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Hoje assinei uma petição e estava a ler a bloga e tanta a gente a fazer polémica à volta da manif de sábado. Há quem diga que não serve para nada. Para nada. Uma manifestação para quê? Juntar Lisboa a cem cidades para quê? Pedir aos governantes que pressionem quem condena pessoas à morte por lapidação para quê? Para nada? Então ninguém se lembra de uma nigeriana condenada à morte por linchamento, acusada de adultério e de ter concebido um filho fora do casamento? Ninguém se lembra que, a par do trabalho dos advogados nigerianos afectos a uma ONG local de defesa dos direitos das mulheres houve uma intensa e generalizada indignação no Ocidente e que uma série de campanhas foram lançadas para persuadir o Governo da Nigéria a revogar a sentença? Lembram-se, por exemplo, que as participantes Miss Mundo, que seria realizado na Nigéria em 2002, abandonaram a competição em protesto? Este caso acabou bem. Valeu a pena, pois. Mas, só na Nigéria, há outros nomes e formas de agir.

O que importa aqui realçar é que cada vez que um ser humano é condenado à morte desta forma, todos nós morremos nesse acto. Mais do que uma ideia abstracta de humanidade, quando um homem ou, como na maioria dos casos, uma mulher é sentenciada a morrer por lapidação, assim, condenada, uma ré, uma arguida, a que lhe lancem pedras, como método de especial e meticuloso de sofrimento e humilhação, desaparece, no nosso silêncio, a nossa projecção no outro: essa coisa chamada empatia.  

Não podemos perder tempo com polémicas perante quem morre às mãos de um método que permite à pecadora, à mulher que teve relações sexuais antes do casamento, à mulher que amou quem não podia, à mulher que não obedeceu ao que é imposto ao seu corpo, veículo propício ao mal, ao pecado, ficar consciente durante muito tempo, consciente para sentir doer, para sentir a morte acontecer, para sentir quem ama ficar para trás.

Que importa se é no Irão, se é na Nigéria? Há uma mulher que ganhou visibilidade e que foi sentenciada a ser morta desta forma que nos mata a todos? Então que se façam manifestações, que se assinem petições, que se exijam tomadas de posição por parte de quem nos representa politicamente.

Cada vez que se salva uma pessoa, como foi o caso de Amina Lawal Kurami, salva-se um ser humano único e irrepetível, só por isso já valeria a pena; mas cada vez que se salva uma pessoa, aumenta a esperança de que amanhã, num amanhã menos longínquo, seja possível o nosso eu, que temos por livre e assegurado, estar reflectido, em igualdade, em todos os espelhos que a história vem partindo.

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publicado às 15:52


2 comentários

De dnemesio a 01.09.2010 às 17:49


é isso mesmo. não devemos/podemos esquecer o essencial, o que é de facto importante. e 'uma' vida é muito importante.

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