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pim-pam-pum

por Rogério Costa Pereira, em 19.01.09

Com a morte. Hoje levei com a morte. E bateu-me mal, assim de uma forma estranha – não foi dor, como acontece quando me morrem pessoas próximas; não foi sensação de vazio, nada semelhante. Foi uma espécie de empurrão ao mesmo tempo pelas costas e pela frente. Dado à velocidade da luz - que nem saí do mesmo sítio. Tipo acorda pá, qualquer dia és tu. Podias ter sido tu. Não te lembras deste?, quem diria que o ceifava neste dia? Deu-me para aqui, podia-me ter dado para aí. Estás a ver como isto é? Espécie de banca francesa – a fortuna que sai dum corno.

Claro que a mandei para a puta que a pariu, que tenho um filho que aprendeu agora a andar e corre para mim quando chego da labuta e diz papá-papá-pápa. E dá-me abraços e beijos e dá-me sorrisos. Era o que mais faltava, que fosse comigo – não estou para aturar abusos idiotas de idiotas; e deixei-lhe isso bem claro.

Mas, confesso, foi só garganta – ainda os tenho bem apertadinhos. Podia mesmo ter sido. Esta cena da morte é um bocado pim-pam-pum e um gajo às vezes anda de gavetas desarrumadas e de repente dói-lhe uma unha e não é nada não é nada – é só uma unha. Vou amanhã ver disso, hoje tenho mais que fazer. E vai-se a ver e valia a pena ter ido mais cedo, que com estas idades a coisa depois foi sempre galopante. E tão novo, e o caralho. Não aguentou o galope, essa é que é essa.

Mas porquê este desatino todo com esta morte? Esta morte de hoje. Todos os dias morre gente conhecida, mais ou menos velha, mais ou menos amiga, mais ou menos próxima. Francamente, não faço ideia. Sei que me sinto agoniado. E que agora que escrevi isto ainda me sinto pior. E não devia ser para isso que um gajo escreve, para depois se sentir pior. Agonia por agonia bembondam as que provoca ouvir todos os dias a senhora de foice ao ombro. Aos berros de pim-pam-pum. 

Pim-pam-pum.

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publicado às 17:17


12 comentários

De Luís Lavoura a 19.01.2009 às 17:33

Há poucos meses atrás morreu uma prima minha, rapariga de 30 anos de idade. Cancro originalmente da pele. Em seis meses levou-a. Quando detetaram já nem se sabia em que parte da pele o cancro tinha começado, porque já não se via na pele, mas já tinha metástases no cérebro, nos pulmões e alhures. Ainda se tentou radioterapia e químioterapia e tal, coisas muito violentas, mas não valeu de nada.

A minha prima não costumava ir para a praia e apanhar sol, mas tinha-o feito muito quando era miúda, há dez e mais anos atrás. E a pele nunca esquece as agressões de que é vítima. Fá-las pagar tarde, mas com juros muito elevados.

De maria a 19.01.2009 às 18:15

Emocionei-me com o texto.
E gostei sobretudo do termo "bembondam"
Há muito tempo que não o ouvia!!

De Rogério da Costa Pereira a 19.01.2009 às 18:27

A minha avó usava-o muito, hoje já não o ouço - há anos que não o ouço. Às vezes escrevo-o, a ver se palavra não morre.

De aires bustorff a 19.01.2009 às 19:07

Abraço e parabens por esta escrita mui sentida

De jpt a 19.01.2009 às 19:49

gostei. Gosto destes post escritos como quem atira com as entranhas pra net...

De Luis Moreira a 19.01.2009 às 21:01

Só há uma forma de lhe escapar.Viver!Amar!Não ter medo da vida.Passa à frente,pá!

De filinto a 19.01.2009 às 23:28

A minha geração começou por chorar com os amigos e conhecidos que morriam de overdose, cresceu e passou a ver morrer amigos ou conhecidos com cancro. Desculpa se não consigo escrever de outra forma: é uma filhadaputice.

De maria inês a 20.01.2009 às 11:07

que post homem, que post!

De maria a 20.01.2009 às 20:24

Também era a minha avó que usava o termo bem bondam.
Penso que seja usado na Beira Baixa. Às vezes ainda o ouço, dito sobretudo pelas pessoas mais velhas.

De Rogério da Costa Pereira a 20.01.2009 às 20:34

Beira Baixa, claro. Covilhã, Fundão, é daqui que eu escrevo. E terá razão, Maria - bem bonda, como quem diz bem basta, já basta, e não bembondam.

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