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O Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos

por autor convidado, em 26.08.11

Depois de trocar uns comentários sobre gaivotas e melros no meio do fastio que me começa a dar fazer controlos sobre a gestão dos outros, armado em espécie de bufo de custos operacionais. Chegou a hora de almoço

Na sala continuava a dormitar no sofá (hoje é um dia mau) e percebi que não dava para ir ao Tapas onde ontem num dia que pareceu normal. Comeu um robalo inteiro

Consegui enviar o controlo que me faltava, embora sempre com a ralação da internet sem fios a andar devagar no escritório, no local, preciso, onde devia andar mais rápido. E fui ver

Ontem à noite entusiasmou-se com a pressa de recuperar peso (se vier a recuperar, o que não sei, não) e o chouriço do caldo verde foi pesado para um corpo aleijado e que não ajuda. Nada

Fui tratar do bife, que já estava a adivinhar, porque ficou de reserva, e coisa rápida, grelhado, como eu gosto e só com sal. E fez-se uma canja, e por aí ficou, ela, e voltou. Ao sofá

E eu, na cozinha, acendi a luz para ver na escuridão de um dia que, embora um pouco cinzento, está cheio de luz, aqui junto à janela de onde olho para os arrozais do Mondego. Fui fazer um descafeinado, que isto passa (e vai passar, tem que ser)

(Sendo, entretanto, distraído por um sms no telemóvel, que estava esquecido do lado de lá da casa na sala da frente, estou na cozinha que fica atrás, e me dão a notícia de que o Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos) mas eu não lhes perguntei nada

(Acho mesmo que um dia vou responder ao desafio de escrever um livro, que só eu leia, e que um amigo meu vai editar, e que ele também vai ler porque é um tipo simpático). Hoje é um dia mau, sem saber se vou continuar a ler, ou a escrever, porque a trabalhar, chega. Por hoje

(A canja fez-me bem). Veio ter comigo, e disse-me. Talvez o dia ainda venha a valer a pena, penso para comigo, só. Levantou-se

João José Fernandes Simões

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publicado às 14:33


Sendo assim vou contar o resto da história

por autor convidado, em 24.08.11

É que o cliente do meu amigo advogado tinha apenas dois ou três dentes que eram dele, porque o resto da cartilagem foi um leasing feito a um dentista, sendo este também meu amigo. E uma das armaduras, logo uma de um dos da frente, aquilo andava sempre a desmontar-se. O cliente do meu amigo advogado, e também cliente do meu amigo dentista, vinha lamentar-se, a mim, que queria ir ao Brasil e que não podia comer fruta sem correr o risco de ficar desarmado, mais, é que o pior seria de correr o risco do dente mal encanado se encanar por outras bandas.

Pois ia ao Brasil pela época da fruta ainda mal madura e não queria fazer má figura, ainda por cima que era com tal que melhor ainda a coisa funcionava, que, quanto ao resto, já empancava mais do que se alavancava. Acho eu, que pela idade que ele tinha e sendo eu menos usado cá sei do que já não vou vendo. 

E já agora vos dou conta que foi pelo Brasil que fez fortuna em dono de padarias, lá para as bandas de Santos onde tinha apartamento à beira da praia (também, se é isso que querem saber, este apartamento me foi oferecido, mas nesta já não embarquei), dizia, que fez fortuna, em tempos idos de escravaturas, e que ainda hoje por lá há, e cá, ao que dizem as notícias, como outros assim fizeram, também, nas roças do cacau e do café e que depois por cá apareceram e multiplicaram os ainda escudos por essa altura em fortunas colossais sobretudo na compra de terrenos e em construção em tudo por quanto foi sítio e a avença (municipal) assim dava uns jeitinhos.

O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, era, de facto, um mulherengo incorrigível, com apetência por jovens que a vida fez delas putas ainda em idade de crianças.

Mas acabou com um fim triste (e merecido, embora eu ache que ninguém merece fins tão malvados) bebendo do próprio veneno. Pois um dia com o cio se fez a uma funcionária de uma bomba de gasolina, e de gasóleo, e onde também se deve poder encher os pneus e pôr água no radiador se o ar for preciso e a água já se tiver gasto. E a coisa acabou mal. Tão mal que nunca mais foi visto.

