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O homem errado no lugar errado

por Rogério Costa Pereira, em 27.03.09

Salvo erro, nunca por aqui falei de Marinho Pinto e da forma como este conduz os destinos da Ordem dos Advogados. Salvo erro, porque é natural que alguma vez a resistência tenha pecado por escassa e a caneta tenha acabado por pingar - tantas foram as ocasiões em que me apeteceu dizer algo sobre quem, em demasiadas ocasiões, não conseguiu ficar calado em situações em que tal se impunha; não perdendo de vista que, goste-se ou não (eu não gosto e espero que Marinho Pinto também não), sempre que aquele homem fala, fala também o Bastonário da Ordem dos Advogados.


Tenho de Marinho Pinto a imagem de um homem de metralhadora a disparar em todas as direcções. Com tantos tiros dados, alguns hão-de acertar o alvo – questão de probabilidade estatística (imaginem-se de G3 naquelas barraquinhas de tiro aos patos - é inevitável que alguns tiros saiam certeiros). Nestas rajadas mediáticas a que o Bastonário é dado, acaba pois por ser natural que, mais do que uma vez, todos nós tenhamos concordado com as opiniões manifestadas (o tipo de caudal torna impossível que tal não aconteça).


Porém, no reverso da medalha vê-se a porca a torcer o rabo. Por mais que o Bastonário acerte, os danos causados pelos inúmeros tiros ao lado, tiros na água se quisermos mudar de jogo, são demasiados para poderem ser desculpados ou, ao menos, vistos como colaterais necessários a um fim que justifica os meios.


Desde logo, desconheço o fim, a finalidade, os reais objectivos de Marinho Pinto, ignoro completamente, e francamente até ao fim do mandato nem quero saber, se tem uma agenda própria, supra ou lateral ao cargo que detém - nem quero ir por aí. O que me incomoda deveras é ver o Bastonário, que também é o meu, a fazer supostas revelações bombásticas no Boletim da Ordem, ali abordando temas completamente estranhos aos desígnios da Ordem, que nada a favorecem, e que caberiam melhor em páginas de jornais sensacionalistas – veja-se, a este propósito, o título da capa de Abril que ao lado reproduzo: “CASO FREEPORT – Carta anónima que incriminou Sócrates foi combinada com a PJ”. Como exemplo e para que melhor se entenda o que era e para que serve o dito Boletim, pegue-se nas edições de Março-Abril, Maio-Julho e Agosto-Outubro de 2005 (na altura a peridicidade era bimestral) e vejam-se as chamadas de primeira página: respectivamente, “Novo Estatuto – Novas regras profissionais – Entrevista com António Vitorino”, “Férias Judiciais – Entrevista com Mário Raposo” e “A Reforma do Estágio – Entrevista com Rui Medeiros”. A aparente nova missão do Boletim não passa, claramente, de um equívoco de monta.


Como apropriada ilustração de tudo o que acabo de dizer, veja-se o caso do mais recente artigo de Marinho Pinto, que dá título à já referida edição de Abril, artigo que se diz ser de opinião, quando manifestamente não o é – se bem o li e entendi, ali são revelados factos que em muito extravasam o conceito de mera opinião. O artigo de Marinho Pinto consubstancia-se numa espécie de artigo de jornalismo de investigação a la Felícia Cabrita, ainda que em sentido inverso.


Independentemente da bondade da investigação e da fidedignidade dos factos ali tratados e relatados (sobre os quais não me pronunciarei), custa-me demasiado ver o Bastonário a assinar um artigo onde, para além de se abordar de forma crítica um processo judicial pendente,  se refere, nomeadamente, que «a ideia da carta “anónima” parece ter surgido num contexto de encontros e reuniões entre inspectores da PJ, jornalistas e figuras políticas ligadas ao PSD e ao CDS» e que «Papel importante nessa reuniões parece ter tido também um individuo de nome José Maria Belo, que costumava ir à caça com Elias Torrão, já que terá sido por seu intermédio que este inspector da PJ organizou os encontros com Armando Carneiro, Vítor Norinha e Miguel Almeida» [meus sublinhados].


