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Uma pergunta impertinente

por Licínio Nunes, em 06.03.13
Tinha jurado a mim mesmo que não iria escrever nada a respeito do falecimento de Hugo Chavez. Como estas juras se fazem para serem desrespeitadas, eis-me aqui a justificá-la com um argumento do mais elíptico que imaginar se pode; com uma única frase de um texto com o qual eu concordo, pelo menos em parte:

E a política simula sempre a religião - em vez da missa o comício, em vez do santo o mártir, em vez do altar o púlpito[...]

Realce meu. Mas, para que se perceba o realce, eis então a pergunta impertinente:

Como se chama aquela praça de Veneza, onde fica situada a catedral de S. Marcos?

Impertinente e mázinha que ela é! A única coisa que tenha a alegar em minha defesa, é que não é da minha lavra; foi formulada pelo filósofo americano Daniel Denett, num livro, em absoluto, a ler e a manter como referência. A resposta não podia ser mais simples: não fica, porque não existe nenhuma catedral de S. Marcos, em Veneza. Existe a basílica de S. Marcos uma das obras-primas mais antigas da arquitectura bizantina. E esta resposta, leva-nos directamente ao meu pretexto retorcido para, afinal, acabar por escrever a respeito de Hugo Chavez: santos e mártires, no original, significa rigorosamente o mesmo, sendo que a primeira palavra nos chega a partir da sua raiz latina, enquanto que a segunda nos chega pela sua raiz grega, a original; a Hagia Sofia do culto ortodoxo é rigorosamente a mesma Santa Sofia do panteão católico. A diferença real é histórica e tem um nome simples: hagiografia. Todos os historiadores concordam que Constantino se terá, de facto, convertido ao cristianismo, mas apenas nos últimos anos da sua vida; a sua adesão inicial foi estritamente política. No entanto, o cristianismo até aí, não tinha nada do necessário para ser viável como religião de massas. Como a necessidade é sempre a mãe mais fecunda da invenção, tudo foi inventado e, digamos, à pressão: uma nova arquitectura, uma nova pintura, uma nova iconografia. Contudo, nenhum culto é suficientemente impressionante sem heróis, e como Homero não estava disponível, era preciso caçar com..., gato, digamos. Eis a origem da História da vida dos mártires.

Os teólogos gregos aperceberam-se de que estavam a pisar terreno minado. Tomaram uma precaução simples: todos os mártires teriam que pertencer ao passado, já naquela altura. Pelas nossas bandas da parolice latina, aquela precaução passou despercebida, e o resultado pode ser dito ter sido o confuso politeísmo por decreto, que entre outros, nós portugueses, levámos a todo o Mundo. Ponto. E já não tenho mais como evitar o assunto.

Mal conheço a América do Sul e são terras que nunca me despertaram grande interesse. Acho que sempre alberguei a presunção arrogante de que o seu essencial podia ser encontrado, sem esforço físico, nas páginas de Neruda, de Marques e do Borges, claro. O único, o nosso, o Jorge Luís. Mas por isso também, sei que Hugo Chavez seria sempre um herói para o seu povo, apenas pela sua carreira de militar profissional. Por ser índio. E mais não seria necessário, num continente onde — basta ler Isabel Allende — ainda pelo início do século vinte, os latifundiários tinham o direito de pernada, que é como quem diz, o privilégio de provar as noivas dos seus empregados.

Mas isto não justifica o endeusamento, nem sequer a obra feita, porque aquilo que genuinamente define os heróis genuínos é o desapego ao poder. O Che vem-nos imediatamente à ideia. E, no entanto, Ernesto Guevara, até pela sua humildade, não é um bom contra-exemplo. Chamem-lhe o que quiserem, foi o proprio Hugo Chavez quem fez subir a fasquia da comparação. E o contra-exemplo nem nomeado precisa de ser.



O regozijo obsceno dos anti-chavistas não deve ser comentado, pois não há forma de tocar na merda sem nos sujarmos. Mas as esquerdas têm que parar de oferecer o flanco, sobretudo quando a agressão é mais selvagem. Se os heróis são essenciais, pois muito bem! Que o critério da sua escolha seja exigente, mas sobretudo, que seja coerente. Ainda vivo, Nelson Mandela é já património de toda a raça humana. Hugo Chavez será apenas aquilo que os seus sucessores forem capazes de fazer da Venezuela. Que o julgamento se faça.

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publicado às 21:58


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