Com a assinatura falseada se vendeu o jipe para onde se vendem jipes assim, com documentos também falseados. E muito dinheiro se levantou em caixas multibanco e em cheques, até que a mulher dele tal estranhou. E foi-se a ver e o cliente do meu amigo advogado e do meu amigo dentista foi apanhado numa rede de bandidos com quem estava feita a tal funcionária. O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, acabou encontrado a fazer entulho numa barragem. Azar.

João José Fernandes Simões

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publicado às 15:00


Embora conduzisse como as senhoras

por autor convidado, em 23.08.11

(O Paulo Castilho que espere, embora o livro esteja muito bem escrito mas muito arrumadinho para o meu gosto. É que, primeiro, tenho umas coisas para dizer).

Estamos a falar da mesma treta, ia antes para dizer que estamos a falar da mesma merda, mas não quero ser mal-educado, por isso fico-me pela mesma treta.

(Aquele Eduardo Barroso é um chato com o-meu-querido-seportingue e com o-meu-filho-diz-que-foi-pénalti e o Fernando Seara é assim a modos que muito intelectual a falar de futebol e, pior que isso, enjoa a sua conversa de que não-interessa-não-interessa e também o tenente-coronel-árbitro-comentador que usa um penteado rapado com uma carapinha que só lhe falta os brincos para se parecer com o Cristiano Ronaldo, mas que ponha uns com diamantes que assim tem mais estilo).

É que detesto o politicamente correcto de chamar mentiroso usando eufemismos de inverdades e de não verdades, além de que tais termos não existem, vá lá, concedo que não verdade ainda pudesse ser uma não-verdade. Mas não é coisa nenhuma. É mentira. Ponto.

Mas uma verdade também pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. É que dizia-me um advogado meu amigo que teve que dizer a um seu cliente: olhe, eu acho que me está a mentir, mas, então, vamos construir a verdade em cima da sua mentira.

E tinha razão o meu amigo advogado, porque o seu cliente ganhou a causa e foi buscar mais de dez mil euros pelo salvado de uma viatura acidentada depois de muita guerra com a seguradora. Eu explico, então.

O cliente do meu amigo advogado tinha alguma proximidade comigo, embora eu fugisse dele como o diabo da cruz, mas eu estava com o rabo preso porque tinha caído na asneira de aceitar, em tempos, a estadia numa sua casa de férias. À borla, pois claro. Mas que ele me quis cobrar. (Já explico porquê).

(É que tenho que me concentrar no que estou a querer dizer, mas o Eduardo Barroso continua histérico e a fazer de conta que está a ralhar com o Fernando Seara, se bem que já quase andaram à chapada. Ó Eduardo, ó Eduardo, é melhor começar a retratar-se, é pénalti-é-pénalti-é-pénalti. Estes tipos distraem-me, caramba).

Mas (então, vamos lá) estava eu a explicar que o cliente do meu amigo advogado tinha-me preso pelo rabo, de modos que me pediu que fosse testemunha de um acidente em que foi interveniente. E eu aceitei ser testemunha de abonação, porque, em boa verdade, eu sabia que embora conduzisse como as senhoras o facto é que procurava ser sempre o mais cuidadoso possível, ou tão possível quanto era capacitado.

Mas a casa de férias ficou cara, pois o que ele queria era: sabe, se você aceitasse testemunhar como se viesse comigo e dissesse que eu vinha na minha mão e que o outro é que veio para cima de mim (ou de nós, se eu aceitasse).

Concluindo que fui dispensado de ser testemunha de abonação, porque era de presencial que lhe interessava. Mas eu não me dou bem com uma verdade que pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. E assim fiquei sem casa de férias na Manta Rota. E o que vos conto não é uma não-mentira. É verdade. Foi.

(Vou continuar com Domínio Público, pág. 98, avancemos, capítulo IX, Os nossos indígenas). Indígenas, pois!

