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Vítor Raspar, o homem às avessas

por Rogério Costa Pereira, em 23.11.11

Imagino que não estejas a par, Vítor. Há um livro-talvez-O-Livro onde, diz a lenda -- uma lenda sobre um livro vê lá tu --,... onde, toma atenção, é impossível contar os muitos Aurelianos e Josés Arcadios que por aqueles cem anos vão passando. Não serão exactamente cem -- não sei se me estás a acompanhar, Vítor --, cem anos de solidão é o nome de um livro, Vítor. Os muitos Aurelianos e Josés Arcadios, é disso que falo, Vítor, são eles os muitos que vão passando e que não é possível contar. Dizem...!; que eu nem tentei nem tentarei, apenas o li. toma atenção e não te distraias, detesto repetir as coisas. É de um homem, o livro, um colombiano, Esse Homem, chamado Gabriel, talvez seja mesmo o Livro do Homem ou o Homem do Livro, dependendo de quem olha o quê e de onde. Vítor ou Victor, que não sei se aderiste ao acordo ortográfico; o acordo, Vítor ou Victor ou Víctor, e levarás acento, raio de nome complicado tens, o acordo é uma coisa que nos obriga, assim como tu, a fazer coisas que não queremos fazer, por exemplo, escrever espetador, assim como quem espeta, em vez de espectador, assim como quem assiste. Mas perco-me, homem, queria era falar-te de Úrsula, mãe do primeiro Aureliano e do primeiro José Arcadio. Úrsula. Às tantas, já a coisa ia nos bisnetos, acho eu, se calhar mais, que a Úrsula já era centenária. Às tantas, havia uns gémeos, os tais bisnetos ou mais, que eram Segundo e Segundo, respectivamente, Aureliano e José Arcadio de primeiros nomes. Bem, Vítor -- ficas Vítor, que és um tipo moderno, Vítor --, o que se passa é que a Úrsula, tantos tinha visto, filhos e filhos de filhos e filhos de filhos de filhos. Ora Aureliano ora José Arcadio ora José Arcadio ora Aureliano. Com uma ou outra adenda, mas sempre com aquelas graças a picar o ponto. E aprendeu, por tanto e tantos ver e criar, que os Aurelianos saíam sempre assim e os Josés Arcadios saíam sempre assado. Agora volta lá atrás, aos gémeos, ..., já está, eu continuo. Os de último nome Segundo que de ordem eram bem mais -- para teres uma ideia, o Aureliano Segundo chamou José Arcadio ao filho --, os gémeos, baralharam-se e deram de novo e baralharam-na e às tantas já parecia que nem eles sabiam quem eram. E isso desgostava a Úrsula e a mim também, que gosto da Úrsula. O nome de um homem-filho, à Úrsula, dizia-lhe tudo do futuro que o perseguiria. Quem ele ia ser. Mas, e chego lá agora, ao lembrar-me desta história simples de bela lembrei-me de ti. E não gostei nada. Não te quero misturado com os meus cem anos de solidão. Nem com o simples de belo. Mas lembrei-me, essa-é-que-é-essa. Por causa dos homens de quem o nome diz tudo e por causa dos gémeos que de tanto se fazerem passar um pelo outro, às tantas -- julga-se a páginas tantas --, se baralharam a eles mesmos.

Homens que não sabem quem são e por isso são como são.

Homens de quem o nome diz nada.

Quanto à primeira questão nada posso fazer, bem vês. Quero mesmo que desapareças, que és do pior que vi. Pior como em mais mau que mau, sim. Tenho más sensações quando te vejo. Pareces um homem às avessas. Virado de fora para dentro e de dentro para fora. Às avessas. Não és o pateta que pareces e tens agora ar de quem veio para ficar muito tempo. E isso assusta-me, percebes? Quando falo de muito tempo falo mesmo de muito-muito tempo, ficar além do tempo que te está reservado pelo que é. O Coelho mandar-te embora e tu ficares. Esse tanto tempo.

