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Herman José ou de um contributo para a liberdade

por Isabel Moreira, em 20.04.10

Começo este texto, há tanto tempo por escrever, no dia em que tomo conhecimento de que o Herman José estreia um novo programa. Regressa num talk-show à RTP1.É uma coincidência. Há muito que quero ter o atrevimento algo estranho de, exactamente por me dedicar ao estudo de direitos fundamentais, tentar explicar por que é que o Herman José contribuiu, em toda a sua carreira, para libertar a tão em voga liberdade de expressão, ele sim, um homem censurado, em plena democracia.


As normas jurídicas não são enunciados mortos, sequências linguísticas deixadas num papel datado sem que o que se vá passando na sociedade, para a qual elas se dirigem, não seja absorvido pelas mesmas, dando-lhes um novo significado, sem que seja necessário alterar uma letra. Em 1976, no dia, no mês e no ano em que eu nasci, inscreveram-se duas liberdades fundamentais no estatuto do Estado e da sociedade, que dá pelo nome de Constituição: a liberdade de consciência e a liberdade de expressão, mas todos nós sabemos que o mesmo enunciado quer dizer hoje uma coisa e queria dizer, nos anos oitenta, uma outra completamente diferente. Os referentes mudaram.


Aprovar um texto não muda uma sociedade de um dia para o outro. A democracia da sociedade civil precede a democracia que o Estado lhe prescreva. Nessa mudança há indivíduos que fazem a diferença. O Herman José fez a diferença. Não conheço um caso igual. Conheço casos de sucesso, sim. Mas não conheço um caso igual. Esse é o ponto.


O Herman é um humorista e a história mostra a capacidade e a seriedade do humor para mexer com os sistemas. Eça de Queiroz escreveu que o riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo. E o Herman percebeu isto. Este homem pensou sempre primeiro que todos nós. Talvez ainda estivéssemos encostados a uma manta cinzenta quando o Herman, contra um país com medo, atreveu-se a demonstrar o que hoje temos por evidente: é que o humor não tem limites quanto ao objecto. Pode fazer-se humor com tudo: com o sexo; com a religião; com a morte; com os nossos costumes; com a família; com a hipocrisia; com a censura velada; com a estratificação social: com a pobreza; com a sida; com a homossexualidade; com a nossa história; com os falsos casais; com o machismo; com a violência nas relações; com a arte popular; com a política; com a nossa gente; com o sentir português; com tudo. Não há limites para o humor. Que juiz diria, hoje, o contrário?


Os limites serão outros, os mesmos que encontra a liberdade de expressão em geral, mas, quanto ao objecto, não há limites. O Herman atreveu-se, antes de todos nós, a escolher os seus próprios padrões de valoração ética ou moral na conduta subjacente ao seu trabalho, sem contemplações, porque o mistério de fazer rir, para ele, foi sempre, também, o mistério de nos acordar.


Não pretendo, aqui, fazer o historial dos programas de Herman José. Já o fizeram. Pretendo apenas dizer que sei que hoje Portugal é mais livre por causa do Herman.


É uma ternura rever os atrevimentos do Herman de há tantos anos atrás com figuras históricas, a célebre última ceia, que lhe valeu a indignação de meio país, missas de desagravo, histerias, e hoje revemos aquilo, e sabemos que essas mesmas pessoas que gritavam pela censura ao atrevimento estão hoje cientes de que têm a opção de mudar de canal e que nada há ali de ofensivo, mas apenas um exercício de ironia, de humor, com Jesus Cristo, sim, mas como não brincar com a religião e com as nossas figuras históricas se nós somos o produto disso mesmo?


Lembro-me da forma genial como o Nelo explicou à sua Idália o que era a Sida, destruindo num humor socialmente demolidor e implacável, todos os preconceitos e toda a desinformação sobre a doença, em gestos e palavras, e de como eu e um amigo seropositivo quase morremos de falta de ar e de satisfação: a sida tinha cores, o vírus era saltitante, dai que fosse mais apegado a gente dada para a brincadeira, e por aí fora.


Tantos e tantos episódios, o Herman sempre adiantado em relação ao país, daí figuras como o Diácono Remédios, que caricaturava preventivamente a crítica que Herman sabia existir na cabeça de tantos.


E quem está na televisão, na rádio, nos espectáculos durante mais de trinta anos a fazer rir ininterruptamente um país ? E quem nos dá alegria mesmo quando a não tem? Só um profissional de excepção.


Mesmo na sua exteriorização criticada do produto do seu trabalho, fossem relógios, fossem carros, fosse o seu barco, a vergonha não era nem deveria ser de Herman, mas de quem o criticava; o Herman estava apenas a ser livre, a ser o que queria ser, quem o criticava era, sim, o rosto da vergonha, ainda era herdeiro de um certo salazarismo que mandava ser rico com “decoro”, “sem mostrar”, de fato cinzento, de preferência.


Eu tenho 34 anos e não me lembro do Herman não existir. Passei a minha vida a rir e a aprender com o Herman. Desde logo a ser mais livre.


Este é um texto de gratidão. A gratidão é tanta, que tenho com o Herman – que não conheço – o mesmo tipo de instinto que tenho na amizade. Quando leio uma crítica ao seu trabalho, quando vejo alguém de fraca memória sublinhar um minúsculo aspecto da carreira deste monstro esquecendo o seu conjunto, fico roxa de fúria. Para mim, o Herman é e será sempre um génio. Sempre. E é um profissional que não falha. Morre-lhe o pai e ele dá o espectáculo que tem agendado para esse dia. Porque tem um compromisso connosco.


Quem me dera. Quando chegar a minha vez, daqui a muitos e muitos anos, se tiver um prazo para cumprir, duvido que o cumpra.


