não tem qualquer interesse. O único facto de interesse é que, sem a chave, a mensagem não poderia ser decifrada, nem com acesso a um computador contendo todos os átomos de silício do Universo, nem sequer com capacidade infinita.
Os algarismos da linha central, em cada um dos blocos, são a chave criptográfica. Apenas dois pormenores: tem exactamente o mesmo tamanho da mensagem clara — a primeira linha — e os dígitos da terceira linha (o textocifrado) são iguais à soma
modulo 10 das duas linhas acima. A operação consiste apenas em adicionar dois números e ignorar os
...e vai um... gerados. Por exemplo, logo no início, 3 + 8
modulo 10 = 1; 8 + 6
modulo 10 = 4. A operação inversa é a subtracção
modulo 10, que consiste apenas em ignorar os
...e empresta um... resultantes. No mesmo ponto, 1 - 8
modulo 10 = 3; 4 - 6
modulo 10 = 8. Funciona, hein? E é ainda mais fácil do que a adição e subtracção normais.
E até já funcionava nos tempos da Idade das Trevas. A
cifra de Vernam foi inventada em 1917, mas nunca despertou qualquer interesse. Pura e simplesmente, ninguém sabia como avaliar um sistema criptográfico, fosse ele qual fosse. Apesar disso, afirmar em certos círculos, como
eu já por aqui o fiz, que a criptologia não era uma disciplina cientifica antes de 1949, era o bastante para sair de lá com os olhos todos negros. É claro que eu diria o mesmo, apenas de forma mais defensiva, mas concordo que falar em "três novas ciências" talvez não seja a melhor forma de apresentar o assunto. Aquele tal fulano que eu mencionei, faleceu já este século, após uma longa luta com a doença de Alzheimer, mas foi um homem do século vinte, por excelência.
Após a sua morte, a viúva fez um comentário que eu achei tocante. Disse ela que o marido, se disso tivesse tido conhecimento, teria achado extremamente irónico o facto de ser universalmente considerado como o criador da Idade da Informação..., por um motivo simples:
Claude Elwood Shannon
odiava a palavra "informação". Odiava!
Comunicação,
comunicações e
mais comunicações; no fim de contas, informação é algo que todos sabemos o que é, excepto se tivermos que responder à pergunta
...o que é a informação?. Provavelmente, em vez de falar em "novas ciências", a melhor abordagem será falar num novo paradigma que muda tudo, mas radicalmente, tudo em que toca. E não há volta a dar-lhe, chamamos-lhe
Teoria da Informação.
O trabalho seminal de Shannon inaugurou a Idade Moderna, que acompanhou e configurou a Guerra Fria. Funcionou e temos a certeza que funcionou porque estamos aqui a discutir o assunto, doutra forma já não existiríamos, mas há alguns fumos melífluos de fantasia que têm que ser afastados, para que estas afirmações se percebam: se eu escrever uma carta, a fechar num cofre e de seguida, esconder o cofre, algures na cidade de Lisboa,
isto não é segurança, é apenas ofuscação; mas, se eu der o cofre, juntamente com as chaves, a um arrombador de cofres e ainda assim, ele não for capaz de ler a carta,
isso é segurança. A cifra de Che Guevara tem segurança infinita, porque a sua chave é (a) aleatória, (b) do mesmo exacto comprimento que a mensagem e (c) usada apenas uma vez. A segurança de qualquer algoritmo criptográfico depende exclusivamente da chave e essa segurança é demonstrável e calculável.
A Idade Moderna — e por extensão, a Guerra Fria — foi a idade da segurança demonstrável; e da comunicação.
O tratado ABM foi o único verdadeiro sucesso na limitação de armas nucleares, porque ambas as partes perceberam que a pior situação possível seria ficarem cegas, até na situação dum ataque nuclear; a "linha vermelha" existiu (e existe) mesmo, e na única vez em que ficou indisponível, durante
o putsch de 1991, criando uma situação potencialmente mais perigosa do que a crise dos mísseis de Cuba, o comandante das forças estratégicas soviéticas ordenou que os lançadores balísticos SS-19, ocultos na taiga siberiana, saíssem dos seus campos de tiro e se deslocassem várias centenas de quilómetros para Sul, oferecendo-se assim à detecção. É claro que os conflitos periféricos da Guerra Fria mantiveram muitas das características dos conflitos anteriores, mas a verdade simples é que
o podão do Ian Fleming, mais a colecção intragável de podões que ele criou, nunca percebeu que estava a viver no passado.
Se existe algo que o exemplo inicial demonstra, é que "segurança da informação" é algo que pode ser atingido até contando pelos dedos. Apesar da evidência, a vasta maioria continua a preferir os Bond, James Bond. Acontece apenas que já não estamos a viver na Idade Moderna da criptologia e na Idade Contemporânea, a nossa, a nossa responsabilidade individual não pode ser enjeitada. Apesar disso, enjeitamo-la, damos para todos os peditórios da NSA, dos fettucini, do linguini e do esparguete; chamamos-lhe psicologia, tem de certeza a ver com massas, mas decerto que é psicologicamente mais satisfatório acreditar em heróis e vilões do que na matemática. Prefiro a piza.
