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Bento XVI, em Fátima, fez uma referência discreta aos ditos “temas fracturantes”, eu diria que a fez até com elegância, limitando-se a elogiar os movimentos que defendem a vida desde a concepção até à morte natural e o matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher.


Na verdade, nestas palavras, após aqueloutras relativas a pecados que são simultaneamente crimes, numa mea culpa elogiada por todos, não podem ser vistas como uma compensação.


Naturalmente, a Igreja é livre de definir o que entende por pecado. É livre de, como se retira desta intervenção em Fátima, pregar aos católicos que o aborto é pecado seja em que circunstância for, mesmo em caso de violação, mesmo em caso de perigo para a saúde psíquica da mãe, é livre de pregar que os católicos têm o dever moral de se não divorciarem, que o matrimónio é um sacramento de que o sacerdote é apenas testemunha qualificada, e que o mesmo é indissolúvel, para além de ser, claro, uma união entre homem e mulher, sendo certo, também, que só se pode casar pela Igreja quem tenha a intenção de procriar.


A Igreja pode defender tudo isto e que a quebra de tudo isto dá pelo nome de pecado, venial, mortal, e por aí fora.


Simplesmente, como escrevia mais atrás, as palavras de Bento XVI, em Fátima, não foram, nem poderiam ser, em circunstância alguma, a outra face da moeda das suas declarações sobre o escândalo da pedofilia. Porque o Papa está autorizado a falar no plano do pecado, mas não no plano do crime definido pela legislação estadual.


É fácil de compreender que pecado e crime não são sinónimos, pelo que um Estado laico não pode receber destas palavras qualquer lição. Apenas os católicos e, sobretudo, aqueles (não são todos) que defendem o casamento até à morte seja em que circunstância for, que defendem que uma mulher nunca jamais em caso algum pode interromper uma gravidez (excepto para salvar a sua própria vida) e aqueles que acreditando em tudo isto lutaram para que a lei civil espelhasse tais concepções, podem agradecer as palavras de Bento XVI, como foi o caso de Isilda Pegado, uma católica que se sentiu e declarou merecedora do incentivo papal.


Ouvi, portanto, sem qualquer surpresa, as declarações do Papa, querendo apenas sublinhar que não admito a tal lógica da compensação.


 O divórcio, a IVG até às dez semanas e o CPMS podem ser, para a Igreja, pecados, é lá com ela, mas. felizmente, não são crimes, são antes direitos, pelo que a mensagem é apenas uma pregação.


A não ser assim, poderíamos ter de fazer interpretações políticas acerca da temporalidade da promulgação ou do veto de diplomas em função da visita papal, ou mesmo esperar que a mesma fosse relevante para a fundamentação de uma qualquer mensagem presidencial associada a uma destas opções, o que seria, desculpem a expressão, o fim da macacada.


(publicado no DN online)   

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publicado às 13:38


6 comentários

De anónimo a 16.05.2010 às 19:53

E eu a pensar que o aborto - mesmo para os defensores da sua legalização - era sempre um mal.
É o direito a um mal. Triste direito.

 

De Carlos a 16.05.2010 às 21:34

Seja. Mas não faça demagogia barata. A opção pela IVG não é fácil e tem quase sempre como pano de fundo a ponderação de males bem maiores.  

De Anónimo a 16.05.2010 às 22:02

Concordo com as suas palavras. Espero,no entanto, que a visita papal não seja um apoio para um veto presidencial. Esperemos para ver.

Maria

De IH a 16.05.2010 às 23:16

«a ponderação de males bem maiores.»
Podia ter sido uma vez, aqui há  anos, uma ponderação sobre os males bem maiores de o Carlos vir a este mundo... Mas não foi. e ainda bem, pois agora temos o Carlos, aqui, a disparatar claro, mas daqui ninquém o tira. Valha-lhe um bocadinho de ética kantiana!
Amigavelmente, Carlos.

De IH a 16.05.2010 às 23:55

Isabel Moreira, caríssima: nunca perco uma oportunidade de ler o que escreve. Já a vi sustentar na TV que a sexualidade não tem base biológica; ou seja, o sexo é pura construção social. Hoje dou consigo, exímia jurista que acredito ainda seja, a perorar assim: « O divórcio, a IVG até às dez semanas e o CPMS podem ser, para a Igreja, pecados, é lá com ela, mas. felizmente, não são crimes, são antes direitos».
Pergunto: já leu alguma coisa de Kant, René Girard, ou de E. Levinas? Ficamos a saber que para si crime é redutível a infracção com coima. Uma pena, vindo de quem veio.
Amigavelmente.

De Isabel Moreira a 17.05.2010 às 10:32


perdão?
eu nunca disse isso.
ficamos a saber o quê?
de onde veio essa contraordenação?

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