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Tó 0 — Seguro 1

por Licínio Nunes, em 19.07.13
E não há acordo! Nem com a intervenção da Santa Madre Igreja. Para dizer a verdade, achei o secretário-geral do PS mais "homenzinho", digamos. Até nem se saiu nada mal daquele assédio ridículo que tudo quanto é voz mediática lançou sobre o Partido Socialista. Voltámos ao ponto de partida. Então e agora, sr. Presidente?

Nos últimos dias, aquele rapazelho..., digamos, de nariz incontinente, que ainda nos desgoverna, parece ter entrado em negação absoluta. Ainda ontem re-afirmou a sua intenção de fazer da víbora Portas o seu vice. Mais dois ou três dias, vai estar a comandar o contra-ataque do exército Heinrici a partir dos Montes Seelow. O Pedro é ridículo e mais ridículos ainda aqueles que fingem levá-lo a sério. Pode ser que a situação tenha atingido um qualquer ponto de não-retorno: hoje, foi publicada uma sondagem local que dá para Lisboa, 16,7% de intenções de voto ao psd+cds. Talvez os portuguesas não sejam tão isentos de espinha como às vezes parecem.

E agora..., o sr. Presidente excluiu ontem a hipótese de um governo de iniciativa presidencial. Em face disto tem exactamente duas hipóteses: convocar eleições ou dar posse ao vice do Pedro, fazendo uma monumental figura de asno.

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publicado às 21:20


Então e a Esquerda, pah?

por Licínio Nunes, em 03.07.13
É um nome lindo, camarada
É um nome lindo, tu sabes
Que casa cereja e romã
Com as cem flores do mês de Maio

Nas últimas eleições legislativas, votei duas vezes no Bloco de Esquerda. Literalmente. Preenchi dois boletins com a cruzinha na mesma posição. O primeiro foi parar à urna de voto, o segundo, à maleta dumas miúdas simpáticas que estavam a efectuar uma sondagem à boca da urna, para a Universidade Católica. Em face da correspondência muito próxima entre os resultados daquela sondagem e os totais nacionais, sou dos muito poucos que podem afirmar terem uma certeza quase absoluta de o seu voto ter contado.

O meu voto contou. Essencialmente, serviu para legitimar a agressão que se abateu sobre este País. São as regras do jogo, nada de essencial muda quando votamos vencido. E também por isso, continuam a aplicar-se as palavras do Jean Ferrat, naquela primeira quadra acima. Sim, é um nome lindo, camarada, mais ainda quando evoca o "...é proibido proibir...", do Maio de 68, na sua referência inequívoca ao período das Cem Flores, "Que cem flores floresçam / Que cem escolas de pensamento debatam livremente"</em>. Mas deixemos Mao Tse Tung em paz. Os Povos votam (os que o podem fazer), usam a sua liberdade, inclusive, para permitir a actuação dos inimigos dessa liberdade. São as regras do jogo.

Durante anos, camarada
Durante anos, sabe-lo bem
Apenas com o teu nome por canção
Os lábios floresciam

E no fim de contas, só é derrotado quem desiste. E no fim de contas, quem, neste País, se atreverá a dizer que não valeu a pena? Os tais inimigos da liberdade e esses não me interessam. Os outros, desde os que têm uma memória física do antes do 25 Abril de 1974, até aos que aprenderam os factos nos livros de História, sabem que os lábios floresceram; não tanto quanto queríamos, mas floresceram. E aquela coisa, essencialmente difusa, a que chamamos Esquerda tem aí muitas das suas coroas de glória.

É um nome terrível, camarada
É um nome terrível para ser dito
Durante o tempo duma mascarada
Mais não faz do que tremer

Se parássemos neste ponto, estaríamos a passar moeda falsa. Não vou falar das lutas internas da República, durante a Guerra Civil de Espanha, nem sequer da única acusação invalidada no Tribunal de Nuremberga. Os espanhóis que se pronunciem sobre os primeiros factos e os polacos que façam a paz possível como os outros. Mas outros factos, mais próximos de nós, estão ainda em cima da mesa. E o Jean Ferrat não se esqueceu deles.

Que vens fazer, camarada?
Que vens fazer aqui?
Foi às cinco horas de Praga
Que o mês de Agosto se obscureceu.

Foi às cinco da manhã de 21 de Agosto de 1968, que os exércitos do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia. E aquelas foram exactamente as perguntas que os jovens de Praga e de outras cidades, fizeram aos miúdos atarantados, que tripulavam os tanques soviéticos. E eles não sabiam. Provenientes, na sua maioria de unidades estacionadas na Ucrânia, estavam convencidos que a guerra tinha rebentado e que estavam na então Alemanha Federal; era o que os veteranos de '45 lhes tinham dito: "Quando vocês já não conseguirem ler os sinais de trânsito [por já não estarem escritos em cirílico], isso quer dizer que estão na Alemanha...".

É um nome lindo, camarada
É um nome lindo, tu sabes
Com o meu coração batendo a chamada
Para que ele renasça para sempre.
Casando cereja e romã
Às cem flores do mês de Maio

Não, a Esquerda não pode assumir qualquer postura de superioridade moral, a menos que seja capaz de olhar para os esqueletos que tem no armário. Os franceses fizeram-no, após a libertação de 1944; à maneira deles, pelo pacto do silêncio. Fizeram-no. Os italianos fizeram-no, pelo Compromisso Histórico. Então e nós? Nós, hoje, 3 de Julho de 2013, quer-me parecer que, colectivamente, ainda não percebemos a profundidade da crise que nos atinge e a natureza extrema da agressão a que estamos sujeitos. Na minha qualidade de alguém que vota em dobrado no BE, quero afirmar que a cultura do protesto, por mais justo e correcto que seja, não leva a lado nenhum.



No dia de hoje, esta deputada do Bloco, conseguiu encontrar tempo e disponibilidade mental, para afirmar a sua indignação. A respeito dum assunto diplomático. Triste e irrelevante. Constato que o PCP não encontrou o tempo ou a disposição para se congratular com o internacionalismo norte-coreano. Talvez o façam amanhã, se a nossa própria urgência não os impedir. Então e o PS?

Será que a tal "superioridade moral" vai continuar a permitir apontar o dedo numa única direcção? Existem muitos e bons motivos para esse apontar, mas e a urgência nacional? "Não vale a pena, o TóZero é um zero...". Pois muito provavelmente é, mas que caminho é que se faz se não lhe metermos os nosso próprios pés? Cada vez mais me convenço de que vocês ainda não perceberam até que ponto a crise é urgente, e de que não fazem a menor ideia do que está para vir. Amanhã estará mais claro e no dia a seguir ainda mais.



A austeridade é a velha história das roupagens novas do Imperador. Ninguém, do alto da sua respeitabilidade, se atreve a dizer que não existem. Resta-nos a ingenuidade das crianças, mas que ninguém se iluda, o primeiro Povo, neste continente mártir, que se atrever a dizer "...o Rei vai nu..." vai ser sujeito a uma agressão que tornará as pressões obscenas sobre os gregos, durante as eleições de 2012, numa mera brincadeira. É este o nosso futuro próximo. Vamos a ele!

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publicado às 22:31


As opiniões e os peidos

por Licínio Nunes, em 18.06.13
O senhor Miguel, o Sousa Tavares da actualidade, é um opinador profissional. Vamos dizê-lo sem segundos sentidos: tem uma máquina de escrever enorme e uma tribuna à medida da sua máquina. O Tavares, o Miguel que nos calhou em sorte, acha que os professores abusaram do seu direito à greve. O Sousa, o Tavares que já o era antes de ser o Miguel, andou na escola da D. Constança. Se não fosse por isso, não me daria ao trabalho de escrever estas linhas. No fim de contas, não quero saber das opiniões, nem do Tavares, nem do Sousa, e ainda menos do Miguel. Distância! Apenas distância, não fora a D. Constança.

Também andei numa escola parecida. Situada na Grande Lisboa, não tinha o tal frio granítico. E lembro-me relativamente bem das casas de banho, exactamente e apenas porque não tinham nada de especial e chegavam para todos. O recreio da minha D. Constança não tinha lama no Inverno. Era um espaço relvado, numa pequena escola privada, empresa familiar, onde a irmã da D. Constança tratava das refeições. Lembro-me dela, não me lembro dos almoços, o que, em vista da minha esquisitice permanente, me diz que deviam ser bastante razoáveis. Mas o que eu recordo melhor, foi o choque que senti, ao aperceber-me que uma parte substancial dos meus colegas se iriam ficar pela 4ª classe. Acho que foi a primeira vez na vida que percebi o significado de injustiça.

Voltei a ter o mesmo sentimento, dalguma forma mais trágico, já nos tempos da actualidade, quando ouvi, contada na primeira pessoa, a descrição dos tempos modernos do meu País. Era uma escola secundária, já universal nalgum sentido, mas situada numa zona "problemática". Os conflitos eram constantes, mas esta D. Constança era (e é!) uma mulher de armas, do tipo "...vamos arregaçar as mangas e começar e empurrar o comboio...". O ambiente da escola melhorou, não de imediato, mas todos o sentiam. Os resultados não e esta D. Constança actual reuniu os alunos e disse-lhes exactamente isso: "...Já fizemos muito e também vamos ultrapassar este problema...". Um dos alunos respondeu-lhe: "...sôtora, você é porreirinha e o pessoal aprecia. Mas não se mace, isto é tudo material para caixas de supermercado".

O Miguel mais os seus 79 colegas, não me interessam para nada e as opiniões do Tavares ainda menos. Constato apenas que, para as começar a enunciar, o Sousa teve que mentir. O Miguel mente, quando diz que os professores finlandeses ganham menos do que os portugueses e que trabalham mais. Talvez não seja exactamente mentira, porque o qualificativo "proporcionalmente" me faz suspeitar que o Sousa seja econometrista, logo será este apenas um assunto de deformação profissional.

O Tavares afirma que Portugal faliu. Neste momento, continuo convencido que, no que aos factos diz respeito, é (ainda) um exagero e no que que respeita às opiniões é apenas um peido. Uma daquelas 23 coisas que não te disseram a respeito do capitalismo, mais exactamente a 3ª, mostra-nos que os países pobres não o são por os seus cidadãos de menores recursos serem calões e pouco produtivos, mas sim porque as suas elites são medíocres e incompetentes. As mesmas elites das quais o Sousa, mais a sua máquina de escrever, fazem parte. Quanto a opiniões, o assunto é ainda mais simples: são como os peidos; cada um tem as suas e acha que as dos outros cheiram mal. Acontece apenas que os do Miguel são particularmente fedorentos.

