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Manual de Instruções para Discussões na Blogosfera*

por Rogério Costa Pereira, em 25.08.08

* da autoria do meu amigo Gibel (quem mais?), publicado num blogue defunto, em Março de um ano defunto. É fundamental desmontar quais as técnicas de falsa argumentação - vulgo falácias – mais habituais na discussão diária e que medram (e merdam!) na blogosfera nacional. São técnicas clássicas, mas que, reconheço, talvez apanhem alguns jovens mais desprevenidos - o sistema de ensino já conheceu melhores dias e duvido que a malta nova ainda aprenda estas coisas. - O apelo à emoção: tenta-se convencer através do recurso a argumentos emocionais ou sentimentais, geralmente negativos, em vez da apresentação de premissas ou evidências convincentes. Geralmente, as emoções mais instrumentalizadas são a raiva, a culpa, a vergonha, o medo, etc. O apelo à emoção anda paredes-meias com a falácia da reductio ad absurdum. (“Como é que podes ser católico depois da Inquisição?” “Como é que podes ser comunista depois dos Gulags?” “Como é que podes ser Alemão depois do Holocausto?” “Como é que podes ser físico nuclear depois de Hiroshima?”, and so on and so on) - A analogia imprópria, ou non sequitur: é uma falácia argumentativa clássica, consistindo em retirar conclusões de premissas que não têm nenhuma conexão de implicação lógica. (“Ando com as regras atrasadas porque tenho o salário em atraso” argumenta a Celeste ou “Há muita sida em África porque o Papa convenceu o pessoal a não usar o preservativo” o que pressupõe um poder notável do Papa em face de um continente maioritariamente animista e islamista, onde a generalidade dos homens considera culturalmente o preservativo como um empecilho à sua virilidade (!), o mesmo Papa que igualmente pediu aos Estados Unidos que não invadissem o Iraque e não é que os gajos invadiram?! Logo! Pôrra da lógica! Se invadiram foi porque o Papa-Todo-Poderoso certamente não se esforçou o suficiente!...). - O apelo ao ridículo: introduz-se uma passagem de presuntivo humor (geralmente o humorista de serviço ao argumento acha-se muita piada, pelo que o presuntivo é nosso) ou ridícula no argumento, procurando desta forma o espertalhão encobrir a sua incapacidade ou laxismo intelectual para responder à altura do argumento adversário. É uma falácia bastante eficaz: geralmente a força lógica do argumento adversário é completamente ensombrada pela tirada humorística do outro – a assistência aplaude e agradece o circo, pois é da natureza das massas simpatizar com a facilidade mental, preferindo-a à trabalhosa e, porque não dizê-lo, opressora e fria inquirição do mérito das premissas usadas em debate. - O acento impróprio: acrescenta-se um acento ou expressão maliciosa à apresentação de um facto para desacreditar as suas motivações. Admito, às vezes é irresistível: tipo quando se informa que o Morais Sarmento disse que “vai alternar como Deputado por Castelo Branco”, está mesmo a pedir um acento impróprio...



- A descida escorregadia: sugere-se geralmente que a opção numa determinada direcção desencadeará necessariamente um processo irreversível de consequências ainda mais radicais. (“Se se privatiza a gestão dos hospitais acaba-se o serviço nacional de saúde!”; “Se deixo o Ruben André beber antes dos vinte e um anos, acabará nos Alcoólicos Anónimos”; “Se se descriminaliza o aborto, as mulheres vão todas desatar a fazer abortos”, etc.) - A ignoratio elenchi: não podendo atacar o argumento original que lhe é proposto, o adversário trata de introduzir material irrelevante para o ponto em discussão de forma a desviar o argumento para outra conclusão em geral mais fácil de ser atacada que o argumento original (é muito vulgar o uso desta falácia por Pastores da Igreja Ateísta Militante). - O wishful thinking toda a gente sabe o que é, não se fala noutra coisa na blogosfera. - A petitio principii é o vulgar argumento circular: a falácia consiste em usar a conclusão a que se tenta chegar como componente ou suporte de uma das premissas. A melhor forma de desmontar a falácia é reescrever o argumento do adversário numa forma que demonstre a respectiva circularidade: “Ou seja, Vossa Eminência está afirmando que se o gato tinha botas, então é porque o gato tinha botas!” - O ataque ad hominem (ou ad mulierem, para não ser acusado de sexista): consiste em atacar o adversário, geralmente diminuindo-o, em lugar de atacar os seus argumentos. Ao contrário das restantes falácias, e do que as pessoas geralmente pensam, esta técnica, além de muitas vezes ser irresistível e saudável para mantermos o bom metabolismo dos nossos fígados, é também lícita em muitos casos: é admissível quando se trata de atacar a credibilidade de um mero testemunho ou opinião apresentado pelo adversário. Argumentar é coisa mais séria do que parece. Opiniões, factos, descrições, questões, emoções, não são argumentos. O pessoal argumenta só para persuadir? Ou para crescer intelectualmente com o conhecimento de todos? Querem a verdade? Certamente que a repetição não é a verdade: proposições e lugares-comuns, bastantes dichotes e bocas que se tornaram hábito em quem aplica a régua da tolerância aos outros mas que raramente a aplica a si próprio, designadamente nos clichés com que classifica quem lhe é diferente, não se tornam verdadeiros por serem ditos e re-ditos, lidos e re-lidos à exaustão.

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publicado às 15:25


13 comentários

De J. S. Bastos a 25.08.2008 às 22:51

Desculpe, mas o que faz neste blogue, que colecciona abundantes exemplos do que diz (e faltam muitos).
Quando sair, deixe o link, que gosto de ler o que escreve, embora não pense do mesmo modo.

De Bruno - Planetas a 25.08.2008 às 18:02

Obrigado pela observação, mas de qualquer maneira pode ignorar o acento.

De Rogério da Costa Pereira a 25.08.2008 às 23:15

Uma vírgula, Luis, tire uma vírgula que vai ver que se sente melhor.
JS Bastos: o texto, repito, não é meu.

De Lutz a 25.08.2008 às 17:33

O Gibel provavelmente leu Schoipenhauer:
http://coolhaus.de/art-of-controversy/

De rms a 25.08.2008 às 16:40

Fácilmente tem um acento impróprio.

De Rogério da Costa Pereira a 25.08.2008 às 16:51

Não pode nem deve, Bruno. O Gibel escreveu, está escrito.

De Bruno - Planetas a 25.08.2008 às 16:15

Caro Rogério, gostei e julgo que pode fácilmente ser ampliado.

De Luis Moreira a 25.08.2008 às 22:15

Não conhecia nenhuma destas técnicas e, mesmo assim, não tenho tido grandes reclamações.Esta observação( comentário,opinião,pettitio principilli...) faz de mim um " wishful thinking" ? Ou isto é um ataque "ad hominem" ao próprio? (eu neste caso). De Puta Madre dá a entender que falta muita coisa. O Lutz dá uma de cultura (será verdade,será mentira).Inês,agora que estava a recuperar da depressão cai-me esta em cima! Alguem faz uma "analogia imprópria" para me ajudar?

De De Puta Madre a 25.08.2008 às 19:23

Hummmmm ... o melhor mesmo é recomendares a compra de um qualquer manual de Filosofia do 11 ano ... está muito incompleto o inventário ... mas já não é mau.

De De Puta Madre a 26.08.2008 às 02:38

Luís Moreira, este link dá uma panorâmica sobre o intrincado mundo das falácias ... ( pode ser interessante ...)
http://criticanarede.com/falacias.htm
Vale

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