“Parece”, “parece”, “terá sido”?


Dores à parte, e as minhas são pouco mais que irrelevantes, termino como faz Marinho Pinto no artigo que faria melhor figura noutra publicação e assinado por outro indivíduo: «Uma coisa é certa: este tipo de situações não prestigia a justiça e, sobretudo, não dignifica o Estado de Direito Democrático nem as suas instituições mais relevantes». Mutatis mutandis…


A Ordem dos Advogados ainda é uma instituição relevante do Estado de Direito Democrático e artigos deste cariz nada fazem pela sua preservação como tal. Sinto-me particularmente à vontade para escrever e assinar este post porque também eu aposto na existência de uma campanha negra contra Sócrates.


A razão deste desabafo é manifestamente outra.

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publicado às 17:53


30 comentários

De j a 27.03.2009 às 18:20

Quando comecei a ler o seu post, logo fiquei com a ideia de que aí vem mais uma oportunidade para "malhar" em si, pois, confesso, que o seu propósito seria que a substância do artigo seria do seu agrado.
Complexo meu, decerto por mossas antigas.

Folgo em concluir que me enganei, mais, ainda que a substância fosse do seu agrado, não é isso que releva no que o Rogério escreve.
O Boletim da OA não deve ser, de facto, o campo de tiro do bastonário, por analogia ás metralhadoras.

Assino, portanto, por baixo o que escreveu.
E como disse Carlos Vidal, num comentário aí para baixo, devo "parabenizá-lo”.

Nota:

Acho que não se escreve "parabenizá-lo”, pelo menos assim diz o corrector do word do meu computador, mas também o Carlos Vidal é artista, pois se desculpa o “?” desfasado do texto.

E se o meu computador também não tem razão, afinal, já tem quatro anos e não se compara a um Magalhães.

...
A propósito, estou aflito por conseguir uma bateria para o meu TravelMate 290, por acaso, se souber diga onde posso encontrar.

De lili a 27.03.2009 às 20:37

parabenizar, v. tr., Brasil,
apresentar os parabéns a; felicitar.
http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx

De lili a 27.03.2009 às 20:38

E que justificação tem a revista para tamanho dislate?

De Rogério da Costa Pereira a 27.03.2009 às 20:41

Digamos que eu não serei a pessoa indicada para lhe responder.

De lili a 27.03.2009 às 20:53

Pois, eu também estava a pensar para com com as minhas teclas.

De Ana Matos Pires a 27.03.2009 às 21:01

Já tinha dito há uns dias que, com grandes probabilidades, o cargo de bastonário faz mal aos neurónios, só pode.

De Ana Matos Pires a 27.03.2009 às 21:04

Ao lado, Rogério, desculpa lá, mas aquela coisa do Rogério Alves tratar o Marinho Pinto por meu "querido bastonário", agorinha na SIC, é irritante até dizer chega.

De Rogério da Costa Pereira a 27.03.2009 às 21:40

Ó minha querida co-blogger, com a devida vénia e se me permites, minha querida querida querida: que é que eu te posso dizer? :)

De j a 27.03.2009 às 22:06

E quanto à «bateria para o meu TravelMate 290»?

De Fernando a 27.03.2009 às 22:34

O que MP escreveu não é uma mentira. Denunciou o modo como,muitas vezes, a Polícia orquestra uma denúncia. Devia fazê-lo, não o devia fazer? Na revista da Ordem, não? No Expresso, sim? Eu, que não gosto nem concordo com o homem, agradeço-lhe, agora, todo o barulho que criou. Se um candidato a primeiro-ministro pode ser objecto de tal procedimento, o que não acontecerá a qualquer outro cidadão? Ou cigano? Num país sóbrio, o Procurador-Geral, ou o Ministro da Justiça, se ainda o houvesse, já teria determinado um inquérito sobre a existência de tais práticas. É evidente que o homem está a dar cabo da Ordem, mas essa é outra ordem de razões.

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