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Gabo diz que morreu – a minha vida com pardais

por Rogério Costa Pereira, em 17.04.14

Gabo,

Não era suposto sentir-me assim. Chamaste a um dos teus livros “Crónica de uma Morte Anunciada”. Pego apenas no título que escolheste para o livro, não no que nele dizias. Quem não o leu que o leia ou que não o leia, como prova de que continuas vivo. Adiante.

Quando há dois anos te esqueceste, eu sabia que continuavas a anunciar a tua morte. Continuavas a anunciar, sim; porque já antes havias dito ao mundo que não mais escreverias.

Sacana. Tu és sacana. Quiseste morrer-te, ou descansar-te do mundo, mas não nos morreste. Assim como – lamento – não nos morreste hoje. Tenho um milhão de palavras guardadas que o gritam. São a tua prova de vida.

Mas há mais.

Tenho mais provas. Provas de que vives e não morrerás. És culpado. Eternamente culpado. Condenado a fazer magia. Parte de mim veio de ti. Essa magia que punhas nalguma da tua escrita, aquela magia que eu faço por fazer todos os dias com o Francisco, com o meu filho.

Quando me lembro de desistir, olho-te e faço o contrário. Insisto. E estico a corda ainda mais além. Um metro mais além. Cem metros mais além. Um mundo mais além. E, como que por magia – essa tua magia –, ela nunca rebenta. E tem um milímetro, ela. Não lhe inventas mais um metro, à corda. Mas ela não rebenta... E quando a solidão trepa por mim abaixo, lembro-me do nosso cigano. Lembro-me de trechos de ti. E eis-te de volta. E eis-me de volta.

Não era suposto sentir-me assim. Tu já tinhas anunciado a tua hora. Amarraste-te àquela árvore e disseste que dali não saías mais. E dali não saíste. Mula teimosa.

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar…

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar. A Nina veio dizer-me. “O Gabriel García Márquez morreu”. Acho que respondi nada. Também não era uma pergunta. Que morreste. “O Gabriel García Márquez morreu”. Fiz muito de conta que era nada comigo. Para mim. Morreu? Qual Gabriel García Márquez? Ele há tantos com esse nome.   

Não era suposto sentir-me assim.

Mas sinto. E senti. E chorei. E depois ri-me a pensar na puta da árvore a que te prendeste. Que imagino a mesma onde prendeste "o outro". E a seguir chorei de novo. E consegui rir e chorar ao mesmo tempo. Sempre fizeste de mim o que querias. E não tenho como te agradecer por isso. Ensinaste-me que o impossível se reduz ao tamanho de uma frase mal imaginada. Uma frase sem magia. Um acto sem magia. Uma vida sem vida. Sou o teu pombo-correio para o meu filho.

Magia.

Agora paro.

Não tenho mais ganas, por hoje. Com ou sem magia, hoje morreu-me um amigo. Quando o Saramago se foi, escrevi uma coisa a que chamei Saramago morreu – a minha vida sem pardais.

A esta tua crónica, dei outro título.  

E, agora que escrevi... Não era suposto sentir-me assim. E já não me sinto assim. 

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publicado às 23:59


Por que está a descansar?

por Ana Bento, em 09.07.12

Porque escreveu alguns dos mais importantes livros da literatura contemporânea.

Porque foi o criador do realismo mágico.

Porque é considerado pela crítica literária mundial, como um dos mais importantes escritores do século XX.

Porque seu mais famoso livro, "100 anos de Solidão", publicado em 1967, tornou-se um marco na literatura latino-americana

Porque esse mesmo livro  foi traduzido em 35 idiomas com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.


Porque em 1982 ganhou o prémio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.

Por causa de Macondo.

Por causa do amor de Firmina Dazo e Florentino Ariza, que demorou 53 anos, 4 meses e 11 dias para se concretizar.

Pela paixão tardia de um ancião de 90 anos por uma adolescente virgem.

Pela saga da família Buendía.

Pela morte anunciada de Santiago Nazar

Pelo "Relato de um Náufrago" e pela "Notícia de um Sequestro".


Por que motivo ele foi embora.

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publicado às 11:22


Descansa, Gabriel

por Rogério Costa Pereira, em 07.07.12

1280px-Cem_ano.JPG

"El mundo habrá acabado de joderse el día en que los hombres viajen en primera clase y la literatura en el vagón de carga.”"

No dia em que perder Melquíades também eu irei por esse caminho que hoje me dizem ser o teu. Por enquanto, e porque esse dia vem longe, cá continuarei de mãos agarradas à magia do nosso eterno cigano. O teu irmão que te leia "Cem Anos de Solidão". Vais gostar. E sabes? Foste tu que escreveste... 
Claro que sabes! Sinto daqui o teu piscar de olho. Só tu para (te lembrares de) te esqueceres. E agora? Prendemos-te à árvore, como fizeste ao outro? Conheço essa árvore (foste tu que ma ensinaste) e sei que não a largarás mais. Respeito e compreendo e aceito, mas não me peças mais. 
Bem-haja, irmão. Vou dar-te a ler ao meu filho. Lamento, mas não te esquecerei! A culpa é tua: Úrsula, Melquíades, José(s) Arcadio(s), Aureliano(s)... Graças a ti a frase lá de cima nunca acontecerá.

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publicado às 16:23


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