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A NSA, as massas e a psicologia (II)

por Licínio Nunes, em 06.11.13
Quando a 9 de Outubro de 1967, o exército boliviano capturou Che Guevara, foi encontrada na sua posse uma mensagem cifrada, pronta para ser enviada a Fidel Castro. Está reproduzida na imagem a seguir. Quem quiser conhecer a mensagem original, vai ter que ler mesmo até ao fim, porque não tem qualquer interesse. O único facto de interesse é que, sem a chave, a mensagem não poderia ser decifrada, nem com acesso a um computador contendo todos os átomos de silício do Universo, nem sequer com capacidade infinita.

Os algarismos da linha central, em cada um dos blocos, são a chave criptográfica. Apenas dois pormenores: tem exactamente o mesmo tamanho da mensagem clara — a primeira linha — e os dígitos da terceira linha (o textocifrado) são iguais à soma modulo 10 das duas linhas acima. A operação consiste apenas em adicionar dois números e ignorar os ...e vai um... gerados. Por exemplo, logo no início, 3 + 8 modulo 10 = 1; 8 + 6 modulo 10 = 4. A operação inversa é a subtracção modulo 10, que consiste apenas em ignorar os ...e empresta um... resultantes. No mesmo ponto, 1 - 8 modulo 10 = 3; 4 - 6 modulo 10 = 8. Funciona, hein? E é ainda mais fácil do que a adição e subtracção normais.



E até já funcionava nos tempos da Idade das Trevas. A cifra de Vernam foi inventada em 1917, mas nunca despertou qualquer interesse. Pura e simplesmente, ninguém sabia como avaliar um sistema criptográfico, fosse ele qual fosse. Apesar disso, afirmar em certos círculos, como eu já por aqui o fiz, que a criptologia não era uma disciplina cientifica antes de 1949, era o bastante para sair de lá com os olhos todos negros. É claro que eu diria o mesmo, apenas de forma mais defensiva, mas concordo que falar em "três novas ciências" talvez não seja a melhor forma de apresentar o assunto. Aquele tal fulano que eu mencionei, faleceu já este século, após uma longa luta com a doença de Alzheimer, mas foi um homem do século vinte, por excelência.

Após a sua morte, a viúva fez um comentário que eu achei tocante. Disse ela que o marido, se disso tivesse tido conhecimento, teria achado extremamente irónico o facto de ser universalmente considerado como o criador da Idade da Informação..., por um motivo simples: Claude Elwood Shannon odiava a palavra "informação". Odiava! Comunicação, comunicações e mais comunicações; no fim de contas, informação é algo que todos sabemos o que é, excepto se tivermos que responder à pergunta ...o que é a informação?. Provavelmente, em vez de falar em "novas ciências", a melhor abordagem será falar num novo paradigma que muda tudo, mas radicalmente, tudo em que toca. E não há volta a dar-lhe, chamamos-lhe Teoria da Informação.

O trabalho seminal de Shannon inaugurou a Idade Moderna, que acompanhou e configurou a Guerra Fria. Funcionou e temos a certeza que funcionou porque estamos aqui a discutir o assunto, doutra forma já não existiríamos, mas há alguns fumos melífluos de fantasia que têm que ser afastados, para que estas afirmações se percebam: se eu escrever uma carta, a fechar num cofre e de seguida, esconder o cofre, algures na cidade de Lisboa, isto não é segurança, é apenas ofuscação; mas, se eu der o cofre, juntamente com as chaves, a um arrombador de cofres e ainda assim, ele não for capaz de ler a carta, isso é segurança. A cifra de Che Guevara tem segurança infinita, porque a sua chave é (a) aleatória, (b) do mesmo exacto comprimento que a mensagem e (c) usada apenas uma vez. A segurança de qualquer algoritmo criptográfico depende exclusivamente da chave e essa segurança é demonstrável e calculável.

