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Dia da mãe

por Isabel Moreira, em 02.05.10

Não envelhece quem envelhece ao nosso lado, respondeu um dia o meu pai a quem lhe perguntava acerca do como de tantos anos ao pé de ti. São quarenta e um a ditarem uma declaração do amor que tu espalhas à tua volta e que me sustenta há trinta e quatro.


Num parágrafo, já escrevi quarenta e um e há escrevi trinta e quatro, unidades de tempo, mas poderia ter escrito unidades de tempo como a semana passada ou o dia de ontem ou aquele ano em que me doía o corpo ou aquele telefonema que começou no meu choro e acabou no teu sorriso sempre de esperança ou, melhor, de força, de tanta força, refeito na minha cara finalmente seca.


O Cabo da Roca é o mistério da beleza sem par e só de aparente perigo, por isso mesmo, porque aquela ventania é uma montanha imemorial de vozes sábias, é assim que me surge, quando lá vou porque sim, não preciso de dizer a ninguém, não tenho medo do que parece, apenas parece um abismo, porque encosto o meu corpo ao limite da Europa e descanso o olhar no único elemento que me rouba à introspecção, esse mar que só tão tarde descobri não acabar na linha no horizonte, por isso eterno, calmo quando quer, revolto quando tem de ser, revolto, mas sem me transmitir medo algum, antes mensagens, avisos tantos, que me dizem quando devo esperar em silêncio, quando devo gritar até que uma rocha se parta, quando devo procurar uma luz no nevoeiro, ou mesmo quando devo ignorar este último, porque há o outro, sempre o outro, e nem a cegueira de uma parede opaca nos pode fazer hesitar nos passos.


Tu, sardenta, com o toque irlandês do teu pai, foste sempre o meu Cabo da Roca. Há uns anos escrevi-te: o meu cabo da roca.


Quando te pergunto como é possível perder tanta gente pela vida e não cair numa cama, como nós, não te dares ao direito de deprimir, não morreres por uns tempos, como é possível essa sensibilidade militante de te doer tudo, a tua dor e a dos outros, a tua empatia sem igual, numa viagem até ao dia do teu nascimento, e ainda assim não te tremerem as pernas, porque a vida segue, há sempre que tratar dos que ficam, dos tais que precisam de se deixar morrer por uns tempos, dos que não aguentam a tragédia do que não vem casado com a palavra anunciado, dizes apenas, num sorriso, que estou a disparatar, porque cada um nasce como nasce e não está em ti passar por mais do que chorar o que tens a chorar de noite e acordar para fazer o que há a fazer.


Devias ter nos teus nomes alegria, emoção, loucura saudável, generosidade e força. E para mim tens. (Ó meu deus, e quando pegas num lápis, distraída e desenhas obras de arte; ó, meu deus, e quando alucinaste com um monte de barro e fizeste em seis horas o busto do pai e tiveste por razoável, quando o mesmo foi transformado em bronze, marcar uma consulta no dentista e, para horror deste, sacar da broca e corrigir o olho da tua obra espontânea!)


O meu Cabo da Roca, tu que choras com a arte e que tens princípios de ataques cardíacos com um jogo de futebol, tu que sabes, como um mapa minucioso, das minúsculas e enormes diferenças quotidianas das alegrias e dores de seis filhos e doze netos. Tu que sabes que a ventania, a calma, o nevoeiro, o abismo, têm sempre a sua beleza – não tenhas medo, dizes.


Hoje, tal como no tempo em que se disputava o lugar no sofá ao pé de ti depois do jantar, a minha mão e a tua face conhecem-se e reconhecem-se, tantos foram os anos de cumplicidade a aproximarem-se.


Obrigada, meu Cabo da Roca.


E não te esqueças do meu pedido infantil: tu até aos cem e eu até aos setenta.       

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publicado às 10:52


6 comentários

De Manuel Pacheco a 02.05.2010 às 12:36

Dia-da-Mãe:


Todos os dias deviam de ser Dia-da-Mãe. Lembrarmos das dificuldades que passaram para fazer de nós homens e mulheres. As canseiras porque em certos momentos da vida, esta era adversa e só sabe dar valor quem por esses momentos passou. Quantas vezes em lugar de um afago vinha uma bofetada. A culpa não era de quem a dava mas, sim de quem tudo fazia para que esses momentos fossem realizados. A ignorância e a má vivência que a outra “Senhora” tudo fazia para prevalecer eram o mais propício. Só dá mal vivência e ignorância as ditaduras.


