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"Há meninos cor de rosa, há outros cor de chocolate, papá!"

por Rogério Costa Pereira, em 07.12.13

 

Hoje foi o dia mundial da hipocrisia. Dia quinze, dia do funeral, a coisa vai fazer por repetir-se. O mundo vai mandar uma centena e meia de eminentes emissários ao funeral do Madiba (há gente cuja missão é ir a enterros). A maioria vai lá para ficar na fotografia. Abutres, lado a lado com o caixão. Há que deixá-los ir, não fazer grandes cenas. Não é hora disso. Tentar não os pisar, por causa do cheiro que depois fica. O povo, esse, saberá festejar a vida de Mandela. É disso que se trata. Não aquele festejar de "ontem" (quando todos os vermes e respectivos assessores tinham já alinhavadas as mensagens de condolências prontas a disparar; um chegou mesmo a fazê-lo aqui há uns meses, tamanha era a vontade). Não o da maioria dos de "hoje", em que até o único carrasco vivo do Madiba (cavaco, a nossa silva) grunhiu o "pesar da praxe". Não o daqueles que "amanhã" incluirão uma qualquer citação de Mandela num qualquer discurso de ocasião. Infelizmente, tudo isso irá acontecer, mas tudo isso é nada.

Como atrás disse, o povo, esse, saberá festejar a vida de MandelaSaúdem Nelson Rolihlahla Mandela. Digam aos vossos filhos que não morreu um homem e expliquem-lhes a razão de tamanha excepção às regras da natureza. Repito-me, bem sei, assim como me repeti com o meu filho e ele acabou por me explicar que não percebia nada "dessas cores; preto e branco". "Há meninos cor de rosa, há outros cor de chocolate, papá!"O meu filho ouviu hoje falar de Mandela pela primeira vez, mas explicou-me, em dois minutos, quem foi, quem é, e quem será Mandela. Em suma, o povo, esse, saberá festejar a vida de Mandela.

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publicado às 02:33


A fada dos dentes numa "noite de gajos"

por Rogério Costa Pereira, em 29.11.13

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publicado às 23:54


FRANCISCO [6 ANOS]

por Rogério Costa Pereira, em 09.10.13


Parabéns, minha vida. Faz hoje seis anos que te vi pela primeira vez, embora já há muito soubesse da tua existência. Parabéns, filho, e estes não são pelo teu aniversário, mas por seres quem és e como és. Poderei não mudar sozinho o mundo, mas mudarei o mundo sozinho, se preciso for, para que possas continuar a mudá-lo depois de mim. Amo-te.


[todos os anos faço por escrever um texto ao Francisco, no dia de aniversário, para além de todos os outros todos que vou escrevendo e que, raramente, não o têm como pedra de toque e moral da história. este ano, pela primeira vez, li-lhe o pequeno texto que lhe dediquei (assim saiu, pequeno em letras, mas não em sentir) e que encima este post]

-- Que lindo, papá, tão bonito; obrigado e dá cá um beijinho.
-- Gostaste, filho?
-- Sim, muito!, é um presente muito bonito, mas não tenho mais prendas?
-- É capaz de haver para aí mais qualquer coisita, sim. Queres que te leia o texto outra vez?
-- Não, obrigado, ainda não me esqueci. Onde estão as outras prendas?
-- {#emotions_dlg.happy}

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publicado às 20:32

-- Francisco, eu e a mamã vamos amanhã à manif, na Covilhã.
-- MANIFESTAÇÃO! MANIFESTAÇÃO! MANIFESTAÇÃO! Grândola Vila Moreeeena...
-- :) Mas olha, filho, temos de ir mais cedo para trabalhar e ajudar a preparar a manif.
-- Eu sei.
-- E como tu não paras quieto, e não podemos andar a correr atrás de ti, importas-te de ficar com os avós?
-- Não. :(
-- Se fosse só ir à manif, como na última a que fomos, tu irias. Sabes isso, não sabes?
-- Sim.
-- Mas desta vez temos outro papel.
-- Sim.
-- Gostavas de ir?
-- Sim, mas não me importo de não ir. Vocês têm de trabalhar.

-- Serias capaz de parar quieto enquanto trabalhamos? De nos ajudar?

-- Acho que não, gosto de brincar e correr.
-- Olha lá, puto, e por quem vamos lutar?
-- Contra os homens maus.
-- Sim; mas vamos lutar por quem?
    [pelo tipo de conversas que tenho com o meu filho, esperava uma resposta: "por mim"]
-- Pelo Povo! :)
-- E quem é o Povo?
-- Sou eu e os outros meninos como eu. Olha, papá, eu não me importo de ficar com os avós.

