Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Teoria Relativista do Dinheiro — Nota Prévia

por Licínio Nunes, em 10.01.14
Now I am become Debt
The destructor of worlds

Bhagavad Gita — Paráfrase da citação de J. Robert Oppenheimer


Este é um livro publicado ao abrigo de uma licença de código Aberto, GNU V3 (cf. 19). À partida parece uma ideia absurda (“. . . código aberto tem a ver com software de computadores. . . ”) e foi assim que a encarei inicialmente.

Acontece que são as ideias absurdas, uma vez levadas à prática, que criam novas realidades. Foi isso que o Stéphane Laborde fez e a afirmação anterior dispensa qualquer demonstração: doutra forma, eu não estaria a escrever estas linhas. De qualquer forma, esta é uma experiência nova para mim e no sentido de orientar o leitor, adoptei como método, restringir as minhas contribuições a este capítulo e à Nota Final, bem como às notas de pé-de-página e finais, visto que o autor original não faz uso das mesmas.

Esta nota prévia tem dois propósitos. O primeiro é o de detalhar o conceito de agregados monetários, assunto que é apresentado de forma algo violenta, logo nas primeiras páginas. O Banco Central Europeu define os agregados M1, M2 e M3, tal como consta da tabela seguinte...(ver Agregados Monetários BCE).

O segundo propósito é o de esclarecer o tema central de todo o livro, isto é, o conceito de valor. Ora, assuntos como este, são propensos a criar uma grande confusão. No fim de contas, a confusão centra-se numa única palavra: lei.

É que existem dois tipos de leis. O primeiro diz respeito às regularidades que podemos observar – ou deduzir – à nossa volta (incluindo em nós próprios). Não dependem da nossa opinião, nem sequer do nosso conhecimento a seu respeito, pois não é pelo facto de alguém desconhecer, e.g., as leis do movimento de Newton, ou as leis do electromagnetismo de Maxwell, que está menos sujeito a elas.

O segundo tipo de leis diz respeito ao conjunto de normativas, formais ou informais (hábitos, tabus sociais) que regulam o funcionamento das nossas sociedades. A diferença essencial, é que as leis do primeiro tipo não dependem de nós, enquanto que as do segundo tipo só dependem de nós.

Karl Popper, [17, capítulo 5 e notas], chamou a esta distinção, a transição dum estado de monismo mágico – característico das sociedades fechadas ou tribais, em que as leis naturais são confundidas com as normativas sociais – para um estado de dualismo ou convencionalismo crítico.

Ao contrário das “leis naturais”, as normativas formais e informais, são apenas decisões, e nenhuma decisão pode ser deduzida a partir de um qualquer facto, ou conjunto de factos. Popper acabou por adoptar a formulação dualista de proposições e propostas. As primeiras podem ser afirmadas (ou declaradas); podem ser verdadeiras ou falsas, e só os terminalmente tolos as confundirão com o facto da sua declaração. As propostas são adoptáveis e, como resultado duma decisão individual ou colectiva, podem ser adoptadas; de novo, o facto da sua adopção não pode ser confundido com o facto que a proposta é. Concluindo: “. . . as propostas não são redutíveis a factos . . . embora lhes digam respeito”.

Esta distinção é essencial. Confronta-nos com a nossa própria liberdade, mas também com a nossa responsabilidade. Hoje em dia, neste continente mais uma vez mártir, e, por maioria de razão nos países como o meu, que se encontram na linha da frente da mais recente ofensiva contra a liberdade, os adoradores de Shiva dizem-nos que não existem alternativas àquilo que apenas são as suas próprias propostas*. Esquecem que, em última análise, existe sempre pelo menos mais uma: a alternativa de Oppenheimer. Pela sua insistência no que, por vezes, parece genuinamente ser apenas a ausência da faculdade de pensamento competente, o tribalismo mágico dos dívidocratas está apenas a tornar a violência mais provável.



Penso que é muito difícil elaborar uma ideia mais antropomórfica do que a contida na palavra “valor”. Mas também será difícil encontrar alguma outra ideia que, com tanta frequência, tenha sido sujeita a distorções monistas. Iremos apenas – e de forma muito breve – analisar duas, que designarei por “naturalismo mágico” e “positivismo totalitário”.

