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A maior parte do tempo do meu tempo não penso na igreja católica. Posso, sem mentir, dizer é-me indiferente. Digo igreja sobretudo no sentido institucional, não me venham com rigores, por favor, estou a falar de padres, de bispos,do papa, de quem diz coisas ao resto da igreja, aos seus fiéis, de quem lhes dá orientação e por vezes consolação. É-me indiferente, digo. Leio dois ou três livros do papa e penso que bem que pensa ou que bem que escreve, naturalmente a uma distância milenar do que para ali está posto em palavras. Conheço um padre que qualificaria de fanático e obcecado com o tema da homossexualidade, da IVG e da contracepção, com quem troco impressões e gosto da beleza estética que a radicalidade sempre encerra, de tão fácil é escrever sem um mas, sem um por outro lado, e reconheço a dor desse padre, porque absolutamente convencido de que só há preto e branco na vida, pelo que vive em sobressalto. Uma dor, portanto.


É-me indiferente, porque eu já não pertenço ao clube, nada tenho a ver com o sacerdócio exclusivamente masculino, com o inferno, com o limbo entretanto revogado, com a virgem Maria que concebeu "sem pecado" (???), com os ditados datados, como o palavreado pornográfico sobre contracepção. É-me indiferente, digam o que disserem sobre os homossexuais, que fazer, é lá com eles, tenho pena por quem sofre com isso, é-me indiferente que me seja explicado que, não planeando eu ter filhos, não poderia em caso algum casar pela igreja, donde depreendo que teria de viver casta para sempre, porque parece que sexo só depois do matrimónio, é-me indiferente.


Tudo o que a igreja e os seus representantes digam ou escrevam, desde que não afecte terceiros, desde que não tenham a pretensão de interferir com o princípio da laicidade do estado, é-me indiferente.


É?



São muitos anos de catolicismo antes do seu abandono e muitos católicos em nosso redor e respeito por isso. São muitos rituais a que se vai, são importantes para aqueles que amamos, como não ir sem desamar?, e às vezes há uma palavra que não é indiferente porque consola ver que consolou alguém, precisamente aquele que amamos ou porque nos recorda da estupefacção de algum dos dias em que ainda habitávamos aquela casa e ouvíamos barbaridades sem uma reclamação, ficava um suspiro, a certeza de que a igreja é composta por homens, há uns melhores do que outros, nem todos os padres são assim, muito embora não exista uma única mulher no sacerdócio e tal e tal.


É-me indiferente?


Numa igreja, parece-me ontem, umas crianças choram a morte da sua mãe. O padre, muito jovem, conhecia essa mãe. Tratou de se informar sobre a vida dela, as suas rotinas, para que as suas palavras fossem mais do que uma missa do calendário dos rituais. Parece-me ontem, estava ali, posta ali sem fé alguma, ateia que sou, mas, num discurso muito simples, aquele padre disse umas coisas belas, e como sabia que as crianças tinham por hábito rezar com a mãe a nossa senhora o padre ignorou toda a gente naquela igreja e concentrou-se apenas nelas, dizendo-lhes com enorme doçura, e sabendo da sua fé, que não era preciso rezar pela mãe. Podiam simplesmente rezar (conversar) à mãe. Explicou-lhes que a única diferença nas noites delas era o facto de doer não se conseguir ver a mãe, ao lado delas, a rezar a nossa senhora, mas que a mãe estava, agora, ao lado de nossa senhora a tomar conta delas. Os sorrisos rasgados daquelas crianças, portanto a consolação enorme delas, foi a minha consolação.


Indiferente? Não me é indiferente ou não me foi indiferente porque a fé de umas meninas que amo foi bem acarinhada e a alegria delas conseguida por um padre que guardo na memória.


No funeral de uma amiga, há dias, tão prematuramente adormecida, divorciada e de vida amorosa reconstruída, o padre de vasta cabeleira e gestos teatrais olhava a plateia e, sobretudo, não olhava a família, gesticulando a par de cada palavra como se num teatro caricaturado por Herman José. A dor presente naquela missa era insuportável. Mais uma vez perguntava-me se tudo aquilo me era indiferente, para mim restam memórias, é nelas que a pessoa permanece, não acredito em mais nada, mas  está ali uma mãe que perdeu a filha, uma filha que perdeu a mãe,  aquela frágil mãe deve ter pedido uma missa na paróquia, deve ser importante para ela, cá estamos nós claro, é-me indiferente?


O padre, a meio da missa, acentua o tom grave da voz e proclama: rezemos pela alma desta serva de deus porque, naturalmente, está no purgatório (recordo que era divorciada e tinha reconstruído a sua vida amorosa). Dei um pequeno salto no banco e vi dezenas de cabeças inclinarem-se abruptamente para baixo ou pela primeira vez olharem para cima, imagino que para se certificarem do horror que tinha sido dito. Senti uma cotovelada e confirmei o dito. O padre, não feliz com a condenação, prosseguiu: Jesus Cristo carregou a sua cruz por nós, pelos nossos pecados. Talvez esta serva de deus, na sua doença, talvez (!!!), tenha escolhido abraçar a cruz de cristo, o seu peso e por isso.......passe menos tempo no purgatório. Recordo-me que terá colocado como muito vaga a hipótese da salvação imediata, uma vez que aquele ladrão muito mau que morreu numa cruz ao lado de Jesus Cristo foi "perdoado". Talvez, portanto, a "divorciada", embora com pouca probabilidade, como se arrastou dignamente com um cancro, tenha a sorte do "ladrão", mas não é provável.


Não há um manual que uniformize, não o que pode ser dito, mas o que não pode ser dito?


É-me indiferente?


A empatia dita uma resposta intermitente.


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publicado às 12:51


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