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E o Óscar vai para…. O Quê…?? O SAM???

por Licínio Nunes, em 12.03.13
Os seus seguidores chamavam-lhe Mahasamamatman — A Grande Alma Sam — e diziam que ele era um deus. Ele, contudo, preferia deixar de lado o Maha- e o -atman, e chamar-se apenas "Sam". Nunca afirmou ser um deus. Mas, por outro lado, também nunca disse que não o era. Sendo as circunstâncias aquilo que eram, nem a afirmação nem a negação poderiam trazer qualquer benefício.

Roger Zelazny — in O Senhor da Luz


Todos os que viram a cerimónia da entrega dos Óscares deste ano, sabem que a Michelle Obama não se desmanchou, como o título pode fazer crer. No entanto, aquela mistificação genial que a CIA encenou para retirar do Irão os seis diplomatas refugiados na Embaixada do Canadá, após a invasão da Embaixada Americana pelos guardas da revolução iraquianos, usou efectivamente a novela de Roger Zelazny, como sendo o "argumento" do filme que aquelas pessoas estariam a preparar. Relativamente ao filme propriamente dito, a minha dúvida é "O que diria o Sam?". Acho que diria "...nada mal, nada mal! Mas..., demasiado arriscado, deixa demasiadas pontas soltas...".

No entanto, o que me levou — mais uma vez — a recordar O Senhor da Luz, foi o processo em curso, para a eleição de um novo Papa. E, a este respeito, tenho a certeza absoluta do que o Sam diria: "Foi por estas e por outras que eu optei por não personificar Jesus Cristo!".

Porque o Sam ponderou efectivamente essa hipótese. Mas acho que é necessário ir às origens. Quando li a primeira vez o livro do Zelazny, achei que era um tema chocho, tornado resplandecente pela escrita esplendorosa do autor, mas não mais do que isso. Depois, ao longo do tempo, fui-me habituando a lançar umas piadas baseadas em O Senhor..., sempre que o assunto era religião. E depois, sem me aperceber muito disso, comecei a identificar-me com o protagonista. Se alguém me perguntasse qual é a personagem literária com a qual mais me identifico, diria, sem qualquer margem para dúvidas: "O Sam!".

O Senhor da Luz pertence àquela categoria de obras que os críticos designam por "perspectivistas". As características tecnológicas nunca são abordadas sob o ângulo da antecipação, mas apenas para construir um ambiente logicamente credível para começar a abordar a pergunta "o que fariam os seres humanos naquelas circunstâncias?". Uma nave espacial despenha-se, mas sem grandes danos, num planeta do tipo Terra e os seus tripulantes começam a usar o inacreditável poder ao seu dispor para escravizarem os nativos — que não são exactamente nativos, digamos que o Zelazny tornou a re-incarnação inevitável — e transformam-se em deuses do panteão hindu. Com o passar do tempo, começam, de alguma forma a ser conquistados pelas suas personagens, a começar pela boazuda Kali, a origem duma parte substancial dos conflitos.

O Sam, por sua própria escolha, passaria o tempo infindo que ante ele se abria, apenas a explorar aquele mundo enorme; não lhe agrada a forma como aqueles que são também os seus filhos (Ah! Vão ler o livro...) são tratados, mas conhece sobremaneira o sistema de poder que lhe está por detrás. Quando os seus choques pessoais com os seus companheiros originais atingem o ponto de não-retorno, ele sabe que a Revolução se tornou inevitável. Sabe aliás que já o era, porque "os nativos" têm o mesmo impulso de liberdade do que ele próprio. Trata-se apenas de acelerar um pouco o processo..., o Sam opta por se tornar o novo Buda.

O Sam é um impostor. A grande diferença entre ele e os seus colegas iniciais, é que ele sabe que o é. A narrativa tem que ser perfeita, mas é apenas uma narrativa. O resto, esse, vai depender da dinâmica dos seres humanos em confronto. Uma das alternativas que ele considerou inicialmente, foi a de personificar Jesus Cristo; no fim de contas, tem as características libertárias suficientes para o efeito, mas..., o Sam nunca foi dado às artes manuais, Cristo era inicialmente um carpinteiro e, acima de tudo, auto-imolação, nem pensar. Pode-se perguntar por que motivo o Sam não considerou a hipótese de personificar um revolucionário laico; porque não Lenin? A resposta é curta e directa: "...Sim..., e depois como é que eu evitava a infiltração duns chulos georgianos, de bigode farfalhudo?".