A Idade Moderna — e por extensão, a Guerra Fria — foi a idade da segurança demonstrável; e da comunicação. O tratado ABM foi o único verdadeiro sucesso na limitação de armas nucleares, porque ambas as partes perceberam que a pior situação possível seria ficarem cegas, até na situação dum ataque nuclear; a "linha vermelha" existiu (e existe) mesmo, e na única vez em que ficou indisponível, durante o putsch de 1991, criando uma situação potencialmente mais perigosa do que a crise dos mísseis de Cuba, o comandante das forças estratégicas soviéticas ordenou que os lançadores balísticos SS-19, ocultos na taiga siberiana, saíssem dos seus campos de tiro e se deslocassem várias centenas de quilómetros para Sul, oferecendo-se assim à detecção. É claro que os conflitos periféricos da Guerra Fria mantiveram muitas das características dos conflitos anteriores, mas a verdade simples é que o podão do Ian Fleming, mais a colecção intragável de podões que ele criou, nunca percebeu que estava a viver no passado.

Se existe algo que o exemplo inicial demonstra, é que "segurança da informação" é algo que pode ser atingido até contando pelos dedos. Apesar da evidência, a vasta maioria continua a preferir os Bond, James Bond. Acontece apenas que já não estamos a viver na Idade Moderna da criptologia e na Idade Contemporânea, a nossa, a nossa responsabilidade individual não pode ser enjeitada. Apesar disso, enjeitamo-la, damos para todos os peditórios da NSA, dos fettucini, do linguini e do esparguete; chamamos-lhe psicologia, tem de certeza a ver com massas, mas decerto que é psicologicamente mais satisfatório acreditar em heróis e vilões do que na matemática. Prefiro a piza.



Como tinha ficado prometido, quem quiser ler aquela mensagem do Che, mais não tem que usar a tabela abaixo. Parece que tinha qualquer coisa a ver com o Regis Debray, ou então era outra...

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publicado às 16:56


A NSA, as massas e a psicologia (I)

por Licínio Nunes, em 02.11.13
Há muito, muito tempo, houve um faquir que deu um espectáculo de hipnotismo de massas no Coliseu. Descalço e vestido (despido?) a rigor, era a imagem perfeita da ideia que os ocidentais têm a respeito do seu mister. No ponto culminante do espectáculo anunciou: "Quando eu acabar de dar três voltas a esta mesa, vocês estarão todos hipnotizados e vão fazer tudo o que eu vos mandar!". Uma volta e "Bazoon!", duas voltas e "Tafoon!". Quando estava a concluir a terceira, deu um topanço em cheio na perna da mesa com os dedos descalços do pé direito e disse "Ai! Merda...". Foram precisas duas semanas para limpar o Coliseu.


Existem nestes assuntos de espionagem e privacidade, componentes de psicologia de massas que eu compreendo tão mal como a diferença entre o esparguete e os cannellonis: com os olhos fechados, o sabor é o mesmo. Mas, massas à parte, o assunto já foi importante, extremamente importante. Até ao final da Segunda Guerra. Aqueles tempos foram a Idade das Trevas e por um motivo simples, isto é, ninguém sabia exactamente o que estava a fazer, mas o público em geral, atribuía-lhes poderes quase divinos. Um dos autores que tiraram partido dessa, ingenuidade, chamemos-lhe assim, foi Edgar Allan Poe. Em "O Percevejo Dourado, Poe expõe os rudimentos da construção de códigos criptográficos e depois opina que todos eles podem ser quebrados porque "...o que a imaginação dum homem concebeu, o engenho doutro irá revelar".

