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"O assunto do bailarino" de Herberto Hélder

por Luiz Antunes, em 25.11.10

Fotografia: Magda Fernandes

 

Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé

No sítio uma coisa muito forte

Na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé

Pode imaginar-se a ventania quer dizer

“o que acontece ao ar” é a dança

pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora

(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço

se me permitem varre-o com muita evidência

somos obrigados a ver “isso”

que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve

o sítio rítmico no pé rítmico?

E digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo

De baixo para cima”

Que faz? Que fazem? Oh apenas um pouco de geometria

Em termos de tempo um pouco de velocidade

Em termos de espaço dentro do tempo

“vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”

pensam os pés dele quando o ar está pronto

o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além

mas são chegados os tempos de agonia

estamos “exaltados” com este pensamento de morte

é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas

na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar

sem qualquer auxílio excepto

não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes

do espectáculo i.e. a qualidade “forte” do sítio

e pés

esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”

hão-de ver como coisas dessas se passam

não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias

já se não encontram às ordens de vossências

comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”

de criar “situações cheias de novidade”

vai haver muito nevoeiro nessas cabeças

e ainda “o coração caiu-lhe aos pés” o banal

a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar

“os pés subiram-lhe ao coração”

pois vão dizendo que exagero logo se verá

também Jorge Luís Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa

“a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber

maçãs caem Newton cai na armadilha

quedas não faltam umas por causa das outras

os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai

mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver

Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino

“o estilo”

claro que “isto” apavora

a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir

 

Herberto Hélder


 

 

 

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publicado às 05:15


1 comentário

De Anónimo a 26.11.2010 às 16:37


...e o medo da dança continua.
Mas de que Dança estamos a falar?
DA morte? mas qual delas? da que se busca com Loucura? ou a morte que mata e impede a Construção de um Sonho?
Ao falar da morte, é evidente que estamos a falar de outra coisa que nos incomoda muito mais...a vida! Pois é. O verdadeiro drama é: que raio andamos a fazer com a nossa vida? e com a vida daqueles a quem dizemos amar? e com a vida dos que nos amam (genuinamente, claro)??
Elementar, não é?
Creio ser uma belíssima questão para o fim de semana a (só!) dois.
É o que espero ter.

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