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publicado às 21:01


Post-Democracia

por Licínio Nunes, em 12.06.13
Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo! Uma mãe-solteira do estado americano do Utah, conseguiu recentemente vender a sua testa (!), recebendo USD $10 000 por fazer uma tatuagem permanente, publicitando um casino online; as tatuagens temporárias valem menos, para quem estiver interessado. Em algumas cidades da Califórnia, os presos (por crimes não violentos) podem pagar $90 por noite, em troca do privilégio de terem uma cela individual, calma e confortável, sem que os presos não-pagantes os incomodem. Por USD $7 500, qualquer um se pode oferecer para testar novos produtos farmacêuticos, com o preço final dependendo dos efeitos do produto e do desconforto previsível do teste. Ainda não se podem comprar crianças, mas já é possível alugar o útero duma mulher indiana por $8 000. Porquê parar? Se alguém se disponibilizar para ser um escravo temporário (digamos, por 14 anos, como no Velho Testamento), não terá grandes dificuldades em encontrar empresas online, dispostas a disponibilizar o produto nos mercados adequados; a troco de uma comissão adequada, claro, mas é assim que o mercado funciona. É assim que se implementa aquele princípio sacrossanto da liberdade de contrato, que Adam Smith e os seus fiéis todos os dias juram defender. Em nome do progresso, pois com certeza.



O filósofo americano Michael Sandel faz-nos estas e outras perguntas da forma mais directa: O Que É Que Não Está À Venda? No fim de contas, todos aqueles exemplos (e muitos outros), mais não são do que o exercício daquela liberdade essencial. Num ponto qualquer do caminho, deixámos de ser Economias de Mercado para nos transformarmos em Sociedades de Mercado. E o facto simples, é que ninguém o fez por nós, fomos nós cidadãos do tal "mundo livre" que o fizemos. Foram os cidadãos americanos que elegeram livremente um actor de telenovelas chamado Ronald Reagan; foram os cidadãos britânicos que elegeram livremente a bruxa má do Oeste. Fomos nós, o colectivo dos cidadãos eleitores de Portugal, que elegemos o único fulano que eu conheça, que começou a trabalhar aos 37 anos. O autor diz-nos que está mais do que na hora de nós todos, os ainda-soberanos, decidirmos colectivamente quais são os limites do mercado.

Talvez o aviso venha demasiado tarde. Os gregos acordaram hoje a pensar na Junta dos Coronéis, mas provavelmente a sua memória engana-os. No fim de contas, o actual parlamento grego tem toda a legitimidade para votar os Actos da Habilitação de Poderes que forem considerados necessários. O tal rapazola que começou a trabalhar mais tarde do que os filhos do sr. Kadahfi tem toda a legitimidade para pedir ao nosso parlamento que lhe habilite os dele. E o parlamento votará favoravelmente e o nosso presidente, a quem não devemos chamar palhaço promulgará. Bem-vindos então, aos dias da post-democracia. Não digam a ninguém "Nós não sabíamos", senão o fantasma da Marlene Dietrich vai atormentar as vossas noites. Aquilo que nos separa a todos do caos, é apenas a linha frágil dum piquete de greve grego.

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publicado às 20:45


Qual seria a diferença?

por Licínio Nunes, em 03.06.13
Imaginemos que no dia 3 de Novembro de 2000, aqueles judeus americanos idosos, residentes no Estado da Florida, que se levantaram da cama para irem votar, tinham conseguido evitar ser confundidos pelos boletins de voto mais absurdos que já alguém desenhou, e que tinham evitado acabarem por votar no anti-semita Pat Buchanan, em vez do candidato da sua escolha. O que seria diferente? Em que é que este malfadado século seria diferente?

Os planos da Al-Qaida, para um ataque aos Estados Unidos eram antigos, e foram preparados durante vários anos. Perante os eventos do 11 de Setembro de 2001, o estado americano reagiria como reagem sempre os estados-soberanos, ao serem atacados. Nada teria sido muito diferente, com a excepção dum pequeno pormenor. Obviamente, o presidente Al Gore não teria permitido que Ossama Bin-Laden se escapasse por entre as malhas que vagamente rodearam os seu refúgio nas montanhas de Tora-Bora. A estas horas, muito provavelmente, a aviação americana e britânica continuariam a impor as mesmas zonas de exclusão aérea e os iraquianos continuariam a ser dominados por um regime nojento e a usarem as escolas e outros equipamentos sociais que esse regime nojento pagava com o petróleo que conseguia contrabandear através das suas fronteiras; os xiitas do delta dos dois rios continuariam no fundo de todas as escalas sociais, a única diferença sendo, que não teriam milícias armadas para protegerem o seu direito a permanecerem no fundo de todas as escalas sociais. O fundamentalismo islâmico seria hoje uma nota de rodapé nos livros de História, a única diferença real, seriam as vítimas que não teriam existido.

Mas imaginemos que, em 2004, o presidente Al Gore teria reparado num jovem político do Illinois, que já na altura levantava grandes esperanças e, para marcar o seu próprio lugar nos tais livros, o teria convidado para fazer parte da sua lista. O vice-presidente Obama teria vencido facilmente as eleições de 2008, tanto mais que, sem os excessos inacreditáveis dos outros, os que foram, a crise financeira de 2008 teria sido atrasada e os sub-primes americanos teriam continuado a inchar durante mais dois anos. O essencial já estava presente, inscrito na pedra, aquando da revogação do Glass-Steigall, com a a assinatura "William Jefferson Clinton". As bolhas europeias, essas, continuariam a inchar durante mais dois anos, propulsionadas pelos bancos franceses e alemães e pelas suas taxas de reservas, entre os 5% e os 3%.

As bolhas iriam rebentar, claro. Com o nome Lehman Brothers ou outro, mas ninguém duvida que o presidente Obama tivesse mostrado a decisão que o caracteriza e, pela sua actuação pronta, tivesse assegurado a sua própria re-eleição, a dois anos de distância. Nada seria muito diferente, com a excepção das festas do chá americanos, que não teriam existido. A chanceler alemã estaria a dizer, por esta altura que, e cito, "...negociar em dívida soberana, não pode ser o único negócio em todo o Mundo, que não envolve riscos..." (sic). Mas as bolhas estariam a rebentar, ou já teriam rebentado, e seriam ainda muito maiores. O presidente Hollande iria demorar mais um ano, coisa menos coisa, até perceber que o problema não eram os bancos cipriotas, mas sim os franceses. Bem acompanhados do outro lado do Reno claro, que os alemães nunca deixam os seus créditos por mãos alheias. Nada seria muito diferente. A única diferença seriam as vítimas.

Por estas bandas, as bolhas que finalmente teriam rebentado, dariam origem a uma grande vaga de fundo, neste período pré-eleitoral que estaríamos a viver e o primeiro-ministro José Socrates estaria prestes a ser substituído por uma maioria absoluta, mais maioritária ainda do que as da Travessa do Possolo. Rapidamente, o verdadeiro agente histórico viria ao de cima, e por estas horas, o Senhor. Prof. Dr. Oliveira Gaspar estaria já a treinar o seu grande motto, "Orgulhosamente acompanhados!". A única diferença real seriam as vítimas que não teriam acontecido.

A única grande diferença, teriam sido as vítimas que não teria havido, desde o Iraque até à Baixa da Banheira. Este seria um século muito mais simpático, mas nada de essencial seria muito diferente. A diferença seriam as crianças, e essa é toda a diferença do Mundo. Raios partam os judeus da Florida!

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publicado às 18:03

Em última análise, existem apenas dois tipos de sociedades. Umas podem ser chamadas 'fechadas' e as outras 'abertas'. [...]O drama das sociedades abertas é que têm que permitir a actuação dos seus inimigos.

Karl Popper, in A Sociedade Aberta e os seus Inimigos

Quando me propus escrever esta série de posts, sabia antecipadamente que o assunto se iria tornar progressivamente mais difícil e pelo facto simples de existir uma hierarquia clara nos problemas sociais e civilizacionais gerados por aquela que é ainda (!) a nossa civilização. A primeira — e última, que fique claro — assente em combustíveis fósseis.

As duas primeiras maldições são simples. Resultam de restrições físicas e a única coisa que a sôdona física nos diz é por onde não podemos ir e quais são os buracos que iremos encontrar, ao longo do caminho. A terceira, o trólaró do "Há petróleo no Beato!" parece ser um assunto já de outra natureza, mas continua a ser uma restrição física. O tempo decorrido entre a descoberta duma qualquer jazida fóssil e a sua produção plena nunca consegue ser inferior a uma década. O facto de as sociedades envolvidas sentirem, de facto, os seus efeitos muito depressa — veja-se o exemplo da Escócia e da Noruega, com a descoberta do petróleo do Mar do Norte — está já na interface entre a física e a economia e mostra-nos como existe alguma margem de manobra em torno das maldições fósseis. Chama-se inteligência colectiva e não é pelo facto de ser rara que se revela menos importante.

O que me fez andar para aqui às voltas, como um cão a tentar morder o rabo, foi ter-me apercebido que as minhas palavras a respeito das erupções de violência, quando a curva de Hubbert sofre aquelas inflexões qualitativas, podem ser lidas quase ao contrário daquilo que eu quis dizer. Para começar, eu não estava a dizer algo como "...descobri uma nova lei da história...". As leis da história são apenas o exercício do direito humano à estupidez, de Marx aos gasparídeos. Muito diferentes, que fique claro, mas com um ponto comum e esse ponto comum é maleita de que eu não sofro : a crença em leis da história.

O período de tensão actual (desde o início do século), resulta do ponto mais complicado da curva de Hubbert, ou seja, o pico da produção. No entanto, os actores principais, sentiram essas tensões de forma completamente diferente. Bush & Co. sentiram-nas como a necessidade de controlar a oferta, tal como o senhor Saddam tinha sentido as tensões dos choques petrolíferos dos anos setenta, e reagiram exactamente da mesma forma, a única diferença é que uns invadiram o Irão e os outros invadiram o Iraque. Resultados semelhantes.

Os choques de preços do início do século, esses, foram o resultado de os líderes chineses terem sentido a necessidade de assegurar a sua própria procura, percebida como estando numa fase de crescimento exponencial; exactamente o mesmo que franceses e britânicos sentiram, no tempo do Sykes-Picot. Mesmas necessidades, resposta diferente. Que seja do meu conhecimento, não houve sangue derramado, como consequência dos choques de preços do início do século. A diferença chama-se, novamente, inteligência colectiva.

Não estou a tentar justificar o regime chinês, que fique claro. Estou apenas a tentar abocanhar a minha própria cauda, e acho que já encontrei uma maneira de o fazer. Isto é a Internet, portanto, peço aos leitores que façam um exercício simples. Agarrem numa folha A4 e listem todos os episódios de agressão externa chinesa, durante os últimos 2 000 anos. Nada de tergiversar. Se teve origem em território chinês e foi dirigida ao exterior, é chinesa (incluindo os episódios resultantes da expansão mongol).