Deve dizer-se que existem outros movimentos revolucionários. Alguns, inclusive, poderiam ser designados por laicos, mas nunca conseguem grande expressão. Existe um movimento de neo-cristãos. Nunca soube se foi o Tolkien quem copiou aqueles zombies do Zelazny, se foi ao contrário, mas não interessa, porque quem quer que tenha visto os Trolls de O Senhor dos Anéis, viu também aqueles cristãos, sem tirar nem pôr.

A obra de Roger Zelazny é uma crítica aos sistemas de poder criados ao redor da religião. Pode-se dizer que a identificação do hinduísmo com a escravização absoluta dos seres humanos, é redutora. Mas também se pode dizer que o tratamento, digamos, simpático, que ele deu ao budismo, também o é. Existem dois episódios, estes rigorosamente históricos, que nos mostram que o problema, em última análise, não é a religião, mas sim o Poder e os seus (des)equilíbrios. É a história dum avô (!) e de um dos seus tetra-tetra netos.

Quanto ao avô, Kublai Khan, era por sua vez neto de Genghis Khan. Kublai foi o grande estabilizador do poder mongol sobre a China e era a imagem de marca da família. Um dos aspectos paradoxais dos impérios mongóis, é que, terminadas aquelas inenarráveis orgias de sangue e destruição associadas à conquista, os monarcas mongóis se revelaram, sem grandes excepções, como administradores muito competentes. Incluindo, mas não limitado a, assuntos de carácter religioso. Os gengiscânidas eram xamaninstas, mas nem a isso davam grande importância; os seus súbditos, uma vez dominados pelo terror, eram tratados de forma igualitária. Os imperadores mongóis nunca iriam permitir que algo tão mesquinho como religião, se interpusesse entre eles e os seus planos de dominação a longo prazo.

No entanto, Kublai teve dúvidas. Extremamente letrado, ele sabia como todos os grandes impérios que o tinham antecedido, tinham adoptado uma forma ou outra de religião de estado e interrogou-se sobre se não seria conveniente fazer o mesmo. Pessoalmente, Kublai Khan favorecia o budismo, mas aquele não era o tipo de assunto que um imperador mongol decidisse com base nas suas preferências pessoais; era um assunto de estado e como tal deveria ser tratado. Decidiu convocar um grande concílio de todas as religiões em Koskoram e chamou os seus aliados cristãos do Altai, sempre os mais fiéis dos fiéis. Perguntou-lhes "Quem é o chefe da vossa religião?" e eles responderam-lhe "Ah..., é um tal..., bispo de roma..., que mora numa cidadezinha lá muito para Ocidente...". Se assim era, assim seria feito! Os mongóis inventaram o pony express (para além do IVA, é claro) e muitos nobres corcéis foram sacrificados na missão de enviar uma missiva ao Papa, ordenando-lhe que formasse uma embaixada de doutos homens, competentes para argumentarem, perante o grande concílio, a respeito das vantagens do cristianismo. E o Papa..., não percebeu. Na sua estreiteza provinciana, a Cúria Romana não conseguia conceber que um tal poder existisse, do outro lado do Mundo. Apenas uma tímida embaixada foi formada, mas nunca passou das margens do Mar Negro; os Polo foram dos muito poucos que chegaram ao seu destino, mas deve ser dito que Marco Polo é uma fonte histórica completamente insegura. Dois euros e a palavra de Marco Polo, chegam para comprar um bilhete de Metro e ainda sobra troco para um cafézinho.

Perante o falhanço daquela iniciativa, Kublai Khan decidiu, pura e simplesmente, não decidir. Foi só um seu sucessor, Altai Khan, quem se converteu ao budismo e, inclusive, criou a expressão "Dalai Lama", que não é tibetano, mas sim Mongol e significa apenas "Vasto Oceano", o Namtso, o maior lago de água salgada do Mundo. Ora bem, isto foi a respeito do avô. Quanto àquele neto distante, ficou conhecido apenas por O Grande.

