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Está para aqui um gajo descansado, no meio das depressões e ansiedades que lhe couberam, e morre-nos parte da alma. Uma falésia traiçoeira. Gelo!
Gelo!, gelo, gelo… E depois calor. Muito quente. Como quem passa as mãos da água que ferve para a água que gela. E passamos de homens com chagas a seres sem sentidos. Sem sentido. Vermelho com azul dá transparente. Uma transparência de quem vê por nós, não em vez de, mas através de nós − como se não estivéssemos lá...cá...
E, sim, paramos de respirar por um momento – e a quantidade do tempo sem ar, tempo que morde, põe o despertador para a hora certa; seja para nos envolvermos, seja para resistir.
Tudo como que sem ar numa caixa-forte. Fechados por dentro… E a vontade imediata é mesmo essa. Voar em vez de tropeçar. Os sentidos baralham-se. A garganta ouve, cheira-se o grito, apalpa-se o sabor, vê-se o berro. Lambe-se a escuridão. E depois baralham-nos tudo e voltam a dar.
Os sentidos resumem-se. São agora um só! e podem ter caras – espécie de fé. Coroas nenhumas. Cinco trocados num sentir que não se sente. Dói!, mas não se sente. Sente-se sem doer. E esta inflexão da normalidade faz-nos apertar mais aquela mão que nos segura.
Acaso não esteja lá − aquela mão! −, o natural é que o apelo acabe por vencer.
E aí? Aí vamos! Arriscamos voar. À falta dos demais, ousamos crer num sexto sentido que justifique a ausência dos outros. A ausência da regularidade do tic-tac.
E voamos, voamos sem asas…
Assim é! Assim será…
Haja mão que por nós resista, que mãos não temos. Só asas…
Asas!
Em alturas dessas, olho a foto que trago dentro de mim e, invariavelmente, o cheiro volta a cheirar. Ouço os sons remotos que são. A Primavera entra-me nariz adentro. Vemos o horizonte e mais além.
A vida apalpa-nos e é fiel depositária das asas que não temos.
E mantemos as asas, sim, mas voamos para dentro.
Por dentro…

Descansa, meu menino. A mamã trata de tudo e vai-te aconchegar à caminha. Não te preocupes com o frio, com a fome, com os velhos, com os putos e os pardais. Descansa, meu menino. A revolução faz-se sozinha enquanto tu dormes, enquanto tu sonhas sonhos húmidos.
Amanhã, meu menino, vais acordar do lado dos bons. Sejam eles quem forem. Trocas de camisola num instantinho. Vais ver, meu super-homem. Vais ver. Que camisolas às cores não te faltam no roupeiro. E a cabina telefónica está mesmo ao lado da sanita.
Nasceste na situação!, a tua revolução é mera adaptação ao que te derem pelo biberão. Se for leite, tu engoles. Se te derem merda, tu mamas. Enche mazé o teu quarto com os símbolos do inconformismo da moda, mas compõem-me bem o nó dessa gravatinha antes de saíres de casa. Dessa gravatinha que até nem usas por cima da camisa aberta que te desvela o peito depilado. Aí se encerra toda a tua luta. No nó dessa gravatinha. Dessa corda na garganta que usas no cérebro. Que há ser e parecer. E tu, meu menino, nem és nem pareces. Não te preocupes com coisas de somenos. A mamã trata de tudo e vai-te aconchegar à caminha.
A tua revolução são as punhetas que bates a olhar-te ao espelho. Ai que linda que é essa tatuagem do Che. Essa borboletinha a tinta-da-china. És uma tatuagem, meu menino. Não passas de tinta enfiada na pele. Um, dois, três, quatro, cinco. A quina dos dados, o prisioneiro na sua cela. Ai meu rebelde, que ainda me mijas a cama.
A tua revelação fez-se numa loja de piercings, o teu contributo para a revolução é dizer pedra e fazer papel.
Golo!, catano, foi golo! Isso é que interessa, que as tuas camisolas – vai camisola, corre camisola −, que as tuas camisolas não se deixem ficar. E que ganhem. E tu lá estás, sempre!, de cu no sofá, com as mãozitas dormentes a amaciar-te o…, pois, meu menino, anda cá que a mamã muda a fraldinha. Anda cá…
Mudar as coisas é isso mesmo, ir para a televisão dizer cobras e lagartos e votar depois nos lagartos e nas cobras. Porque to mandam e tu obedeces de sorriso no cu e revolta nas palavras. É o partido, pá!, é o partido. A gente compreende, catano. Basta meteres um pá! entre cada palavra e a gente não se vai esquecer de ti.
Não te canses, meu menino. És o 007 destes dias de espuma. ORDEM PARA SIMULAR. E aposto que fodes aquela, que enrabas aquele. Meu que…ri…do menino. És uma puta que vai a todas; seres homem é teres nascido homem. Ou mulher. Tão-só. Tão só…
Dás o cu e cinco tostões para que não te aborreçam na convulsão do teu viver. É preciso é que não se note! Descansa, meu menino. A mamã trata de tudo e vai-te aconchegar à caminha.
Não apareças nunca, ca malta compreende, ‘tá frio e tu tinhas um jantar marcado. Quando chegar a hora que vai chegar, o povo chama-te à rua para ires à frente de bandeirinha.
No cu.
[´tá bom, mas ‘tá forte, olha que ainda perdes o emprego. Troca mas é cu por rabo, foder por fazer amor. Olhó partido, pá. O teu chefe ainda te des!pe!de!. Eheheheheh… Malcriadão, és mazé um malcriadão.]
Sabes?, como diria o outro, o outro das costas largas, é preciso é animar a malta. E tu animas a malta. Tu és a malta.
Vamos lá agora ouvir outra vez o FMI do Zé Mário e escrever um cena assim tipo; és um mata-borrão que chupas tudo o que te dão. Ainda me lembro, aqui há quinhentos anos, quando fui ver um filme do jimbo, do dos doors, porra, esse. Era Lisboa, e tu mijavas no autocarro marcando a tua diferença. Que grande revolução a tua, podre de bêbado a mijar num autocarro. E o pessoal batia palmas, e eu escarrava-te nas trombas.
A revolução dos borrachões. Vivó vinho, catano. Quantas revoluções fez o vinho? Hum? Ó candeeiro do catano que me insultas. Não me fujas, tu e aquela traidora de franjas.
Vamos agora ser rebeldes à séria. Bute lá?
Tipo, vamos arriscar bué. Dizer bué é já bué da revoltante, é ou não é? Revoltante, revolta, revolução, meu menino. És agora um revolucionário.