Ninguém conseguiu encher a primeira página, pois não? Agora, regressem àquela resma de papel A4 e comecem a listar os episódios de agressão externa do Reino da Suécia, durante os últimos 800 anos. A expansão viking dos séculos anteriores nem sequer é para aqui chamada. Então, a resma de papel chegou, ou já estava nas lonas? Talvez aquele intangível e indefinível a que chamei inteligência colectiva exista, no fim de contas.

Voltemos então às maldições. O paradoxo de Popper, que citei no início, não é assunto de opinião, não é coisa passível de "...eu acho que..."; as achações e as crenças não são para aqui chamadas. É apenas uma construção lógica. Se algumas sociedades são abertas, então têm que permitir a actuação dos seus inimigos. Tanto o Adolfo como a Guidinha dos limões, recentemente falecida, subiram ao poder usando os mecanismos de abertura das suas próprias sociedades. Um, para o tirar de lá, foi preciso destruir meio continente; quanto à segunda, foi impossível evitar que se metastizasse numa catrefa enorme de gaspares. Continuamos sem saber o que lhes fazer, sem destruir a outra metade do mesmo continente. E isto porque o lema de Popper tem um corolário: se existem apenas dois tipos de sociedades, existem apenas dois tipos de economias. Umas são de recursos exauríveis, as outras de recursos renováveis.

Dizer que um qualquer bem é um recurso renovável, não significa que a respectiva economia seja um mar de rosas. A água e a energia são os dois recursos primordiais para a existência de grupos sociais organizados. A água, não só é renovável como é indestrutível. Faça-se o que se fizer, o total de água do planeta permanece constante. O problema é que nós não "bebemos água"; bebemos água potável, o que a torna um recurso crítico. O primeiro de todos a ter sido regulado pelo Estado. O que faria Ramsés, se lhe aparecesse um qualquer gasparídeo a propor privatizar a água potável? Acho que mandava que lhe atassem as mãos e os pés à cauda de quatro cavalos diferentes e que chicoteassem as garupas dos quatro ao mesmo tempo. Hmmm! É capaz de ser uma ideia...

Quanto ao outro daqueles recursos primordiais, a energia, não tem que ser, à partida, uma coisa ou outra. No entanto, as energias fósseis são um caso de economia de recursos exauríveis; em absoluto, são o único caso. Em cada quilograma de aço que sai das siderurgias, existe uma percentagem elevada de "aço antigo"; não é preocupação ecológica, é o facto de ser mais barato fazê-lo desta forma, do que processar apenas minério de ferro recém-extraído. Os combustíveis fósseis, queimam-se e acabou. Em última análise, não há nada que nos consiga proteger da lógica inexorável da economia de recursos exauríveis; nem a tal inteligência colectiva, mesmo esta só resulta durante períodos limitados de tempo. Acho que estou só a respirar fundo, antes de contemplar a sua loucura essencial.

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publicado às 23:18


Força, camarada! Nós seremos a muralha…

por Licínio Nunes, em 25.05.13


Em 1904, o coronel (depois general) Younghusband, comandou uma expedição militar britânica ao Tibete. Não teve grande assunto, mas, à chegada a Lhasa, o comandante britânico reportou uma recepção entusiástica. Os cidadãos da capital acotovelavam-se nas ruas, batendo palmas à passagem das tropas. Se isto não é entusiasmo..., acontece que os tibetanos batem palmas para afugentar os demónios. Ah! E deitam a língua de fora, em sinal de respeito. Por isso, nada de deitar a língua de fora ao nosso Zé Grilo, que a senhora Maria anda a fazer umas sessões de meditação Mahayana e pode ficar com ideias.

Juro a pés juntos que não faço a menor ideia de qual é o contexto cultural do gesto do senhor Shinzo Abe, actual primeiro-ministro do Japão. A única certeza que eu tenho é que não é aquilo que (nos) parece. Mas lá que parece, parece. E tanto que parece, que a francesa de Berlim há-de estar com o pêlo todo eriçado. E com motivos para isso.

Então não querem lá ver que aquele..., qualquer coisa duma figa, não só não quer saber duma dívida pública superior a 200% do PIB, como pôs o estado nipónico numa senda de gastação desenfreada e pretende induzir — t'arrenego, Belzebu, gasparacho, beldroega — inflação! Inflação, pelo menos 2% ao ano. Inflação, aquela coisa que devora as rendas financeiras. E ainda por cima, parece estar a funcionar.

Por isso, quando um daqueles suspeitos do costume vos arengar com as "inevitabilidades" e com os "consensos", mais o respeito devido a Sua Excelência, chamem-lhe algo que Sua Excelência não consegue perceber: Kaijin ! Não há problema. A PGR não vai conseguir acusar ninguém, porque nenhum de nós consegue pronunciar correctamente o japonês. O mais provável, é que seja exactamente isso que o senhor Abe esteja a dizer. O tradutor do Google apresentou este resultado para "Ombu Kaijin!" e eu transcrevo: "Fuck you, bárbaro sub-humano, monstro marinho do outro lado do mar!"

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publicado às 23:22

Daqui a 50 anos, ninguém vai querer saber do precipício fiscal [americano] ou da crise do Euro. [As pessoas] vão apenas perguntar, "Então, o Árctico derreteu e o que foi que tu fizeste?"

Bill Mckibben, Rolling Stone

Muitas pessoas criticam o senhor Al Gore pela forma como ele abordou aquela que é, muito provavelmente, a mais perigosa crise da história da humanidade. Não me estou a referir a negacionistas das alterações climáticas, porque esses, mesmo que verifiquem o sentido de "muitas", não conseguem verificar qualquer sentido razoável do termo "pessoas". Tentar motivar as pessoas em torno duma ameaça comum, funciona se essas pessoas tiverem uma percepção física da ameaça. Enquanto a Exxon-Mobil não bombardear Honolulu, ou a Royal Dutch Shell não bombardear Roterdão, aquele sentido de perigo eminente, que deu origem ao que os americanos chamam "A grande geração", estará ausente. E estará ausente, porque, por exemplo por estas paragens, os condores do Gaspar bombardeiam todas as cidades e vilas deste país, com efeitos mais do que destruidores, extremamente próximos.

O movimento pelo desinvestimento no carbono está a ganhar amplitude. Adapta-se muito bem às características dos países anglo-saxónicos, mas como é que conseguirá desembarcar nas praias da Normandia? A muralha do Atlântico erigida pela segunda maior construtora de fortalezas da História, continua a revelar-se inexpugnável. Mais do que a do seu antecessor, mas vejamos os verdadeiros paralelos históricos, um pouco mais a sério do que os das frases anteriores.



Quando Gandhi iniciou a Grande Marcha do Sal, muito poucos foram aqueles, no Congresso Nacional Indiano, que pensaram que a iniciativa iria ter um mínimo de sucesso. No entanto, Gandhi estava a fazer duas coisas. A primeira era morder o poder instalado no único sítio onde ele sente a dor, ou seja, no bolso; a segunda, é que estava a oferecer aos povos do sub-continente indiano um objectivo prático e com grande impacto na sua sobrevivência imediata. O movimento pelo desinvestimento no carbono tem a primeira daquelas duas características. A forma como este movimento possa vir a ser adaptado às mais opacas sociedades do lado de cá do Canal da Mancha, irá depender da resposta ao segundo requisito de Gandhi. A necessidade aperta, mas confesso que não faço a menor ideia de como poderemos celebrar o próximo 6 de Junho.

Mas para os que tiverem dúvidas até que ponto é fácil dividir e desmoralizar toda a gente, basta olhar para a imagem que se segue. O método é muito simples, basta escolher o período de tempo que mais lhes convier. Entretanto, vamos vivendo os dias do trólaró.



Uma boa parte dos equívocos em que o bluff monumental das indústrias fósseis assenta, está naquela última frase da cena clássica de O Gigante: "Devias ter-lhe dado um tiro há muito tempo. Agora, ele é demasiadamente rico para ser morto". Perdão? Importa-se de repetir? O filme data do ano em que eu nasci; o James Dean ter-se-ia tornado um gigante, mais ou menos pela altura do meu décimo-quinto aniversário. Sim, nas cenas seguintes começam a ver-se camiões-tanque a passar na estrada, lá ao fundo, mas isso não passa de trólaró: se o James Dean tivesse descoberto petróleo algures na Andaluzia e tivesse celebrado um contrato para abastecer a refinaria de Sines..., bem, as contas são fáceis de fazer, um camião-tanque igual a 30 toneladas, teriam sido precisos 100 000 camiões por mês para abastecer a refinaria; 100 000 camiões/mês vezes dois (então e a viagem de regresso?), vezes 600 quilómetros, a velocidade média seria..., não faço ideia, mas digamos que as estradas do Alentejo estariam hoje todas transformadas em pistas de fórmula 1. As industrias fósseis passam 10-15 anos a injectar quantidades astronómicas de dinheiro nos seus poços, os cidadãos convencem-se que os seus países estão a ficar mais ricos, porque querem (!), o resultado final, com poucas excepções, é que a vasta maioria ficou mais pobre. Os 400 ppm de CO2 na atmosfera, são apenas o resultado de a sôdona física ter feito àquele bluff, aquilo que no poker se designa por "pagar para ver". Os adoradores do deus mercado, esses, continuam apenas a subir a parada. A verdade simples, é que não sabem fazer outra coisa.

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publicado às 23:56

Fazem o deserto e chamam-lhe paz
— Tacitus


A ano de 2013 começa com maus presságios. A presidência que temos publicou um OGE inconstitucional; talvez. Se o tivesse enviado para fiscalização preventiva, estaríamos perante um texto talvez inconstitucional. Assim, estamos perante uma situação igual à de 2012. Talvez. Ou então, até poderemos estar perante um caso de sucesso: talvez já não valha a pena fazer nada.

Talvez a economia tenha caído uns 20%, desde o seu pico em 2007 e esteja a crescer de forma acelerada, para retomar o valor que tinha no início do século, ou antes disso. Talvez a população deste país tenha conseguido cumprir pelo menos, alguns dos seguintes requisitos:


  1. Não seja capaz de pagar a renda da casa, ou a respectiva hipoteca, nem as contas da água e da luz.

  2. Não seja capaz de manter a sua habitação adequadamente aquecida no Inverno.

  3. Não seja capaz de fazer face a despesas inesperadas.

  4. Não tenha possibilidade de comer carne, ou outra fonte de proteínas, com regularidade.

  5. Não tenha possibilidade de gozar férias.

  6. Não consiga ter uma televisão.

  7. Não consiga ter uma máquina de lavar.

  8. Não consiga ter um automóvel.

  9. Não consiga ter um telefone.



De acordo com as definições oficiais do Eurostat, os portugueses que verificarem três das condições acima, estarão numa condição de privação material; os que verificarem quatro ou mais condições, estarão numa situação de privação material severa. Isso não impedirá que este país seja declarado um exemplo de sucesso.