Quanto ao nome, nada a dizer; é chamar-se de gente normal. Fora do livro, as coisas são mesmo assim. Os nomes nada dizem das pessoas antes de as conhecermos e de passarmos a não gostar daquele nome apenas porque não gostamos daquela pessoa. O teu nome não diz nada de ti, não diz ao que vens. Se te chamasses Adolfo Salazar eu ficava de pé atrás. Não imaginas o Coelho a escolher um Adolfo Salazar para Ministro das Finanças. Pois. Bem, vou mesmo mudar-te a desgraça de não mostrares ao que vens, isso vou fazer. O Vítor pode ficar, mas esse Gaspar diz de menos. Salazar dava muito nas vistas, também não. Raspar. Raspar porque é parecido com Gaspar e Raspar porque me raspas o tacho e raspar porque quero que te raspes e raspar porque avisa as pessoas para que se raspem de ao pé de ti. Raspar. Vítor Raspar, o homem às avessas. Ficas assim. Porque eu quero. E agora raspo-me, que estou a escrever isto no telemóvel para apagar ou publicar ou guardar para ler mais tarde e apagar. E já me doem os polegares e isto já vai longo e já tenho a única coisa que queria quando comecei a dedilhar. Agora já te raspei dos meus cem anos de solidão. Durmo em paz, Raspar.

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publicado às 02:37


8 comentários

De António Filipe a 23.11.2011 às 10:19

Rogério, os seus textos tocam-me sempre. Nem sempre comento. Umas vezes porque não me apetece, outras porque não tenho palavras. Este apeteceu-me comentar, mas faltam-me as palavras. Só um gesto: um abraço.

De Luis Moreira a 23.11.2011 às 11:36

o Vitor "raspar" esta é de primeira!

De Rogério Costa Pereira a 24.11.2011 às 18:16

No que me toca, Raspar ficará.

De Rogério Costa Pereira a 24.11.2011 às 18:09

Obrigado pelas suas palavras, Filipe. Obviamente, são-me preciosas.

De Francisco Clamote a 23.11.2011 às 16:05

Simplificando: faço minhas as palavras do António Filipe. 

De Rogério Costa Pereira a 24.11.2011 às 18:11

Obrigado, Francisco. Por acaso, quando o escrevi temi que estivesse demasiado enrolado. E, ainda que não esteja livre desse pecado, até se lê razoavelmente. E continua a fazer, hoje (que há 2 dias é há muito tempo) sentido.

De António Leal Salvado a 24.11.2011 às 02:43

Pois é, Rogério... A gente (esta gente sou eu, no caso) mastiga, digere e assimila um naco de prosa desta e no final sente-se mesmo às avessas.
O normal seria a gente ler o comentário do Luís e concordar, depois o do Filipe e assinar por baixo - mas, digo-te sinceramente, eu fui bafejado por mais feliz aragem: carregando de vontade 50 dos teus anos de solidão, não dei pelo Vitor - só me via diante do Gabriel, levado pela mão da tua pena. 100 anos, que é pouco tempo nos monumentos da História, é lonjura bastante para a gente se aperceber de que há História. É o que basta para que o Gabriel nos empurre para a frente e deixe lá para uns 99 anos atrás a verdadeira importância de uma raspadinha que saíu jogo branco. Mesmo sabendo-a terminação de uma lotaria negra. Mesmo sabendo a lotaria da cor da vida de 10 milhões de 100 anos merecedores de outra claridade. Ou talvez por isso mesmo. 10 milhões, Caríssimo Rogério, são um elefante, à vista de uma víbora que lá por baixo rasteja por falta de patas, engole por falta de dentes, ataca apenas quando sente a vítima frágil, e morre por falha da espinha dorsal. É que ao elefante basta preparar a passada seguinte e dar largas de justiça a uma - basta uma só - das suas possantes patas.
Havemos, tu e eu e metade de 10 milhões de injustiçados mais outra metade de 10 milhões justiceira, de ver o elefante bater a sua pata e assistir ao final da fábula. E escrever muitos poemas feitos de outra leveza. Da leveza que a História nunca se dispensa.
Toma um abraço, Companheiro!

De Rogério Costa Pereira a 24.11.2011 às 18:16

Nós, António, falamos lá em cima no post em que resolveste destacar este. Mas não agora. Que quero ler novamente o que me dizes. Provavelmente, para te dizer que a amizade te faz exagerar os sentires que o meu post te deu. Certamente, para te afiançar que o companheirismos, este nosso, é para a vida. Toma lá também um abraço, amigo. 

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