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Belenenses - a honrosa inglória

por António Leal Salvado, em 18.08.11

O sentimento foi o mesmo que aos 11 anos me fez obstinar em ser advogado.
Levaram-me um domingo ao futebol. No peão, ali mesmo colado à bandeirola de canto, deslumbraram-me os voos do José Pereira (o "pássaro azul") e, depois da troca de campo, aquela perfeição de jogadas que começavam no corte limpo do Vicente e seguiam por aí adiante na corrida do Peres ou nas fintas do Yaúca, até chegarem aos pés mortíferos do mago Matateu. No regresso do empate que agradou a todos e mereceu calorosas palmas finais do público covilhanense que sempre recebia bem os visitantes da cruz de Cristo, eu vinha sensibilizado pelo fair play da bancada do Santos Pinto e rendido à classe dos Belenenses.

O fado veio a seguir. Lá em casa havia pluralismo clubístico. Os argumentos eram o Benfica-Sporting da praxe – de um lado a paixão por José Águas, Coluna e os outros precursores enquanto não chegou o Eusébio, do outro a memória dos incomparáveis cinco violinos. O meu entusiasmo pelos ‘pastéis de belém’ foi logo escarnecido: que era o clube da situação, com o corta-fitas Tomás como sócio. Vinha longe o 25 de Abril, mas o argumento fez-me estremecer. Com a internet ainda nos testículos do pai, a pesquisa não foi fácil, pelas folhas d’O Século que eu colecionava, vá-se lá saber para quê. Só no fim de 3 ou 4 meses de angústias encontrei a primeira pista do desagravo: também o republicano presidente Teixeira Gomes tinha sido adepto e sócio dos ‘azuis’. Do mal o menos. Mas a honra maior havia de a encontrar mais tarde.

Já os meus ímpetos pela bola se iam desvanecendo (o Benfica levou-nos o Yaúca, o Peres trocou-nos pelo Sporting e o Matateu envelhecia a jogar no Canadá) chegou-me a dica redentora. O Necas Lalande, belenense do peito aos costados, contou-me a história dos grandes estádios de Lisboa; o velho campo das Salésias foi expropriado ao Belenenses, sem direito a compensação nem utilidade dada ao terreno, enquanto Benfica e Sporting recebiam chorudos apoios para construírem a Luz e o José de Alvalade. Havia privilégios, havia – mas já nessa época eram para os grandes. Mas construímos o Restelo, à custa dos nossos sócios e da nossa bilheteira, e quando veio a rainha de Inglaterra foi lá que a levaram a visitar a maravilha.
Entretanto, o Real Madrid tinha construído o mítico Santiago Barnabéu. Na inauguração, o jogo que se impunha – com o Belenenses. Respeito duradouro, que os ‘merengues’ sublinharam quando, nas bodas de prata de Chamartin, homenagearam o hexacampeão europeu Gento, em um jogo com os portugueses da cruz de Cristo. E já tínhamos sido a 1ª equipa portuguesa a participar na Taça UEFA e a vencer o Barcelona, que já nem era preciso recordar os nossos recordes de goledas no campeonato (29 golos em 2 jornadas seguidas, com a Académica e o Boavista por vítimas) os 17-0 na Taça de Portugal e as mais históricas humilhações aos outros ‘grandes’, que foram 9-0 ao Sporting, 8-1 ao Benfica, 7-3 ao Porto e várias outras, sempre tareia nos mesmos.

Já em 1970, acabado de chegar a Lisboa e de saber onde era a Biblioteca Nacional, continuava a fazer-me mossa aquela de sermos o clube do regime. Era mentira, já o sabia – mas ainda não tinha desistido de prova mais concludente. E ela apareceu.
Era de Homério Serpa, salvo erro, a crónica que descobri na Biblioteca Nacional. Estava lá tudo preto-no-branco: No final do Portugal-Espanha, três jogadores portugueses saíram sob custódia da PVDE, antecessora da PIDE, directos ao calabouço para interrogatório. Crime: tinham-se recusado a fazer a saudação fascista enquanto tocava o hino, no início do jogo. Amaro, Feliciano e Simões tinham conspirado contra a ordem interna do Estado Novo – e a prova maior da premeditada conspiração coletiva era tratar-se dos três representantes da mesma camisola clubística: a dos Belenenses. Jamais alguém tinha ousado levar a honra da Pátria oprimida para dentro das quatro linhas.

O meu Belenenses de sempre passou a ser para sempre. E passou depois pelos anos que todos temos passado. Já no tempo em que o futebol são letras gordas para mim, ainda gritei quando fomos a casa do detentor da Taça UEFA eliminá-lo categoricamente, ainda me senti ufano pela única equipa que venceu a Taça de Portugal batendo o Porto nos quartos, o Sporting nas meias e o Benfica na final, no mesmo ano em que Marinho Peres nos guindou para o 3º lugar no campeonato. Mas, do desporto belenense, os meus orgulhos satisfaziam-se já com umas dezenas de títulos nacionais e mundiais em atletismo, andebol, basquetebol, natação, rugby…, na memória do Vicente eleito pela imprensa inglesa o mais elegante defesa do mundo (e o único que nunca deixou marcar um golo a Pelé) e dos grandes nomes que se fizeram no Restelo: José Mourinho, António Livramento, Jesus Correia, Filipe Gaidão, Carlos Lopes, Francis Obikwelu, Naide Gomes, José Pinto, Vanessa Fernandes, Bruno Pais, Anaís Moniz, ou do treinador dos ‘Magriços’ Otto Glória, ou do treinador dos miúdos que deram a Portugal os dois únicos títulos mundiais de futebol, ou do meu ídolo Matateu, cuja morte foi notícia com digno destaque na CNN.

À medida que para mim passou a resumir-se às letras grossas, o desporto transfigurou-se para negócio de notas grossas e escandaleiras gordas. O meu Belenenses foi ficando pelo caminho. E eu recordo o primeiro jogo de futebol a que assisti no estádio em que foi apanhada aquela imagem, que vale mais que mil palavras. E vejo que a inglória não é desonrosa.

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publicado às 15:15


2 comentários

De Luis Moreira a 18.08.2011 às 15:35

Metade da família é Belém. O mais belo estádio. Cristo em frente à espera de poder bater palmas quando Belém for campeão. Na minha juventude, em vez do ruidosos e violentos luz e alvalade lá ía eu, sem pressas, comprar o bilhete e passar belas tardes no belo estádio. O resultado? Sabia no fim!Belenenses, sempre!

De Luis Moreira a 18.08.2011 às 15:36

Ainda fui treinado pelo Feliciano nos júniores. Um senhor!

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