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Os "letrados"

por Rogério Costa Pereira, em 26.06.13

[edição revista e aumentada de um post no facebook]

 

Há uma classe de letrados que discute a justiça de o último livro de poesia de Herberto Helder – “Servidões” --, por vontade deste, se limitar a uma edição de três mil exemplares. Como vos hei-de explicar as entranhas da classe a que me refiro? Estão a ver o Dâmaso do Eça? Ou o estilo ovelheiro do Júlio Dantas? É tipo isso, mas em pior. E estão tão agarrados às sebentas de história sebenta da literatura, com as vénias e mesuras prefaciadas e posfaciadas em tom de "cuidado, é um livro, não o pises nem o leias", que se um tipo por lá passa e ousa puxar uma corda fora daquele tom delicodoce é logo olhado do alto de uns sapatinhos de ir ao pêssego. Um dia, hei-de arranjar um desses seres-de-luz-nascidos para ver à melhor noite. E ando a ficar cansado de ver e rever Monty Phyton. E estes são tão modernos, tão finos, tão splash. Tão patéticos.

 

Se três mil animais, com capacidade para ler e chorar e rir e sem poderes para fotocopiar, comprassem os tais três mil livros e não os usassem apenas para acrescentar centímetros de lombada às prateleiras para três mil amigos íntimos -- na próxima festa só para amigos íntimos -- verem e baterem palminhas, o Herberto Helder não faria tanta questão. Assim não sendo, como não é, imagino que o Herberto acabe por manter os livros na gaveta. Estão lá mais bem guardados do que a uso destas hienas “literárias”. Prefiro perder o que se segue, a imaginar prateleiras tão pesadas de nada. Um livro só o é se o for. Se não lhe derem atenção não passa de um aglomerado de folhas com letras. E não se cumpre. 


Se houvesse degraus na terra...

 

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,

eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

No céu podia tecer uma nuvem toda negra.

E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,

e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,

levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.

Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,

e a fímbria do mar, e o meio do mar,

e vermelhas se volveram as asas da águia

que desceu para beber,

e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

 

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.

Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.

Correram os rapazes à procura da espada,

e as raparigas correram à procura da mantilha,

e correram, correram as crianças à procura da maçã.


Herberto Helder

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publicado às 20:36


"Era o povo, jeremias ou lá o que és. Era o povo."

por Rogério Costa Pereira, em 15.02.13

A maior parte das reacções aos posts da pegada acontecem no facebook. Por aqui rareiam os comentários. E isto é um facto. O outro facto, que eu não poderia deixar resumido ao silêncio das nossas caixas de comentários, é o que vos deixo de seguida. Podia chamar-lhe uma bengalada queirosiana, dada por um Homem a um dos dâmasos-da-vida, ora feito jeremias. Mas não direi nada disso (ups, já disse…). Abaixo volto a gritar de orgulho. De seguida seguem-se os tais comentários.

De jeremias a 15.02.2013 às 18:31

Arrepiante como 38 anos depois do 25 de Novembro ainda a comunalha se junte para cânticos destes...

De António Filipe a 15.02.2013 às 22:05

jeremias ou lá o que és, onde é que estavas no 25 de Abril?
Eras um dos que estavas no telhado da sede da PIDE, na António Maria Cardoso, em Lisboa, a mandar tiros cá para baixo, onde gajos como eu tinham que se esconder debaixo das viaturas militares para não serem baleados?
O único crime que estávamos a cometer era tentar derrubar o fascismo para que, gajos como tu, jeremias ou lá o que és, pudessem ter a liberdade de vir para aqui mandar bojardas.
Enquanto isso, jeremias ou lá o que és, milhões de pessoas pelo país fora, cantavam "cânticos destes".
E, sabes, jeremias ou lá o que és, não eram "comunalhas" (nem sei o que isso quer dizer).
Era o povo, jeremias ou lá o que és. Era o povo.

[tens arrepios jeremias? Agasalha-te!]

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publicado às 23:24


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