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Há muito, muito tempo, houve um faquir que deu um espectáculo de hipnotismo de massas no Coliseu. Descalço e vestido (despido?) a rigor, era a imagem perfeita da ideia que os ocidentais têm a respeito do seu mister. No ponto culminante do espectáculo anunciou: "Quando eu acabar de dar três voltas a esta mesa, vocês estarão todos hipnotizados e vão fazer tudo o que eu vos mandar!". Uma volta e "Bazoon!", duas voltas e "Tafoon!". Quando estava a concluir a terceira, deu um topanço em cheio na perna da mesa com os dedos descalços do pé direito e disse "Ai! Merda...". Foram precisas duas semanas para limpar o Coliseu.
Existem nestes assuntos de espionagem e privacidade, componentes de psicologia de massas que eu compreendo tão mal como a diferença entre o esparguete e os cannellonis: com os olhos fechados, o sabor é o mesmo. Mas, massas à parte, o assunto já foi importante, extremamente importante. Até ao final da Segunda Guerra. Aqueles tempos foram a Idade das Trevas e por um motivo simples, isto é, ninguém sabia exactamente o que estava a fazer, mas o público em geral, atribuía-lhes poderes quase divinos. Um dos autores que tiraram partido dessa, ingenuidade, chamemos-lhe assim, foi Edgar Allan Poe. Em
"O Percevejo Dourado, Poe expõe os rudimentos da construção de códigos criptográficos e depois opina que todos eles podem ser quebrados porque
"...o que a imaginação dum homem concebeu, o engenho doutro irá revelar".

A verdade é que os factos sempre pareceram dar razão a Poe, sempre, até ao final da tal Idade das Trevas. Quem estiver interessado nos seus últimos dias, pode, por exemplo, assistir à representação fabulosa da Kate Winslet. Quanto ao resto, o filme exagera algo da importância militar e estratégica que a quebra do
Enigma alemão teve. O facto simples é que, a partir do desembarque na Normandia, os generais aliados preferiram ignorar as informações que lhes chegavam de Bletchley Park, exactamente como os generais alemães tinham escolhido ignorar
a mensagem Verlaine, que os serviços de informações da Whermacht tinham identificado correctamente. Só para terminar as referências ao filme, que se deixa ver com agrado, o "Tom Jericho" é a personagem que mais se afasta do rigor histórico, embora o facto de a personagem real não gostar de mulheres não tenha qualquer importância e a sua semelhança com o Guião da Reforma do Estado termine rigorosamente aí.
O Tom Jericho real desconfiou que o motivo da confirmação repetida da opinião de Poe se encontrava numa área obscura da matemática, designada por
Teoria dos Grupos, mas também não foi mais além.
A Idade das Trevas foi a idade do ouro da espionagem e da criptografia. A sua importância real é assunto que nunca consegue produzir qualquer consenso. Será que Stalin deslocou os exércitos do extremo-oriente para a frente de Moscovo por ter finalmente acreditado nas mensagens de
Richard Sorge, ou porque já não tinha outra alternativa? E, voltando muito brevemente ao filme, o que é que os Aliados ocidentais sabiam realmente a respeito dos
massacres de Katyn?
Com uma única excepção.
A 4 de Junho de 1942, o Império do Japão, com uma superioridade militar esmagadora, perdeu a Guerra do Pacífico em cerca de 5 minutos. O testemunho do fulano que disse (!)
"Tora! Tora! Tora!" é inequívoco. E tudo isto porque
"AF tem falta de água". Os americanos ainda não conseguiram recuperar dessa vitória e hoje estamos todos hipnotizados, como o público do Coliseu. (*)
Entretanto, a Idade das Trevas acabou quando um fulano americano criou três novas ciências, em pouco mais de um ano, entre 1948 e 1949. A Idade Moderna fica para depois.
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Pela primeira vez, desde que a histeria (ainda considero o assunto assim, no essencial) a respeito da "espionagem" americana começou, admito que pode haver neste assunto, mais do que patetice. De acordo com o Washington Post,
este esquema foi desenhado por um responsável da NSA. Parece que houve dois engenheiros do Google que "explodiram em profanidades" (expressão do WP) quando o viram e não é caso para menos. Todo o essencial se centra naquele ponto onde o tal responsável adicionou um smiley.
No entanto, o facto mais relevante é o relaxo absoluto duma empresa em quem muitos de nós confiamos. No meu caso, passou a ser pretérito e bem perfeito. Vamos lá a ver se nos entendemos: quem falha miseravelmente aqui é o Google, o resto não passa de moralismo bacoco.
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