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Saramago morreu – a minha vida sem pardais

por Rogério Costa Pereira, em 18.06.11

Não é à pessoa.

Escrever é ir além do que se é; só quem o conhece pode destrinçar o ser que acorda e dorme. Não é o meu caso. Nunca vi Saramago e nunca ansiei por isso. Saramago era para mim um livro que se lê. Tão-só. E tão só o fiz quando o fiz. Cresci – de crescer (os anos não são para aqui chamados) – a lê-lo, ao Saramago-livro. Li o Memorial como quem vive uma vida. Saí dele diferente, como quem – por causa – se decide numa encruzilhada. Ele há disto? Que coisa é esta que me deforma & forma desta maneira intrusiva? Na altura, a anos-luz deste presente circunstancial, senti Saramago um escultor, moldando sentires na pedra bruta do meu ser. As palavras do Memorial têm cheiro e sabor e olhos. Ouvem e palpam. Lá estão e cá hão-de ficar para sempre, como parte de mim e de quem de mim veio e há-de vir.

Todos os Nomes. Ainda hoje aquele sou eu. Saramago tem o dom de nos transformar e de nos transformar também. De nos transformar porque não saímos diferentes da discussão, e de nos transformar também porque nos obriga ao protagonismo. Ordena-nos, como que sob ameaça, o papel principal. E lá andei (e ando) entre registos de nascimento e de morte. À procura.

Ensaio sobre a Cegueira. Ceguei primeiro (naquele semáforo) e fui o fingidor depois; Homem Duplicado, procurei; O Ano da Morte de Ricardo Reis, entrei vezes sem conta naquele quarto de hotel.

Não se traduz este sentir em palavras (tento): a minha angústia de hoje, a minha dor, resume-se (?) ao facto de não mais haver mais daquilo (disto), como que a extinção de uma espécie. Acabou-se o chilreio obrigatório e maçador e divertido e saltitante e definitivo (imaginem a vossa vida sem pardais). Da certeza da certeza (da minha) de que para o ano não sairá mais um – ainda que eu o venha a detestar (como aconteceu com Caim).

Caim. Com Caim, que eu (ainda abaixo da esperança média de vida, o que me retira autoridade) julguei escusado, senti (assim que o li) que Saramago dizia algo como "estou quase aí e continuo a não acreditar em ti, essa luz que até já vi [quatro pontos em forma dele, disse ele em entrevista] não pode ser, que eu sei que estou deitado naquela cama e que dali me levam metade para aqui e a outra metade para acolá. Às cinzas."

Assim o quero. Quem manda aqui sou eu. Assim como fiz Blimunda e Baltasar, Jesus a amar Madalena, ceguei o primeiro que cegou. Assim vos dou, eufemismo de marco-vos a ferros. Como vosso pai.

Com Saramago, o homem, foram-se hoje as esperanças de mais intrusões destas. A partir d’agora tenho a certeza de que as páginas não me comandam.

Foi só isto que se perdeu hoje. Este.

Doravante, ler será infinitamente mais cómodo. E aborrecido.

Uma última palavra (e detesto terminar assim) para os que crucificam Saramago ou o enforcam numa figueira, conforme o queiram cristo ou judas: o Saramago que ontem morreu, o dos livros, não tem direita ou esquerda. Foi sempre em frente. Leiam e odeiem ou amem. Ou então calem-se, que daqui não levam votos nem pedidos de mais hóstias ao padeiro.

(um ano de saudade)

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publicado às 22:22


9 comentários

De Ana Paula Fitas a 19.06.2011 às 00:52


... oh, Rogério... eu fico sempre assim, sem palavras!, quando escreves assim com o coração a ditar, sem correcções, para a escrita a verdade... obrigado, Rogério!... claro que faço link, amanhã, no Leituras Cruzadas... Bjs e saudades... 

De Rogério Costa Pereira a 19.06.2011 às 01:07

Ana Paula, antes de mais bem-haja. Este é um post escrito e publicado há um ano. Já na altura foste a primeira a comentar. Olha aqui: http://pegada.blogs.sapo.pt/205214.html?thread=1648542#t1648542
Beijo.

De Rogério Costa Pereira a 19.06.2011 às 01:16

Mas olha que eu corrijo imenso. Primeiro, vai de vómito. Depois, vêm as virgulas. E revejo outra vez. E outra. Escrever, é-me doloroso. Alguém grande dizia algo como "hoje trabalhei imenso, de manhã tirei uma vírgula, à noite voltei a colocá-la". Algo assim. Este texto não seria como é (e como não sou de falsas modéstias, acho-o sinceramente belo) se não tivesse passado horas a retocá-lo, tendo em conta que era dedicado a alguém que muito me é. E hoje nem o reli, para não não cair em tentação. Cada texto destes, que podes encontrar aqui, tira-me dias de vida. Mas o prazer de os ler, depois, devolvem-me os anos perdidos. 

De Ana Paula Fitas a 19.06.2011 às 02:40


É esse o processo que, de acto de escrever, passa a Escrita, Rogério... imagino que sim... e sei que os anos recuperados pelo prazer dos dias perdidos, valem a pena... não deixes nunca de escrever, Rogério... assim, como o fazes... um dia, quero encontrar, de surpresa, num escaparate qualquer, um título que me arranque um sorriso tão feliz e tão de dentro como este que nunca esqueci:  "... - a minha vida sem pardais" e, ao ver o teu nome, como autor, saberei que, lá dentro, está a intensidade do que és e do que és capaz... e eu vou deslumbrar-me com o que vou aprender... sobre as pessoas, a escrita e a vida... Bem-hajas! Beijos 

De Rogério Costa Pereira a 19.06.2011 às 03:45

Esse dia, o do meu livro no escaparate, não me parece que venha a chegar. Isto não vende, sabes? E esse ponto é det€rminant€ para as editoras. Romances de fôlego? Não me vou violentar. Não vou além disto: http://devagares.weblog.com.pt/Tresmalhados.pdf
E, para mim, chega-me. Obrigado pelos elogios.

De Ana Paula Fitas a 19.06.2011 às 08:54


... pois... eu sei, Rogério... e tenho pena que o melhor de muitos fique por aí, nas gavetas do que somos e partilhamos com os nossos porque as lógicas do mercado não vão além de d€t€rmindaos int€r€ss€s... vou espreitar o Devagares :))

De css a 22.06.2011 às 11:23

Um texto belíssimo. Um texto de um leitor.

De Maria a 22.06.2011 às 15:37

Que belo post! Excelente!

É tudo isso que também sinto por Saramago mas que nunca consegui colocar desta forma. Parabéns!

Quando morreu foi um génio que nos deixou. E é pena que muita gente não tenha essa noção.  Também a mim ele me tocou de uma forma que quando soube da sua morte não pude deixar de chorar (para grande espanto do meu marido que achava que eu me tinha passado)... lamento ter partido o autor de tão belas e incómodas obras e um homem que tão bem tratava as mulheres!

Parabén pelo blog! Gostei.

De Rogério Costa Pereira a 23.06.2011 às 00:01

Também eu chorei, para meu espanto e de quem me rodeava. Isto após ter dito cobras e lagartos do Caim.

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    oi me explica mais siobre isso


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