A “teoria do valor” de Marx (ou talvez, pelo testemunho de Engels, de David Ricardo), afirma o carácter objectivo do valor, definido como o número de horas de trabalho, socialmente necessárias, para produzir uma unidade de um qualquer bem ou serviço. O núcleo da afirmação, de que apenas a actividade humana gera valor é verdadeiro. Trivial e banalmente verdadeiro, pelo seu carácter antropocêntrico. Acontece apenas que Marx (e os outros naturalistas) esqueceram que trabalho é, em última análise trabalho físico e que este tem dimensões de energia. Logo, o “valor de troca” de Marx teria as dimensões [W] = ML2T-1, em vez das habituais [W] = ML2T-2. †

Pode-se objectar à minha crítica, afirmando que o assunto não tem a dignidade suficiente para uma análise detalhada. Veja-se que, se aceitássemos aquela noção de “valor de troca”, teríamos que concluir que, sendo o trabalho socialmente necessário para produzir uma tonelada de ouro de lei e uma tonelada de ouro dos tolos igual, então o seu valor seria igual. Creio que foi A.J. Toynbee quem afirmou que “. . . a liberdade foi muitas vezes vítima de ataques directos, mas com mais frequência ainda, vítima de falsas ideias”. E de falsos profetas, acrescentaria eu.

A postura dos positivistas (em boa medida, a posição hoje dominante) é ainda mais brutal, pois sendo que só os factos têm significado, apenas a situação real tem significado, sendo todas as alternativas meras “construções verbais”. Creio ser óbvio que se trata apenas da defesa, pretensamente erudita, do status quo, nada mais necessitando ser dito.

A Teoria Relativista do Dinheiro afirma a condição do indivíduo como único decisor válido do valor. Pelo que atrás ficou dito, penso ser claro que podemos defender esta afirmação como quisermos, mas em última análise nunca a poderemos deduzir de um qualquer conjunto de factos ou proposições, temos que a propor. E pugnar pela sua adopção:‡

Princípio do Valor 0.1 O indivíduo é o único decisor válido do valor e a sua liberdade
só pode ser restringida na medida em que conflitue com a liberdade de outros indivíduos, incluindo os que ainda não nasceram.

É razoável pensar que a paráfrase inicial é excessiva, no fim de contas, Oppenheimer estava a falar da arma atómica, a arma final. A História, aqui no sentido preciso de “história registada”, mostra-nos que, pelo contrário, talvez a citação original fosse exagerada. No fim de contas, podemos afirmar com uma certeza razoável que a ameaça nuclear é controlável. A destruição pela dívida não. Isto porque a criação monetária por privados, implica sempre uma dívida: o dinheiro tem que ser «. . . borrowed into existence . . . ».§

O resultado são os ciclos periódicos de “abundância de dinheiro barato”, seguidos de ciclos de destruição (!) monetária, sempre acompanhados pela devastação do tecido económico e social. Pelo sofrimento. Foi por isso, [6, por exemplo], que todas as sociedades e todas as religiões do Levante instituíram jubileus periódicos da dívida; um novo começo, uma nova oportunidade, como uma tela em branco. No presente, a única dúvida é até quando iremos tolerar a repetição ad nauseam das transfigurações de Shiva. Porque, metáfora à parte, dependem apenas de nós.

“Assim, resta-nos enfrentar lucidamente a questão, por muito difícil que nos pareça. Se sonharmos com um regresso à infância, se nos deixarmos cair na tentação de delegar nos outros aquilo que nos compete para encontrar a felicidade, se nos furtarmos à incumbência de carregar a cruz que nos pertence, a cruz da humanidade, se nos falhar a coragem e abandonarmos a luta, então teremos que tentar fortalecer-nos na compreensão clara e simples da decisão tomada: o regresso à bestialidade. Pois o caminho da humanidade é só um, o da sociedade aberta, e implica um salto no desconhecido, na incerteza, na insegurança, implica recorrer à razão como meio de planear, o melhor que soubermos, a nossa segurança e a nossa liberdade.”[17, Popper, op. cit.].




