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Evito passar por lá, sequer olho para lá. Evito. Porque fujo. De lutos que não fiz, ou que ainda vou ter que fazer. Passo pelo monte e não olho para lá em baixo. Para aquele sítio. Passo lá em frente e viro o olhar. Penso que devo lá ir e fujo desse pensar. Penso se não estou a ser mórbido em pensar nestas “coisas” que me atormentam. Mas não estou. Apenas tenho uma difícil relação com essas “coisas”. E escondo-me. Dentro de mim.

Já pensei em falar com o homem dos mármores. E pedir para mudar a lápide. Que apenas lá fique. Que os amo. Sem palavras escritas, apenas com este pensamento. Que os amo. Mas os pensamentos não se escrevem numa lápide em uma pedra de mármore. E incomodam-me as flores. De plástico. Que lá põem. E incomodam-me as flores que eu lá devia pôr. Mas que não sejam de plástico. Mas eu acho que as flores. Que as flores não servem para isso, nem sequer as de plástico.

Também já pensei em pedir ao homem dos mármores que retire as fotografias da lápide. Porque as fotografias me incomodam. Também me incomodam. As fotografias. Naquela lápide. São os meus espíritos que dançam. Porque olham para mim num olhar que me faz sentir culpas. De culpas que eu sei não ter. E que (eu sei) não me atribuem.  

E me incomoda porque me é difícil entrar naquele quarto. Onde me esforço em não olhar para trás. Eu sei que não me perseguem. Mas esse pressentimento. Persiste. E, por vezes, até estremeço com um barulho qualquer. Como se um dedo pudesse estar, ali, apontado para mim. De noite, então. 

Mas eu sei o que me incomoda. O que me incomoda. É que não consigo fazer lutos. Fujo. É que apesar de ter estado sempre por perto. De até beijar no último leito o corpo frio. Mas o corpo frio já não sente tal ternura. Uma ternura que faltou tantas vezes quando não devia levantar a voz. Quando devia dar beijos num corpo quente. E talvez, então, não sentisse a necessidade de plantar árvores.

João José Fernandes Simões

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publicado às 21:23


1 comentário

De Anónimo a 04.09.2011 às 23:45


João, tem cuidado com isso! Eu não cheguei à parte do dedo apontado, mas as flores, os beijos, os dizeres... tal e qual!

Gostei do texto. Parabéns!


João Gonçalo

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