The Gold Bug

A verdade é que os factos sempre pareceram dar razão a Poe, sempre, até ao final da tal Idade das Trevas. Quem estiver interessado nos seus últimos dias, pode, por exemplo, assistir à representação fabulosa da Kate Winslet. Quanto ao resto, o filme exagera algo da importância militar e estratégica que a quebra do Enigma alemão teve. O facto simples é que, a partir do desembarque na Normandia, os generais aliados preferiram ignorar as informações que lhes chegavam de Bletchley Park, exactamente como os generais alemães tinham escolhido ignorar a mensagem Verlaine, que os serviços de informações da Whermacht tinham identificado correctamente. Só para terminar as referências ao filme, que se deixa ver com agrado, o "Tom Jericho" é a personagem que mais se afasta do rigor histórico, embora o facto de a personagem real não gostar de mulheres não tenha qualquer importância e a sua semelhança com o Guião da Reforma do Estado termine rigorosamente aí. O Tom Jericho real desconfiou que o motivo da confirmação repetida da opinião de Poe se encontrava numa área obscura da matemática, designada por Teoria dos Grupos, mas também não foi mais além.

A Idade das Trevas foi a idade do ouro da espionagem e da criptografia. A sua importância real é assunto que nunca consegue produzir qualquer consenso. Será que Stalin deslocou os exércitos do extremo-oriente para a frente de Moscovo por ter finalmente acreditado nas mensagens de Richard Sorge, ou porque já não tinha outra alternativa? E, voltando muito brevemente ao filme, o que é que os Aliados ocidentais sabiam realmente a respeito dos massacres de Katyn?

Com uma única excepção. A 4 de Junho de 1942, o Império do Japão, com uma superioridade militar esmagadora, perdeu a Guerra do Pacífico em cerca de 5 minutos. O testemunho do fulano que disse (!) "Tora! Tora! Tora!" é inequívoco. E tudo isto porque "AF tem falta de água". Os americanos ainda não conseguiram recuperar dessa vitória e hoje estamos todos hipnotizados, como o público do Coliseu. (*)

Entretanto, a Idade das Trevas acabou quando um fulano americano criou três novas ciências, em pouco mais de um ano, entre 1948 e 1949. A Idade Moderna fica para depois.



(*) A melhor referência que eu conheço para este assunto, é do site da NSA. O link dá erro, a paranóia, essa, nunca dá tréguas:

"AF is short of water"

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publicado às 17:13


Democracy is watching you: o fim da privacidade

por Hélder Prior, em 01.11.13

“Sentado na minha secretária podia espiar qualquer pessoa, tu ou o teu contabilista, um juiz ou até mesmo o Presidente, desde que tivesse um endereço de email”.

Edward Snowden

 