Talvez os vencimentos mínimos tenham caído para cerca de $168 USD (sim, dólares americanos) por mês; talvez mais de 250 000 portugueses estejam a emigrar, em cada ano. Não será por isso que uma qualquer Jonet de coturno internacional se coibirá de nos declarar "...um caso de sucesso...".

Será que tudo isto parece forçado? O facto simples é que não estou a falar do futuro: estou a falar do passado



Estou certo que a Jonet gostaria mais desta.



Ou então desta, talvez. Todas são copyright do New York Times.



A nós, a todos nós, cabe-nos fazer como que os sonhos das Jonets não se concretizem.



Lie still, sleep becalmed, sufferer with the wound
In the throat, burning and turning. All night afloat
On the silent sea we have heard the sound
That came from the wound wrapped in the salt sheet.

Under the mile off moon we trembled listening
To the sea sound flowing like blood from the loud wound
And when the salt sheet broke in a storm of singing
The voices of all the drowned swam on the wind.

Open a pathway through the slow sad sail,
Throw wide to the wind the gates of the wandering boat
For my voyage to begin to the end of my wound,
We heard the sea sound sing, we saw the salt sheet tell.
Lie still, sleep becalmed, hide the mouth in the throat,
Or we shall obey, and ride with you through the drowned.


— Dylan Thomas, Lie still sleep be calmed in The Falklands Suite

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publicado às 23:54

O Livro do Génesis diz-nos que Adão foi criado a partir do barro; e depois, Eva foi criada a partir duma costela de Adão. Pense-se o que se pensar a respeito das afirmações anteriores, é perfeitamente claro e pacífico que estamos perante dois casos de criação ex materia, a partir de matéria pré-existente. Bem, então e o resto?

Quanto ao resto, a fonte citada é omissa. Diz apenas que no princípio — então e antes disso? — deus-nosso-senhor criou a Terra e o Sol, e as estrelas do firmamento. Não nos diz a partir do quê. Não nos diz nada a esse respeito. Ora, dum ponto de vista estritamente lógico, podemos muito bem supor que deus não o disse por não ser da nossa conta, ou então, porque os nossos cérebros limitados não seriam capazes de o abarcar. Acontece que todas as religiões reveladas têm dogmas não explícitos (sempre os mais importantes). Para as religiões do Levante, os mais importantes são o dogma da completude — deus-nosso-senhor disse-nos tudo o que havia para dizer — e o dogma da inteligibilidade: disse-o de forma a que todos os seres humanos fossem capazes de compreender.

Em consequência, todos os teólogos da revelação, acabaram por cair sempre todos para o mesmo lado (muitas vezes ao fim de furiosos debates): o Mundo foi criado ex nihilo, literalmente, a partir do Nada. Nada a objectar, o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita, mas..., então, quem foi que criou o dinheiro?

Um desses teólogos, um francês chamado Roger Vadim, disse-nos o que já sabíamos, ou seja, que deus tinha criado a Brigitte Bardot daqueles tempos. Tudo bem! Então e o tógé?



Curiosamente, vivemos o primeiro período histórico em que os teólogos da situação defendem a criação monetária ex nihilo, por privados, de forma explícita. Nunca antes na História houve Gaspares explícitos: muitos cantaram a canção da sereia, mas sem nunca terem a coragem de se assumirem. No fim de contas, esses proto-gaspares também eram representantes do poder soberano. No fim de contas, se a criação ex nihilo era um atributo da divindade, então tinha que estar reservada, por exemplo, para os Reis-deuses da Mesopotâmia; ou então para os representantes de deus na Terra, ou seja, os detentores do poder soberano.

Hoje em dia tudo mudou. Esta é uma mudança bárbara e cruel e muitos ainda não a entendem. Atravessa tudo, na Europa. E apenas um pouco menos no resto do Mundo, e apenas porque os detentores do tal poder soberano nunca arriaram as calças como o gaspar. Um tudo nada, sim. Até aos calcanhares, nem pensar! Nós portugueses somos vítimas, sobretudo porque não compreendemos o que se passa. Vejamos um exemplo que, aparentemente, não tem nada a ver com criação monetária.

Nunca achei Daniel Oliveira um pensador muito importante. Atento, sim, empenhado, sempre, mas não particularmente interessante. Com aquela frase inicial, dum artigo já amplamente (des)comentado, parece no entanto, ter tocado em algo de profundo (sem que o próprio se tenha dado conta, quer-me parecer). Mas vejamos aquela coisa desagradável, que dá pelo nome de factos, e que só preocupa quem se preocupar com a possibilidade de estar errado. É que aquela referência a "Obama um tipo decente" fez-me despertar qualquer coisa na memória, e, veja-se, a minha não estava completamente errada: o post com aquele exacto título foi publicado no 'Arrastão' a 1 de Março de 2007; no primeiro dia, do terceiro mês, do sétimo ano do segundo milénio da nossa era. Naquela altura, Barack Hussein Obama tinha já tornado pública a sua decisão de se candidatar, mas as primárias do partido democrático estavam ainda a mais de um ano de distância, e as eleições presidenciais americanas, de 2008, a mais de dezoito meses de distância.

Dezoito meses! Nem um burro demora tanto tempo para nascer; só mesmo um castendo. Naquela altura, não só Barack Obama não era presidente dos Estados Unidos, como muito poucos seriam aqueles que acreditassem que alguém, com aquele nome, alguma vez o pudesse ser.

Erros, todos os cometemos. Este erro, em particular, tem apenas o interesse de nos remeter para aquele 'algo mais profundo' a que aludi no início. A esta distância, o tal burro, já nem mamão é. Mas o PCP, esse é um assunto incontornável da realidade portuguesa, talvez o único partido político genuinamente português, que existe neste país.

E o PCP move-se. Devagar, devagarinho, que aquilo não é gente para atitudes de sopetão. Nada de piadas alentejanas, acontece apenas que quem quiser 'lêr o PCP' não pode ser dado à ansiedade. Ora, se o assunto fosse, sei lá, o futuro europeu do FCP, eu não estaria a escrever estas linhas. O assunto não me interessaria, nem a proverbial ponta dum chavelho.

Mas como o assunto é o meu País, e como não acredito, não vejo como alguma vez poderá existir um governo de esquerda que não inclua os comunistas portugueses, este é um assunto meu. Luz ao fundo do túnel, só se dermos uma cabeçada na parede e começarmos a ver luzinhas. Nada!

Já tentei (e não foi uma vez nem duas) lançar o debate sobre as causas reais da crise profunda que a todos nos tolhe. A ausência de resultados só poderia desmotivar alguém menos teimoso do que eu, por isso, vou tentar mais uma vez; com ainda outro ângulo sobre a realidade: será que a chamada "banca islâmica" (e a sua prática) é relevante para a situação actual, e para a sua resolução?

A minha resposta pessoal — e é apenas um ponto de partida — é NÃO! A analogia com o PCP é tudo menos meramente situacional; ambas as abordagens revelam uma sabedoria profunda. Acontece apenas que essa sabedoria se perde no ritual, nos epifenómenos duma época que não é a nossa e já não existe. Ambas as abordagens acabam por não fazer mais do que levantar o cú para o ar e afirmar "Allah u-Akbar!". Uns numa direcção, outros noutra; uns numa língua, outros noutra. Tão rigorosamente inúteis uns como os outros.

E contudo, aquela sabedoria profunda continua a ser essencial. Porque a esquecemos, voltámos, mais uma vez, a condenar-nos a reviver as mesmas situações. Como de costume, mais uma vez, com um carácter de farsa. Não menos trágica por isso.

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publicado às 21:59

As últimas eleições americanas tiveram dois vencedores incontestáveis: um dá pelo nome improvável de Barack Hussein Obama, e muitos milhões, pelo Mundo fora, deram um grande suspiro de alívio. Eu incluído. Ficou tudo pelo alívio, mas convenhamos que não é lá muito realista esperar mais do Novo Mundo.

O outro vencedor, ainda mais incontestado e sobretudo, ainda mais improvável, foi um estatístico e blogger chamado Nate Silver. O seu blog — '538' é o número de grandes eleitores no colégio eleitoral que, em última análise, determina o vencedor — acertou em todos os cinquenta estados americanos. Até a Florida mudou do cor-de-rosa pálido dos Republicanos, para o azul-bebé dos Democratas, mesmo na véspera das eleições (e por isso não se reflectiu na previsão final).

Por cá..., bem, por cá, aquela ameba espongiforme e urticante, chamada passos, cita a sondagem do jornal i (outra coisa bem esquisita, diga-se de passagem) como sinal de apoio às suas políticas.

Acontece que o '538', em época de balanço publicou um resumo das sondagens utilizadas no seu modelo Bayesiano. Este é o resumo dos dados usados, ao longo dos meses.



Note-se que um qualquer método estatístico erra quando as suas previsões se afastam do resultado final; está enviesado (bias) quando esses erros se acumulam só num dos lados. O enviesamento da vasta maioria daquelas sondagens é, digamos, notório. O erro, puro e simples, de alguns dos maiores nomes do ramo, deveria ser suficiente para os convidar a dedicarem-se a outra actividade, sei lá, a agricultura hidropónica.

Acontece que os "estudos de opinião" são, hoje em dia, um dos mecanismos preferidos para assegurar a reprodução da narrativa dominante. O sucesso do '538' foi possível apenas porque o processo eleitoral americano gera uma quantidade enorme de informação. A lista a seguir é longa, mas inclui todas as fontes. Neste país, e na Europa em geral, o poder instalado joga na escassez. Não só, mas também, na escassez de informação.



Um dos aspectos mais notórios deste balanço, são os resultados muito bons do estreante Google. O seu método é radicalmente novo e, mais do que isso, é barato. Qualquer um o pode fazer, com custos mínimos. Eis um assunto ao qual vale a pena voltar.

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publicado às 17:01

Gera apenas crianças-homem; Pois não pode a tua natureza destemida compor outra coisa senão machos.

— Macbeth, Acto 1, Cena 7

Interrompi a tradução de O Plano de Chicago Revisitado no ponto em que os autores abordam o conceito essencial de usura. Todas as grandes religiões a condenam; a vasta maioria dos sistemas de poder, ao longo da História, foram suas vítimas, e, no entanto, os detentores daquele pilar do poder que nasce no cano duma espingarda, revelam-se, hoje, incapazes de o afrontar. Recorde-se que os autores rejeitam a definição simplista de usura como “a prática de juros excessivos”, e em vez disso definem-na como “tomar algo em troca de nada” pela utilização calculada do sistema monetário para obtenção de ganhos privados.