João José Fernandes Simões

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publicado às 15:00


Ao preço de mixórdia

por autor convidado, em 21.08.11

Olhou para mim com o ombro esquerdo e o pescoço meio torcido para a mesma banda. E confidenciou num sorriso meio irónico que lhe apetecia desopilar. Já nos conhecemos de há mais de vinte anos em lides de prende e solta. Eu prendendo. E ele soltando. E compreendi que o bafio dos processos era um bom argumento para arejar, em jeito de mudar de vida. Vinha acompanhado dos apaniguados, em jornada eleitoral. Em dia, em noite, de conjuntos musicais e de ranchos folclóricos em ritmos de acordeões com músicas e cantares de vira para aqui e de vira para lá.

Em algumas tertúlias ouvia falar de chapeladas com votos que mudam de secção no mesmo dia e à mesma hora e de quotas pagas a propósito, num dom de omnipresença que é de espantar. Mas não ligava muito, estava ali com alguns amigos para conviver e votava em quem me apetecesse. Em boa verdade, confesso, já não votava sequer, porque tinha, e tenho, um certo despeito pelos políticos. Que não pelas suas pessoas, pois não será por tal defeito que se desapegam de algumas virtudes. E alguns, se bem que cada vez mais poucos, são boa gente. E, afinal, há gente boa em todo o lado, e má também.

Mas foi com surpresa que vi em papel de político o magistrado judicial que conheci por terras de outras bandas, só mais tarde sabendo que nascemos no mesmo ano, e na mesma terra. E na mesma maternidade, e, quem sabe se não nos conhecíamos já de tempos mais idos mas que a memória, por muito precoce que possa ser, é de impossível reminiscência. Com surpresa, pois foi. Que o vi. Em papel de político. E com surpresa maior porque foi como independente. Mas. Apenas após ter saído do partido da concorrência umas escassas semanas antes. Coisas que me espantam mas que já não me surpreendem.

E ambos conhecemos um rapaz com carreira na delinquência. Que eu prendia. E ele soltava. E que eu soltaria se fosse ele a ter que o prender. Andaria hoje pela casa dos trintas, não fora um voo mal planeado que o levou a estatelar-se. De um quarto andar. De um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo. Directo lá de cima. Mas sobreviveu àquele voo. Como um gato com sete vidas. E, afinal, ele era um sobrevivente de algumas vidas, que resgatou com fome, tantas vezes ou quase sempre. Uma fome de falta de ter que comer e que satisfazia com a astúcia do saber dos que sabem enganar gananciosos. A vender de tudo, sempre surripiado a alguém, e sempre com a arte de saber enganar os que sabem que o que compram pode ter sido surripiado mas que não deixam de comprar ao preço de mixórdia.

O rapaz que ambos conhecemos sobreviveu àquele voo, de um quarto andar, de um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo, directo lá de cima. Até que um voo mal planeado o levou desta para melhor ou sabe-se lá para aonde. Um voo mal guiado por adentro da veia já sumida. Começou por cheirar e depois por meter. Na veia. Na veia já sumida. Até que se sumiu. Eu gostava daquele rapaz. E o presidente. Da câmara. Hoje desembargador. Também. Quem sabe se, por estas coisas, decidimos ambos mudar de vida.

João José Fernandes Simões

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publicado às 19:08


A (minha) irmã lá saberá porquê

por autor convidado, em 20.08.11

(Não sei do meu Fernandinho, devia estar ali ao fundo da cama, mas deve ter pensado que eu não lhe estava a ligar nenhuma. E foi para a outra sala).

E dando voltas à cabeça sobre se devia confidenciar. Já. A conversa que tive hoje com a (minha) irmã de uma irmandade religiosa, uma conversa que valeu mil vezes o pudim esquecido da sobremesa e que só terminou quando percebemos que o pessoal da cantina do hospital precisava de acabar de arrumar a loiça. E nós, os dois, para ali numa conversa sem fim. Sem fim. Porque o fim é sempre o mesmo. É que não consigo encontrar um sentido para a religiosidade que exclua a essência do ser humano, o de ser pessoa na sua materialidade plena. Um sentido que justifique a discriminação da mulher no sacerdócio. Um sentido que exclua o matrimónio no sacerdócio. Um sentido que explique os fundamentalismos religiosos. Entre tantas exclusões que as religiões excluem. Um sentido que justifique a pedofilia (protegida) de demasiados.