Hoje já não é PREC, hoje já não é ‘79, hoje já não é Eça, nem Ramalho. Camilo foi preso por comer uma gaja casada. Na tua mente. Eles estão na tua cabeça (ora vamos pôr aqui um pá!), Pá!
Hoje é esta merda em que não ousamos, em que temos medo, medo de perder o emprego, medo de tropeçar, medo do medo. Acagaçaste-te, meu menino?, anda cá e toma lá a maminha, para descansares. Relaxa, meu queridinho. Fazes o que podes e a mais não és obrigado.
O CARALHO!
Somos obrigados a dar o que temos e o que não temos pela mesma razão que damos o que não temos a estes filhos-da-puta que nos governam. E mais a quem manda neles, cambada de microfones.
Ora vamos lá, então, custe o que custar.
Vendes o teu filho por 30 moedas, meu cabrão. Vamos a isso.
Mamas num país de vendidos e vendes a tua esquerda pelas mamas que te oferecem. Chupa daqui, chupa d’acolá. Se for pila também lá vais, que o partido, … ai o partido, o partido assim to ordena. Tudo pelo partido, porra! Afinal, és militante. Militas. És um militar, um guerreiro! o guerreiro dos peidos.
Ca gaja é boa e as bandejas de prata cheiinhas de pó de ouro circulam desvairadas, nessas festas pequeno-burguesas onde desbundas. Vamos fazer uma revolução, ó rainha dos abortos? Quem fez mais abortos aqui? Tu gaja!, tu aí! Dez? Em vão de escada feita clínica de Badajoz? Ah catano! És uma queen! ‘pera! Vinte prá senhora do fundo. Perdeste. Lamento… Devias ter usado menos preservativos.
Como será fazer uma revolução duma torre de marfim? Está vossa excelência bem sentado? Tem vossa excelência a certeza? Vamos então soltar as garras. Aperta o cinto, meu menino rebelde. Tira a cuja da algibeira e faz por tirares essa bandeirinha do cu, que as mudanças fazem-se de canhão ao ombro.
A coisa é assim. Somos neste momento governados por um gajo que nos afiança que o quá-quá-quá-tôrze vem antes do quinze. E depois temos o fantoche que é manobrado por outro fantoche. Além da Troika, é preciso é ir além do que nos exigem. Além da Troika, forever, meu bom menino, meu bom aluno. SOMOS OS PRIMEIROS. Eta conquista.
estou nu. tiraram-me tudo. a honra, a galhardia, essas coisas de somenos que te faziam homem. Mudei de sujeito, bem sei, que eu estou a escrever isto enquanto respiro, … E TU NÃO! o poeta que me perdoe o roubo. foi sem violência; é furto!, diz o meritíssimo. foi roubo, redigo eu, que o que nos estão a fazer é à porrada. não sei bem quantas já levei, mas sei que as levei. os meus olhos negros assim mo dizem. que eram castanhos, da cor do mar, que o mar é da cor dos olhos de quem o olha. e nós somos de vista castanha. coelho é um biltre. relvas um cangaceiro. gaspar um salazar. ha…ha…zuis…
E nós vamos andando, devemos ser o único povo do mundo que não anda. Vai andando. Numa passadeira que rola da frente pra trás, sem sair do mesmo sítio. Cá estamos. Está frio. Está calor. O benfica perdeu. O que tem de ser tem muita força. Agora chove. Agora não. Tempo da merda, sempre ao contrário [aí não chegas tu, boche]. Estou constipado, perdão, resfriado. Já me esquecia do decreto das letras. Um veado é um paneleiro. Acordo-Ortográfico, vénia. Fresco é maricas. Acordo-Ortográfico, outra vénia. Rapariga é puta. Acordo-Ortográfico, venha mais um torcicolo. Vénia!
Mas − agora sou EU − que estou para aqui a ladrar? As sondagens dizem-te que sim. ‘beg your pardon; tu és as sondagens. E o telefone toca e eu digo que sim. Não me aborreçam. Claro que estou contente com o governo. Claro que a oposição é seguro. Porra que não me enganei no género. Uma oposição seguro, Acordo-Ortográfico? Vénia!
Não me arrombem mazé a porta, que me custou muito dinheiro. Batei ao de leve que eu visto o roupão e vou de mansinho. DELITO DE OPINIÃO, Sôtor. Vou mas é a porra!, que primeiro tendes de me apanhar vivo. E se se metem com os meus, estouro-vos os miolos. Tenho ali uma fisga comprada nos chineses. Assim toda direitinha e lambuzadinha. Sonho de criança.
PORTUGAL. Quando foi a última vez que o viste? Eu ainda agora o fui deitar. Nos olhos do meu filho o vi. E por esse reflexo farei o que for preciso. O meu filho de quatro anos, a minha vida. Se depender de mim – e de pai pra filho assim é −, vais viver num país que nunca vi. FILHO! Num país que vivi em sonhos. Vais ser português, assim como não te baptizámos. Português-de-terra, homem de olhos castanhos, assim grandes e da cor do mar que vejo daqui, que é a cor das duas serras que NOS rodeiam. Estrela e Guardunha. Guardunha, assim mesmo. Bom adamastor que GUARDA O MEU FILHO. Nesta cova profunda à beira do abismo. Não vais cair.
€les não chegam cá, custe o que custar, doa a quem doer. No Fundão mandam os que cá estão! e se for preciso peço reforços ao Carvalhal. Não ouses, dâmaso.
Coelho, isto é assim. Vai ser assim! Não pago o teu imposto sobre todos os impostos. Não me submeto aos teus donos. E tenho comigo a força da minha avó, que me ensinou esta forma de ser. Não consegues bater nela, que ela já vive além. Onde os coelhitos não chegam.
Listen to the music…
N.Ã.O. H.Á. D.I.N.H.E.I.R.O.
“The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall”
The end.
Diénde o caralho. Que ainda tenho umas coisa para vos dizer, ó gentes. Nesta das mais nebulosas coisas que as dentaduras pariram.
Não sou poeta; não o sei ser. Não faço prosa nem escrevo romances; qualquer hipermercado avaliza estas minhas palavras. Ide lá e vereis. Não me vereis (ó pra mim cheio de inveja, recalcamento puro, que o meu sonho é ver-me escrito ao lado de um rolo de papel para limpar o cu).
