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Marvão, 26 de Abril de 2008

por Rogério Costa Pereira, em 27.04.08

Diz o the studio, em comentário a este post da Fernanda: «Oliveira Salazar foi um dos mais conceituados catedraticos Portugueses em Economia, nao foi alguem que fez uma licenciatura por fax. Durante o periodo em que esteve ‘a frente do governo, Portugal teve o maior crescimento economico de desde que ha’ registo. Portanto, com os dados disponiveis, so’ poderemos concluir que caso Salazar continuasse no governo ate’ hoje, viveriamos melhor que vivemos. (...) E sim, o Mario Machado esta’ preso pelas suas opinioes politicas. O primeiro dia de julgamento foi exclusivamente dedicado “ao que ele pensa” e nao “ao que ele fez”» Sei que este tipo de opiniões praticamente se auto-contestam e que, portanto, não carecem de qualquer tipo de réplica. Encaro, pois, este meu comentário ao comentário em causa como um desafio: tentar perceber quem é o the studio e, aproveitando o ensejo, expor algum do meu pensamento, para que não tomem a nuvem por Juno, a árvore pela floresta. A identidade deste blogue é resultado da soma dos agires e pensares de quem nele escreve em cada momento. O 5 dias, permitam-me, e não é à toa que o digo cerca de um mês depois do meu primeiro post, agora que já tomei o pulso à maioria dos meus colegas, perdão, camaradas, não fala em uníssono, não reúne em comité central antes de cada um escrever o que quer que seja. O 5 dias é um endereço onde se podem ler fulano, sicrano e beltrano. Existe a floresta, e nessa não deixa de haver alguma identidade, claro, diverso seria insustentável, mas nela há arvores de todo o tipo. Atentem nelas. O nome que encima o artigo não está lá por acaso. Voltando à vaca fria, que neste caso assina the studio, não será despiciendo referir que, pela forma como acentua, facilmente se depreende que está além fronteiras, e que, pela forma como não acentua, e como a trabalha, facilmente se conclui que a língua portuguesa se apresenta, aos olhos do ser, com aura de mistério insondável. Mas isso, embora revelador, é mero formalismo que pouco é para aqui chamado. Interessa-me, isso sim, o discurso circular e básico, a lógica do razoamento, se assim lhes posso chamar - à lógica e ao razoamento. Comecemos pelo fim. Diz o moço que Mário Machado está preso pelas suas opiniões políticas. E como se alcança tal conclusão? Por uma perfeita aberração analítica: «O primeiro dia de julgamento foi exclusivamente dedicado “ao que ele pensa” e nao “ao que ele fez”». Como é óbvio, para qualquer ser pensante, os pensamentos levam às acções, embora neste caso se revele um fenómeno algo paradoxal: dificilmente se pode chamar "pensamento" ao que subjaz às acções do indivíduo em questão. Tratar-se-á de um fenómeno qualquer, absolutamente diverso de pensar, mas que por comodidade de raciocínio concederei em chamar de pensamento. O the studio não sabe, e talvez nem lhe seja exigível, mas a verdade é que a maior parte dos seres racionais pensam antes de agir, daí o, para ele, inusitado, interesse em tentar conhecer o pensamento do individuo, antes de, daí, tentar encontrar uma causalidade adequada entre o dito pensamento e as alegadas acções, estas, verdadeiramente, a única coisa que realmente está em apreciação. Se o tal de Machado tivesse passado a vida a apregoar alhos e viesse agora acusado de bugalhos, isso, para além de estranho, servir-lhe-ia para lançar a dúvida na mente do julgador. Porém, se as coisas se identificam, escusado será dizer da respectiva relevância.



