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Fim de tarde

por Maria Suzete Salvado, em 16.05.12

Venho de acompanhar o pai de um amigo, à sua última morada.

Vivia numa pequena aldeia perto daquela em que eu vivo e não fora a tristeza do momento, até seria um passeio agradável, de tão linda a paisagem que se avista.

Na igreja reparei na viúva, pequena, franzina e com ar cansado.

Ficou sem pai aos 7 anos e teve de deixar a escola, que mal começara, para tomar conta de três irmãos mais novos e ajudar a mãe na lida do campo.

Passava dias inteiros à frente das vacas, ajudando o tio (irmão da mãe, mas pouco mais velho que ela) a conduzir o arado para cortar a dureza da terra, antes de lhe ser deitada a semente que daria de comer à família.

Aprender a ler, ficou-se no sonho.

Aos 19 anos casou e teve de continuar a amanhar a terra, a cuidar dos animais, a lavar no ribeiro, a cozer o pão para toda a semana, a carregar a lenha para o fogão.

Depois dos 70 anos de idade recebera 210 Euros de reforma, para juntar aos 150, que o marido já recebia. Tinham descontado pouco.

Trabalha ainda, embora com a doença do seu homem tenha passado a cuidar só da horta, logo ali à beira de casa, pois a vinha e o olival já há algum tempo que passaram a ser encargo dos filhos.

O que usufrui mensalmente não chega para os medicamentos que tem de tomar diariamente, mas os filhos vão à farmácia e resolvem esse problema, contra o seu gosto.

Agora, chora o homem ao lado de quem trabalhou anos a fio e apoia-se nos dois filhos de quem recebe mesada, como se trocassem de papéis e fossem eles os pais.

O luto será feito a trabalhar, já que não pode deixar de cuidar dos "vivos", da horta e das batatas.

O seu peito enche-se e um grande suspiro sai da boca sem expressão. Os olhos perdem-se nos nós da madeira do chão e de cabeça baixa permanece quieta, indiferente às condolências que os amigos dos filhos e dos netos lhe vão dando, perdida já nas saudades do companheiro de uma vida inteira, de quem não se quer separar.

Eu desconhecia que duas pessoas pudessem receber, depois de uma vida inteira de trabalho, quantia inferior ao rendimento mínimo de inserção que uma só pessoa recebe sem ter trabalhado sequer um dia da sua vida. Não é que seja caso raro, eu é que sou um tanto distraída.

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publicado às 21:37


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