E grande ele foi! Só esposas, teve mais de cinco mil. Não terá, sequer, sido dos mais promíscuos da família. Líder militar consumado, Akhbar preferia casar com as filhas dos seus inimigos, a ter que os derrotar no campo de batalha. As mulheres sempre tiveram um estatuto socialmente elevado nas sociedades mongóis e aquele foi o meio de estender o seu domínio por forma pacífica. Entre outras coisas, considerou, em certo momento, a possibilidade de ser o Akhenaten dos tempos modernos e fundir todas as religiões da Índia numa única. O seu grande concílio de todas as religiões falhou, como tinha falhado o do avô distante. Neste caso, porque os missionários jesuitas portugueses que nele participaram, tudo fizeram para o boicotar e tentar converter o imperador ao cristianismo. Akhbar não lhes levou a mal, ele foi um grande amigo dos portugueses nas Índia, e nem sequer apenas por calculismo político. Desistiu do propósito religioso e dedicou-se a elaborar as leis do Império. O Código de Akhbar foi o criação daquela teoria de governo a que os americanos chamam checks and balances, que eu não sei como traduzir, mas cuja autoria eles erradamente atribuem a Montesquieu. O Sam ainda considerou a possibilidade de encarnar a personagem de Akhbar, mas desistiu, por ter a certeza de não a ter a paciência necessária para aturar todo aquele mulherio...



No fim de contas, a questão é sempre a mesma: "Qual é o verdadeiro papel da religião?". Tenzin Gyatso apresentou um argumento interessante. Disse ele que "...se olharmos para a História da Humanidade, podemos observar a ocorrência de múltiplas religiões, e como muitas delas tendem a congregar um grande número de seguidores e a perdurar por largos períodos de tempo, logo, uma conclusão razoável é que nenhuma pode pretender ser superior a todas as outras, nem pretender responder a todas as necessidades do ser humano, nesse domínio particular...", mas acrescenta logo a seguir que, ao olharmos para o presente, ...pudemos constatar que, dos mais de seis biliões de seres humanos actualmente vivos, pode ser dito, com propriedade, de menos de um sexto, talvez 900 milhões, que são praticantes desta ou daquela religião, logo, uma conclusão razoável é que a religião não é um assunto lá muito importante...". Acrescenta também que este é apenas um primeiro olhar sobre o assunto, mas há uma coisa da qual eu tenho a certeza: o Sam diz que o Dalai-Lama é para levar estritamente à letra.


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publicado às 23:50

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(copy&paste, revisto e com mais pecado, dum comentário que deixei no mural do António Filipe)

O Conclave que amanhã se inicia é para escolher o próximo tipo de saias que vai dizer que usar preservativo é pecado, que é para a semente (da sida) se continuar a espalhar em grande. All the sperm is sacred...
Fui simplista? Redutor? Por certo; podia também falar de pedofilia e do poder que os respectivos lobbies (existem, pois!) exercem na escolha do próximo papa.
E podia ainda falar de mais coisas...
Da cúria romana que levou o ex-papa a resignar; e aqui, mais uma vez, teria de falar de pedofilia (não seria o ex-papa o alvo das minhas principais farpas tintas de pecado).
E podia falar de tanta outra coisa. Até podia arriscar dizer que o próximo papa não será italiano. Porque, por estranho que pareça, parece que há rapaziada na América do Sul que encaixa melhor no perfil "que se quer" para proteger a ICAR daquilo que a faria tremer até à pedra ou pedro inicial.
E sim, hoje estou calminho. Correu-me bem o dia.
Amanhã talvez peque mais um pouco.
Agora vou-me deitar que amanhã tenho de me levantar meia-hora mais cedo para disfarçar o 666 que me apareceu na testa enquanto passava para aqui a mensagem que o príncipe das trevas me ditava.
PS - se tenho algo de pessoal contra a ICAR? Claro que sim. Sou humano. Não sou o espírito santo. Vejo, ouço e falo. E sinto a dor que esta igreja e outros ópios semelhantes causam aos meus iguais. Ao próximo, não é assim que se diz?

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publicado às 01:31


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