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Ricardo Araújo Pereira na galeria de honra dos Monty Python

por António Leal Salvado, em 23.07.11

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A classe dos políticos, dos editores de tablóides e dos publicitários (leram bem, refiro-me a uma só classe) inventou o soud bite. Daí até viver à sombra ou à custa do soud bite foi um passo – foi só fazer disso mesmo uma série de sound bites. Nesse meteórico percurso descobriu ou inventou um fenómeno estranho: por vezes, o efeito publicitário do sound bite é conseguido procurando e realçando o non-sense, o caricaturalmente feio ou a estupidez. Em suma, quanto mais anormal é o sujeito que serve para a promoção, mais eficiente é o sound bite. A nossa cultura deve-lhe recordações inesquecíveis e o Restaurador Olex deve-lhe anos de liderança das audiências.

A dita classe que agrupa as três sub-categorias (que por sua vez albergam uma infinidade de aldrabões, energúmenos e imbecis) não é uma classe qualquer. É a classe que, com o prodígio dos sound bites, governa países e tem alfobre nos micro-zoos que se chamam autarquias. É uma classe como não existiam desde a luta de classes que Marx viu à lupa e que, por obra e graça da inteligência de John Keynes e da esperteza dos capitalistas de grande porte, esteve adormecida durante os dois quartéis intermédios do século XX. Até que um outro cromo da Economia, de seu nome Milton Friedman, explicou aos americanos e ensinou aos yuppies europeus que fazer do “homem lobo do homem” dá mais lucros que ganhar o euro-milhões todas as semanas.

Por esta mui singela razão, a já referida classe dos sound biters profissionais (vulgo vendedores da banha-da-cobra da felicidade dos povos) dá o cuzinho e oito tostões para ser notícia, digo, para ser motivo de sound bite. Como detém o poder e a propaganda, consegue-o com muito mais alcance e ruído que os vendedores de sonhos. Na sua sub-categoria mais pacóvia e lerda – a dos autarcas – basta-se com uns chavões como “fundos europeus”, “milhões de euros”, “transversalidades de referência”, preferencialmente associados a meia dúzia de bombastismos que podem abranger quase tudo e por isso mesmo não significam coisa nenhuma (“recursos endógenos”, “apropriação colectiva”, “cumplicidade criativa”…). E assim vão pulando de conselheiros acácios para calistos elóis – e governando com a graça e a bênção de deus nosso senhor. Sempre no centro dos sound bites, que é como quem diz heróis do “levamos o nome da nossa terra além fronteiras”.

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Na revista “Visão” desta semana, Ricardo Araújo Pereira confirmou que é capaz de ir ao fim do mundo por uma boa chalaça – e foi à Câmara do Fundão recolher um soun bite capaz de rivalizar com o Restaurador Olex na luta pela contracapa da próxima “Gaiola Aberta”.

Tudo começou por uma empresa de “publicitários criativos” que, em vista de haver publicitários mais que muitos e empresas publicitandas pouco menos que nenhumas, se lembrou de trabalhar a maravilha. A própria empresa, mais que uma maravilha, chama-se “7 Maravilhas”. Munida do indispensável .com e municiada pelas boas amizades e influências do costume, lançou na RTP um negócio que também ele é uma maravilha – para os promotores, está claro. Nada menos do que fazer concursos de maravilhas, aproveitando as maravilhas que já existem e têm, além dessa vantagem de não terem de ser inventadas nem fabricadas, a de estarem no domínio público e no do conhecimento público. Perfeito! Primeiro negócio: um programa de televisão (com nome inglês e Lisbon incluída), para liderar audiências e chamadas telefónicas – e puseram Portugal inteiro a eleger as 7 maravilhas do mundo. E Portugal inteiro pensou nas maravilhas conhecidas, apostou nas preferidas, acompanhou o score das votações, chorou lágrimas de alegria ou desilusão – e fez muitas chamadas de valor acrescentado.

O negócio não deve ter corrido mal de todo e, depois da Muralha da China, Petra ou Coliseu de Roma, vieram novos concursos e foram-se multiplicando por umas tantas vezes sete as maravilhas deste mundo. E assim se chegou às maravilhas da gastronomia portuguesa.

Aqui é que se entornou o caldo, ou azedou o escabeche, para sermos gastronómica e factualmente precisos. Os criativos promotores de maravilhas fizeram uma prospeção pelo país e – quem havia de ser – os autarcas foram os patos escolhidos para o fricassé do negócio. Aqui começou a sorte de uma terrinha perdida cá para os lados da Estrela (a Gardunha não consta dos arquivos dos promotores de maravilhas), muito ufana do seu nome de “cidade” consagrado em decreto-lei, com a população e as finanças pelas ruas da amargura – isto é, a precisar de um sound bite. Aqui começou a nossa sorte.

