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sabes, minha querida, que no dia em que vi esta coisa maravilhosa, que está no final do texto, não meu lembrei da tua mãe. não me lembrei da tua mãe de tão salva, de tão do lado de cá a tinha, parecia-me uma nódoa esquecida, essa coisa, essa coisa, aquela coisa que lhe tinha acontecido, lá ao fundo, tão longe, essa besta, custosa de nomear, cancro de mama, pronto, não casava com a tua mãe, tão bonita, distante dele, naquele corredor abraçada por nós, não por ti, distante nos últimos tempos em terras africanas; dizia-te, por isso, que um dia destes um bando de mulheres, nós, as mulheres lá do ministério dos negócios estrangeiros, onde te fizeste diplomata, onde trabalhei 3 anos, onde a tua mãe era funcionária, nós, um bando de mulheres, fizemos um círculo em redor da tua mãe e de repente nós e não ela prisioneiras, prisioneiras da visão serena da vitória e por isso que sede, que sede, que sede, que sede daquela harmonia impossível, a tua mãe tão bonita que doía, o cabelo farto e um novo estilo, um corte curto, naquela cor arruivada tão pouco lusitana, umas sobrancelhas esculpidas pelo olhar atento, percebes?, era o olhar que lhe esculpia as sobrancelhas, e depois já sabes, a elegância sem idade da tua mãe, um corpo que andava sem ruído, estava ali sorridente para um bando de mulheres, prisioneiras da ausência de vestígios daquela besta, entendes, minha querida?, não havia vestígios nem da besta nem do percurso feito para matar a besta, de onde a força, para onde a dor, que era feito de uma noite que tivesse ficado com o medo de te dizer adeus? nada. e por isso que sede, que sede, que sede, que sede daquela harmonia impossível, mas verdadeira. na conversa de gajas, ficou então esclarecido o pontapé dado ao último som daquela besta, seria a tua felicidade, portanto a dela, a felicidade de uma mãe muito intrusiva, como a minha, agora dirás: que pena aquele dia e aquele e aquele em que dei cabo dela por tão intrusiva; não o digas, minha querida, se te ouvisse, a tua mãe, ou se te ouve, como seja, não há dela outra resposta que não uma gargalhada, um toma-toma, intrusiva, com toda a certeza, uma chata às vezes, que bom que foi ser assim, imperfeita e por isso tua mãe e não uma tia ou uma amiga ou uma vizinha, assim, comoa minha mãe, minha querida, uma intrusiva do caraças, e agora, dir-te-ia a tua: lá seguiste o teu caminho, que alegria a minha que pude ver isso, tão nova a minha menina, sempre a tomar decisões antes da idade das decisões, que orgulho ver a minha filha em áfrica; sim, porque disso falou-me ela, fica a saber, minha querida C.  eu sei que te vais morder toda a pensar nas cores nucleares da tua mãe, eu sei que na tua inadmissível exigência vais pensar e se e se e se, mas, na verdade, descansa-me que a tua bela mãe tenha vivido para ver-te vir a terras lusas dizer com quem ficarias para sempre e por isso esse atravessamento feliz que te dê juízo, o mesmo que me deste anos a fio no meu gabinete, tu com idade de criança e responsabilidades de pré-reformado, eu com um cansaço, sempre aquele meu cansaço, que cansaço era o meu senão o dos e se e se e se e se? sabes portanto que tudo fizeste e que a dor só pode ser a imensa dor de tão jovem perderes a imortalidade. hoje, quando tocou o telefone e me disseram que a manuela, a tua mãe, também minha colega, tinha morrido, não chorei. morreu, como? pois não estava aquela besta posta para trás há tanto tempo, caraças? que merda é esta? fiz o que sabes, nem uma lágrima, não bebi, não me droguei, nadei o mais que pude, para não sentir peso algum, enfiei-me debaixo de água numa praia deserta e revivi cada segundo teu, nosso, dela e o sorriso e lágrimas de alegria de uma mulher curada do cabrão do cancro de mama a ver a sua filha, em coimbra, tão feliz, seguir em frente, com a sua vida. finalmente, chegada a noite, já estremeci o que tinha a estremecer, mas também me lembrei de que há uma coisa que nunca te disse, minha querida C.: talvez não saibas que  foi de ti, por um acaso macabro, que pressenti, por um telefonema, a morte que mais me doeu na vida. percebeste, pelo meu tom, que ainda não me tinham avisado e foste inesquecível a gerir o embate que eu sofreria um minuto depois. liguei-te dois minutos mais tarde, recordaste-te?, e disse-te, num grito de culpa: ela morreu. ao teu eu sei, seguiram-se meses a apagarem a crueldade dos e se e se e se e toda a minha insustentável fragilidade. ajudaste-me a perceber que tudo fiz. que nada poderia ter feito. chegou, querida, a minha vez. sei que sabes, porque és mais inteligente do que eu, que tudo fizeste. mas sei, que ainda assim, haverá dias de e ses involuntários. fizeste tudo bem. e há uma outra coisa: a tua mãe, a manuela, morreu. no início, pensei: a besta venceu. o cancro voltou e ela, pouco dada a misericórdias, nada disse e largou-nos esta bomba. mas não: a tua mãe venceu o cancro. durante muito tempo. recuperou, vi-lhe o cabelo crescer, soube das análises negativas, via-a forte e saudável, a tua mãe viveu duas vezes, a tua mãe merece esta dança. para ela, então.









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publicado às 22:42


2 comentários

De Alexandra Tavares Teles a 21.06.2010 às 00:40

um beijo, isabel.

De Isabel Moreira a 21.06.2010 às 11:06


obrigada, querida, tão querida.

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