A (minha) irmã e eu acabamos a conversa com uma conclusão que foi (para mim) uma inevitável não conclusão. Contei-lhe que, há dias, senti um impulso em entrar naquela capela, mas não o fiz. Que se o fizesse estava a ser fraco, porque estava a recorrer ao (seu) Deus que me acudisse, argumentei que não fazia sentido lembrar-me d’ Ele só quando me vejo no maior aperto da minha vida. Porque nos devemos lembrar todos os dias e não apenas num dia de aflição maior. Mas ela diz-me que devia ter entrado porque o (seu) Deus se lembra e ajuda sempre. Todos. Sem discriminar (não) crentes. Acabámos a conversa dando-lhe dois beijinhos, porque a (minha) irmã os mereceu, mas foi uma conversa inconciliável, ela argumentando com o conceito teológico da vida e eu com a minha incorrigível descrença. Mas ela disse-me que eu tenho um espírito cristão. A (minha) irmã lá saberá porquê. Já eu não consigo saber.

Mas não era da (minha) irmã que eu queria falar, até porque tinha decidido nos próximos tempos dedicar-me a ler o Paulo Castilho e o Leopoldo Brizuela, com 402 páginas prensadas no Domínio Público e 731 em Lisboa. Um Melodrama. E. Também. Acho. Que ando a falar de mais e acabo a ser aborrecido, e, pior que isso, a não dizer nada. Mas ao fim de poucos minutos de leitura fico preso no facto de «no geral o Fernandinho prefere permanecer deitado na minha cama. Mas hoje resolveu andar atrás de mim, passo a passo, sala a sala (…) e fiz um gesto mais largo com o braço e assustei o Fernandinho, que recuou num movimento brusco. Devem ter-se passado coisas sinistras no canil antes de eu o trazer para casa, porque decorrido um ano continua a ter medo de tudo e às vezes põe-se a tremer sem razão nenhuma».

Então percebi o motivo de um dos meus Fernandinhos tremer todo quando o quero ter dentro de casa. Dos três que adoptei é o único que treme quando lhe faço festas. É o único que se encolhe todo quando lhe faço festas. É o único que se assusta comigo quando lhe faço festas. E como ele gosta que eu lhe faça festas. E então percebi que hoje o dia valeu bem a pena. Porque tive uma conversa que valeu mil o vezes o pudim esquecido da sobremesa. Porque percebi a razão de ser do meu Fernandinho tremer todo. Porque dei um beijinho à Joana que tem 23 anos e me parte do coração, de um coração de um não crente que também treme. E que também chora, com uma alma que a (minha) irmã diz que eu tenho. Mas uma alma que eu não encontro. Ou quem sabe se a encontro de vez em quando. Ou então que talvez seja ela a vir ter comigo.

(A Joana que tem 23 anos e me parte o coração foi para casa, mas volta na quarta-feira para uma consulta, com a bolsa cheia de remédios. Que não curam. Apenas. Fazem não doer).