Daqui poderia avançar para o conceito de Estado de Direito, mas concedo que problemas já tem o the studio – simplifiquemos, portanto. O simples facto de ele poder dizer, como se em ágora, tais enormidades, é bem revelador da diferença entre os dois regimes que tenta comparar. A verdade é googlável. A quantidade de sites e blogues de autores com alopécia total e dormência na mão direita é assaz reveladora da diferença entre o actual regime e o regime que o the studio parece propor. No dele, este blogue não existiria. Mais, seria impossível, de Marvão, eu ter sequer acesso à www. Hoje, todos escrevem o que se lhes afigura e nem por isso têm um qualquer sucedâneo da PIDE a bater-lhes à porta - à parte, obviamente, a intrínseca, e não desprezível, principal característica da norma jurídica: a violabilidade, qual jogo com regras pré-definidas, afinal, a principal diferença entre democracia e ditadura. Os crimes contra a honra são sustentáculo perene de qualquer democracia, que se quer moderna e eficaz, sem que isso possa justificar a judicialização do debate político - mas isso é outra conversa. De resto, justiça, temos hoje regime bem diferente temos daquele que, não fora o 25 de Novembro, nos teria entrado porta adentro. Com o doloroso PREC, o comunismo à portuguesa provou ser a outra face da moeda que circulou por mais de 40 anos. Mais do mesmo viria. Para reconhecer a verdade destas palavras basta remontar a esse vero case study no terreno em que se traduziu a guerra civil de nuestros hermanos. De ambos, comunismo e fascismo, os factos provam-no, a democracia, esse mal menor, sempre andou alheada. No que respeita ao exuberante crescimento económico que parece ter-se dado durante Estado Novo, que o the studio, do alto dos seus, aposto, não mais que vinte anos, caso contrário é deveras preocupante para o cujo, parece querer testemunhar, como de ouvir dizer, e da sustentabilidade de manter esse crescimentos até à actualidade, estamos conversados. É facto notório que seria impossível, nos tempos que correm, um regime que industriava o "orgulhosamente sós" singrar no mundo moderno. Assim como, também acredito, mais, tenho a certeza, que a transição que se verificou em Espanha também se teria dado em Portugal. O regime, caduco que estava, cairia por si. Por dentro, de podre e insustentável. Os secretos a voces dos nossos vizinhos serviriam bem para nós - em igual medida. Não desconsidero, ainda assim, o 25 de Abril, nem a grandeza que lhe está subjacente, mas também não esqueço que o povo pouco teve a ver com ele. E isso é revelador. Voltando a outro lugar comum: há que não esquecer que a populaça que o vaiou, no quartel do Carmo, foi a mesma que o aplaudiu, de pé, dias antes, em Alvalade, no estádio – falo de Marcello Caetano. Em suma, o 25 de Abril atalhou as coisas, mas não as suavizou o que devia. Atalhos são, não é por acaso, sinónimo de trabalhos acrescidos e evitáveis. A tentativa de tomada do poder pelo PC, que se traduziria num "mais do mesmo", a verdadeira rebaldaria, vulgo PREC, que se seguiu ao 25 de Abril, pela qual ainda hoje pagamos juros capitalizados, qual anatocismo não contratualizado, podiam ter sido evitados. Porém, a história descambou para aí, e a verdade é que a história tem sempre razão. Cada preso político que aquela Quinta-Feira libertou talvez justifique a revolução, vista daqui, passados que foram meros 34 anos. Daqui por 100 anos, longe da fulanização, talvez seja possível racionalizar as coisas e concluir que o 25 de Abril ter-se-ia dado, por dentro, por si, com menos cravos, menos pompa, menos fontes luminosas, mas de forma mais eficaz. Um ano, quiçá dois, não duraria mais. Mas que difícil é, falar com tantos testemunhos vivos das agruras do estado que, estafado à nascença, em termos ideológicos, se quis chamar de “novo”. A verdade é que, o redondo raciocínio do autor do comentário que conduziu a este post não faz, obviamente, qualquer sentido, basta tentar imaginar Cuba no extremo ocidental da Europa - em 2008. Parece paradoxal, a comparação, mas não é. O resto tira-se de letra.

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publicado às 02:13


27 comentários

De Ana Borges a 27.04.2008 às 13:10

Uma vez, contaram-me, um jornalista, na altura director de uma publicação semanal, aceitou - por indicações do patrão - colocar alguns jornalistas num "campo de concentração" à espera que estes se despedissem poupando assim alguns trocos à empresa... Perguntem entre vocês quem foi esse "Nazi"...