 

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publicado às 11:56


8 comentários

De joão rodrigues a 20.04.2010 às 12:22


cara Isabel , sendo católico, de direita, pró-israelita, apoiante do mccain , contra o casamento homossexual , com os meus filhos a estudarem no planalto ,só posso dizer que"milagres" acontecem.
o seu texto traduz tudo o que penso sobre o herman josé,sobre a genialidade do artista e do homem.tambêm eu sou mais livre e mais feliz devido ao longo e brilhante trabalho de desconstrução da realidade portuguesa efectuado por herman.
obrigado pela justiça que faz a alguêm,por vezes por culpa propria,tão vilipendiado na nossa praça. através do seu texto que como digo, subscrevo inteiramente,pretendo agradecer ao herman tudo o que de bom fez por este portugalzinho tão cinzento.

De nuvens de fumo a 20.04.2010 às 12:52


Tenho saudades de um Herman que eu adorava, desde a altura dos programas de rádio como rebeubeu pardais ao ninho.
Não perdia um, e  obrigava os meus pais a ouvir aquilo em viagens de carro ao sábado, eles que não apreciavam o nonsense dos diálogos e que achavam ligeiramente brejeira a linguagem, mas que iam gostando aqui e ali de alguns apontamentos. Image

Para mim era uma religião, num país que era uma seca humorística aquelas peças que mais tarde foram apresentadas na televisão, faziam-me ter ataques de riso quer pela inteligência do seu humor, quer pela ausência de tabus ( para a altura ) que pelos ataques de riso que eles próprios tinham em directo ( suponho ) tornando o público em cúmplice dos disparates tantas vezes incompreensíveis .

Era uma mistura de amador e profissional com verdadeiros toques de génio distribuídos de forma generosa e autêntica. Do improviso saíram momentos que nunca mais esqueci.

Como faz parte integrante até do desenvolvimento do meu humor  e por muito que o estilo inicial  tenha mudado será sempre para mim uma memória deliciosa que ainda hoje me faz sorrir com a estupidez inteligente de personagens que nem vale a pena referir.

>Nota curiosa , sempre achei a comédia radiofónica profundamente rica , talvez porque viva do texto da dicção e de uma inteligência mais exigente. Talvez nos obrigue mais a imaginar cenários , não sei.<


O drama de muitos artista é que  tendo criado uma expectativa imensa sobre as suas capacidades nos desiludem rapidamente quando não estão no seu melhor.
Aquela imagem quase idealizada do humor perfeito e inteligente que guardo de adolescente obviamente não pode ser ultrapassada com facilidade.
O Herman carrega o peso do seu imenso sucesso, o que não deixa de ser trágico.

De Marcelo do Souto Alves a 20.04.2010 às 13:33


    Somos-lhe bastante devedores. Herman José, para além de ser um grande Sociólogo português, "de experiência feito", possui um talento analítico ímpar (muito maior do que Portugal) e uma sensibilidade artística genial! Se não se tornou universal, foi talvez por ter sido demasiado generoso para connosco, portugueses, e ter-nos escolhido a nós todos como objecto preferencial da sua arte... Obrigado, Senhor Feliz!

De Jose Rocha a 20.04.2010 às 15:21

Estou inteiramente de acordo.


É verdade que o Herman mudou de imagem de estilo. Mas como disse e bem, não nos podemos esquecer do conjunto. E esse é notável sobre todos os aspectos.


E o que o Herman nos deu (e foi muito) já ninguém o tira.


José Rocha

De Romeu a 20.04.2010 às 16:10

pró-israelita? que tem isso a haver com o que quer que seja?


eu também sou pró-israelita e diferente nas outras características... acho que isso tem mais a haver com a informação a que se acede do que com ideologias...

De Natália Santos a 20.04.2010 às 16:53


Nunca me esqueci do episódio da Última Ceia. Sendo um programa de humor, a figura de  Jesus não podia ter a carga trágica que carrega habitualmente, mas tinha que ir à sua essência.
 Então Herman faz de   Jesus um  Homem bom e inocente, prestável (muito à semelhança do "pasteleiro" ) amigo dos seus companheiros. Nunca percebi como se puderam levantar vozes contra um Jesus tão bom! Realmente a Igreja só reconhece o Jesus amargurado vergado ao peso do seu Destino.
Costumo dizer que o Herman devia ter uma medalha por um feito ímpar : abrir  os olhos a milhões de portugueses durante muito tempo ! Bem haja !

De manuelcav a 20.04.2010 às 18:23


Amigo, companheiro, Palhaço desta vida!

É, a frase é do Herman. Subscrevo a simpatia pelo Herman, no entanto, não posso deixar de apôr a interrogação: quantos "Hermenes" há por este Portugal, ie, quantos Palhaços que têm feito rir gerações, que sempre expressaram de forma satírica a sua liberdade, que muitas vezes fizeram rir com vontade de chorar e que nunca sequer tocaram num Rolls Royce? não teremos também todos aprendido com o Raúl Solnado, com o Carlos Miguel, com a Florbela Queiroz, com o Vítor Mendes, com o Vasco Santana, com o António Silva, com o Ribeirinho? e tantos outros...

De joão rodrigues a 21.04.2010 às 10:00

caro Romeu,
tem toda a razão,ser azul ou vermelho nada tem a ver com o texto.
apenas procurava mostrar que apesar de posições e opiniões tão diferenciadas relativamente á douta autora do post,podemos ter perante certos assuntos um olhar semelhante,ou seja marcando a diferença queria elogiar de forma veemente o texto
e ao mesmo tempo,demonstrar(embora não seja necessário) que a grandeza do talento de Herman podia ser apreciada em todos os quadrantes.
se o incomodei,peço desculpa.
em resumo,viva o Herman.

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