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Punhetas a grilos

por Rogério Costa Pereira, em 27.04.08

Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): “Escrever”. Assim mesmo. “Escrever”. Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas. Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que “pelo menos é seguro” e que “já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro – sabes como é que é! Questões fiscais”. E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia. Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos – e que hão-de deixar de o ser. Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como “uma espécie de pai sem o ser”. Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria. Mas já chega de conversa fiada. Vamos às coisas sérias.



Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: “o nosso herói”. Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador – aqui posso ser eu – que possa dizer coisas como: “o nosso herói”. Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana – assumi o “Beltrana”. Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três - recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era. O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo – como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso - deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar. Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu. E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter - afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende. Tocou o alarme, toca a escrever. "Era uma vez um cabrito montês"

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publicado às 20:32


9 comentários

De Ana Matos Pires a 28.04.2008 às 00:12

Um presente para o The Studio: http://pftv.sapo.pt/?v=EezIeEvoIOlTkYNMtz4i

De j a 28.04.2008 às 13:31

Quando for grande (ainda mais, já o meu comprimento é de 1,86 de altura) quer ser como o The Studio.
A sério, e espero que ele foda, caso contrário, tenho que pensar melhor.

De j a 27.04.2008 às 20:52

«um bruxo não fode»
Essa agora, como pode estar seguro de tal...!?

Bem, podem não foder, admitamos.
Mas alguns bem que nos podem foder, sabe que ele há bruxos para tudo, portanto, nada de fiar.

É que já tenho ouvido alguns bruxos, sobretudo bruxas, algumas aparentadas à Abelha Maia, e só de as ouvir falar fico mais do que fodido.

De The Studio a 27.04.2008 às 21:58

Para leitura de casa de banho não está nada mal, apesar de fazer os livros da Margarida Rebelo Pinto parecer literatura. Já observa o acordo ortográfico, tem poucos erros de sintaxe, a que não será alheio o facto da maioria das frases ser composta por três palavras... Só não percebo é esta mania dos pretendentes a pseudo-intelectuais terem forçosamente que incluir um vernáculo algures, "um bruxo não fode". Mas está bem, este rapaz vai longe.

De zeca a 28.04.2008 às 02:52

Alienação? Consciente morte ao tempo que passa?
Que ganhe o melhor.

De The Studio a 28.04.2008 às 16:37

Ana Matos Pires:

Está enganada. É verdade que só comentei o texto por ser da autoria do meu patetinha preferido, mas isso não retira validade ao que eu disse. Trata-se de um texto sem conteúdo, numa linguagem abaixo da mediania e cujo pretensiosismo o torna ridículo.

j:

Eu também sei dar respostas de baixo nível, acredite. Mas acredite também que me dá muito mais gozo, quando alguém leva a conversa para o nível da lama, deixa-lo lá a chafurdar sozinho na lama. Sobretudo quando esse alguém tem um comprimento de 1.86 de altura.

De ezequiel a 28.04.2008 às 17:32

o studio,

em que primária é que dás aulas?

eu preciso de ajuda com o meu português.

é sempre bom ter um pedagógico servil por perto.

de graça...

De j a 28.04.2008 às 21:17

CaroThe Studio,

O facto de me ter dado importância, respondendo à minha provocação (intencional e rasteira, da minha parte…) leva a que lhe responda assim:

Ao dizer que, quando se dirige a mim, «… também que me dá muito mais gozo, quando alguém leva a conversa para o nível da lama, deixá-lo lá a chafurdar sozinho na lama. Sobretudo quando esse alguém tem um comprimento de 1.86 de altura...», significa que eu não chafurdo sozinho, mas você também, a partir do momento que caiu na sua falta de perspicácia de me ter “dado importância”.

E, portanto, resta mandar o The Studio à merda, tendo em conta as ideias que revela nos comentários que faz.
Pedindo desculpa se, por acaso, se trata de um comentador sem pilinha, porque, em relação ás senhoras, gosto de ser menos mal-educado.
E, acredite, que há muito esperava por esta oportunidade

Sendo assim, a minha “provocação” é de espécie única, pois o queria mesmo era um argumento para o mandar foder.
De uma única vez… E de vez.

De The Studio a 28.04.2008 às 22:39

ezequiel,

Acho que apanhou o comboio a meio da viagem e não percebeu os meus comentários irónicos sobre o Português. Se deseja industriar o seu Português pode pedir ajuda aí ao maior especialista do mundo e arredores. Ele escreve no seu blog.

J,
Não vejo porque razão não lhe hei de dar importância. Não ando por aí a advogar que todas as pessoas merecem respeito, mas respeito todas as pessoas. Ao contrário de outros que andam por aí a defender o respeito por todos e são os primeiros a não respeitar ninguém.

Não vou insultar gratuitamente o J apenas por ter ideias diferentes das minhas, e se o J envereda por esse caminho apenas o lamento.
Para ver como sou seu amigo deixo-lhe um link do insurgente, sei que vai gostar:

http://oinsurgente.org/2008/04/26/importante/

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