De José Pedro Barreto a 27.04.2008 às 11:04

http://womenageatrois.blogs.sapo.pt/793989.html

O Portugal de 2008 é melhor do que o Portugal de 1974? É sim senhor. Vive-se melhor? Claro que vive. Mas o que tem o 25 de Abril a ver com isso? Se calhar, muito menos do que a euforia comemoracionista sugere.
A responsabilidade da melhoria não cabe só a um golpe de Estado que há 34 anos, como escreveu o António Pinto Leite (na altura em que ainda escrevia com graça), nasceu numa manhã de Abril “dos amores entre uma velha senhora e um capitão mal pago.”
Se o 25 de Abril não acontecesse, como estaríamos hoje? Provavelmente, não muito diferentes do que estamos. Qualquer outra coisa teria feito o trabalho de nos trazer até cá – outro golpe noutra data, ou qualquer outra forma de o regime desabar e/ou se transformar. Nada nos garante que não pudéssemos estar até melhores - embora, sabendo do que a casa gasta, eu não acredite muito nisso.
Nenhum país vive isolado, e muito menos na Europa ocidental, mesmo que no seu extremo mais periférico. O mundo muda, o mundo mudou, e Portugal teria que mudar com ele, com ou sem 25 de Abril.
Não foi a democracia portuguesa que inventou os computadores, a televisão por satélite, o telemóvel, a Internet, a evolução tecnológica em geral. Nem se imagina que o regime concentracionário português da altura pudesse resistir a tudo isso – como não resistiu o regime soviético, quinze anos mais tarde. Não se imagina que pudesse também resistir ao movimento de integração europeia, à pressão internacional, ao que quer que acontecesse no resto do mundo, a começar pela Espanha aqui logo à porta. Isto não é a Coreia do Norte.
É legítimo (e desejável) não esquecer o que era Portugal há 35, 40 anos – a miséria, a ausência de liberdade, a guerra em África. Mas o 25 de Abril, mais do que a causa primeira, foi um elo (importante, mas um elo) na cadeia de causas que fez de Portugal aquilo que, bom ou mau, ele é hoje. A maioria delas nem sequer foi da nossa responsabilidade. E se não houvesse 25 de Abril, a cadeia seria emendada por outra coisa qualquer.
Portugal vive melhor hoje porque o mundo (pelo menos a parte do mundo em que Portugal se insere) vive melhor hoje do que há 34 anos. Se o mundo tivesse “piorado” entretanto, Portugal teria piorado com ele. E nenhum 25 de Abril nos salvaria.
Dito isto, lembremo-lo. Não pelo que fez de nós, mas pelo que mostrou de nós. Pelo que representou de coragem de uns e cobardia de outros, pelo que ensina da política, da guerra, da história, da condição humana. Quanto mais não seja (e não há muito mais para ser) os que o fizeram merecem-no.

De Fred a 27.04.2008 às 03:00

Um ponto importante - e ignorando de todo o conteudo do caso: um tribunal julga acçoes e não ideologias

De Fred a 27.04.2008 às 03:09

Na ignorancia de quem está acabar o decimo segundo suponho que o tribunal deva ser apolitico

De ana a 27.04.2008 às 09:52

Fred:

Hoje, os tribunais são apolíticos. E MM não é político, é marginal, delinquente, etc.,etc. Agora, das duas três: ou respeita a nossa Constituição e se deixa de incitamentos ao racismo;ou emigra;ou vai para a prisão, onde de resto até engordou. E MM é um cobardolas. Agora já não se assume como racista, mas como "racialista", convencido de que é muito esperto e de que uma simples troca de palavras é o suficiente para dar a volta ao Tribunal.
Aos vinte anos gostamos de contestar o que está estabelecido. Mas é preciso pensar antes de contestar. MM e os seus seguidores revelam uma maldade que nem é própria de jovens "normais".

