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 foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, “O Medo”
Tema(s): Amor  Ler outros poemas de Alberto Raposo Pidwell Tavares 

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publicado às 08:00

Al Berto

 

  traços de répteis incandescentes pelas dunas, hastes quebradas, excrementos geométricos sinalizando com rigor apertados caminhos
        areias de cor indecisa
        são bons estes lugares de cinza, para a solidão insuspeita dos pássaros

 

        da boca das areias desmoronando-se irrompem
        bichos, adocicados corpos, um rosto de fogo encima o leite vagaroso das nuvens
        depois, ouvem-se os nomes dos barcos
        e do vento uma voz explode, fende, desfaz a tempestade
        teu corpo acalma por cima do misterioso espelho

 

        mão na mão, percorremos todas as águas
        conhecemos os domínios dos monstros marinhos
        e a loucura dos peixes cegos, que deu nome ao nosso amor e às cidades
costeiras
        outras feridas alastram subitamente no fulcro da memória
        outras coisas atravessam-me
        semeiam pelo corpo flores e pânico
        falo com os barcos postos-a-seco, das salivas marinhas cresce uma quilha enfurecida
        a escrita é um marulhar incesante
        imito a paisagem como se te imitasse, ou te escrevesse
        teu corpo dilui-se nos ossos da página, contamina as cartilagens das sílabas
        resta-me o fingimento sibilante das palavras
        caminho pelo interior das dunas, apago o rasto de tinta acetinada, sou terra num texto onde não encontro água
        só noite e um rumor imperceptível no coração
        mais nada

  


 in «Trabalhos do Olhar», 1976/82: dispersos de Milfontes, 1978/79

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dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

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Poesia ao nascer do dia - Al Berto - Vestígios

por Luis Moreira, em 15.03.12
 
 

 

noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras

hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se

onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir

apesar de tudo

continuamos e repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial

Al-Berto
Horto de Incêndio
 

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há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


  compiladas por  Luis Rodrigues 

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Poesia ao nascer do dia - Al Berto

por Luis Moreira, em 25.01.12

Euforia

 
cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração
dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca
o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina
a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões
quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al-Berto
Horto de Incêndio
 

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Poesia ao nascer do dia - Al Berto

por Luis Moreira, em 19.12.11
A Invisibilidade de Deus
 
dizem que em sua boca se realiza a flor

outros afirmam:
                      a sua invisibilidade é aparente

mas nunca toquei deus nesta escama de peixe

onde podemos compreender todos os oceanos

nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo

é que por vezes morremos magros até ao osso

sem amparo e sem deus

apenas um rosto muito belo surge etéreo

na vasta insónia que nos isolou do mundo

e sorri

dizendo que nos amou algumas vezes

mas não é o rosto de deus

nem o teu nem aquele outro

que durante anos permaneceu ausente

e o tempo revelou não ser o meu



Al-Berto

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Poesia ao nascer do dia - Al Berto

por Luis Moreira, em 24.10.11

 

A Invisibilidade de Deus

 
dizem que em sua boca se realiza a flor

outros afirmam:

                      a sua invisibilidade é aparente

mas nunca toquei deus nesta escama de peixe

onde podemos compreender todos os oceanos

nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo

é que por vezes morremos magros até ao osso

sem amparo e sem deus

apenas um rosto muito belo surge etéreo

na vasta insónia que nos isolou do mundo

e sorri

dizendo que nos amou algumas vezes

mas não é o rosto de deus

nem o teu nem aquele outro

que durante anos permaneceu ausente

e o tempo revelou não ser o meu

Al-Berto
O Medo

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