Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Estou impressionada com a avalanche de comentários neste  post da Fernanda. Estou impressionada com o tom desses comentários. A imagem metralhada na televisão de insegurança, a insegurança real de muita gente, é meio caminho para uma adesão cega ao princípio do fim do sentimento de defesa da cidade moderna, do Estado de direito, cuja boa saúde se mede, em grande parte, precisamente pela forma como lida com aqueles que prevaricam, com os suspeitos de um crime, com os que são apanhados em flagrante delito e fogem da polícia, para raiva de quem assiste à cena, com os criminosos confessos, provados, que matam, que traficam drogam, que fazem aquilo que nos faz sentir o desejo secreto da vingança privada.


 Esse desejo é felizmente substituído por essa "coisa" que nós inventámos, que não deve ter emoções. Chama-se Estado e de entre os agentes que tem ao seu serviço contam-se os polícias, um corpo que devemos acarinhar, mas que falha, sim, que às vezes mata, que às vezes tortura, que às vezes nega aos detidos e aos condenados os direitos que a democracia confere às "pessoas", ainda que a fugirem de um local de crime, ainda que suspeitas dele, ainda que sob interrogatório, ainda que condenadas, ainda que presas num estabelecimento prisional.


A democracia, o Estado de direito, é assim. Protegê-lo significa apontar o dedo a quem infringe as suas regras, mesmo que contra alguém que a a "voz do povo" tem por um bandido.


Herói não é o polícia que saca da pistola, quando nem sequer o pode fazer, mesmo se o atingido é um filho da puta; herói é o polícia que, enraivecido com o filho da puta, recorda-se, no momento em que lida com ele, que há ali uma relação de direitos e deveres. Há polícias que sabem isto. Há polícias que cumprem este princípio, todos os dias, ao nosso serviço.


Fico impressionada ao ler tanto ódio na caixa de comentários da Fernanda quando recordo este relatório do Comité para a Prevenção da Tortura nas Prisões do Conselho da Europa, sobre Portugal, no qual se referem aspectos como: maus tratos; acesso a um médico; acesso a um advogado; prestação efectiva de informações sobre os direitos das pessoas; condições em que se efectuam as detenções, etc. Aqui não se está a analisar casos de morte, não, mas analisam-se situações de pancada, devidamente testemunhadas como se vê por esta passagem: "A titre d'exemple, un homme avec lequel la délégation s'est entretenue à la prison de Faro a affirmé que, une semaine auparavant, pendant sa détention au dépôt de la Police de sécurité publique de Faro et environ 24 heures après son interpellation, un membre de la PSP lui avait assené un coup violent sur le dos de la main gauche avec une arme à feu ; ceci lui a entaillé la main et a nécessité son transfert à l'hôpital pour y être soigné. L'examen effectué par l'un des médecins de la délégation a révélé que l'intéressé présentait sur le dos de la main gauche une plaie longitudinale avec tuméfaction, aux bords propres, suturée de huit points".


Já houve outros relatórios destes e há aspectos positivos, neles. Nem tudo é mau. O que diriam tantos dos que tenho lido naquelas caixas de comentários? Não se deveriam fazer estas "espionagens" à situação da violência policial em Portugal? Talvez em Cuba não se façam.


Ou será que as reacções das pessoas estão carregadas de preconceitos contra quem escreve o que escreve?


É que fico mesmo impressionada quando recordo esta notícia do Público e leio comentários tão díspares.


Estamos no mesmo país?


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:28


16 comentários

De Vega9000 a 18.03.2010 às 17:35

Esse desejo é felizmente substituído por essa "coisa" que nós inventámos, que não deve ter emoções. Chama-se Estado

O risco de não ter emoções é de ser indiferente às vítimas de crimes, e dar a ideia que está mais preocupado com o tratamento dado aos criminosos que com essas mesmas vítimas. Então crimes de violação, violência e abuso, a situação é gritante. E se é essa a imagem que passa (e é, lamentavelmente), é natural que as pessoas vivam num permanente estado de revolta reprimida, que explode nestes casos. E que exultem quando vêm aplicada uma justiça mais dura, mesmo que seja a pena de morte.