João José Fernandes Simões

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publicado às 20:00

Hoje vi-o a nascer, a oeste, a romper daquele monte, em quase fim de gravidez, para uma lua cheia, imensa, barriguda, que, quando passar em frente ao meu janelão, despido, com a portada aberta, já estarei a dormir, espero, mas não estou seguro que assim seja; Quando o vi nascer estava a vir da foz, do Mondego, e o Sol da Noite despontava, numa gravidez em quase parto, e eu aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) vindo de um jantar, sozinho, e em que tive que esperar por mesa quase uma hora por conta dos àvéques que falam português baixinho e francês em alta vozearia; E lembrei-me; De, há tempos, ter ido ao Porto levar a minha madrinha, que ia apanhar o avião para Bruxelas, e quase ter que encostar o carro tal a selvajaria de lata que me invadia da esquerda e da direita, por cima e por baixo; Como hoje, enquanto esperei quase uma hora por mesa livre para jantar (e eu aflito, não por culpa da próstata, mas da ansiedade) de tal forma que foi um alívio quando entrei no meu quintal; E despejei o que me afligia, deixando de estar aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) numa intimidade apenas partilhada pelos meus cinco cães, que, de tão contentes de me ver, nem se apercebiam que (eu) lhes chovia em cima; E, hoje, vou dormir, mas talvez ainda acordado, à espera do Sol da Noite, que se atrasa cerca de três quartos de hora por dia; E também não percebo a razão de próstata dar erro ortográfico se próstata se escreve próstata. E um dia destes vou falar da Joana, que tem 23 anos…

João José Fernandes Simões

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publicado às 23:49


Assim me apareceu o coronel

por autor convidado, em 16.08.11

Só lhe faltando o boné. De calção e t-shirt e com sapatinho sem meia, estava eu com a minha gerente de conta, e então o coronel, ó comandante. Olhe lá

Bem que você (que sou eu) podia ter agradecido à senhora por lhe ter resolvido o problema, é que nem uma palavra e isso não lhe ficou bem. E

A gerente que me atendia ficou assim-a-modos-que-não-sei-como quanto ao que é que este tipo (que sou eu) terá feito ao coronel. Mas fisgando-me

Um sorriso meio irónico de quem bem conhecia aquele e não sendo normal uma tal intromissão. Inusitada

Na discrição que se é devida no atendimento do Caixa Azul. Deixei a gerente pendurada. E fui ter

Ó senhor coronel. É. Pois. Sabe. Eu. Tenho andado. E assim e assado

Pois é, mas não lhe ficou bem, podia ter (pelo menos…) telefonado à senhora a agradecer, porque se empenhou a resolver o seu problema. Mas

O coronel (pelos vistos…) não percebeu que eu não tenho feitio para pagar favores. Como. Ou ao jeito. Que ele tem (terá…). Mas talvez ainda lhe vá oferecer

Um boné. 

João José Fernandes Simões

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publicado às 11:09


Boa noite senhor António

por autor convidado, em 15.08.11

Já tentei encerrar o dia várias vezes, fechando o pêcê e abrindo o pêcê. E volto a abrir e a fechar. Abri de novo. E sou notificado no ícone da bateria de que tenho vinte e seis por cento que resta da solidão que me tem inquietado desde que o cumprimentei hoje. Já ontem. Bom dia senhor António.

Respondeu-me num taciturno bom dia como está. Escondido numa solidão. Que o destrói. Distante. Nas quatro horas de viagem que o separa do Barbeiro de Celas. E da sua família, que o não visita e que o senhor António reclama. Ou que o senhor António afasta na angústia de estar só. Num abandono que dói.

E olha para o telemóvel. Um telemóvel afónico. Ao menos que estremeça. Mas não. Aquele telemóvel não tem vida. O senhor António deixa mensagens. E fica à espreita. Ali. Dissimulado na esquina. Dos elevadores. De onde sai tanta gente num sábado de bastante movimento. E de onde não sai ninguém.

O senhor António está preso a uma doença cruel. Não. Não é a leucemia que o assusta, porque com esta convive todos os dias. O que o assusta é uma cruel solidão que o abandona de dia. E lhe faz companhia à noite. Uma solidão que se enrola o estômago. 

João José Fernandes Simões

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publicado às 20:25


O inspector e as duas disquetes

por autor convidado, em 13.08.11

Para aí há uns seis anos, estava, como estou agora, a ocupar o tempo em conversa com o meu computador, estando a meio caminho entre Lisboa e Nova Iorque, sentado na secretária, aliás, na cadeira da secretária, do gabinete que me tinham dispensado para as tarefas que são a um Inspector acometidas.