Sou apenas um homem ocupado. Um homem sem sono, mas que dorme a sono solto porque de consciência tranquila. Aqui não chegam os vossos cobradores, mesmo porque não devo um pentelho a ninguém. Mas há quem deva sem nada ter feito por isso. Uma mulher, um homem, dois filhos. E depois veio o desemprego, o acordo de cavalheiros. Veio a ponte, que a casa que era minha já não é. Nunca foi. E EU ABUSEI, CARALHO? Eu? Eu que trabalho de sol a sol? Eu que dei o coiro? Fui eu que abusei?
Perdeu a vida e por vergonha MATA OS FILHOS, OS NETOS, A MULHER. Convencido que é o culpado. Mata o cão e piriquito. És mazé um cobarde de merda, que nem coragem tiveste para estourar os miolos. O inferno. Legião. Não te desculpes com o banco, poltrão. Não te desculpes com a natureza de quem se quer inteiro e por isso mata O FILHO. Mas não tem tomates para dizer NÃO. Custa, não custa, tropeço de gente?
Levanta-me essas nádegas de porco do berço!, meu menino! A mamã já se foi. Estás entregue a ti próprio. Não faças como aquele, faz-te homem. Faz-te à vida. CORAGEM! Não ta estou a desejar, meu cobardolas, menos ainda a embalar, ó medíocre existência. Estou tão-só a dizer que estou farto dos teus ganires, dos teus queixumes. Chorinho é bom se levar flauta, violão, cavaquinho, pandeiro, clarinete, bandolim e trombone.
És o único culpado, não descarregues nos energúmenos em quem votaste, nos vermes a quem não tiveste tempo para ir dizer não. Porque havia jogo da bola em castelhano. Porque estava calor, porque estava frio, porque estava calor e frio.
Tudo TE serve de desculpa para desculpares o teu existir sem dentes, sem unhas. ÉS UM VERME!
Até eras gajo para escrever uma merda destas, assim te garantissem que nada de mau te aconteceria. Mas tua andas pela sombra das sombras. es…con…di…di…nho.
Piegas de merda, que mereces a zombaria de quem assim te chama. Era uma vez um coelho que era amigo de um bambi a quem mamã morreu. We are the world, we are the children... E violinos e o caralho. Tenho tanta peninha de ti!
Deixa-te de merdas, faz pelo Abril que os teus pais te deixaram. Faz pelo Abril de quem deu a vida para que eu pudesse estar aqui a escrever estas afrontas à mãe-troika. Contigo a ler-me!, à sorrelfa e com o indicador pronto pra mudar o ecrã para o sítio das gajas nuas. Que quem vê gajas nuas é homem, que quem vê gajos nus é mulher (raispartam nesta língua que é a minha vida mas é a modos que pró machista e me quebra o ritmo, me enfeia a escrita e me quebra o raciocínio).
Tens duas opções na vida. Ou fazes por ti, com aqueles unanimismos mentirosos ditados pela disciplina, ou fazes por ti e pelo teu filho. OU FAZES PELO TEU FILHO. Afinal, eram três.
Que também tu tens futuro, lamento ter que to dizer, lamento ter de apelar ao teu egoísmo para te pedir para fazer de conta que és gente.
No que me toca, e a uma semana de a ternura me acolher, estou aqui. Por mim, pelo meu filho, pela minha mulher, pelos meus pais, pela minha irmã, pelos meus amigos que têm sangue igual ao que me corre no ventre-útero.
Que sim, que também eu, homem de nascença, tenho útero; que, bicho-feio ou bicho-lindo, o que acabaste de ler foi por mim parido.
Vou dormir descansado.
Desejo-te o mesmo a ti, que no que depender de mim o teu futuro vai ser risonho.
Descansa, meu menino. A mamã trata de tudo e vai-te aconchegar à caminha.
Agora vê lá mas é se me mandas para o caralho, vê se te revoltas pela forma como te trato. Verme abaixo de verme. Vê se deixas de ter medo.
Não é por mim, não é por ti e pelas tuas palminhas, é mesmo pelo teu filho. Se chegaste até aqui insultado, fodido, com vontade de me bater é porque valeu a pena.
Valeu a pena. Excluo-TE a TI, AMIGO, tu que lutas sem medo e vês neste meu caminhar lunático algo parecido ao teu caminhar.
Comecei a escrever para mim, para que não me esqueça. Acabei porventura a dizer mal de ti, mas se tal carapuça se te entalou cachola abaixo o problema é só teu.
Descansa, meu menino. A mamã trata de tudo e vai-te aconchegar à caminha.
Descansa, que a malta trata do resto.
É preciso é que não percas o sono.
Descansa!
Beijinhos.
[que força é esta, amigo?]
Imagem: Makrobius (obrigado, Liliana)

Último segundo de jogo.
Guarda-redes contra guarda-redes.
Empurrada pela cabeça de um, lá vai a bola, parada à velocidade da luz, embater ao de leve (como tinha de ser) na mão do outro (do nosso). O suficiente para não ser golo e tudo acabar bem.
E, A., tendo olhado o jogo a pensar em vocês -- como praticamente tudo o que tenho feito nos últimos tempos --, aqui te deixo, neste momento épico, naquela mão salvadora, a metáfora do que vai ser. Do que tem de ser! Do que só pode ser!
Porque é impossível que seja doutra forma. O querer pode muito!, pode tudo!