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publicado às 22:14


olhos nos olhos

por Rogério Costa Pereira, em 10.02.13

Fui ler a historinha ao meu filho. Reparei, pelo canto do olho, que ele não estava a olhar para o livro. Por hábito, e porque o notei desatento às letras e às imagens, parei e olhei para ele. Estava a olhar para mim. Com aqueles olhos grandes por onde lê e se dá a ler.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Olhei-o nos olhos, sorri-lhe e li-lhe o resto da historinha.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Desvendou-me a essência em meia-dúzia de palavras. Há exactamente sessenta e quatro meses que a cara dele está nos meus olhos. Há exactamente sessenta e quatro meses que nos olhamos nos olhos. Faz hoje sessenta e quatro meses que a minha mulher e eu nascemos de novo.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Há coisas do arco-da-velha. Esta frase, longa-metragem das minhas sinopses diárias e redondas, saiu-lhe hoje.

Logo hoje que (ele não sabe) nos encontramos numa encruzilhada para onde não caminhámos mas para onde nos arrastaram.

O meu país já não se chama Portugal. Há exactamente sessenta e quatro meses. Disso já suspeitava, que um país é feito a cada dia por quem o faz e por quem o deixa fazer. E Portugal deixou-se ultrapassar pela direita. Pela direita. Mudou de ser, mudou de título. O nome do meu país é outro.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Faz hoje sessenta e quatro meses.

Não haverá bruxas, apesar de as haver, de as haver.

Já não há países sem Inc. a seguir ao nome.

Mas há filhos e há mães e há pais.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Mania esta que os adultos têm de complicar o que é simples. E toma e embrulha, Morpheus. "What is real?  How do you define real?  If you are talking about what you can feel, what you can smell, what you can taste and see, then real is simply electrical signals interpreted by your brain." [Morpheus, The Matrix]

Tenta antes isto.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Isto sim, é real.

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publicado às 03:12


Francisco

por Rogério Costa Pereira, em 09.10.12

Esta é uma carta que um dia lerás e, nessa altura, perceberás aquilo que hoje, tu próprio, já me queres explicar (há dias dizias-me que com os homens-maus não vale a pena conversar, que eles continuam a tirar-nos coisas — e eu nunca te disse tal, nunca a disse à tua frente, pelo menos).

Quanto te ia tirar esta foto — na verdade não ta ia tirar, dei-ta para vermos mais tarde —, aquando desta foto, tinhas tu três anos, reparei naquela sombra imensa que ias caminhar e, lembro-me, pausei por dois segundos. Não gelei, nada disso. Parei. Perdi-me ali um pouco; que eu queria mesmo era apanhar-te a sombra, a tua, antes de entrares na outra sombra. Mas tu entraste e a foto ficou bonita e aquela sombra só te protegia do sol, que em Abril de 2010 já queimava.

Hoje, Francisco, estamos contigo dentro da sombra. Outra sombra. Agora, Filho, enquanto te escrevo estas palavras, estamos todos numa sombra imensa que não serve para nos proteger do sol; é uma sombra que não nos deixa ver o sol. Que não nos quer voltar a deixar ver o sol. Que nos quer tirar o amanhã. Eu e todos os Teus, Nossos, tudo fazemos e faremos para que tu, e outros meninos como tu, possam continuar, apesar da sombra, a ver um sorriso, uma nesguinha de sol. Enquanto a sombra má não morre. Mas a verdade, Francisco, é que hoje, essa nesguinha de sol já não vai além de uma pintura na parede. É uma espécie de sol enganador.

O único (e único nunca foi pouco) sol que tu vês é o do nosso sorriso quando sorris. Do teu ser criança. Do nosso amor por ti. Do teu amor por nós. Do orgulho que temos em seres como és e começares a querer lutar, também tu, menino, contra o negrume que nos atenta a todos. Isso nunca nos tirarão. E perceberes quando eu chego a casa desalmado e descoroçoado e eu sentir que tu sentes isso e sentir que tu sentes que estive a respirar fundo aquele sorriso para to mostrar. Dói, sim. E tu sentes isso tudo e vens para mim, olhas para mim e dás-me o teu sorriso, com esses teus olhos que são a minha eternidade. E esqueço-me do meio-sorriso e dou-te um sorriso sério e inteiro, como tu mereces. E tu dizes-me que percebes. Umas vezes dizes mesmo, outras intuo-o no teu olhar.