Estava a meio da primeira das duas semanas em que por ali andei a fazer estrago e reparei na minha agenda que, naquele dia, terminava o prazo para pagar a electricidade ou o telefone ou outro calote qualquer, daqueles de que não nos livramos todos os meses, se bem que no caso da electricidade, agora, pode ser de dois em dois, e que, já na altura, eu pagava através do caixadirecta.cgd.pt.

Os blogs ainda não se tinham massificado, pelo menos, de tal eu nunca tinha ouvido falar, por isso lia os jornais e espreitava algumas páginas da Internet, sempre com aquele meu feitio metódico, tudo bem organizado com atalhos, para ir directo a quem gostava de ler, alguns ainda sobrevivendo hoje nos mesmos jornais como comentadores e que me ficaram como referências de leitura obrigatória.

Por ali, as coisas até estavam muito bem quanto a equipamento informático, graças à carolice de um estudante de engenharia, que fazia autênticos milagres à época, que até a ordem de serviço já ia, como se fosse hoje, no comboio da Vodafone ou no kanguru da Optimus, sem necessidade de tal serviço se fazer por conta de resmas de papel transportadas em motociclo, e que melhor uso este servia para o serviço de vigilância.

E habituado a recolher a informação para os relatórios, tendo apurado, com a experiência, a criação de matrizes onde condensava a informação que mais tarde analisava já na capital, foi com surpresa que me entregaram duas disquetes, quando este suporte era ainda de uso corrente, já que hoje os portáteis já destas prescindiram, tal a vulgarização das penes amovíveis com capacidade para armazenar informação superior à do disco rígido do meu primeiro computador.

Que um dia deixei cair e que me deixou saudades pela suavidade do seu teclado, quase sensual, tal o prazer que ambos sentíamos em que nos amaciar, era um Toshiba cinzento, com meio giga de disco.

E a minha surpresa, quanto ao motivo de duas disquetes para uns escassos caracteres que cabiam em duas folhas A4, quando me foi respondido que era por não caber apenas numa folha, se tornou deliciosa e gratificante.

Porque aquele profissional quis resolver um problema e, de facto, seria muito aborrecido se, por falta de uma disquete para a segunda folha, a informação de que necessitava viesse incompleta.

(Escrito no Funchal em 5 de Outubro de 2007 e publicado às 01:44)

 João José Fernandes Simões

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publicado às 20:00

30 de Maio de 2011- Estávamos na última semana das «tendas de campanha» eleitoral, para me socorrer das palavras do Nobel Elias Canneti. Pedro Passos Coelho, então futuro Primeiro-ministro de Portugal, lançava mais um importante trunfo: «o PSD e eu próprio não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA (…) nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, e não aumentando ou agravando as taxas de imposto». Passos Coelho falava da sua promessa numa acção de campanha em Valença do Minho.

12 de Agosto de 2011- Pela manhã, os portugueses são surpreendidos com o aumento do IVA do gás e da electricidade em 17 pontos percentuais. Com o Primeiro-ministro de férias, a «boa nova» é avançada pelo (colossal) Ministro das Finanças. Escusando-se a avançar de que forma o Executivo irá proceder aos cortes na despesa, Vítor Gaspar confirmou, acreditamos que inconscientemente, uma velha máxima da acção política: a mentira e o segredo estão estreitamente vinculados à própria essência da arte de governar. De facto, razão tinha Hannah Arendt quando afirmou, no célebre artigo intitulado «Verdade e Política» (1967), «que nunca ninguém teve dúvidas que a verdade e a política estão em bastantes más relações». Quando a mentira organizada domina a res publica, a verdade tem, com efeito, ténues possibilidades de resistir ao assalto do poder. 

