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Continuemos a fazer de conta

por Rogério Costa Pereira, em 09.02.09

Mário Crespo faz de conta que escreve uma crónica, que é o mesmo que dizer que faz de conta que comenta factos da actualidade.


Comecemos por fazer de conta que Mário Crespo sabe tudo o que se passou no caso Freeport, que não mistura a gosto tios e primos, sobrinhas e sobrinhas. Que não recorre ao folhetineiro estilo “vocês sabem do que é que eu estou a falar”.


Continuando a acompanhar o estilo e a metodologia da mistela feita crónica, façamos de conta que o pregão onde Mário Crespo pretende fazer de conta “que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo” jamais poderia ser proferido numa feira, conjugado num “ó freguesa dois pares de cuecas pelo preço de uma; e a Universidade que licenciou José Sócrates está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo”.


Façamos ainda conta que tirar um curso numa universidade que “está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo” é, também por si, um caso de polícia. E que todo este fazer de conta de Mário Crespo quer dizer alguma coisa, que é afirmação contextualizada, com alguma espécie de substância, que não fica no ar uma espécie de conclusão que não chega a ser retirada. E aqui chegados façamos de conta que o inconclusivo não é propositado.


Façamos de conta que fazer de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês é arrasador para o destinatário. E que não há má fé na piadola e que a piadola ainda não chegou à tasca.


Façamos igualmente de conta que Mário Crespo sabe do que fala quando nos aconselha a fazer de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral. Façamos de conta que ignoramos as demais considerações que o neófito entrevistador de horário nobre tece a propósito da entrevista concedida por Freitas do Amaral. Façamos de conta, para isso, que Mário Crespo foi ao fundo de questão, que analisou quês e porquês, que estudou o assunto - que procurou, encontrou, comparou e concluiu. O que fez de conta que concluiu.


Façamos de conta que os media nada têm a ver com todo este mundo do faz de conta e que alguns jornalistas não escrevem crónicas como a que Mário Crespo deu à estampa, com elas contribuindo para tanto faz de conta. E, porque não?, façamos ainda de conta que uma mentira repetida à exaustão não tende a transformar-se numa verdade.



Façamos de conta que misturar o enjoativo "Magalhães", as declarações do director do Sol e a existência do SIS não dá origem a uma mixórdia que só desacredita quem a assina.


Façamos de conta que Mário Crespo não recupera também a falsa questão do relatório da OCDE que afinal não o era. E façamos de conta que ninguém percebeu que o dito “caso” não se reduz a uma monumental gaffe política e que o Governo pretendeu mesmo tirar dividendos duma pantominice gerada por negligência.


Façamos de conta que faz sentido trazer novamente a terreiro as afirmações de Jorge Coelho e de Augusto Santos Silva – e aqui façamos igualmente de conta que eu aprecio as personagens. E façamos de conta que invocar, neste ponto, o que o carniceiro Nazi Klaus Barbie terá dito, à laia de comparação, é coisa para ser levada a sério. Dita por gente que quer ser levada a sério.


Façamos de conta que o que Mário Crespo diz acerca dos bastidores da entrevista com Pedro Silva Pereira não é dito por um jornalista. E façamos de conta que Mário Crespo nunca recebeu outros telefonemas de tão grave teor.


Façamos de conta que entender como Mário Crespo entendeu a suposta comparação entre o Caso Freeport e o Caso Dreyfus não é “infinitamente ridículo e perverso”. E que é de bom tom chamar os bois pelos nomes.


Façamos de conta que Sócrates é responsável directo pelos buracos da minha rua. E façamos de conta que é ele o responsável pelas indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Porque temos provas disso. E façamos, já agora, de conta que essas indagações vão além de meras indagações procedimentais.


Façamos de conta que a entrevista dada pela procuradora Cândida Almeida não foi um momento ímpar, um precedente a ser seguido e invocado, nas espinhosas relações entre a comunicação social e Justiça. E façamos de conta que é correcto traduzir essas declarações por “sequência de entrevistas do Ministério Público”. Façamos de conta que não se é preso por ter cão e preso por não ter. Que a relação entre a Justiça e a comunicação social não tem areias na engrenagem, que esta nunca as invocou para malhar no segredo de justiça, e que colocar um pouco de óleo no mecanismo não é agora passível de crítica.


Façamos de conta que não é normal o Presidente da República chamar o PGR nas circunstâncias em que o fez. E façamos de conta que algo que mexe com os órgãos de soberania não é assunto de Estado, sem que daí possam ser tiradas outras conclusões.