Imagino que não estejas a par, Vítor. Há um livro-talvez-O-Livro onde, diz a lenda -- uma lenda sobre um livro vê lá tu --,... onde, toma atenção, é impossível contar os muitos Aurelianos e Josés Arcadios que por aqueles cem anos vão passando. Não serão exactamente cem -- não sei se me estás a acompanhar, Vítor --, cem anos de solidão é o nome de um livro, Vítor. Os muitos Aurelianos e Josés Arcadios, é disso que falo, Vítor, são eles os muitos que vão passando e que não é possível contar. Dizem...!; que eu nem tentei nem tentarei, apenas o li. toma atenção e não te distraias, detesto repetir as coisas. É de um homem, o livro, um colombiano, Esse Homem, chamado Gabriel, talvez seja mesmo o Livro do Homem ou o Homem do Livro, dependendo de quem olha o quê e de onde. Vítor ou Victor, que não sei se aderiste ao acordo ortográfico; o acordo, Vítor ou Victor ou Víctor, e levarás acento, raio de nome complicado tens, o acordo é uma coisa que nos obriga, assim como tu, a fazer coisas que não queremos fazer, por exemplo, escrever espetador, assim como quem espeta, em vez de espectador, assim como quem assiste. Mas perco-me, homem, queria era falar-te de Úrsula, mãe do primeiro Aureliano e do primeiro José Arcadio. Úrsula. Às tantas, já a coisa ia nos bisnetos, acho eu, se calhar mais, que a Úrsula já era centenária. Às tantas, havia uns gémeos, os tais bisnetos ou mais, que eram Segundo e Segundo, respectivamente, Aureliano e José Arcadio de primeiros nomes. Bem, Vítor -- ficas Vítor, que és um tipo moderno, Vítor --, o que se passa é que a Úrsula, tantos tinha visto, filhos e filhos de filhos e filhos de filhos de filhos. Ora Aureliano ora José Arcadio ora José Arcadio ora Aureliano. Com uma ou outra adenda, mas sempre com aquelas graças a picar o ponto. E aprendeu, por tanto e tantos ver e criar, que os Aurelianos saíam sempre assim e os Josés Arcadios saíam sempre assado. Agora volta lá atrás, aos gémeos, ..., já está, eu continuo. Os de último nome Segundo que de ordem eram bem mais -- para teres uma ideia, o Aureliano Segundo chamou José Arcadio ao filho --, os gémeos, baralharam-se e deram de novo e baralharam-na e às tantas já parecia que nem eles sabiam quem eram. E isso desgostava a Úrsula e a mim também, que gosto da Úrsula. O nome de um homem-filho, à Úrsula, dizia-lhe tudo do futuro que o perseguiria. Quem ele ia ser. Mas, e chego lá agora, ao lembrar-me desta história simples de bela lembrei-me de ti. E não gostei nada. Não te quero misturado com os meus cem anos de solidão. Nem com o simples de belo. Mas lembrei-me, essa-é-que-é-essa. Por causa dos homens de quem o nome diz tudo e por causa dos gémeos que de tanto se fazerem passar um pelo outro, às tantas -- julga-se a páginas tantas --, se baralharam a eles mesmos.
Homens que não sabem quem são e por isso são como são.
Homens de quem o nome diz nada.
Quanto à primeira questão nada posso fazer, bem vês. Quero mesmo que desapareças, que és do pior que vi. Pior como em mais mau que mau, sim. Tenho más sensações quando te vejo. Pareces um homem às avessas. Virado de fora para dentro e de dentro para fora. Às avessas. Não és o pateta que pareces e tens agora ar de quem veio para ficar muito tempo. E isso assusta-me, percebes? Quando falo de muito tempo falo mesmo de muito-muito tempo, ficar além do tempo que te está reservado pelo que é. O Coelho mandar-te embora e tu ficares. Esse tanto tempo.
Quanto ao nome, nada a dizer; é chamar-se de gente normal. Fora do livro, as coisas são mesmo assim. Os nomes nada dizem das pessoas antes de as conhecermos e de passarmos a não gostar daquele nome apenas porque não gostamos daquela pessoa. O teu nome não diz nada de ti, não diz ao que vens. Se te chamasses Adolfo Salazar eu ficava de pé atrás. Não imaginas o Coelho a escolher um Adolfo Salazar para Ministro das Finanças. Pois. Bem, vou mesmo mudar-te a desgraça de não mostrares ao que vens, isso vou fazer. O Vítor pode ficar, mas esse Gaspar diz de menos. Salazar dava muito nas vistas, também não. Raspar. Raspar porque é parecido com Gaspar e Raspar porque me raspas o tacho e raspar porque quero que te raspes e raspar porque avisa as pessoas para que se raspem de ao pé de ti. Raspar. Vítor Raspar, o homem às avessas. Ficas assim. Porque eu quero. E agora raspo-me, que estou a escrever isto no telemóvel para apagar ou publicar ou guardar para ler mais tarde e apagar. E já me doem os polegares e isto já vai longo e já tenho a única coisa que queria quando comecei a dedilhar. Agora já te raspei dos meus cem anos de solidão. Durmo em paz, Raspar.
Mandaram-no entrar. Que se sentasse, disseram, ignorando-lhe a mão que havia estendido em cumprimento. Sentou-se. Ele deu-lhe um copo com água e dois comprimidos, um azul e um amarelo. Ela ordenou-lhes que os tomasse. Os comprimidos!, com a água! O Grego resistiu; nem pensar, disse. Demokratía, no pills! Sentiu uma outra presença na sala. Atrás de si. Soube sem virar; era ela. A mulher-Lagarto abriu a boca e todos os vidros se partiram. Em menos de um fósforo, já os comprimidos iam goela abaixo. A seco. Acordou com o coração a caminho de outro mundo. Agarrou-o a tempo e acendeu a luz. Bebeu água. Havia sido só um pesadelo. Só um sonho mau, pensou, mesmo apesar do ataque de tosse que lhe fazia subir algo dos pulmões em chamas. Levou a mão à boca e puxou, puxou, puxou. E outra vez. Liberto, olhou aquilo com medo e repulsa e atirou-o para o lado. Pegou no telefone. Stop Demokratía!, Stop Demokratía!, gritou antes de desmaiar. A um palmo do seu nariz, ainda molhada das entranhas do grego, jazia uma madeixa de cabelo branco platinado.