A revelação, nos últimos meses, dos extensivos programas de espionagem levados a cabo pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, fundada em 1952 pela administração Truman em plena Guerra Fria e após os atentados de Pearl Harbour, intensificou as preocupações e o debate público sobre o tema da erosão da privacidade. Segundo revelou o ex-analista da Agência Central de Inteligência, comummente designada por CIA,  Edward Snowden, aos jornais The Guardian e The Washington Post, o programa Prism da NSA permite que os serviços secretos norte-americanos acedam, sem constrangimentos legais, ao conteúdo de emails, de chats, de históricos de pesquisa e de outras “pegadas digitais” armazenadas em empresas como a Microsoft, o Facebook, a Apple, a Google ou o Youtube. Esta situação de vigilância electrónica generalizada tornou-se possível depois do chamado USA Patriot Act, um sistema legal criado após os atentados do 11 de Setembro e que permite que a sociedade hodierna se aproxime, vertiginosamente, do mundo distópico que o génio de George Orwell concebeu no romance Mil novencentos e oitenta e quatro. Todavia, e apesar das revelações perturbadoras que nos chegam diariamente, convém referir que a história dos dispositivos de espionagem tem já alguns séculos. Em A vida dos homens infames, Michel Foucault conta-nos como nos séculos XVII e XVIII o poder soberano colocou à disposição dos súbditos dispositivos de espionagem como as lettres de cachet, um mecanismo de poder fundado na denúncia, na delação, no interrogatório ou na queixa onde as acções indesejáveis ou insurrectas dos súbditos eram oferecidas, pelos próprios súbditos, ao poder administrativo, permitindo quer a ubiquidade do monarca, quer a inserção da soberania política no nível mais elementar do corpo social. Por outro lado, sabemos como o sistema global de espionagem Echelon, criado durante a Guerra Fria pela NSA em conjunto com organizações governamentais de Inglaterra, Canadá, Nova Zelândia e Austrália, capta e analisa virtualmente todos os telefonemas, faxes, emails e mensagens via telex enviadas de e para qualquer parte do mundo. Estes sistemas de vigilância electrónica, cada vez mais intrusivos na esfera privada dos indivíduos, são um produto do chamado Estado Securitário, um Estado que visa a segurança da população através da previsão e antecipação dos riscos. Trata-se de uma gouvernementalité biopolítica que incide sobre a vida dos indivíduos e que procura controlar a imprevisibilidade e a aleatoriedade que caracteriza o nosso tempo. Efectivamente, após os atentados às Torres Gémeas intensificou-se um imperativo geopolítico securitário cuja grande prioridade é a segurança nacional, a protecção dos cidadãos face a tudo aquilo que, como antecipou Michel Foucault, possa ser “incerto”, “imprevisível”, “danoso” ou “arriscado”. Segundo documentos da própria NSA, a que o jornal francês Le Monde teve acesso, os serviços de segurança americanos acederam de forma “sistemática” aos registos de milhares de cidadãos franceses, facto que levou o próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros a referir que “este tipo de práticas que põem em causa a vida privada são totalmente inaceitáveis entre parceiros”. O diário refere que a NSA interceptou, num período de 30 dias, 70, 3 milhões de dados telefónicos de cidadãos franceses, isto depois da revista alemã Der Spiegel ter revelado que a União Europeia é um dos principais alvos dos programas de espionagem dos Estados Unidos, referindo que os serviços de segurança norte-americanos estão especialmente atentos a assuntos de política externa, comércio internacional e estabilidade económica da União Europeia e, sobretudo, da Alemanha. Ao que parece, nem a própria chanceler alemã, Angela Merkel, escapou ao “olho do poder” americano. Com efeito, o enquadramento legal criado pós 11 de Setembro lançou, de facto, os alicerces da eliminação sistémica e sistemática de liberdades cívicas, como o direito à reserva da intimidade da vida privada, sob a égide do pacto de segurança. Numa sociedade obcecada pela visibilidade e pela opticização, a ideia de privacidade converteu-se em algo obsoleto. Não só os Estados e as grandes companhias de Internet recolhem e armazenam informações sobre os indivíduos, como são os próprios indivíduos que se “oferecem” ao “olho público”. Pensemos, por exemplo, no Facebook ou em programas televisivos como o Big Brother (reality show inspirado no romance de Orwell), como palcos de exposição e de representação onde os indivíduos satisfazem a sua necessidade de serem vistos em troca de “relações sociais mediadas”, no primeiro caso, e de alguns minutos de fama, no segundo. A visibilidade e a observação constituem, de facto, elementos incontornáveis das sociedades contemporâneas e os ataques à privacidade tornaram-se num “cancro social”, como tão bem sublinhou Umberto Eco. Posto isto, remeto as minhas palavras à vossa “vigilância”, “observação” e “intromissão”.

 

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publicado às 22:05


De volta ao passado

por Licínio Nunes, em 31.10.13
Pela primeira vez, desde que a histeria (ainda considero o assunto assim, no essencial) a respeito da "espionagem" americana começou, admito que pode haver neste assunto, mais do que patetice. De acordo com o Washington Post, este esquema foi desenhado por um responsável da NSA. Parece que houve dois engenheiros do Google que "explodiram em profanidades" (expressão do WP) quando o viram e não é caso para menos. Todo o essencial se centra naquele ponto onde o tal responsável adicionou um smiley.



No entanto, o facto mais relevante é o relaxo absoluto duma empresa em quem muitos de nós confiamos. No meu caso, passou a ser pretérito e bem perfeito. Vamos lá a ver se nos entendemos: quem falha miseravelmente aqui é o Google, o resto não passa de moralismo bacoco.

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publicado às 14:16


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