"Do ponto de vista histórico, este facto tem assumido duas formas. A primeira forma de usura é a apropriação privada do lucro gerado pelo dinheiro duma qualquer sociedade. O dinheiro privado tem que ser criado pelo empréstimo [pelo crédito], a uma taxa de juro maior do que zero, ao mesmo tempo que os detentores desse dinheiro, devido aos benefícios não-pecuniários da sua liquidez, se contentam em receber uma pequena retribuição, ou mesmo nenhuma.

Portanto, enquanto que parte da diferença entre juros passivos e activos fica a dever-se a uma remuneração do risco, outra parte maior fica a dever-se aos benefícios gerados pelos serviços de liquidez [usar uma ATM, por exemplo, em vez de guardar o dinheiro debaixo do colchão]. Este é um privilégio que, devido aos seus enormes benefícios, é muitas vezes originado por comportamentos rentários intensos. Zarlenga (2002) documenta este facto em múltiplos episódios históricos. Voltaremos a este assunto, a diferença [spread (??!)] entes taxas de juros activas e passivas, ao calibrarmos o nosso modelo teórico.

A segunda forma de usura é a capacidade dos criadores privados de dinheiro, de manipularem a sua oferta para benefício próprio, criando uma abundância de crédito em tempos de expansão económica, logo de bons preços das mercadorias, seguida duma contracção do crédito, logo da oferta de dinheiro, em tempos de baixos preços das mercadorias. Um exemplo típico é o ciclo das colheitas, nas sociedades agrárias antigas, mas Zarlenga (2002), Del Mar (1895), bem como os exemplos citados nessas obras, contêm numerosos outros exemplos em que este mecanismo é detalhado. De forma repetida, conduziu à falência de devedores, apropriação de bens dados como garantia, e, em consequência, à concentração de riqueza nas mãos dos credores. Do ponto de vista macroeconómico, tem pouca importância que estes factos sejam o resultado de uma manipulação maliciosa, ou que sejam uma característica inerente dos sistemas [monetários] baseados na criação privada de dinheiro. Também regressaremos a este ponto, no nosso modelo teórico.

Uma discussão extensiva das crises geradas pela dívida excessiva, pode ser encontrada em Hudson e van der Mierop (2002). Foi esta experiência, adquirida ao longo de milénios, que levou à proibição da usura e/ou ao perdão periódico das dívidas, nos textos sagrados das religiões do Médio-Oriente. A mais antiga dessas crises, na História grega, deu origem às reformas de Sólon, em 599 AC, as quais foram uma resposta à crise severa dos pequenos agricultores, em resultado da emissão de moeda metálica com juros, por uma oligarquia rica. É extremamente esclarecedor compreender que, nestes tempos antigos, as reformas de Sólon já continham aquilo a que Henry Simons (1948), um dos principais proponentes do Plano de Chicago, se referiria como “sociedade financeiramente de bem”. Em primeiro lugar, ocorreu um cancelamento generalizado de dívidas, e a restituição de terras que tinham sido confiscadas pelos credores. Em segundo lugar, os produtos agrícolas foram monetizados, pela introdução de preços mínimos oficiais. Visto que a fonte dos meios de pagamento dos devedores agrícolas era o valor dos seus produtos, esta prática transformou a finança da dívida em finança de bens intangíveis. Em terceiro lugar, Sólon disponibilizou uma quantidade muito maior de moeda emitida pelo governo, logo, isenta de dívida, o que reduziu a necessidade de contrair dívida privada. As reformas de Sólon foram de tal forma bem sucedidas, que, 150 anos depois, a República Romana enviou uma delegação à Grécia para as estudar. Tornaram-se a a base para o sistema monetário da República a partir de 454 AC (Lex Aternia), até ao tempo das Guerras Púnicas (Peruzzi, 1985).

Foi também por esta altura que se estabeleceu uma ligação entre as ideias antigas a respeito da natureza do dinheiro e as suas interpretações mais modernas. Isto aconteceu através dos ensinamentos de Aristóteles, os quais tiveram uma influência profunda no pensamento ocidental. Em Ética, Aristóteles afirma claramente a natureza pública/institucional do dinheiro, e rejeita qualquer visão baseada na troca de mercadorias a granel, ao dizer que “ O dinheiro existe não pela Natureza, mas pela Lei”. Os Diálogos de Platão contêm conceitos similares (Jowett, 1939). Esta visão reflectia-se em muitos dos sistemas monetários dessa época, os quais, ao contrário do que afirma uma crença popular entre historiadores monetários, eram baseados em moeda fiduciária emitida pelo Estado e não em dinheiros baseados em mercadorias. Exemplos destes factos incluem o extremamente bem-sucedido sistema monetário de Esparta (circa 750-415 AC), introduzido por Lycurgus, o qual se baseava em discos de ferro, de valor intrínseco baixo, o sistema Ateniense de 390-350 AC, baseado em moedas de cobre e, mais importante ainda, o sistema Romano (circa 700-150 AC), o qual era baseado em placas de bronze e mais tarde em moedas do mesmo material, o qual tinha um valor metálico muito inferior ao seu valor facial.

Muitos historiadores (Del Mar 1895) atribuíram parcialmente o colapso da República Romana ao aparecimento de uma plutocracia que acumulou uma riqueza privada imensa, às custas dos cidadãos em geral. A sua ascenção foi facilitada pela introdução de moedas de prata, de emissão privada, e mais tarde também de moedas de outro, a preços que excediam largamente o seu valor como mercadoria, isto durante o período de emergência criado pelas Guerras Púnicas. Com o colapso de Roma, muito do conhecimento e experiência monetária perdeu-se, no Ocidente. Mas os ensinamentos de Aristóteles permaneceram importantes, pela sua influência nos pensadores escolásticos, em particular S. Tomás de Aquino (1225-1274). Esta é, em parte, a razão pela qual, até à Revolução Industrial, o controlo monetário, no Ocidente, permaneceu nas mãos do Governo, ou da Igreja, e permaneceu inseparável da soberania, em todas as sociedades envolvidas. Contudo, isto iria mudar, e as origens da mudança podem ser ligadas ao aparecimento da banca privada, após a queda de Bizâncio, [4ª Cruzada] em 1204, com governantes progressivamente mais dependentes de empréstimos privados, para financiarem guerras. Contudo, o controlo monetário fundamental, permaneceu em mãos soberanas durante mais alguns séculos. O Banco de Amesterdão (1609-1820) ainda era propriedade do Estado, e mantinha um total de 100% de reservas dos depósitos dos seus clientes. E o julgamento dos 'Dinheiros da Irlanda' (1601) confirmou o direito do soberano a emitir moeda metálica sem valor intrínseco, como promissória de valor, legalmente válida. Foi o decreto britânico da 'Livre Emissão de Moeda', de 1666, juntamente com a fundação do Banco de Inglaterra, de carácter privado, que estabeleceu o precedente do abandono por um soberano, do controlo monetário. Os séculos seguintes oferecem amplas perspectivas para a comparação dos resultados da emissão privada e pública de dinheiro.

Os resultados [desta mudança], para o Reino Unido, são particularmente claros. Shaw (1896) examinou os registo para os diferentes monarcas ingleses, e estabeleceu que, com uma excepção (Henrique VIII), o rei sempre usou a sua prerrogativa soberana de criação de moeda, para beneficio da nação, sem crises financeiras de nota. Por outro lado, Del Mar (1895) estabeleceu que o decreto da 'Livre Emissão de Moeda' gerou uma sucessão de pânicos comerciais e desastres financeiros, completamente desconhecidos até então, e que entre 1694 e 1890 [data da nacionalização do Banco de Inglaterra], nunca houve nenhum período de 25 anos sem uma crise financeira em Inglaterra.
"


Este último parágrafo deveria funcionar como um soco no meio da cara para todos aqueles que continuam a acreditar que o dinheiro existe no análogo a um vasto lençol subterrâneo de petróleo, e que os seus donos têm toda a legitimidade para o emprestarem — ou o negarem (!) — a seu bel-prazer. São ainda uma infeliz maioria, não menos maioritária do que aquela que, durante milénios, acreditou ser a Terra o centro do Universo. A grande diferença, é que as crenças geocêntricas raramente causavam vítimas; esta crença continua a ferir e a tolher a maioria de entre nós. Os gaspares deste Mundo, devem sentir aquele frenesim que Macbeth sentiu ao interiorizar a possibilidade de levar a cabo, impunemente, o assassinato do rei da Escócia. O que os gaspares esquecem, é a outra face da moeda, contida na previsão das três bruxas: "Nada te ameaçará, enquanto a floresta de Birnam não se erguer e marchar para o castelo de Dunsinane."

Os soldados do exército revoltoso cortaram ramos de pinheiro na floresta, para ocultarem o seu número e aterrorizarem os defensores da desordem vigente. A floresta ergueu-se. Vai voltar a erguer-se, quando o sofrimento das vítimas ultrapassar algum limiar insustentável. Não sei quanto tempo mais vai demorar, porque não sei onde está aquela linha do (in)suportável. Formulo apenas um voto: Desta vez, cravos, só no fim!

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publicado às 20:26

O inefável Diário da Avenida, naquela sua vocação de órgão oficioso de todos (diga-se em abono da verdade) os regimes, diz-nos hoje que o próximo Orçamento Comunitário representa um custo de aproximadamente uma bica por dia, para cada um dos mais de 300 milhões de cidadãos da Europa.

Isto é um exemplo daquilo a que os profissionais do marketing chamam técnicas de compensação, dividir para minimizar os impactos psicológicos negativos que o custo de qualquer coisa sempre produz. Acontece que, aquilo que os tais "profissionais" julgam que sabem, já a mim me esqueceu. Ora, se é aritmeticamente correcto fazer aquelas contas em bicas, também o podemos fazer a respeito, por exemplo, dos custos do serviço da dívida pública, previstos no próximo Orçamento do Estado. O resultado é aquele número absurdo do título: duzentos e sete mil e duzentos milhões de bicas. Seguindo o exemplo do inefável diário, da manhã, são 56,7684931507 bicas por dia, para cada português. Porra, que é muito café!


Hoje em dia, e da forma mais obscena possível, muitos portugueses estarão a abandonar a bica e a regressar às mais energéticas sopas de cavalo cansado, do Ti António das Botas. Mais se lhes seguirão, mas facto também, é que tudo o que podemos contabilizar em bicas, podemos fazê-lo apenas em café, tout court. Ora, diz-me o proverbial sô Jaquim, do café da esquina, que aquele rôr de bicas representam cerca de 1,450,435 toneladas de café, durante um ano. Ah! Nada de muito impressionante, só o Brasil produz muito mais do que isso. E no entanto...

No entanto, aquilo que podemos dizer a respeito do serviço da dívida pública portuguesa, podemos também dizer a respeito do conjunto dos países-mártires da Europa, os tais PIIGS. E para este conjunto de países, o serviço das suas dívidas públicas, no seu total, será, para 2013, cerca de 17.405.220 toneladas de café. De acordo com as previsões oficiais do governo dos Estados Unidos, o total da produção mundial, para 2013, será de apenas 8.880.000 toneladas. Menos de metade.