Já percebeste em que tempo estás, Francisco. Já sabes dos homens-maus. Mas também já te dei a conhecer muitos, outras e outros, os nossos, teus, Amigos que tudo farão para que quando leres esta carta possas dizer algo como "Raio do velho, sempre preocupado. Much ado about nothing..., afinal foi só soprar, e eu lembro-me desse imenso sopro, foi o mundo inteiro a soprar e varreram-se os homens-maus da terra". 

Não sei exactamente quando lerás e perceberás esta carta, a quem a lerás ou quem ta lerá. Não sei se poderás lê-la. Talvez a apaguem. Talvez a queimem. Talvez eu seja parvo. Talvez a sombra imensa que nos impede o caminho e nos arranca os sentidos desapareça com esse tal sopro de que falas. Que o possamos dar. Que não nos falte peito. Ainda que eu pensasse que não é possível, continuaria a minha demanda. Esta luta onde estou dia e noite, a cada respirar teu. Quando te olho à noite, já tu andas aos saltos na brincadeira dos teus sonhos, quando te olho nessa altura, Filho, e esqueço o meu olhar em ti, sinto-me mais forte. Sinto que vai ser fácil soprar, outras vou-me abaixo e perco-me na raiva que sinto pelos tais homens-maus, sim, mas também pelos que nada fazem, essa espécie infecunda de indolentes, pelos que se conformam. Perco-me no desprezo que me atenta quando olho os inconformados de sofá, quando olho os que têm medo. Na pena que sinto pelos que sabem tudo, pelos que desistiram de lutar, pelos que se estão a guardar para o grande momento (pode ser que lhes caia na cabeça), que não embarcam em momentos "simbólicos", "simbólicos", dizem eles. Eles desistiram de ti e dos outros meninos como tu, eu não desistirei nunca de ti. Tenho medo, sim, mas medo de ter medo. E se hoje -- hoje, um dia, quando leres e perceberes o que aqui vai dentro -- olhares para esta carta e sorrires então é porque ou a luta valeu a pena ou eu estava mesmo a exagerar.

Hoje fazes cinco anos, Filho; cinco anos em que nos ensinámos, em que demos passos adiante juntos (e alguns separados, mas eu estava lá de alguma forma). Nem deste pelo que aconteceu desde que nasceste, Francisco. O que estava já a acontecer e a preparar-se quando eu nasci e cuja garganeira tu agora apanhas em grande rotação. Com cinco anos. Temos podido evitar isso, outros não. Ouviste umas palavras diferentes, umas menos bonitas, sabes de uns homens-maus. E nada mais. Outros meninos, Francisco, não. Têm fome, sede. Há avós e pais a morrer de maleitas que poderiam ter sido curadas. E meninos, também. E outros meninos, ainda, que nunca serão. Hoje, Filho, tu tens um nome. Há quem te queira pôr um número. Tratar-te como um número. Se isso acontecer, se não o tivermos logrado evitar, espero poder ter sabido ensinar-te a escapar a essa marca; essa marca que não pode ser a marca do Homem. A lutar contra ela.

Que isto não seja uma corrida de estafetas, que eu não te passe mais do que o testemunho de continuares a lutar por mundo melhor. A luta de hoje não é só por um mundo melhor. É a luta por um mundo. Porque não há mundo no sítio para onde nos querem mandar. Existirá a negação, o imundo. Este é o meu testemunho hoje, Francisco, mas este não é testemunho que te queira passar.

Parabéns, Filho. Amo-te.

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publicado às 17:37


Para ti, filho...

por Rogério Costa Pereira, em 22.10.11

Estive a actualizar o homem-garnisé... (ia com uns meses de atraso).

Não é para vocês, o blogue, não é para mim. O homem-garnisé... é uma selecção de textos. Meus. De mim para o meu filho. A escolha. Não há letra que escreva que não seja por ele; para ele. Espuma dos dias à parte, por ali deixo as palavras que insisto que o Francisco um dia leia. Ali está a minha pele. Filho.

Se são para ele, só para ele, porque faço aqui o alerta? Porque sim!, que há por aí muito homem-do-saco.

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publicado às 01:14


Francisco em BD

por Rogério Costa Pereira, em 01.12.10

Março de 2009 (já então os amavas)

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publicado às 00:56


A minha árvore, o meu piano, o meu francês

por Rogério Costa Pereira, em 27.11.10

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publicado às 01:57


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