Este devia ser um livro importante. O livro que faltava. Não é, o "livro que faltava" continua em falta. Durante anos, li múltiplos excertos, vi os muito interessantes vídeos de promoção, até que disse para mim mesmo "...é desta".
E o primeiro contacto não podia ser melhor. "A doutrina do choque" de Naomi Klein, na edição portuguesa da Smartbook tem um buraco na capa, tal como teria sido provocado por uma bala. O início da "Introdução" já o conhecia, daqueles excertos que referi e apenas renovou o meu sentimento de asco perante a exibição do Mal. O Mal existe. No meio da destruição cataclísmica de Nova Orleães, resultante do furacão Katrina — e em grande medida, da incompetência do Governo de George W. Bush — Milton Friedman descortinou uma oportunidade, "[...]a oportunidade de reformar de forma radical o sistema educativo", acabando com as escolas públicas e substituindo-as por um sistema de vouchers, a serem gastos em "instituições privadas", realizando assim "[...]uma reforma permanente.", fim de citação.
Não sei se o "Tio Miltie" tinha "666" gravado no meio da testa, mas sei que a sua invocação me faz desejar que o Inferno exista, para que ele lá esteja a apodrecer em agonia permanente, até à consumação dos séculos. Mas sei também que a hipótese razoável é que Friedman não tenha sido a Besta do Apocalipse. Apenas uma grandessíssima besta.
Agora, e para entrar no tema deste post, uma besta sem dúvida, mas não um calão. Porque uma das doenças infantis da esquerda é a sua óbvia e manifesta preguiça intelectual. Comecemos pelas palavras. A designação mais comum para a narrativa dominante é a de "neoliberalismo" (baralha por completo os americanos e Naomi Klein dedicou alguns parágrafos a tentar superar o "ruído" gerado), substituída por vezes por "ordoliberalismo", germanismo obscuro e, tanto quanto me consigo aperceber, sem qualquer interesse. Os seus adeptos chamam-lhe "doutrina (ou síntese) neoclássica".
Ora para que algo possa ser "neoclássico", tem primeiro que ter existido algo como uma Teoria Clássica. E existiu. A expressão foi inventada por John Maynard Keynes para designar o conjunto de teorias económicas que ele próprio tinha ensinado durante muitos anos. Vejamos a sua síntese:
[...]O facto de os seus preceitos, aplicados à prática serem austeros e por vezes intragáveis, deu-lhe uma aura de virtude. O poder sustentar uma superstrutura lógica vasta e coerente conferiu-lhe beleza. O poder explicar muitas injustiças sociais e crueldades aparentes como incidentes inevitáveis da marcha do progresso, e mostrar que, em geral, as tentativas de modificar esse estado de coisas provavelmente causaria mais danos do que benefícios emprestou-lhe autoridade. O ter propiciado alguma justificação para a liberdade de actuação do capitalista individual atraiu-lhe o apoio das forças sociais dominantes, agrupadas atrás da autoridade.
O que falta nesta descrição para descrever a tal "neo-síntese"? Teríamos que acrescentar o zelo evangélico, o extremismo da crença absoluta e a confiança em "leis inexoráveis", mas não muito mais. Talvez não seja preciso dizer mais do que isto:
Quem, como eu, acreditar que a liberdade do intelecto é o principal motor do progresso humano, não pode deixar de se opor a [...] tanto como à Igreja de Roma. As esperanças que [...] inspiram, são, no essencial, tão admiráveis como as que são instiladas pelo Sermão da Montanha, mas são sustentadas tão fanaticamente num caso como no outro e igualmente susceptíveis de produzir os mesmos danos.
E fica resumido o essencial. Quem tiver curiosidade em saber quais são as expressões em falta ([...]), pode lê-las no original, livremente disponível no Projecto Gutenberg. Mas fica o mais importante por dizer. Por mais asquerosas que as suas posições e o seu evangelismo tenha sido, e foi, Milton Friedman foi um professor de economia. E o seu trabalho académico foi vasto, discutível e árduo. Podemos dizer, como o fez Paul Krugman, que John Maynard Keynes foi uma espécie de Martinho Lutero da ciência económica e que Friedman foi o inevitável Inácio de Loyola, mas continuamos apenas no domínio da analogia e da metáfora. A verdade — como Naomi Klein reconhece — é que os alunos do "Tio Miltie" não eram animados a bajular o mestre, mas a criticá-lo com toda a severidade e energia que conseguissem reunir. As expressões operativas, aqui, são "trabalho vasto" e "trabalho árduo". Vejamos a sua contraposição.
A respeito de como organizar a economia dum estado socialista, V.I. Lenin escreveu em Estado e Revolução: "Não conheço nenhum socialista que tenha tratado destes problemas[...]", porque "[...]nada se consegue encontrar [a este respeito] nos textos dos bolcheviques nem sequer dos mencheviques" e tudo isto porque "dificilmente se encontra na obra de Marx uma palavra sobre a economia do socialismo". Então essas obras e esses textos são a respeito do quê? Resposta: o zelo evangélico, o extremismo da crença absoluta e a confiança em "leis inexoráveis". Claramente, não chega!
Os boys de Chicago tinham óptimas intenções, investimentos públicos maciços, aposta na educação, estado social, mas tudo como resultado da miséria dos trabalhadores e dos mercados à solta!
Fora isso os cidadãos têm direito às mais amplas liberdades.
Friedman recebeu críticas de sua vinculação com Pinochet, que tinha deposto o presidente eleito Salvador Allende por meio de um golpe militar.[2] Ele foi duramente criticado pelo ex-Ministro das Relações Exteriores do Chile, na época exilado, Orlando Letelier. Em 1976, Letelier escreveu: "É curioso que o autor do livro Capitalismo e Liberdade, escrito para argumentar que o liberalismo econômico pode suportar uma democracia política, possa agora facilmente desvincular economia de política quando as teorias económicas que ele defende coincidam com a restrição absoluta de qualquer tipo de liberdade democrática".[3]
Vale a pena lembrar, agora que chegou cá a febre liberal, que tudo tem um limite que é o interesse nacional. Privatize-se o que não toca na soberania nacional e guarde-se na esfera pública o que é estratégico. Não se queira que o estado tudo faça mas não se reduza o estado a um instrumento que nada pode contra os poderosos. Por exemplo, deixo a pergunta:
De onde é necessário o estado sair para termos uma Justiça eficaz e célere?