Ora bolas, mas onde é que isto nos leva? A verdade é que já bebi quase meio-litro de café e ainda não cheguei a lado nenhum. A verdade é que, para mim, com o meu percurso pessoal, seria mais natural fazer as contas em barris de petróleo. Não o fiz e por um motivo simples: estaria a pisar uma linha invisível — que os tais "profissionais" não sabem que existe — mas essencial: estaria a fazer o equivalente a passar moeda falsa. E por um motivo simples.

Eis-nos aqui, neste grão de poeira, a que chamamos Terra. No sentido mais essencial, é apenas um motor, accionado à distância pela grande máquina cósmica que é o Sol. E no preciso momento em que escrevo estas linhas, accionado pela nossa estrela, o planeta está a produzir petróleo, e gás natural, e carvão. Acontece apenas que o faz a um ritmo tão lento, que a única forma razoável de encarar algo como os hidrocarbonetos fósseis, é olhá-los como recursos únicos e insubstituíveis. Quando descrevemos os custos do monstro da dívida em toneladas de café, ou de qualquer outro recurso renovável, estamos a comparar os resultados dessa monstruosidade com parte do que a nossa Mãe Comum nos dá, a cada ano. E no ano seguinte, e nos que se seguirem, pelos menos enquanto tivermos algum juízo. Quando consumimos hidrocarbonetos fósseis, estamos, literalmente, a ir ao baú que a Terra encheu, durante muitos milhões de anos.

Acontece que "ir ao baú", é precisamente o que muitos europeus do Sul estão a fazer neste momento. Por isso, e depois de termos colocado o assunto na sua perspectiva correcta, vamos traçar um quadro absurdo: vamos dizer que os Países da União Europeia, no seu conjunto, se apossavam do total de reservas firmes dos 17 maiores produtores mundiais de petróleo, e o vendiam a 100 euros o barril (não faltará muito para lá chegar), apenas para pagar o total do conjunto dos seus serviços da dívida. Quanto tempo é que o baú aguentaria? De acordo com os dados do Eurostat, a resposta é simples: 28,4569992036 anos; o baú chegaria ao fundo antes de 2041. (1)

Nunca é fácil lidar com a loucura. Devo dizer que o gaspar que nos tocou em sorte, me parece essencialmente muito estúpido. É um Verdadeiro Crente, um zelota, e há-de ir para a cama, todas as noites firmemente convicto que está a fazer tudo para nos ajudar a remirmos as nossas culpas, indignos pecadores que somos. Se ele vivesse em Marte, mais não conseguiria do que arrancar-me uma gargalhada ocasional. Mas ele está a destruir este País que é o meu; ele e a sua pandilha estão a destruir este Continente, que também é meu. E por isso, ele está, estão todos, a atingir o ponto em que tudo o que os impeça de continuarem será justificado. Os Povos da Europa vão-se erguer; sempre o fizeram e esta vez não será excepção. Acontece apenas que, quanto mais tempo demorarem, mais difícil será o recomeço, para os nossos filhos.




(1) Estes últimos números estão redondamente errados! Tratei-os como se fossem estáticos, quando aquilo que define a dívida, num quadro de reservas fraccionárias, é exactamente a sua natureza exponencial. O número aritmeticamente correcto será provavelmente inferior a metade, talvez inferior a dez anos. Acontece que eu também tenho os meus limites, e para além dum certo ponto, já não tolero a loucura. Chega!

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publicado às 22:44

Se há imagens que valem por mil palavras, esta que se segue, deveria ter um efeito semelhante ao de um estalo na cara. O gasparídeo que temos prepara-se para gastar, durante o ano de 2013, 70 euros e 48 cêntimos em cada 100, no serviço da dívida pública. Os dados são cortesia do Jornal de Negócios, mas não acho, na minha humilde opinião, que coloquem o facto na sua perspectiva real.

Por isso, usei aqueles dados para fazer o graficozinho que se segue. É impressionante como perante aquela montanha de mais de 120 biliões — e é assim que a Grand Larousse indica que devem ser designadas quantidades de 10 levantado a 9, no âmbito da Notação Latina Clássica — até os poucos biliões da Segurança Social e da Educação, fazem figura de amendoins, na sombra duma sequóia.

Perante factos como estes, a reacção humana razoável, consiste em tentar perceber como chegámos a este ponto. No entanto, existe a tentação muito humana de apontar o dedo ao alvo mais fácil de apontar, exactamente como, perante um motor de combustão interna que gripou, existe a tentação de apontar o dedo ao condutor que não terá verificado o nível de óleo no cárter. Será que o fez? A discussão pode tornar-se longa e, sobretudo, bizantina. Muito mais importante é perceber porque é que os motores precisam de lubrificantes e como é que a resposta a essa necessidade evoluiu ao longo do tempo.



"O historiador Alexander Del Mar (1895) escreveu: “Por via de regra, os economistas políticos não se dão ao trabalho de estudar a História do Dinheiro; é muito mais fácil imaginá-lo e deduzir os seus princípios a partir deste conhecimento imaginário.” Del Mar escreveu [esta frase] há mais de um século, mas a afirmação ainda se aplica hoje em dia. Um exemplo excelente deste facto é a explicação dos compêndios económicos, de acordo com os quais, o dinheiro apareceu em transacções privadas, para responder às necessidades convergentes da procura e da troca de bens.

Tal como é mostrado em Graeber (2011), com base em evidência de carácter antropológico e histórico, não existe sombra de provas que suportem esta narrativa. A permuta de bens era virtualmente inexistente nas sociedades primitivas, e, pelo contrário, as primeiras transacções comerciais tiveram lugar no âmbito de sistemas de crédito elaborados; e os muito posteriores sistemas monetários, tiveram origem nas necessidades do estado (Redgeway 1892), de instituições religiosas (Einzig 1966), (Laum 1924), ou de cerimoniais sociais (Quiggin 1949), e não na necessidade criada por relações de troca comercial privadas.

Qualquer debate a respeito das origens do dinheiro, transcende o domínio do interesse académico, porque conduz directamente a uma discussão a respeito da natureza do dinheiro, a qual, por sua vez, tem uma importância crítica na discussão a respeito de quem deve controlar a emissão de dinheiro. Em particular, a narrativa da origem do dinheiro nas transacções entre particulares, iniciada, no mínimo com Adam Smith (1776), tem sido usada como argumento a favor da emissão e controlo privados da emissão de dinheiro. Até há poucos anos, esta tinha assumido a forma de cunhagem privada de moedas a partir de lingotes metálicos. Embora possa existir, por vezes, envolvimento intenso do estado nestas operações, o facto é que, na prática, os metais preciosos sempre se acumularam na posse de privados, os quais os emprestavam a troco de juros.

Desde o século XIII, este sistema baseado em metais preciosos, foi acompanhado na Europa, e depois suplantado, pela emissão de dinheiro bancário privado, mais adequadamente designado por crédito. Por outro lado, a narrativa histórica e antropologicamente correcta a respeito das origens institucionais do dinheiro, é um dos argumentos a favor do monopólio do Estado de Direito sobre a emissão de dinheiro. Na prática, este estado de coisas assumiu a forma, no passado, de emissão de notas e moedas isentas de juros, embora possa também assumir a forma de depósitos electrónicos.

Existe um outro assunto que tende a gerar confusão, normalmente sob a forma da discussão entre “dinheiro real”, isto é, garantido por metais preciosos, e o dinheiro fiduciário. Tal como documentado em Zarlenga (2002), este debate é essencialmente uma digressão, pois mesmo durante períodos históricos baseados em metais preciosos, a principal razão para o alto valor desses metais resultava do seu papel como dinheiro, resultante da ordem legal vigente, e não das qualidades intrínsecas desses metais. Este assunto é particularmente confuso em Adam Smith (obra citada), que assume uma perspectiva primitiva do dinheiro como mercadoria a granel, apesar do facto de, no seu tempo, o então privado Banco de Inglaterra ter já há muito iniciado a produção de dinheiro fiduciário, cujo valor não tinha qualquer relação com os custos de produção dos metais preciosos. Mais importante ainda, como Adam Smith decerto sabia, tanto o Banco de Inglaterra como outros Bancos privados, criavam contas de depósito para clientes de operações de crédito, que não tinham efectuado qualquer depósito em moedas (ou sequer em notas emitidas por esses bancos).

O debate histórico a respeito da natureza e controlo do dinheiro, é o assunto de Zarlenga (2002), trabalho magistral que traça o debate até à Mesopotâmia antiga, à Grécia e a Roma. Tal como Graeber (2011), ele mostra como a emissão privada de dinheiro levou repetidamente a problemas sociais de grande monta, através da História registada, devido à usura associada a dívidas privadas. Zarlenga não adopta a perspectiva comum de usura como a prática de “juros excessivos”, mas sim como a forma de “tomar algo em troca de nada”, pelo mau uso deliberado do sistema monetário, para gerar ganhos privados."


Este texto é traduzido de O Plano de Chicago Revisitado. Decidi interromper a tradução neste ponto, por motivos de tempo e espaço, mas também porque a secção que se segue é provavelmente a que tem uma importância mais crítica, no que à narrativa (ainda) dominante diz respeito. A vasta maioria das pessoas continua, obstinadamente, a verificar aquela rejeição da evidência de que John Kenneth Galbraith falou. Voltarei ao assunto em breve. Entretanto, espero que, em sentido figurado, todos nós possamos regressar a Chicago.



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publicado às 00:03

Apenas os pequenos segredos precisam de ser ocultados. Os grandes, esses, ficam mais protegidos à vista de todos, tornados invisíveis pela incredulidade geral.

– Marshall McLuhan


A vasta maioria dos leitores recordará, vagamente, a primeira das duas Bertas. A versão oficial, diz-nos que aqueles grandes canhões alemães, da 1ª Guerra Mundial, receberam esse nome em honra da matriarca da família Krupp, Bertha Krupp von Böhlen und Albach. No fim de contas, eram o epítome da industria pesada alemã, e a empresa Krupp era o epítome dessa indústria.

Não devemos nunca, contudo, eliminar o génio humano em qualquer equação que envolva a espécie. Em O Meu Século, Günther Grass conta-nos uma história diferente e em pouco menos de duas páginas de puro génio, conta-nos a História de setenta e cinco anos da Alemanha, até aqueles anos fatídicos de 1914-1918. A Dicke Bertha de Grass era, afinal, a Berta Gorda, mulher dum operário da Fundição Krupp. Não era por mal, todos gostavam da Berta, amiga dos seus amigos, sempre pronta a ajudar. ...Que não se vivia nada mal, lá no bairro operário...". Por vezes, a fuligem da chaminé estragava a roupa, estendida a secar, mas era também nessas ocasiões que a Berta Gorda melhor revelava o seu carácter amistoso.