Ainda me lembro da escova de escovar roupa que a minha mãe usava para me repreender. Dizia ela que ao dar-me uma bofetada no traseiro fazia tanto doer a ela como a mim. Assim com a escova eu sentia mais. Sabia que na maioria das vezes eu tinha razão mas, que me batia para eu aprender a escolher os companheiros de brincadeira. Era uma pessoa urbana e não gostava de discutir com os vizinhos. Por isso antes preferia castigar os seus. Como eu a compreendo agora. Nessa altura ficava ofendido física e moralmente.


Como hoje gostava de lhe dar um beijo em celebração do Dia-da-Mãe. Não pode ser e ao ver os meus filhos a darem um beijo na sua mãe este transporta para a lembrança da minha. Não podemos ter tudo o que queremos. Ao menos fica a consolação da sua recordação e da escova de escovar roupa.

De João José Fernandes Simões a 02.05.2010 às 15:11

Porque será que as pessoas "arrogantes" que conheço, pessoalmente e virtualmente, demonstram também uma "estranha" sensibilidade.
Obrigado pelo que acabo de ler. Fico a gostar mais de si.
Também eu preciso da ventania do meu Cabo Mondego, onde se põe o Sol mais lindo que conheço e onde a duas milhas da costa passo grande parte dos meus fins-de-semana entre Junho e Agosto, quase sempre apenas acompanhado pelo silêncio do mar.

Hoje é um dia em que preciso desse vento onde me procuro lembrar, esquecendo, as amarguras:
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Ausência




A última vez que ouvi a tua voz foi há quatro dias atrás, partiste quando o dia se preparava para nascer e tu a lutar a noite toda por respirar o oxigénio que te forneciam por uma máscara. Sofrias, eu sei. Sobretudo quando a febre teimou em resistir no teu corpo esquelético e frágil. Que anunciava o fim. Tendo percebido nas tuas frases sem lógica que deliravas na viagem sem regresso. Cuja partida sentia que estava próxima.

 

Tento ouvir a tua voz. Mas não consigo. Nem por entre estas palavras que te escrevo com uma saudade eterna. Vesti no dia da tua partida uma camisa branca com gravata, como eu sei que tu gostavas de me ver. Há meses que não vestia uma gravata. Não te dei o tempo que merecias, sentindo uma culpa que fere. Não te dei o carinho que te fez falta e que sinto a falta de o não te ter dado. Uma falta de paciência enorme, e tantas vezes estupidamente duro.

 

Resta o consolo de não te ter abandonado num depósito de idosos, onde, provavelmente, terias a fralda de quem volta a ser criança logo à primeira vez que a pedisses. Mas que eu te neguei sempre. Onde, logo que caísses na cama, não mais te levantavas. Fui duro e isso causa mágoa. Sinto culpa de não ter estado mais junto a ti e de não te levar a passear. Sinto a culpa de não perceber mais cedo de que te preparavas para nos deixar.

 

Mas sinto o consolo de ter percebido a tempo de que te preparavas para nos deixar e de, a partir daí, deixar de te levantar a voz, por força de uma falta de paciência estúpida. Sinto o consolo de ter teimado sempre contigo para que te agarrasses à vida, fazendo valer até ao teu último pingo de força os teus gestos derradeiros que te davam a dignidade de ter vida, mesmo que andando com dificuldade e quase sem força para levar a comida à boca.

 

Lembro os teus olhos muito abertos quando me viste ao fim de trinta minutos num despiste fatal com o teu andarilho, que te fez recuar para uma porta de ferro onde o vento frio passa há tantos anos, numa casa pobre. Um vento frio que te baixou a temperatura do corpo para os limites da sobrevivência. Ainda hesitei em te levar logo para o hospital. Mas percebi a tempo de não me culpar de que tinhas consumido o último pingo de força. Nesse dia, dei-te comida na boca, a única vez que o fiz, comida que tu avidamente querias, mas que já não tinhas força para mastigar.

 

Comecei a chorar. É hora de te pedir perdão. Querida Mãe.



 
Publicado às 22:03

De June a 03.05.2010 às 08:47

Eu julgo que este seu post merecia estar no "Consolação".
É tão íntimo, tão belo apenas para quem pode experimentar e realizar o que é a produndidade da relação com uma mãe de excepção.
Obrigada por partilhar.

Image

De Isabel Moreira a 03.05.2010 às 20:28

tem razão...tenho escrito tão pouco. obrigada. por acaso já (http://www.myvictam.blogspot.com/)está.

De Anónimo a 04.05.2010 às 12:10

ela trata os pais por voce

De Isabel Moreira a 04.05.2010 às 19:39

você, é assim. queridinho ou queridinha, não tenho preconceitos alguns e nada pretendo esconder, donde o seu comentário idiota, estar aqui publicado. trato os meus irmãos por você, o meu papá trata-me por tu, eu a minha mãe variamos no tu, com ternura e, finalmente, cara imbecilidade, literariamente, uso sempre, mas sempre o tu, "tá a ver"? 

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