Voltei lá hoje. Pela primeira vez, desde que vocês se foram. Vi-vos nos mesmos sítios onde vos encontrei nos últimos dez anos. Não senti a vossa falta, que a vossa sempiterna presença não deixou. Estou agora em paz. A morte libertou-vos das maleitas da vida, mas a vida que eram – que são − não se deixou levar pela morte. Enquanto o corpo definhava, aos meus sentidos egoístas que não vos queriam deixar ir, não conseguia ver-vos com clareza. Vocês não me viam com clareza. A morte garantiu-nos a vossa vida eterna. Sem dor. A insuportável dor que sentiam não vos deixava viver, não me deixava recordar-vos. A morte foi o santo, senha e contra-senha da vossa imortalidade. Ainda assim, e paradoxalmente, gostava ter tido a oportunidade de vos beijar uma última vez. Hoje. Mais uma vez. De me despedir de quem já não me reconhecia, sempre pensando se seria a última. São estes os paradoxos da existência, caldeirada de egoísmos e altruísmos. Não há dia em que não faça meus os vossos passos, e estou agora à beira de dar mais um. Para me honrar. Para vos honrar. E ao vosso bisneto. E à minha mulher, com quem me casei há oito anos, mas que vocês nunca conheceram. Embora a vissem amiúde. Enquanto escrevo estas palavras, virado para a Estrela, sinto que não o faço sozinho. Não sei se vos cheguei a falar dos meus Deuses. De como não acredito no deus-pronto-a-vestir que a sociedade nos serve. De como acredito noutro tipo de Deuses. De como vocês lá se incluem. Em vez de um deus-ficção, encontrei-Vos. E a Ela. E a Ele. E ao meu Pai e aos Pais dele, meus Avós. E à minha Mãe. E à minha querida Irmã. E a todos os que me são. Aos meus. Deuses bem reais, que toco, que me tocam a cada instante. Que me ajudam a decidir em cada encruzilhada. Hoje, quando regressei à vossa casa, que afinal não era vossa, que se reduzia à casa de espera dum fim de vida, senti-me em paz. A morte − e demorei quarenta anos a aprender isto – é a nascente da eterna presença. Quando não é precoce, como a vossa não foi (tendo em conta os males que vos atentavam e os anos que já tinham passado desde a primeira luz), a morte é como que um renascer para a vida. Madrinha. Padrinho. Escrevemos estas palavras a seis mãos, pelo que sois co-responsáveis pelo que esta vossa herege criatura diz. No teu desapego do corpo, minha avó, teve o meu pai o bom senso de me censurar as palavras que garantiam não acreditar estares num sítio melhor. Como me é hoje evidente, estás agora lá. Num lugar sem dor. Sem contar com os trambolhões que ele insiste em dar, e que o fazem chorar, continuais a viver no nosso filho – vosso bisneto, minha luz − que a estas horas dorme o sono de quem tem um enorme dever. O de vos continuar. A ambos vos vi sorrir quando lhe deram colo, tinha ele 4 ou 5 dias de luz (e mais tarde, de novo, sempre que lhe pegavam). Despertados do que vos atentava, perguntaram-me se era meu. Disse-vos que sim, embora já antevisse que mais do que meu, aquela imensa luz que dele irradiava, era o garante da vossa Imortalidade.
Amo-vos!
Se fizer parte do Grande Plano da Troika e da...que...le...se...nhor...que...fa...la...ti...po...xa...nax... mudar-nos os nomes para algo mais perto do imenso e eterno e mui racional e sempre igual branco, se isso for bom para o negócio do défice ou para a depressão que vem ou não se vem ou para o superavit da ansiedade que esta imensa ficção exige ou para os mercados poderem voltar a nós ou nós a eles, se for mesmo importante para reduzir o que tem de ser aumentado e aumentar o que tem de ser reduzido, se algo como o Imposto Sobre o Apelido e o Nome Próprio estiver a ser cogitado pelas grandes mentes da pulp-fiction dos anos 50, eu candidato-me já à graça em título -- pagando a taxa devida, pois claro. Às escondidas, vou pedir aos meus amigos escondidos que, às escondidas, me tratem por Artoo-Detoo, com maiúsculas e tudo. Sempre é melhor que nada. Isto até que um deles me denuncie, pois está claro, que a vida não está fácil e os fatos-de-treino brancos andam pela hora da morte.
Não, não brinco com coisas sérias. Não gosto é de ver a minha inteligência e o meu trabalho e os meus destinos insultados a cada dia, a cada hora. A cada respirar do senhor que prefere dar aulas de pé, como que para melhor nos hipnotizar. Dum lado para o outro, poing-ping, como num jogo de ténis falado em slow-motion. Não me convencem que isto é que é, que assim é que tem de ser. Porque, assim como as há jurídicas, esta é uma imensa ficção. Ainda não tive foi paciência para a (des)qualificar, mas nada disto existe, nada disto é fado, tudo isto não passa duma teia cuja aranha se esqueceu que fios não pode pisar. Estamos enrolados numa imensa e perigosa e insinuante canção de embalar, convencidos (persuadidos) que o monstro está debaixo da cama. Se calhar, acabo de publicar isto e entram-me aqui um senhores de metralhadora, por este tribunal onde perco mais uns passos. E levam-me. E apagam-me das fotos. E enchem-me a família de comprimidos que a fará acreditar que aquele outro sou eu. De que mais querem convencer-me? Sou todo vosso! É fartar, vilanagem!
Bem, agora tenho quase de ir. Estão ali a chamar-me. E ainda pelo meu nome antigo, há que aproveitar. Não vou poder rever isto. Ora aí vai... Se eu não escrever mais nada até ao fim-de-semana, não chamem a polícia. Continuemos a fazer de mortos. É capaz de ser mais saudável. E estas camisas que nos puseram, com estas mangas esquisitas e assim compridas, como se fosse só uma, são bem giras. Fazem lembrar os tempos do bibe infantil.
Death in the sickroom, Edvard Munch
voltei de lá. belisquei-me com cuidado ao decidir reentrar - ainda me lembrava como tinha sido havia pouco mais de dez anos. o cheiro da morte. da espera da morte. agora já não. havia de estar toda a gente a rir. havia de ter sido só um sonho mau. dez anos. que seria feito do meu pai, fígado marinado, morto por certo. a minha mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento, entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte, não como ela. ela era. bati à porta. ao de leve. dez anos. morto e enterrado. já tinha passado tempo que chegasse para descerem aquela podridão às entranhas fecundas da terra. para que floresça em malmequeres. bati. nada. bati outra vez. passos. recuei. abriu-se a porta para a escuridão. OU PARA A LUZ. entra, minha filha, olha a vírgula, outra, entra. onde raios te meteste. temos mais que fazer. discurso directo, coisa difícil de ler, ainda para mais num blog, que se quer coisa leve e divertida. vírgulas que avisam que foram e que são.
ENTREI.
carpideiras em cada canto. as mesmas de há dez anos. choramos por dinheiros. xis cêntimos por lágrima. euros por gritos de pesar. o mesmo cheiro nauseabundo. a morte cheira sempre igual. o caixão. ao canto. branco de pesar. que quando o pesar é intenso o esquife quer-se branco e de meio metro. ou ao contrário. será melhor. reformulo. que quando o esquife é branco e de meio metro o pesar quer-se intenso.
olhei para o caixão.
ENTREI.
lá dentro, de onde tinha fugido, havia dez anos, estava eu. morta por enterrar. anã ou bebé. não sei precisar. mas pequena. demasiado pequena para morrer. percebi, enfim, que havia fugido da minha própria morte. e deixado aquelas pessoas paradas no tempo. à espera do seu morto.
POR CHORAR.