Façamos de conta que a alusão ao funcionamento da democracia, a Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos e Kabila não fica ali a matar e que foi proferida no calor da rítmica. Aqui chegados façamos de conta que no pasa nada, que todos podemos dizer o que nos der na real gana.


Se fizermos estes de conta todos, teremos uma crónica séria, circunstanciada, de argumentos sólidos. Coisa sem segundas intenções, um momento feliz. E neste caso, ser entrevistado por Mário Crespo não voltará a ser uma obrigação.


E será caso para dizer: parabéns, Mário, essa foi bem esgalhada.


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publicado às 17:25


23 comentários

De Valupi a 09.02.2009 às 17:35

Muito bem, Rogério. Já agora, aproveito para fazer coro contigo quanto ao valor, à disrupção, da entrevista de Cândida Almeida. Os que a atacaram preferem a patologia esquizóide que abafa o discurso público sobre a Justiça. Preferem o medinho que assusta os pobres e favorece os ricos.

De Guilherme Pereira a 09.02.2009 às 17:42

Façamos de conta, já agora, meu caro, que o Crespo é jornalista e, em conformidade, está proibido pelo Código Deontológico de misturar opiniões e factos, fazendo de conta, também já agora, que os factos sobre os quais o cavalheiro espirra são factos verdadeiros. assim fazendo de conta temos um Crespo mais que perfeito, embalsamado a posteriori na sua excelência de conteúdos.

De Luis Moreira a 09.02.2009 às 17:48

Estes faz de conta, leva-os o vento, como se vê pelas sondagens, tão mausinhos são. Os faz de conta que podem marcar, são aqueles que querem esconder com uma peneira os erros que se comentem todos os dias e os que estão na rampa. Como os Milhões que se afundaram em bancos que toda a gente já percebeu que não têm salvação,é uma questão de tempo,que por arrasto a CGD não se transforme num gigante que absorve tudo e todos,que as PMEs não sejam ajudadas na sua liquidez, como já se percebeu que está a acontecer,que os bens transaccionáveis continuem a ser tratados com desdém porque são exportados e isso não tem interesse nenhum.E que se continue, obstinadamente, a falar de grandes obras como se houvesse dinheiro para as fazer!Numa palavra,que os Mários Crespos deste mundo, continuem a poder escrever textos faz de conta à custa de quem não quer ver!

De fernando antolin a 09.02.2009 às 17:59

Para fazer um frete basta um post,porque se cansam os outros...?

De Rogério da Costa Pereira a 09.02.2009 às 18:06

No dia em que você escrever neste blog poderá dar a sua opinião sobre o número de posts que se podem escrever sobre determinado assunto. Quanto à questão dos fretes, explique-me lá melhor a coisa. Digamos que é para não estarmos aqui a fazer de conta que sabemos do que é que você está a falar.

De Rogério da Costa Pereira a 09.02.2009 às 18:10

Pois é, Valupi, essa entrevista foi realmente muito importante. É que, houvesse gabinetes de imprensa em condições junto dos tribunais, real comunicação entre a Justiça e os media (como aconteceu na dita entrevista) e seria possível responsabilizar doutra forma os jornalistas pelo que escrevem.

De Rogério da Costa Pereira a 09.02.2009 às 18:17

Guilherme,
Faço questão de dizer que não alinho por esse diapasão. Mário Crespo é jornalista. Já o tipo de jornalismo a que se reconduz aquela crónica é que pode ser objecto de crítica, o que não lhe retira a qualidade de jornalista.

De lampiao a 09.02.2009 às 18:19

faço de conta que esse texto não me estava destinado lá no Rato e que tu chegaste primeiro

:))))
muito bem, isso acontece-te sempre que a lagartada perde?

De fernando antolin a 09.02.2009 às 18:20

Escrever neste blog só o diminuiria,nem me atrevo ainda que amavelmente me convidassem. Quanto ao meu comentário,pois parece que se estava a constituir uma comissão de desagravo ao que o MC escreveu.Lamento se não lhe agradou.

De Guilherme Pereira a 09.02.2009 às 18:27

Caro Rogério: jornalista, formalmente falando, o MC é pk, como eu, é detentor do respectivo título, emitido pela CCPJ. Justamente por isso, e só por isso, é que aludi ao Código Deontológico que a todos nos obriga. A crónica jornalística ( e não a literária) rege-se por matrizes éticas que estão hoje pacificamente aceites pelos que a praticam, como é o meu caso. Quanto ao resto, fez muito bem em tirar esta lebre da toca.

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