De Marcelo do Souto Alves a 18.03.2010 às 17:46


   Caro V9, confunde ausência de emoções com incompetência. O Estado não pode usar a emoção, de facto, mas tem de usar sempre a razão. E isso não significa ficar "indiferente", ou seja neutro, perante a evidência e as consequências dos crimes, mas sim REAGIR de acordo com a dimensão dos problemas. Só que nunca emocionalmente, apenas inteligentemente.

De manuelcav a 18.03.2010 às 17:50


Concordo, sobretudo com o título. acaba por fazer a apologia da base line de tudo o que os comentadores têm dito.

Só não entendo esta frase: "Ou será que as reacções das pessoas estão carregadas de preconceitos contra quem escreve o que escreve?" que eu saiba a Fernanda é uma jornalista conceituada e respeitada que, pese embora eu discorde em absoluto de algumas das suas opiniões e convicções, escreve belíssimamente e enriquece a dialética deste forum. Porque é que alguém seria preconceituoso para com ela?

De tereza a 18.03.2010 às 18:02

não consigo ler os comentários dos posts da f porque são demasiado assustadores. é que a ignorância - estupidez, mesmo - é extraordinariamente mais perigosa que um tipo que foge à polícia.

De Luís a 18.03.2010 às 18:12

Isabel, nem mais. Está tudo dito no seu texto.

De Isabel Monteiro a 18.03.2010 às 18:14

"A democracia, o Estado de direito, é assim. Protegê-lo significa apontar o dedo a quem infringe as suas regras, mesmo que contra alguém que a a "voz do povo" tem por um bandido.


Herói não é o polícia que saca da pistola, quando nem sequer o pode fazer, mesmo se o atingido é um filho da puta; herói é o polícia que, enraivecido com o filho da puta, recorda-se, no momento em que lida com ele, que há ali uma relação de direitos e deveres. Há polícias que sabem isto. Há polícias que cumprem este princípio, todos os dias, ao nosso serviço."


 
Subscrevo integralmente!

Também eu, estou profundamente chocada com comentários com que me deparo há 3 dias, sobre este assunto.

E mais ainda com alguns comentários ao post de Fernanda Câncio, a meu ver muitíssimo bem escrito, e que merece todo o respeito vindo de alguém que há muito tenta, (aparentemente em vão), chamar a atenção para questões fulcrais como a desigualdade e os recorrentes abusos de poder
Como é possível a cegueira das pessoas...?

Como é possível a forma como "olham" para a questão esquecendo-se do essencial: a própria PSP vem, desde o primeiro minuto afirmar (à laia de justificação) que o agente em causa não tinha experiência...
Estão nas ruas, armados, agentes sem preparação? Em que é que isso me traz segurança, enquanto cidadã? Em que é isso me garante segurança, a mim ou aos meus filhos?

Hoje, ouço notícias em que um porta-voz da polícia dá conta à população das "medidas que vão ser tomadas para que os agentes passem a ter formação"...E é preciso que morra alguém para se tomar esta medida? Em que país é que eu vivo? Quantas pessoas terão mais de morrer para que mesmo isto não fique esquecido numa qualquer gaveta de intenções?

Como é possível a total subvertência do que está aqui envolvido...
Como é possível unidades de intervenção rápida terem ao serviço agentes inexperientes...(que nem nunca tinham pegado numa arma daquele tipo)...
Como é possível...tanta e tanta coisa?

Em que país vivemos nós?

Isabel Monteiro




De Luís Lavoura a 18.03.2010 às 18:42

"os criminosos [...] que traficam droga"

Traficar droga não é crime, pelo menos no entendimento liberal. É trabalhar para fornecer consumidores de um produto que eles desejam comprar e que devem ser livres de comprar. Quem trafica droga não é um criminoso.