Sempre branca de corada. Em menos de dez minutos, soltou e prendeu o cabelo perto de uma centena de vezes e à roda do mesmo em maneiras e feitios. Quando liberto ao vento que não soprava, a cabeça caia-lhe para a frente e depois para trás. Com força. Com demasiada força. Não como se vê nos anúncios a champôs. Teria 20 anos. Talvez 16. Trikinou, bikinou e trikinou de novo. Vezes sem conta. Não monokinou. Mexeu na carteira de ir ao pêssego que destoava no areal, abriu-a e fechou-a. Vezes sem conta. Fechou-a fechada, abriu-a aberta. Quando sincronizada, enfiava uma mão lá dentro. A outra usava-a em concha para esconder o riso que sabia feio. O que lhe havia de acontecer, pensou como pôde. E a cabeça doía-lhe, do hábito que não tinha. Encostou a boca aos ouvidos das amigas, como quem diz coisas; levantou-se e sentou-se e levantou-se de novo. Vezes sem conta. Até à náusea. Sempre com um ar de tédio excessivamente simulado. Procurava-o; assim que o encontrava desfocava os olhos em direcção ao horizonte que todos temos além de nós. Quando se foi embora, as pernas quase lhe fugiram. Um quase que um dia há-de maldizer. Contrariou-as e seguiu as amigas. Parte dela. A pequena e roliça inglesa não voltará a ser a mesma. Daqui a 20, 30, 40 anos ainda pensará naquele nadador salvador. O seu primeiro amor. As fracas pernas a que desobedeceu e que lhe podiam ter mudado a vida. E em como tudo começou e acabou. Um dedo atrevido que ainda hoje lhe percorre o braço. Um papel amarrotado atirado para a toalha de praia. How dru iu dru, draling?
Que o molde não se partiu (julgo que as palavras em título foram usadas por Guerra Junqueiro para definir João Franco). Assim de repente? Quantos fome-negras fazem vida desta forma de vida? Quantos choram lágrimas de crocodilo enquanto os seus NIB correm activos? Quantos novos Fachos hoje comem da mesma gamela em que tanto cuspiram? Quantos homens de preço certo? Quantos sempre do lado certo, sem que ninguém se incomode ou dê por isso? Quantos usam o photoshop para retocar o passado, para retocar a alma? Quantos estão na sombra à espera de vez? Quantos esperam por ver o nome na coluna certa do Diário da República? E até onde descem para o conseguir? Quantos não dormirão, ainda assim, o sono dos justos? Que a praxis é velha, e já não há mal nenhum em andar de código de barras na testa?; e burros são os outros! Quantos?
Depois... Depois de criar o seu paraíso no deserto, qual deus menor com a mania das grandezas, o Silva morreu. A estufa lá ficou, anos a fio. Abandonada. E foi então que aconteceu. É fácil zombar das regras da natureza, munido de lápis e papel, inventando estórias num banco de jardim.
E as flores? Morreram todas. Ou melhor, salvaram-se as que se adaptaram à nova realidade. Mas essas não eram bem flores, daquelas que aformoseiam esquifes. Sem água e adubos, sobreviveram algumas, feitas mutantes, espécie de náusea dos sentidos. As árvores? Salvaram-se as de raízes revoltas e manhosas. Iguais àquelas que, diz quem sabe, fazem parte do jardim da legião dos seis mil. Abelhas? Desprezaram o mel e passaram a produzir fel. Aguçaram ferrões e, por Azazel - antes de este engenhar os cremes para a casca humana -, mataram-se umas às outras, divididas em clãs. Mataram-se e reproduziram-se (outra espécie de morte) e aliaram-se e firmaram pazes podres. Fizeram pela vida, como os bolores humanos fazem. Para melhor terem uma ideia da estufa do Silva, deixem-me que vos conte dos vidros partidos, dos cheiros nauseabundos vindos directamente do nosso inferno. Da confusão desassisada (dos sentidos). Há, porém, quem diga que como que num formoso devir. E depois… depois foi isto. Isto. Isto. Isto. Isto.
Clique na imagem (uma word-cloud das palavras que mais usei) e dê uma vista de olhos no que de menos mau (o critério é, obviamente, meu) fui escrevendo pelos tempos e lugares da minha blogosfera. Esta actualização (a última já era velha de um ano) é dedicada ao António. Apenas porque me apetece, voltarei a publicar, aqui mesmo, um a um e do primeiro ao último, os textos supra amarrados. Interromperei esta espécie de auto-plágio que cometo, no dia em que consequir voltar a escrever. No entretanto, entre as velharias republicadas, continuarei a escrevinhar sobre a espuma dos dias.

Vivo nas alturas; não por causa da Estrela que me encima e observa de frente, mas porque o peso do litoral me eleva e quase afoga. E, literal e negra gravitas, o resto da semi-jangada de pedra alteia-se e rebaixa-se, tamanho é o peso da estrutura litoralista. Tudo o que se passa além litoral, não se passa. Lisboa e Porto. Braga e Coimbra. Chelas... Não me identifico com um país que nos olha − me olha − como um espécie de ultramar do tempos que podem. A expressão “pretos da Guiné” ainda troveja. Simplesmente, não contamos. Pois que se todos somos pastores. As vacas que pastoreamos valem meia-súcia de representantes na deífica capital. O cabeça de lista do PSD em Castelo Branco é um gajo que conhece bem a realidade beirã. Nasceu nos Açores. O do PS é um pára-quedista chamado Sócrates – parece que viveu por aqui. De porém em se – quando lhe dá jeito -, usa isso como apostilha biográfica. Sócrates é a nossa metáfora. Somos uma nota à margem neste vosso Portugal, demasiado pequeno para divisionismos ridículos. Direis… Assim não digo eu, que o cansaço dá em dor, a dor em revolta, a revolta em cansaço. E assim por diante. Cansei-me de ver a minha A23 comparada a uma daquelas A´s não-sei-o-quê do Norte que deixaram de ser scuts. E tão revoltados que eles estão, que passaram a ter apenas sete alternativas e meia. Já nós, sem A23, temos uma alternativa viável, sim. Partindo do princípio que a A23 foi quase toda construída em cima dum IP, a alternativa desobstruída chama-se mandar este pais bardamerda, que Espanha e os “assustadores” 20% de desemprego ficam ali ao virar da esquina. Cáceres, Badajoz, Salamanca estão-me mais próximos do que a vaidosa e arrogante e árida Lisboa, terra que aos 18 amei e aos 30 odiei. Agora, com quase 40, fujo dela como − asseveram-me a fidelidade metafórica − o diabo foge da cruz. O único PIB que me interessa, hoje por hoje, seria um Partido do Interior Beirão. Hilariante, não? Meia dúzia e meia de deputados elegíveis, assim mesmo, daqueles que Sócrates à parte, se sentam na fila dos mudos. Em 1, 2, 3, segundos, digam-me… Quem é Costa Neves? Google it e gozem-nos. E à suivre, por entre as gargalhadas de quem vive a 10 kms de Lisboa e demora três hora a lá arribar. A ver vamos, que o enfado é grande e o pessoal não é assim tão pouco. E afianço-vos, daqui a Viseu, de Viseu a Portalegre, da Guarda a Beja, demora-se menos tempo do que de Ranholas ao Rossio. E daqui a Espanha, então, é um saltinho. Olivença é deles!