De JDC a 27.04.2008 às 05:04

Caro Fred

Quantas vezes ideologias não geram acções? Devemos estar á espera que Mário Machado incite dezenas (centenas?) de pessoas a cometerem um massacre? Não se esqueça que MM, no seu blog, apelava á aquisição de armas para "nos defender do invasor africano". Ponho entre aspas, não por ser citação directa, mas por ser o sentido com que MM escrevia. No nosso código penal, tal incitação é q.b. para acção judicial. Por isso, um tribunal não julga só acções...

De Lidador a 27.04.2008 às 10:11

Não gosto nada do "mas" com que certas pessoas se referem aos factos, porque na maior parte das vezes trata-se apenas de manifestar uma reserva mental.
O uso do “mas” é característico de uma certa esquerda e de uma certa direita que com ela tem vários pontos em comum, nomeadamente o autoritarismo, a reificação das entidades colectivas, a o estatismo, a rejeição do liberalismo e da democracia liberal, a luta contra os “excessos de liberdade”.

Quando alguém diz que o comunismo falhou “mas até tinha algumas coisas boas”, ou que Cuba sim senhor, é uma ditadura, “mas tem um bom sistema de saúde e um grande nº de médicos ”, está claramente a tentar largar cortinas de fumos e a pedir compreensão para esses regimes.
O seu equivalente, é o louvor do salazarismo ou do nazismo, isto é, pode sempre dizer-se que o salazarismo era mau, “mas”, ou que Hitler era um sacana, “mas até acabou com o desemprego, etc.”

Isto não quer dizer que o “mas” seja falso. Geralmente não é. É verdade que o nazismo acabou com o desemprego, é verdade que Portugal, entre 1950 e 1970 teve o maior aumento da produtividade da Europa, maiores taxas de crescimento do PIB que a Itália, França e Reino Unido, por exemplo e por aí adiante. É verdade que as taxas de alfabetização dos países comunistas eram altíssimas e que estes países se industrializaram rapidamente. É verdade que Cuba tem um grande número de médicos (mas não é verdade que o seu sistema de saúde de Cuba seja bom)
É sempre possível referir aspectos positivos do que quer que seja incluindo de um furúnculo vulcânico na ponta do nariz.
Trata-se de uma falácia conhecida por “alegação especial” e que consiste, grosso modo em escolher a dedo os factos que estão de acordo com a conclusão a que já havíamos chegado.
É por isso que estes “mas” não sendo falsos são meras falácias. Dizem-nos que há na floresta uma árvore verde, e pretendem com isso provar que não houve incêndio.


P.S. Não podia deixar de comentar este trecho : “mas a verdade é que a maior parte dos seres racionais pensam antes de agir,”

Dito assim, parece evidente. Mas a verdade é que é falso, nas situações mais críticas.
Quem está no meio de uma estrada prestes a ser colhido por um camião, não pode deter-se a ponderar prós e contras sobre as opções de ir para a esquerda, ir para a direita, deitar-se no chão ou dar uma cabeçada no camião. Age por instinto, numa fracção de segundo, ou morre.
Na verdade há até uma doença mental que consiste precisamente na paralisia por excesso de análise. O “Erro de Descartes” , do Prof Damásio, fala disto.
As situações mais complexas da vida surgem como montanhas de dados divergentes que não podem ser processados racionalmente, pelo que a acção resulta, na maior parte dos casos, de um cortar a direito, por “feeling”, intuição, enfim, uma vaga compreensão do todo.

De PR a 27.04.2008 às 09:19

A "novela" Mário Machado começa a cansar.
Se está preso por delito de opinião, soltem-no.
Se por actividades criminosas, como tráfico de armas e droga, referidas aliás no meio da extrema-direita, condenem.
A quem interessa isto?
Um mártir "daqueles" para uma certa Direita. Calhava bem ao Sistema.
Anda por cá gente mais peigosa, impunemente, anda.
Cumprimentos.

De PR a 27.04.2008 às 09:22

Estes, por exemplo:
http://suckandsmile.blogspot.com/2008/04/o-cinema-e-o-teatro-infantil-so.html

De Ana Matos Pires a 27.04.2008 às 14:27

Gosto muito da imagem visual da alopécia, Rogério, imagino logo uma alopécia universalis da parte de dentro da massa encefálica.

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