De JMJ a 18.03.2010 às 21:33

Já criticar Socrates é anti-democrático e potencialmente criminoso, não é?


Peço desculpa, mas às vezes dá-me para misturas...

De Vega9000 a 18.03.2010 às 22:26

Meu caro, a razão devoluta de emoções dá, inevitavelmente, uma justiça desumana e fria. Há um argumento que vejo muitas vezes usado: a de que prisão serve para reeducar e reinserir. Assim como uma espécie de hospital onde se vão curar as doenças criminosas, e para a qual a vítima e o seu natural de desejo de punição dos culpados pelos crimes que sofreu é entendida como uma espécie de empecilho, algo que não se deve ter em conta - para não "emocionalizar" a justiça.

De Estupido a 18.03.2010 às 23:41

Repesco um comentario que já deixei no meio de toda aquela confusão, e que gostaria de ver tratado da mesma forma, até porque considero mais grave, visto que neste caso é capaz de não ser feita a devida justiça e no do policia certamente será feita.



Acho a polémica exagerada. Basta ver os factos. O jovem não obedeceu a policia, a policia errou. O jovem teve azar, é lamentável, o policia será julgado.
Mas o que me trás por cá não é esta discussão. Acho ridículo o empolamento que este caso teve por ser amigo do Sam.
http://fimdaluta.wordpress.com/2010/03/11/sobre-a-morte-do-jovem-da-meadela/(http://fimdaluta.wordpress.com/2010/03/11/sobre-a-morte-do-jovem-da-meadela/)
Na semana passada aconteceu um caso MUITÍSSIMO MAIS GRAVE, mas ninguém “pegou” nele. Na meadela um jovem de 19 anos, que fazia barulho, fumava umas ganzas e fizeram uma fogueira em frente a um estabelecimento comercial (sem causar danos) foi ESPANCADO QUASE ATÉ A MORTE (JÁ MORREU) por uns justiceiros (bem piores que o primeiro).
CONCLUSÃO:
O policia vai preso!
Os assassinos continuam em liberdade!
O policia que cometeu um erro é aclamado pelo povo!
Os assassinos são aclamados pelo povo!
Os jovem que fugia à policia é um mártir!
O jovem que fazia barulho já está esquecido!
Com a sua critica, está a encostar a policia a parede e a propiciar um clima de justiça popular!!!!!!!!!
Definam prioridades. É preferível um policia que erra, ou um linchamento popular!!!!!!!!!

De Anónimo a 31.12.2012 às 19:06

DE fato  nao sei quem consegue ser pior se á policia ou os ditos bandidos,mas de qualquer forma  ja nao  se pode  mais confiar na policia que nada mais sao
do que bandidos aprimorados apoiados pelo estado.QUE EU CAIA  nas maos dos bandidos  do que na maos desses malditos policiais que so fazem merda  e ficam prejudicando cidadaos de bem...

Comentar post


Pág. 1/2



página facebook da pegadatwitter da pegadaemail da pegada



Comentários recentes

  • mariamemenez

    BEM-VINDO: O EMPRÉSTIMO ONLINE ENTRE PESSOAS GRAVE...

  • Endre

    Você quer pedir dinheiro emprestado? se sim, entre...

  • Endre

    Você quer pedir dinheiro emprestado? se sim, entre...

  • Endre

    Você quer pedir dinheiro emprestado? se sim, entre...

  • DAVID

    Saudações da temporada, eu sou David e sou um hack...

  • Welty Jeffrey

    MARTINS HACKERS have special cash HACKED ATM CARDS...

  • sandra

    I wanna say a very big thank you to dr agbadudu fo...

  • DAVID

    Olá senhoras e senhores!O ano está acabando e esta...

  • Maria

    God is great i never thought i could ever get loan...

  • edwin roberto

    I am Edwin Roberto and a construction engineer by ...


Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Pesquisar

Pesquisar no Blog