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Bento XVI, reunido com gente da cultura, com representantes de outras religiões e personalidades diversas no CCB, disse muitas coisas para se poder fazer um só comentário simples. Talvez valha a pena referir o seu apelo a uma cidadania mundial fundada nos direitos humanos, sendo certo que quem o afirma é o Papa, para quem a verdade é só uma, naturalmente, aquela que se funda em Jesus Cristo.


Não se pode esperar outro eixo referencial de interpretação do valor que sustenta as declarações ou convenções de direitos humanos, o valor da dignidade da pessoa humana, que não essa verdade absoluta que é a revelada por Deus em Jesus Cristo e traduzida nos Evangelhos.


Por isso, se é importante a referência ao diálogo entre as religiões, num mundo que não conhecemos sem religiões, diálogo esse tão proclamado por João Paulo II – basta recordar o encontro de Assis –, sabemos que não se trata de uma fusão, claro, mas de sentar à mesa quem renega os extremismos que custam milhares de mortos por ano, quem, ainda que pregue condutas morais distantes da vida real da maioria do seu rebanho – desde logo no domínio da sexualidade –, encontre pontos de contacto, por exemplo no que toca à luta contra a pobreza, à denúncia do capitalismo imoral ou à necessidade de que o Deus de cada religião seja um Deus de paz, jamais justificativo do uso da força.


Quantos aos direitos humanos, não tenho dúvidas de que a doutrina social da Igreja foi uma das correntes que influenciaram a passagem de catálogos constitucionais  – a par de outras, como o socialismo, claro, e até declarações de direitos tão laicas como a "Declaração de Direitos do Povo Explorado da Rússia Revolucionária”, os contributos são inúmeros  – estritamente reservados a direitos de liberdade, a catálogos abertos a direitos sociais. Foi uma das conquistas do século passado.


Numa frase, tratou-se de se entender que não há liberdade sem igualdade ou que na pobreza somos todos escravos.


Mesmo o nosso direito ao mínimo de existência, que impediu  que se revogasse o rendimento mínimo garantido às pessoas que tivessem entre 18 e 25 anos, tem barbas na doutrina da Igreja: basta ler, por exemplo, a Encíclica Pacem in Terris de João XXIII.


No momento que estamos a atravessar, as criticas que Bento XVI fez nos seus últimos escritos ao capitalismo imoral, que resulta, inevitavelmente, na violação de direitos sociais, seriam boas de se serem escutadas por alguns capitalistas que se afirmam católicos, mas que por vezes têm alguma dificuldade em fazer uma equação simples entre o factor trabalho e o factor capital.


Ironias à parte, é no campo dos chamados direitos de liberdade que a mensagem de Bento XVI é menos universal. Para ele, a falta dessa universalidade chama-se relativismo. Porque o tal eixo interpretativo que não pode nem deve abandonar o que é a vida humana, o que é o homem, o que é a mulher e por aí fora, não encontra eco no movimento libertador (e libertado da Igreja) das últimas décadas no ocidente com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez dentro de certos limites, com a conquista do direito ao divórcio – um direito fundamental –, com os crescentes direitos dos homossexuais, com a procriação medicamente assistida, etc.


Aquilo a que Bento XVI chama de relativismo eu chamo de conquista de direitos e chamo de liberdade. E há desde logo uma que é a liberdade de expressão, que me leva a ouvir com naturalidade o Papa afirmar que há apenas uma verdade.


 


(publicado no DN on line)

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publicado às 12:42


10 comentários

De Paula R. a 13.05.2010 às 14:20

não percebo a ultima frase ! o que quer dizer com  "E há desde logo uma que é a liberdade de expressão, que me leva a ouvir com naturalidade o Papa afirmar que há apenas uma verdade".  

De Isabel Moreira a 13.05.2010 às 14:27


acho que fui clara. era o que faltava que Bento XVI não pudesse afirmar que há uma verdade absoluta (a de Deus, revelada em Jesus Cristo). Assiste-lhe esse liberdade de expressão. E eu escuto-o, portanto, com naturalidade.

De António Parente a 13.05.2010 às 14:49

Pelo seu comentário ao meu comentário sobre o comentário do Rogério Costa Pereira parece-me que está carente de elogios. Aqui ficam:

Tenho lido os seus artigos no DN e tenho gostado deles. Defende as suas ideias de uma forma clara, aberta, tolerante, sem magoar nem ofender ninguém. Tenho gostado muito. Parabéns. Precisamos de pessoas como a Isabel a escrever como escreve.

(Agora não estrague tudo e não comece a "espingardear" por eu ter dito que está carente de elogios)

De Paula R. a 13.05.2010 às 15:00

peço desculpa mas continuo a não entender, sobretudo no contexto do que vem do anterior (no texto), mas deve ser problema de entendimento meu

De Isabel Moreira a 13.05.2010 às 15:02

eu era mais umas férias num sítio quente junto ao mar.  obrigada, António.

De Ana a 13.05.2010 às 16:19

Isabel, todas as religioes tem a sua verdade. Eu sou Buda. Eu sou a Ala. Eu Sou . ( JEsus Cristo). Logo é natural.

De Isabel Moreira a 13.05.2010 às 22:47


exacto. e não se pode esperar que Bento XVI não defenda que a sua é a que guarda e revela  a verdade absoluta.

De Isabel Moreira a 13.05.2010 às 22:50

não percebo a sua dúvida. há pontos de contacto e de divergência, mas Bento XVI tem a liberdade de afimar que há uma verdade absoluta mesmo que eu não concorde com ele, mesmo que o mundo não lhe dê razão na consagração de direitos de liberdade como os que referi.

De Niamey a 14.05.2010 às 13:17

isto realmente começa a ser enfadonho mas não é demais lembrar, uma liberdade de expressão que permite que ouçamos com naturalidade e/ou com revolta a  Verdade do Papa....que afecta milhões de pessoas e não só quem a quer aceitar.

De Paula R. a 17.05.2010 às 17:35


Isabel Moreira ... nem a propósito (do dia de hoje) .Tanto liberdade expressão tem Bento XVI como tem Cavaco Silva de se pronunciarem sobre aquilo que Bento XVI apelidou de "relativismo". O meu senão vai para o ouvir com naturalidade, que no contexto do que está em discussão entra em contradição com o que refere imediatamente antes " ...eu chamo de conquista de direitos e chamo de liberdade",  e por isso eu ouço com indignação :)
 

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