Então um dia, a Fundição recebeu a encomenda do tubo de aço vazado mais avantajado que já havia sido produzido, e maquinado com um grau de precisão que não deixava dúvidas quanto ao seu propósito. Perante as suas proporções, os operários da Fundição lembraram-se da Berta, assim, anafada; estava criada a alcunha e não era por mal, era por amizade. Era trabalho e assegurava o comer nas mesas, lá no bairro operário.

Depois..., bem, depois, o Ludendorff foi buscar o homem da Berta Gorda, mas quem quiser saber o resto que leia o livro. Günther Grass conta-nos magistralmente, como a coesão social, engendrada pelo Estado Social de Bismarck, produziu as massas disciplinadas que se precipitaram sobre as trincheiras de Verdun.

Ora, vem isto a propósito do mais recente episódio da nossa tragi-comédia colectiva: A Refundação. A vasta maioria dos comentadores interroga-se a respeito da semântica implícita. Foi nestas páginas que a verdade foi desvendada: Passos Coelho sofre de palato bífido; é assim a modos como um anti-texano: é virtualmente incapaz de produzir sons nasalados. O que ele quer mesmo é refoder.

Este é o momento em que as máscaras caiem. A nossa troika caseira atingiu aquele ponto de liberdade extrema em que já não há nada a perder. Exactamente como diria o(a) Bobby McGee. Esquecem-se que os portugueses estão a atingir rapidamente o mesmo ponto de liberdade: as nossas próprias "Bertas Gordas" estão a ficar mais esquálidas, de dia para dia. Algumas ainda acham que andaram a viver acima das suas posses, durante anos. São cada vez menos. Estão cada vez menos coesas.

Existe no entanto um aspecto, em que as nossas Bertas-cada-vez-mais-magras continuam manobráveis e esse tem a ver com aquele efeito de que McLuhan nos falou: como pessoas intrinsecamente sérias que são, continuam a acreditar na sacralidade das dívidas; como pessoas intrinsecamente de bom-senso, continuam a acreditar que a dívida foi criada porque os credores nos emprestaram uma parte do que tinham em caixa, em vez de ter sido criada, literalmente, ex nihilo, literalmente a partir do nada. Como pessoas ingénuas que são, continuam muito preocupadas com os 60 cêntimos que saem dos seus impostos, para pagar a actividade parlamentar que temos — incompleta, limitada, de intensidade mínima, democrática — e ainda não conseguem preocupar-se com os milhares de milhões do serviço da dívida.

Será que alguma vez serão capazes de ver para além daquele muro invisível que colocaram ante os seus olhos? Acho que a História é ambígua a este respeito. Talvez sejam capazes de reagir como Islandeses; o mais provável é que um qualquer "...comam brioches..." mais destrambelhado, leve as nossas Bertas à violência extrema. Esse será o dia em que já não vale a pena perguntar o que há de especial na proverbial palha que quebra as costas do camelo. Não hã nada de especial, é apenas uma em demasia.


Freedom's just another word for nothing left to lose,
Nothing don't mean nothing honey if it ain't free.
And feeling good was easy, Lord, when Bobby sang the blues,
You know feeling good was good enough for me,
Good enough for me and my Bobby McGee

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publicado às 20:17

Mitt Romney — Já olhou para o seu Fundo de Reforma?
Barack Obama — Não olho para o meu Fundo [de Reforma]. Não é tão grande como o seu.


A política americana tem destas coisas. Aquela troca de palavras entre os dois candidatos, durante o segundo debate presidencial, pode vir a revelar-se como o momento definidor, que estabelece quem será o próximo Presidente. Num sentido que, receio, poucos eleitores americanos sejam capazes de apreciar, este é talvez o momento mais definidor que algum político foi capaz de protagonizar, durante o novo século.

Se alguém tiver dúvidas a respeito da qualidade do pensamento contemporâneo português, que consulte, por exemplo, o debate a respeito duma eventual saída do euro, aqui e aqui (o segundo link está disponível também no primeiro texto). Mais do que os argumentos presentes no debate, foi uma única frase que me marcou. Esta:
No capitalismo contemporâneo, o dinheiro serve fundamentalmente como veículo de informações económicas e o crédito serve para relacionar a produção actual com a produção futura, o que nada tem a ver com especulação ou com economia de casino. Quem raciocinar nesses parâmetros fá-lo à sua custa, e o erro de análise é pago com a incompreensão dos mecanismos económicos.

No âmbito estrito do debate, esta afirmação poderia ser usada contra as conclusões dos que a produzem. Não é essa a minha intenção, pois pretendo, sobretudo, colocá-la no contexto da troca de mimos que citei inicialmente.

Hoje em dia, o demónio de Maxwell é entendido como sendo, essencialmente, uma construção da Teoria da Informação. Que as mesmas ideias tenham demorado tanto tempo a fazer o caminho entre a Física e a Economia, revela apenas o atraso do pensamento económico, assunto que só mesmo os Gaspares deste Mundo conseguem fingir que não existe. Não pretendo intervir naquele debate, repito, mas os autores daquela afirmação lapidar não parecem ser capazes de a integrar com o facto de "o capitalismo" ser uma expressão inócua: existem múltiplos capitalismos, a maior parte com génese nas diferenças entre diferentes países, outras, com génese no facto de nem todos esses múltiplos capitalismos terem os mesmos interesses.

Se tivesse nascido na Alemanha, ou trabalhado em Frankfurt o tempo suficiente para isso, o senhor Bagão Felix sobrescreveria provavelmente este estudo terrífico; assim, fala apenas em "napalm fiscal". O mesmo poderia ser dito do senhor Barack Obama. Se as vítimas do actual assalto austeritário não forem capazes de fazer estas distinções, estarão a auto-condenar-se a um (ainda) maior nível de violência: existem duas economias, uma é real, a outra é financeira; só os habitantes da segunda é que se preocupam muitos com os respectivos Fundos de Reforma. Os outros, produzem, e confiam nos contratos sociais.

Só os habitantes do Planeta Finança é que têm pesadelos a respeito da inflação; os outros sabem que é apenas mais um custo de produção. A consequência imediata para todos nós, que não habitamos no tal planeta, é que estamos a ser alvos duma agressão. Violenta e suja. Muito suja. As mais-valias financeiras realizadas nos últimos meses pelo estado alemão, são tão sujas como o ouro nazi que pagou o volfrâmio português.

O avô do Hans disse-lhe que não conhecia pessoalmente nenhuma das vítimas de Auschwitz. É falso! Nem que o grave ancião e os seus contemporâneos totalizassem 500 milhões de almas, estatisticamente, todos teriam conhecido pelo menos um dos seus concidadãos a quem foram arrancados os anéis, as alianças, até as próteses dentárias, para serem fundidos e contrastados pelo ReichBank, antes de acabarem no alforge do António das Botas. O Hans diz hoje que não conhece nenhum dos idosos que, na Grécia, em Portugal, na Espanha recebem uma sentença de morte, estatisticamente incontornável, cada vez que um serviço social é austerizado, para que investidores institucionais paguem ao herdeiro do ReichBank o privilégio de deter títulos de dívida pública imunes à inflação.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


Dylan Thomas — Do not go gentle into that good night

Uma das maravilhas da condição humana, é que houve sempre um génio que disse as palavras certas, prontas a servir como arma, quando a necessidade o exige. O Hans tem que saber que não nos deixaremos ir num suave entardecer. O Hans tem que saber que nos estamos nas tintas para o facto deles serem muitos, e nós sermos poucos. O Hans tem que saber que, no final do dia, aqueles que lutam pela sua própria vida e pelo futuro dos seus serão sempre incomensuravelmente mais do que todos os assassinos juntos.

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publicado às 22:32

Com um brilhozinho nos olhos
Dissemos, sei lá
Tudo o que nos passou p'la tola


Sérgio Godinho — Com um brilhozinho nos olhos

Foi com o brilhozinho nos olhos, do Sérgio, que encarei as alternativas em congresso. E o caso não é para menos: se dúvidas houvesse, este evento chegaria para demonstrar que este Povo tem mais, muito mais, do que a massa crítica necessária para superar uma das maiores crises da sua História.

Soube-me a pouco, e estou certo que não foi só a mim. Não adianta falar em "esquerdas", enquanto não existir uma alternativa política, capaz de se apresentar como viável, para aquela vasta maioria que encheu as ruas e as praças, no passado mês de Setembro. A cópula do PS não é capaz de dizer "...o rei [da austeridade] vai nú"; veja-se a distinção semântica de Ana Gomes entre renegociar e denunciar. A cópula do PS não consegue afastar as suas próprias aspirações (perfeitamente legitimas) aos altos cargos do funcionalismo europeu, do caminho da regeneração do País.

Em vez duma, podiam existir várias. Para já e por mais esforçadas que se revelem, o resultado final está no título.

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publicado às 21:58

Em qualquer transformação, ocorre sempre um ponto em que nada parece acontecer e em que tudo muda. Os anglo-saxónicos chamam-lhe "tipping point". A minha tradução fica aquém do sentido original, e por isso fui à procura duma imagem que encerrasse as 998 palavras que me faltam. Estamos, em Portugal e na Europa, a atingir aquele ponto. Estou certo que o emulo de Sísifo que, na imagem, empurra a pedra pela encosta acima, não o consegue antever. Albert Camus adiantou-se à resposta por uns meros dois anos. Não temos hoje qualquer desculpa para a ignorar e para eleger a revolta como única resposta ao absurdo aparente da condição humana: o ponto de viragem (de inflexão, de min-max, de max-min, etc., etc.) é o ponto em que tudo de essencial se define. Há quem pense que este foi o livro mais importante do século XX; há quem pense que chegámos ao dia de hoje porque os líderes das duas super-potências foram educados nas suas conclusões. O que ainda ninguém nos ensinou, foi como lidar com o impulso suicidário das elites de baixa qualidade que, por acidente histórico, estejam no poder quando aqueles pontos se aproximam. Isto apenas faz com que a responsabilidade recaia sobre nós todos, os soberanos. O Povo.

As declarações do Borges que temos, são apenas o episódio mais recente dum facto impensável ainda pelos finais de Agosto: está criado uma unanimidade quase total contra o actual governo. Não nos iludamos, muitos querem apenas que algo mude para que tudo fique na mesma. Entre os adeptos do "refrescar a coligação" e o "[...]gerar riqueza, para pagar dívidas[...]" (sic), do TóZé Seguro, a única diferença são as caras dos protagonistas. Para os restantes, a vasta maioria, este é o ponto de viragem, que define se algo de essencial muda ou se tudo permanece como está. O tempo do NÃO! está rapidamente a esgotar-se, e pelo seu próprio sucesso. A superação faz-se sempre pela afirmativa. Ou então não se faz. De forma claramente Bórgica, mesmo que indubitavelmente mais polida, Bernard-Henri Lévy fez o diagnóstico certeiro da situação. O mais importante — prova provada de que os mestres do pensamento servem sempre para alguma coisa — é que Bernard-Henri Lévy traçou o próprio quadro para a superação dialéctica do dilema que enuncia.