Ou o nosso azar, dizem os que já conhecem o desfecho da novela. A bem dizer, o azar aconteceu quando a empresa promotora de maravilhas foi às páginas amarelas e encontrou vazia a entrada da palavra “tansos”. Criativos como os melhores publicitários, desenrascados como os bons portugueses, saltaram da lista telefónica para as autarquias com empresas municipais, o mais próximo sucedâneo do que nas páginas amarelas lhes falhou. O resto foi fácil: telefonema de apresentação, e-mail com explicações cuidadosamente encartadas e o Fundão estava agraciado com a qualidade de candidato à apreciação de um “conselho científico”, caramba! Tudo sem menosprezar a descoberta de uma receita de perdiz em escabeche que por aqui nasceu e é a mais saborosa, a genuína, a única. Via aberta para o sound bite, graças ao apurado escabeche em que os fundanenses são únicos.

 

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Mas o avinagrar do escabeche foi no momento de se concretizar a distinta candidatura. Os promotores publicitários apresentaram a normal cobrança dos seus serviços, revelando o seu único e imperdoável descuido: solicitaram o pagamento dos honorários a quem não existe para pagar mas para receber e, além do mais, não tem aquilo com que se compram os melões. Questão encerrada. A busca da receita única, inédita e inaudita de perdiz mudou-se para o concelho mais próximo.

Esta a verdadeira origem da declaração de guerra – que é urgente, para salvar a honra dos nossos aviários. E necessária para que a frustração do sound bite culinário seja revertida, no mínimo, por um sound bite de desagravo. E pronto, os legítimos representantes do povo que é quem mais ordena e não é só em Grândola (e a legitimidade democrática é coisa séria, quase tão séria como a da confiança dos mercados) aconselhou, ditou e exigiu uma serena deliberação: o Fundão vai meter a Idanha (madrasta da ultrajada perdiz) em Tribunal. Hão-de sentar o rabinho no mocho os usurpadores da identidade dos nossos egrégios avós.

Pelo menos e para já, há que dar a saber, em voz bem alta e firme, assegurada por sublinhado e negrito das rotativas mais fidedignas e fiéis à rigorosa verdade dos factos, que a gente não se fica. Estão, para isso, a trabalhar a nobre causa o batalhão jurídico in-door e, dada a complexidade do litígio e a gravidade dos interesses em questão, se for necessário (normalmente é) adjudica-se a emissão de parecer a um cartório externo e de renome, no mínimo daqueles que têm sede em Lisboa e agências em Badajoz, Besançon e Nova Deli.

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Tragédia em 3 actos e mais o epílogo

Aqui – só aqui! – entra o Ricardo Araújo Pereira. Aproveita a Visão e vai-se à Boca do Inferno (nem ele sabia ainda que a boca é apenas o começo, as mais das vezes) e galhofa com os males alheios, (ab)usando do título, de manifesto e provocatório mau gosto, “Perdiz com Alecrim e Manjerona”.

Claro que ninguém se riu, nem amareliu, com esta brincadeira, autêntico humor negro, grosseiro arremedo do Herman com o Professor Alexandrino por partenaire. É mister que se avise o senhor Ricardo Araújo que com a honra de um povo laborioso e fiel não se brinca, que a pureza de um escabeche genuíno não pode ser motivo de mofa. Que não está livre, por ser quem é ou julga que seja, de ser chamado a contas na Casa Grande, que a Justiça fez-se é para os homens.

Senhor Dr. RAP, há coisas que não se dizem (e muito menos se escrevem, até porque o truque de as reduzir a escrito deixa indefesas as vítimas directas). “Se eu mandasse, toda a gente era autarca uma vez na vida. Infelizmente, como os mandatos autárquicos chegam a durar 40 anos, nem toda a gente teria uma esperança de vida que lhe permitisse aguardar a sua vez. (…) O autarca, em princípio, sabe que não há nada que o apanhe. Se fizer falcatruas, em princípio, não é condenado. Mas se for condenado, mais depressa é reeleito. Se for reeleito, não pode ir preso. Mas, se for preso, foge para o Brasil”.

Ainda estamos para saber o que tem isto a ver com a nossa genuína e única perdiz, a não ser o voo da mesma, mas não se me consta que a mencionada voe para o Brasil, até porque nem toda a gente tem a humildade do Passos Coelho para viajar na TAP em classe turística e à borliú – salvo seja, está claro.

Exigimos, em nome da clara maioria que expressivamente nos mandatou, reparação imediata. Em nome da sã transigência democrática, aceitaremos o tribunal arbitral com uma modesta e simbólica compensação – um digno e adequado sound bite, por exemplo. Ainda que seja a candidatura da Perdiz com Alecrim e Manjerona à galeria de sound bites dos Monty Python.

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publicado às 03:50


1 comentário

De Luis Moreira a 23.07.2011 às 12:30

Uma maravilha! O que faz uma perdiz de escabeche.

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