Não terá sido só para se livrar do anátema de “Senhor Silva”, nem principalmente por isso. Cavaco quis a atenção dos portugueses e preparou uma ‘entrevista’ no momento que achou crucial para dar uma aula sobre o programa do Governo – mais ou menos a sedução dos mercados explicada às criancinhas. Dois dias antes, o até aqui apagado Ministro da Economia brilhara no maior fórum da comunicação social portuguesa (um ‘Prós e Contras’ feito só com ‘prós’) e era preciso consolidar a eficácia dessa primeira ação de sensibilização dos portugueses para o fardo que lhes está reservado.
Mensagem linear de Cavaco, quadrada como os quatro cantos em que se balizou:
1. Motivação (do auditório). Começamos por ‘aquecer’ com a exaltação do que todos já sabem mas gostam sempre de ouvir. Internacionalização da Economia, liberalização da concorrência, captação do investimento externo. Tudo como o Ministro da Economia já tinha anunciado com a revelação de que nos últimos 5 anos do consulado de José Sócrates as empresas portuguesas cresceram na performance exportadora, criativa, qualitária;
2. O essencial (mais que sub-liminar): Apoiar e sustentar as dificuldades da banca, que precisa de pagar ‘aos mercados’ as gorduras (as verdadeiras e maiores gorduras da economia portuguesa) que estoirou em Wall Street. E, atenção, o lema de todos unidos em torno do sucesso da recuperação dos capitais apostados na parte fantasmática do imobiliário e perdidos com o aval dos estados soberanos. Todos unidos – que o povo unido jamais será vencido.
3. O capital (mais que essencial): Continuar os sacrifícios. Prosseguir com a austeridade, com mais e maior austeridade. “Os mercados” ainda não recuperaram todas as gorduras – e onde hão-de ir buscá-las? Ao nosso emagrecimento, o do Povo e sobretudo da classe média, claro! Nem se vê como havia de ser de outra maneira. Sempre assim foi, tem sido e, ficámos bem cientes, será cada vez mais.
4. O despiciendo (no discurso e no tom de união): As famílias, os desempregados, a classe trabalhadora, as pequenas e micro-empresas portuguesas – que são a esmagadora maioria. Ficaram no silêncio e talvez se compreenda: na parte explícita da ‘entrevista’ já ficou bem claro o papel que a estes cabe, nada menos que o fundamental papel do emagrecimento, dos sacrifícios, do esforço de todos unidos à volta do Governo e ao serviço “dos mercados”.
Ficou mais avalizado o Governo. Cavaco avalizou Cavaco. Todo o Cavaco, incluindo o Senhor Silva.
Ficaram mais descansados “os mercados” – que são aqueles que têm financiado os albertos joões deste retângulo à beira-mar plantado e os seus apêndices e os demais parasitas. As ‘gorduras’ que sobram no Estado-Nação transitarão do que resta do Estado Social para a sustentação do difícil momento que atravessam as gorduras que no sector privado geraram as dívidas da nossa crise. As empresas que dão réditos ao Estado irão rapidamente e em força para a propriedade “dos mercados” que rebentaram de colestrol em Wall Street.
E o mais importante: Que estejamos todos unidos em torno do Governo de Cavaco. Unidos no nosso sacrifício, pelo sucesso da governação que tem a espinhosa tarefa de proteger os interesses “dos mercados”.
Ficam, enfim, mais esperançados os que lutam por que a Constituição deixe de ser essa coisa arcaica e idílica que são os direitos, liberdades e garantias do cidadão e se reforme na lei fundamental dos direitos, liberdades e garantias dos mercados.
Falou o Presidente do Conselho de Administração. E ficámos com a nostálgica clarividência de quanto este país precisava, neste momento de profunda crise, de ter um Presidente da República.
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