(arquivo)
Não pense mais nisso; lembre-se que o subsídio de desemprego está a acabar, que tem o banco à perna por causa do atraso no pagamento das prestações do mútuo da casa, a milagreira do crédito fácil por causa do plasma que comprou em quinhentas prestações, o outro banco por causa do BM importado, o seu pai por causa do autógrafo que você pediu ao seu avô no verso daquele papel que afinal era uma livrança (bom para aval não é uma marca de vinho, seu sacana). Lembre-se também que você é realmente um miserável, que é essencialmente por causa de pessoas assim, devedores relapsos e que fazem disso ofício, que o país está como está, que as empresas se afundam e que com elas se afogam outras. Lembre-se que, por causa de gente como você, há trabalhadores (gente que realmente trabalhava e poupava) que estão também no desemprego; por causa das tais empresas que você, Legião, ajudou a levar ao buraco. Lembre-se disso tudo, deixe lá o Benfica ou o Sporting ou o raio que o parta, venda o plasma, dispa o fato-de-treino e arranje uma vida ou vá sentar-se num banco de jardim. Aquelas quatro pessoas lá dentro, enfiadas naquele cubículo, são os seus três filhos e a sua mulher, a mesma a quem você pregou dois estalos quando o jogo acabou. Reze para que ela amanhã não decida arranjar um advogado que garanta forma de lhe fazer a vida (a si, bem entendido) num inferno. Já eu, que não rezo, rezo para que ela ganha juízo e faça duma vez o que tem de fazer. E que lhe arranje uma vida bem negra. E olhe, embora gente como você, que aqui se vê retratado, me dê vómitos, apenas lhe desejo que arranje forma de não estropiar mais este país. O Governo?, sim, tem uma parte grande da culpa, sendo a maior o ter permitido que um verme como você tenha recusado trabalho atrás de trabalho, enquanto andou dois anos a mamar na teta do Estado. Mais uma coisinha! Quando um seu amigalhaço lhe arranjar um biscatezinho em forma de tacho numa qualquer "função pública", lembre-se que não pagar a pensão de alimentos aos três infelizes que ajudou a colocar no mundo é crime. Este post aborreceu-o? Se foi só por ter utilizado a derrota do Benfica como mote, deixe-se disso; o futebol não é para aqui chamado e a carapuça não lhe serviu. Caso o motivo do aborrecimento esteja relacionado com algum espelho que por aqui viu, olhe, vá-se habituando, que é assim que a sociedade deve olhar para gentalha como você. E acredito que assim passará a ser.
(arquivo)

Neste dia especial vou dizer(-te) de ti.
Do quão diferente seria o mundo – e não só o meu – sem a tua caldeação sanguínea, o teu rigor irracional (da razão como em a cruz do homem), sem o teu sentido de justiça, a tua fúria de viver com e para os outros. Seria um mundo menos mundo, um mundo com pouca pegada – menos mundo, mais imundo.
Mas há uma parte de ti que me assusta de morte – vou falar um pouco desse fajuto acabamento, neste dia em que se celebra a vida. É que, como toda a gente sabe, à primeira luz dão-nos carga para cem anos. Pelos usos e abusos, poucos a aproveitam até ao fim – mesmo porque nem tal é saudável. É como que um jogo movido a pilhas. Se jogares muito, a carga dura menos; se jogares pouco ou nada, a carga dura os tais cem anos (e a vida tem piada nenhuma, porque não serves o propósito – algo como comprar pilhas e emoldurá-las). Heróis há, como o Adriano – acho que já te falei dele –, que engendraram modo de enganar o deus das pilhas. Recarregam-se, os gajos; vão a cem para além dos cem. Eu, tu, ele, nós, vós, eles – a malta, sabes?! – não aprenderam o truque. Nascemos sem tal dom. E gastam-se. A bateria vai diminuindo mais depressa do que os anos para que vinha carregada. Alguns, a cem, chegam a morrer pela idade do cristo. Têm essa insalubre moda-mania, desinteirados de que a cem – sem o tal truque dos predestinados – não se chega aos cem.
Lembras-te do Auden? Agora imagina o mundo todo – todo o mundo – sem o ladrar dos cães, sem o som do piano, sem norte, sem sul (ou com ambos avessados). Imagina o mundo, minha gaja, sem a linha do horizonte até onde nadas e nos levas contigo. Imagina um mar vertical que chove trovões no focinho do mundo que sobeja. Um i-mundo. Imagina um mundo onde todos temos cem amigos íntimos e os amamos a todos muito muito muito. E se fazem muitas festas e “recepções”. Um mundo de gravata cinzenta onde os autocarros só fazem a carreira um. Porque vão todos ao mesmo, fazer a mesma coisa, à mesma hora. Imagina um mundo insubstancial, cheio de sombras de vidas informes. Um mundo onde não se fode, um mundo de genéricos-humanos, onde a luz do sol não se distingue do brilho da luz que nos faz uivar à lua.
Imagina, querida, um mundo faz-de-conta. Cheio de tachas arreganhadas, sorrisos resplandecentes. E aquela gravata cinzenta sempre lá. A enfeitar a máscara do viver.
Falei da morte. Nada a ver connosco. Nada a ver contigo. Falo da vida agora, do primeiro dia do resto nas nossas vidas. És a prova de que Machado de Assis se enganou ao escrever: “Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."
Nenhuma das tuas novas edições é uma errata da anterior – é antes uma nova edição aumentada e afortunadamente não-revista, editada por ti para nós. E a última, a dos cem anos, não vai aos vermes. Vai antes resfolgar no panteão orgásmico e gritante dos que da lei da morte se libertam, dos que dão e deixam de mamar ao mundo (leite, sémen, sangue, seiva, suor, saliva, lágrimas, ranho) e o mantêm digno. Daqui a cem anos, não precisarás de te armar de mitológico olho-palado e de braço solitário para, por entre as ondas, salvar a tua memória. Seria algo tão inverosímil como eu não amar o meu filho ou a minha mulher. És como um acidente nuclear em bom; deixas, por centos de anos, rasto – pegada! – de vida nas vidas por onde passas, por onde explodes, por onde erras e acertas. Como que um fiel da balança universal. Assim és, como o parafuso essencial ao rio que corre.
