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Há tanto que não escrevo

por Rogério Costa Pereira, em 28.12.13

Há tanto que não escrevo.

Em rigor, não sei se algum dia escrevi; o que faz do tempo um tempo ainda maior.

Como que sem princípio nem fim.

Uma folha em branco e letras em cima.

Isso já eu fiz.   

Mas escrever?

Escrever de escrever? Alinhar sentires em forma de palavras? Orquestrar letras? Pô-las a cantar e a dançar?, a chorar e a rir? Ou simplesmente a estar?

E a não estar.

Mandar as letras estar e não estar é coisa incomum e trivial, complexa e fácil… e um ror de outras coisas mais, todas em forma de antónimos e sinónimos.

Assim mesmo. O nosso reflexo ao espelho.

Escrever será a nossa tese e a nossa antítese.

O nosso sim e o nosso não.

Quando nos olhamos ao espelho olhamos o nosso contrário. A esquerda à direita, a direita à esquerda.

E o eterno olho vesgo que quem nos olha vê -- não o de quem nos olha, mas aquele que quem nos olha vê.

Escrever de vómito; há quem o faça. Eu mesmo alinhei palavras e frases dessa forma. E tive aplausos e apupos. O tal espelho. Mas duvido que tenha escrito.

Escrever de escrever será algo como a líbido em papel. E sei lá eu o que é isso, a líbido em papel. Sente-se, não se sente, sente-se, não se sente.

Um piscar de olhos.

A verdadeira escrita estará algures na parte em que os olhos fecham. Algures ali, antes de abrirem. Algures ali, antes de fecharem.

Talvez ditando de olhos fechados para que outro o maximize ao papel. Ia dizer reduza ao papel, mas isso seria uma ironia dupla, que nada na escrita é redutor e o papel não passa de um veículo.

Uma escrita falada, talvez… O Antero fazia muito isso, resfolegava e os outros apanhavam daqui e dali e iam a correr assinar por baixo. No papel.

Mas uma escrita falada não é escrita, a não ser que se tome o percurso inverso. Se escreva para depois se dizer.

Dizem as convenções de bem escrever (ele há disso, com feiticeiros a soldo e aprendizes salivantes).

Dizem os livros – ironia, dizem os livros.  

Li tanta escrita falada que calhou estar no papel… Tanta que me desdigo e contradigo.

No papel.

A ideia é mesmo essa; palavras no papel.

Palavras no papel.

Ao som de uma música que não é mas que se ouve; de uma mão que não apalpa mas que se sente; de um cheiro sem cheiro que nos faz delirar de tanto cheirar…

De uma língua que passa ao de leve no ouvido; onde não há ouvido nem língua.

De um olhar que não se olhou, mas que se vê.

Que se lê.

Acho que escrever é essencialmente isso.

Um empurrão dado de trás prá frente e de frente prá trás.

Como que numa entoação perfeita e imperfeita -- escrever talvez seja isso; ambas as coisas ao mesmo tempo. A perfeição alinhada com a imperfeição.

Um duplo empurrão uno, após o qual não ficamos no mesmo sítio; por mais coordenado que seja.

Uma teia de aranha que se limpa mas que, de tão bela, não se deixa limpar. 

Quem sabe um dia.

Sei lá se estou aqui, sei lá se estou bem.

Há tanto que não escrevo.

Talvez escrever seja também isso.

Não escrever...

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publicado às 02:12


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