Hélder Prior

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publicado às 17:46


Na metáfora de outros penduricalhos

por autor convidado, em 12.08.11

Acabo de encontrar um procurador-geral adjunto que está em comissão de serviço por terras do Dão e do Porto

A levantar dinheiro numa caixa multibanco

Aqui

A passar férias na terra dele e que também é a minha vindo eu directamente do Barbeiro de Celas onde não se usa tesoura nem navalha porque o cabelo se trata de cair

E me ponho a escrever coisas que pretensiosamente pretendo que ironias sejam

Pois andei todo o dia ensimesmado de que os políticos me andam a gamar tendendo que a abusar

A avença dos próximos quatro meses vai ser para pagar o iérreésse mas o meu desatino nem tem que ver bem com a avença dos próximos quatro meses que vai ser para pagar o iérreésse

Mas antes com actos de misericórdia que me incomodam e em que o usufrutuário vai ser um gato com sete vidas já mil vezes dado como morto mas que sobrevive como que sendo imortal

Um ícone da política no paradigma de menino guerreiro

Que umas vezes usa o cabelo por cima da gola da camisa e outras aparado em pose assim a modos que mais de estado e porventura

Não usando dois relógios

Um em cada pulso ao estilo pedrograngé de quem este já viu naquele o seu ídolo talvez porque tais acessórios já lhe tenham feito uso na metáfora de outros penduricalhos

A confirmar-se o que por aí li hoje

Pois bem que podia no jogo da sorte e do azar ter mais sorte a santacasa que um penduricalho

Mas há sempre um lado positivo em tudo na vida e se calhar também na morte

Não sei

Pois talvez possa voltar a ver a têvêivinteequatro com a constançacunhaesá sempre a tremer em companhia do medeirosferreira e dum tipo do blocodeesquerda

Sendo que deste último agora não me lembro da sua graça mas também não interessa porque estar lá este ou outro qualquer sempre irá dar no mesmo

E o outro

Que se atrase a pôr o boletim do totoloto e deixe de aparecer na companhia daqueles

Espero.

João José Fernandes Simões

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publicado às 10:10


O Sol da Noite

por autor convidado, em 10.08.11

Levantei-me e fui confirmar, e sim, estás em quarto crescente. E fui confirmar, mas agora na néte, e sim, estás em quarto crescente quase desde o início do mês.

Estava na dúvida, porque, ontem, por esta hora, inundavas o meu quarto atravessando a cortina, e um vidro nu, com a portada aberta. Para me fazeres companhia. Mas hoje não te via e começava a sentir que me tinhas deixado. Sozinho.

Mas eis que desces ao meu encontro, e pareces um sol. De tal forma o Sol te inunda dos lados onde ainda é dia.

E por aqui, onde a noite ainda não trouxe o sono, te vejo engordar. Barriguda. Num crescendo que irá parir, dentro de dias. O Sol da Noite.

Vou esperar para Te abraçar, na falta de outro abraço. E então vou abrir os braços para Te prender, e Te apertar. Bem juntinha a mim.

João José Fernandes Simões

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publicado às 14:37


Os espíritos dançam

por autor convidado, em 09.08.11

Num bailio desordenado, em voos picados, rasantes. E logo se contorcem na vertical. Quando seria normal que se estatelassem no chão. Mas não. Desafiam a gravidade. Nunca aterram. Nunca param. Desafiam a máquina do tempo. Indo e vindo. Num único instante.

E fazem ruídos esquisitos. E batem com gestos surdos. Mas fazem barulhos estrondosos. E não nos damos conta de onde estão. Apenas os ouvimos num linguajar estranho. Que se confunde com zumbidos. Batem do lado de fora. Mas estão cá dentro. Que até nos assustam.

E olham para nós, nunca de frente, sempre de soslaio. Num olhar de esguelha, fugidio. Até parece que nos gozam. Nunca dão a cara. Ou. São isso mesmo. Não se querem mostrar. Ou não têm rosto. Apesar de nos olharem. E de se rirem de nós.

Já pensei em avençar um exorcista, mas fica caro. E os baratos são uns charlatães, uns bruxos de vão de escada, que nos dão tanga, daqueles que põem anúncios em revistas e mesmo em jornais, e alguns até patrocinam programas na rádio renascença.

Uns brincalhões, os espíritos que dançam. O melhor é usar a táctica de se não os vencemos então juntamo-nos a eles. Dançando com os espíritos, pisando-lhe os calos, não lhes dando descanso. E depois. Que vão à vida deles. Os cobardes. Pensam que têm piada.

João José Fernandes Simões

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publicado às 16:26


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