Daqui a cem anos. Aqui!
(também aqui)
PS - Afinal, sempre consegui escrever sobre ti.

Lembro-me de ti todos os dias. Hoje calhou lembrar-me da resposta que me davas quando te perguntava o que havia para comer. Línguas de perguntador, respondias. E eram sempre boas, as línguas, viesse carne ou peixe. Hoje comemos castanhas assadas e lembrei-me do teu caldudo (que não levava nem leite nem acuçar). Tenho tantas saudades, meu amor. Na minha memória nunca estarás como na imagem que propositadamente esbati (à medida do que acharias razoável) para dar ao mundo. Quero mostrar-te e continuar a mostrar-te, pese embora haja para aí uns idiotas que acham que devo dar-te ao mundo pela bitola deles, o que equivaleria a não te mostrar (não ponho link em "idiotas" porque há pelo menos uma pessoa com quem estaria a ser injusto. Ela, que tem as mãos do teu bisneto, sabe quem é. Os restantes, como dirias, são uns reiródes. Por acção, e neste particular lembro-me dum certo inerte, atrelado de uma rapariguitazita, que me tentou explicar que não se sofre em público, ou por omissão - nestes incluem-se os charepos, gentes que querem estar bem com deus e com o diabo, e os seres que se estão a cagar ou que se acoitam no direito ao silêncio). Ensinaste-me o mau-feitio, que veio brindado com o não calar, com o não perdoar o que não tem perdão (que quem rasteira uma vez mantém a perna alçada). Bembondam os tempos da outra senhora.
(também aqui)
"O Estado é uma Pessoa de bem".
Nunca nem uma, nunca nem uma, para cima, para baixo, há um corredor feito de árvores que se encontraram, arranha as pernas passar ali, entre a minha casa e a tua, e levo ali, ali, quem gosto, gosto muito, e passo as minhas pernas pelo corredor ameaçado ou ameaçador de ramos que cortam, dou uma risada e digo não tenham medoe chego à tua casa em cima da minha, tão bonita a vista, todos dizem isso, minha querida, e eu falo sobre a C., e eu falo sobre o meu avô, muito encarnado, muito aflito com a perda de tempo: despachem-se, são sete e meia da manhã, que tarde que é, a esta hora tanta coisa que poderia ter sido feita, e figos comidos inteiros, sem cuidar de os cortar em quatro, tudo por uma gargalhada, um cancro a matar o meu avô, naqueles tempos eu acreditava em Deus e acreditava em sacrifícios: avô, meu anjo, um Verão inteirinho sem comer gelados e a outra um Verão inteirinho sem comer bolos da Piriquita.
O meu avô morreu e parecia-me vivo quando o abracei, ainda tão ruivo, tão encarnado, tão irlandês, tão pronto a pegar num avião pequeno e a deslizar por baixo da Ponte de Vila Franca: suspenso. Letras e letras sobre ti, ainda cheiras a alfazema, cheguei a escrever, sei o que não escreverei sobre ti, mas não entendo porque não escrevo uma vez que seja sobre ela, aquela criança que me foi a primeira morte. Passava então pelo canudo de ramos que ferem até hoje as pernas, ontem as minhas pernas canivetes, hoje as minhas pernas estas, as dos meus amigos, os de agora, os que não chegaram a lá ir, que pena que tenho, que sinto, que pecado venial mortal, tudo isso, que pecado perder um amigo, perder um amigo que nunca fiz ver aquilo, um castelo que ladeia a lua a nascer cai sobre nós, em baixo a vila. À esquerda o mar, musgo, musgo, musgo, e o cheiro, o cheiro, pode ter-se medo de tudo, sobretudo de se amar, mas nunca de se cheirar, é tanto o cheiro e eu nunca falei daquela morte, para quem não havia uma dança para uma esperança, era só uma prima que vivia comigo no Verão, tinha mais seis anos do que o meu corpo, parecia-me grande, uma mulher de 13 anos.
Era loira e tocava viola e doía-lhe a perna e um dia a dor da perna era um cancro, um cancro antes do do meu avô, e todos nós vimos a menina tocar viola sobre duas pernas, depois sobre uma perna, sorrindo sempre, tocar viola sem cantar, um dia, rouca de vomitar à noite, cansada de não respirar, uma fita na cabeleira e uma menina careca sem o ser, um dia caí e com toda a força dos meus 7 anos espalhei-me em cima do que restava da perna dela. Lembro-me de parar de respirar quando vi a minha prima transformada no verbo dor e quis morrer de culpa e quis chorar até me diluir enquanto as crianças em redor gritavam comigo. A minha prima espetou a dor num lugar desconhecido e do alto dos seus 13 anos deu ordem de silêncio a todos dizendo que estava tudo bem, que nada sentira, assim, sem que o seu corpo tivesse espaço para tanta dor.
Um dia foste embora das nossas casas, eu não entendia nada, não sabia de um Deus que nos levasse uma menina, uma filha de alguém, uma prima, uma criança que tocava viola e que dizia ser cool ter perdido a perna porque assim usaria jeans para sempre – morte às saias!
Há uma estrada de saibro, em Sintra, há, havia, há, e nós e os pinhões e chegava uma carta tua, e a carta era sempre um sorriso e na última rabiscaste aquele dito: sorri, ainda que o teu sorriso seja triste, porque mais triste que um sorriso triste, é a tristeza de não saber sorrir.
Tinhas 13 anos e morreste sufocada, sem ar, e martirizada pela dor. Sorrindo. Nunca escrevi uma linha sobre ti. Lembrei-me de ti quando o meu avô morreu, e agora por tanta gente. Mas hoje lembro-me de ti porque hoje a menina de 13 anos que não podia ir ao mar e jogava às areias comigo no toldo faz quarenta anos. Têm-me dito assim: a Inês faz 40 anos. Não me dizem que faria. Ando atrapalhada. Tens sempre treze anos. Na minha cabeça, tens sempre treze anos e, tal como aconteceu com a C., foi difícil perceber que um dia seria mais velha do que tu.
Trazemos a você boas notícias dos cartões master e...
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