O filósofo francês estabelece a federalização da dívida dos Estados-membros como algo semelhante à Ilha dos Amores, de Camões. A recompensa pelos trabalhos e perigos atravessados; tem razão. Está redondamente enganado. No âmbito da sua própria narrativa, é apenas um Borges letrado. Nunca os Povos da Europa irão aceitar a sua narrativa, sua, da sra. Merkel, de todos os neo-liberais austeritários que o Inferno pariu, ou há-de parir. Continua a ter razão: ou a Europa é capaz de federalizar as dívidas públicas dos seus Estados-membros, ou não tem futuro. Não poderia estar mais errado: esta é uma condição de partida, nunca um ponto de chegada, num futuro mais ou menos vago.

Aquilo que o sr. Lévy não é capaz de fazer, pelo menos não mais do que o nosso inefável e (in)Seguro TóZé, é reconhecer — e dizê-lo — que é impossível pagar a dívida; nem mais nem menos do que satisfazer o pedido do Grão-Vizir. Toda a dívida, num quadro de reservas fraccionárias e de criação monetária pelo crédito, é impossível de ser paga: cresce sempre, exponencialmente. Até a alemã; especialmente a alemã, com os enormes Core Tier I ratios dos seus bancos (barbarismo infame que designa o número de vezes que o montante total dos depósitos dos seus clientes é multiplicado, para atingir o total de créditos concedidos, e sobre o qual são cobrados juros).

O ponto de viragem será atingido quando um Povo da Europa conseguir a coragem ingénua da criança que foi capaz de exclamar "Mamã, o Rei vai nú...", enquanto os (i)(r)responsáveis adultos gabavam as plumagens do manto que não existia. Vejamos as consequências.

Um montante muito apreciável da dívida pública total, dos países da Europa, é detida por credores institucionais. Em boa medida, por outros Estados-membros; Portugal detém parte da dívida grega, como até os gregos detêm parte da dívida irlandesa. É por tudo isto que é incontornável declarar uma moratória a todo o serviço da dívida; e por maioria de razão, essa moratória irá funcionar para o sr. Bernard-Henri Lévi e para todos os loucos suicidários deste continente como na velha maldição chinesa "Que todas as tuas preces sejam atendidas": a dívida pública europeia vai ser federalizada, duma forma ou doutra.

Depois, é preciso que estejamos preparados para lidar com aquele impulso auto-destrutivo para o qual Jared Diamond nos avisou; para a repetição das chantagens execráveis a que os gregos foram sujeitos no início do Verão, e ainda mais. Nunca gostei muito do escudo, mas se tiver que ser, que se dane. Não faço ideia que nome é que os catalães vão dar à sua nova moeda.

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publicado às 19:25

N.B. — Esta parte é, em boa medida, baseada em Teoria Relativista do Dinheiro. O autor publicou-o, de forma inédita, com base na licença GPL (Gnu Public License Agreement). De acordo com esses termos, qualquer um o pode modificar, traduzir, fazer o que muito bem entende, desde que dê o crédito devido ao original. Apetece-me ironizar, dizendo que Stéphane Laborde sentiu que precisava de auxílio para tornar o assunto compreensível pelo comum dos mortais.


Se dermos 100 euros ao proverbial Bill Gates e outros 100 euros a um proverbial sem-abrigo, criámos uma situação de simetria. Dum ponto de vista social — o mais importante — existe uma assimetria abismal entre aquelas duas condições. Contudo, dum ponto de vista monetário, ambos os montantes representam exactamente a mesma quantidade de bens e serviços, disponíveis numa qualquer sociedade. O dinheiro em si, não tem qualquer valor. É apenas uma promissória válida para os tangíveis e intangíveis que as sociedades produzem. E o dinheiro, todo o sistema monetário no seu conjunto, é suposto ser neutro e é suposto ser simétrico. Não é.

Mesmo para o proverbial Bill Gates, aqueles 100 euros representam 100 menos a taxa de juro associada à dívida que os criaram; para o banqueiro que os criou, representam 100 mais a taxa de juro que ele impôs. O actual sistema monetário foi criado pela Conferência da Jamaica, de 1973, convocada para responder ao "Grande Estrangulamento" imposto no início dessa década por Richard Nixon. Foi o fim do Sistema de Bretton Woods, que, para o bem e para o mal, orientou a notável recuperação do Mundo pós-guerra.



Muito raramente terá a expressão "O canto das sereias" sido tão adequada. Arquitectado por banqueiros, o "Sistema da Jamaica" pretende evitar os incómodos da Democracia, não se pode confiar nos eleitos para conduzirem o processo de criação monetária. Mais do que isso, tal poder tem que lhes ser retirado. Vamos a factos: a França foi um dos primeiros países a transporem o novo estado de coisas para a sua ordem jurídica interna, pela lei Pompidou, de 1973. Estamos a falar dum país muito razoavelmente bem administrado; o total de juros pagos pela República Francesa, desde então até ao presente, é de cerca de 1.5 TeraEuros (triliões, pela "notação latina clássica); o total da dívida pública francesa é de cerca de 1.6 TeraEuros. Será que neste ponto, alguém em seu perfeito juízo ainda tem dificuldades em responder à pergunta "Qual é a origem da dívida pública?". Não creio. E, no entanto, há algo de essencial que não é óbvio.

A economia real é substitutiva. O seu valor total pode aumentar, espera-se que aumente, mas um qualquer bem (ou serviço!) criado, não vai ser adicionado ao total existente. Olhem à vossa volta! Uma nova tonelada de aço produzido, não vai ser adicionada ao total existente. Pelo contrário, terá, em boa medida, sido fabricada a partir de aço previamente existente. E o mesmo pode ser dito dos serviços. O sistema monetário é aditivo. Há quem pense que a incompreensão do mecanismo subjacente seja uma das piores fraquezas do espírito humano. Uma velha história, muito provavelmente apócrifa, ilustra o problema.
Em tempos idos, havia um Imperador da Pérsia que se aborrecia mortalmente. Tudo tinha, e como tudo tinha, já nada desejava. O Grão-Vizir, preocupado com o estado de espírito do soberano, presenteou-o com um novo jogo: um tabuleiro, com 32 casas brancas e 32 casas negras, e 32 peças, metade de cada cor. Tinha sido inventado o xadrez.

O Imperador ficou maravilhado com o novo jogo e disse ao Grão-Vizir "Pede o que quiseres, tudo te será dado". O Grão-Vizir respondeu: "Majestade, eu quero apenas um grão de trigo pelo primeiro quadrado do tabuleiro, depois o dobro pelo segundo quadrado, e assim sucessivamente, até o último". O Imperador riu-se como os seus botões "Pobre tolo! Poderia ter pedido todas as riquezas da Pérsia e todas lhe teriam sido dadas, e contenta-se com uns quantos grãos de trigo". Foi com grande risco pessoal que outros funcionários da corte tiveram que informar o Imperador que o pedido do Grão-Vizir não podia ser atendido. Não havia grãos de trigo que chegassem. Na realidade, não há partículas elementares no Universo suficientes para atingir aquele total.

O Grão-Vizir pagou com a vida por ter colocado o Imperador na posição de ter feito uma promessa que não podia ser cumprida. É sempre um risco enorme tentar ensinar Soberanos incapazes de aprender.


O sistema monetário é aditivo e produz um crescimento exponencial insustentável. Como toda a criação monetária é o produto duma dívida qualquer, o proverbial "poder do dinheiro" deixou de designar a posse da terra, das fábricas, dos meios de produção, em suma, para passar a designar o poder de criar massa monetária e impor as dívidas daí resultantes. O monopólio da violência, pretendido como atributo do Estado-Soberano, deixou de ter como função primordial a protecção da propriedade privada, para passar a impor a sacralidade da dívida e a repressão dos que se lhe opõem.

Somos continuamente bombardeados com a narrativa da inevitabilidade, com a imperiosa necessidade de "respeitar os compromissos", para que ninguém se atreva sequer a murmurar "Islândia". Para que não se saiba que os mesmos que nos ameaçam, batem hoje respeitosamente à porta daqueles orgulhos Vikings, boné na mão, para que eles se dignem a ponderar usar os seus serviços. Não é só o sistema monetário que tem uma natureza aditiva, a mentira também. A revolução deixou de ser uma bandeira, tornou-se inevitável.

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publicado às 00:46


As duas Pitonisas

por Licínio Nunes, em 03.09.12
As noticias, hoje, parecem transportar-nos ao passado. Parece que a troika quer que os gregos trabalhem seis dias por semana, e não só. Continuam sem perceber que os seus indicadores predilectos, indicam exactamente o oposto do que eles pensam; continuam a teimar.

Continuam a bater com a cabeça na parede, como se a parede se fosse comover com o absurdo dos seus actos. Teimam.

Sei bem que, perante estes factos, a vasta maioria das pessoas irá pensar que estamos perante uma separação essencial dos seres humanos entre os que tudo têm e os que para o nada caminham. E no entanto, isso não explica o essencial. Porque é que eles teimam? Foi neste ponto que uma história muito antiga me veio à ideia.
No início da Guerra do Peloponeso, os espartanos estavam convencidos que a sua cultura marcial facilmente lhes traria a vitória sobre os fracos atenienses. Contudo, e perante a série de derrotas iniciais, tiveram que reconsiderar a sua análise simplista. Descobriram que o comandante ateniense, Alcibiades, nunca iniciava uma campanha, sem antes se deslocar a Delfos. Ora, por essa altura, existiam duas pitonisas no Oráculo de Apolo: Cassandra era conhecida pela correcção das suas previsões; Moseilima falhava sempre.

Embora aterrados com a profanação que iam cometer, os líderes de Esparta não hesitaram e organizaram o rapto de Cassandra, pensando ter assim despojado o seu inimigo da sua arma mais poderosa. Nada conseguiram. Alcibiades continuou a dirigir-se ao Oráculo de Delfos antes de tomar qualquer decisão estratégica. A única diferença, é que passou a fazer exactamente o contrário do que Moseilima lhe dizia para fazer.

Os austeritários acreditam nos seus oráculos. E não são nenhuns Alcibiades. Claro que os seus interesses pessoais contam, mas o facto simples — o qual a maioria dos seres humanos, racionais por definição, tem dificuldade em aceitar — é que eles são estúpidos. Muito estúpidos; terminalmente estúpidos.



Em face desta estupidez, e perante a impossibilidade de nos livrarmos da pitonisa louca, não vale a pena perguntar o que aconteceu ao sonho. Temos que nos livrar dos que a adoram.

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publicado às 23:26


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