*TINA – There Is No Alternative.
†A forma mais rápida de abordar este assunto, consiste em recordar a equação da relatividade restrita de Einstein: E = mc2. Ou seja, estamos a afirmar que energia (logo, também trabalho) é massa, a multiplicar duas vezes por distância e a dividir duas vezes pelo tempo, ou em notação dimensional, [W] = [E] = ML2T-2. O “tempo em falta” na definição de Marx é apenas o exemplo recorrente de como a análise dimensional é uma ferramenta excelente para detectar asneiras toscas. Atente-se que Marx foi contemporâneo de James Clerk Maxwell que formulou a teoria nas sua forma (quase) moderna, pelo que é admissível que não tivesse conhecimento destes resultados. Mas o assunto torna-se ainda pior, se recordarmos que Marx afirmou existir “um outro valor”, a que chamou “. . . de uso” e que o resultado final (o valor final) seria a soma dos dois termos. Marx tinha a obrigação de conhecer aquilo que, de forma algo grandiloquente, Newton designou por Grande Princípio da Similitude: podemos multiplicar ou dividir o que quisermos, depois, extrair sentido do resultado é problema nosso (aquele “trabalho” com um factor de tempo em falta poderia ser qualquer coisa, trabalho é que não). No entanto, só podemos somar ou subtrair o que for comensurável (ou literalmente, como Newton o escreveu, ‘co-mensurável’). Este não é um assunto de correcção formal. Atente-se num exemplo prático: quando dizemos que a quantidade A tem dimensões de distância, [A] = L, estamos a afirmar que se o sistema de unidades em que A é enunciado for alterado por um factor n, o valor numérico de A será afectado por um factor n-1. Se a definição de metro do Sistema Internacional fosse aumentada por um factor de 2, o valor numérico da distância A seria reduzido por um factor de 1/2; se inicialmente A fosse igual a 8 metros, depois daquela re-definição, seria igual a 4 (novos) metros. Se tivéssemos somado a A a quantidade de 5 Kg, o resultado não faria qualquer sentido.
‡Esta formulação não pretende substituir a estrutura axiomática proposta em 6. Pelo contrário, decorre da discussão anterior e pretende libertar aquela estrutura de qualquer necessidade de justificação. A matemática foi, muito provavelmente, a primeira área do conhecimento a realizar plenamente aquela transição para o convencionalismo crítico, mas apenas como resultado daquilo a que B.B. Mandelbrot chamou [12, “. . . a grande crise da matemática. . . ”]. Poucos terão dado por tal crise, para além dos próprios matemáticos, mas aquilo que hoje se designa por Axiomática de Hilbert (estrutura) terá ficado razoavelmente completa apenas pelo fim do primeiro quartel do século vinte. Pode ser resumida dizendo que resulta da constatação de que, em algum ponto, a regressão infinita de conceitos e definições (“o problema do ovo e da galinha”) tem que ser interrompida, aceitando um pequeno conjunto de primitivas lógicas, ou axiomas, a partir das quais tudo o resto é deduzido. Mas a axiomática de Hilbert produz também uma estrutura hierárquica, em árvore, em que (idealmente) os axiomas duma teoria – dum ramo – são teoremas do tronco a que estão ligados, pelo que as únicas proposições realmente aceites sem demonstração ocorrem e em muito pequeno número, nos troncos fundamentais.
§Esta expressão intraduzível (para mim, pelo menos) encerra o essencial do assunto. Num sistema de criação monetária por privados, (quase) todo o dinheiro resulta duma dívida e não existe senão no âmbito dessa dívida.

O link para a versão "legível" deste texto é Teoria Relativista do Dinheiro. O conteúdo do link irá estar em actualização "permanente" durante algum tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:36


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



página facebook da pegadatwitter da pegadaemail da pegada



Comentários recentes

  • Anónimo

    Olá senhor e senhora Para resolver seus problemas ...

  • Anónimo

    Você está em busca de um serviço de hacking confiá...

  • Anónimo

    Você está em busca de um serviço de hacking confiá...

  • Anónimo

    I met professional hackers beyond human imaginatio...

  • Anónimo

    I met professional hackers beyond human imaginatio...

  • Piyush Giri Goswami

    Apenas hago recomendaciones, pero quiero recomenda...

  • Anónimo

    Olá pessoal, Você precisa de serviços de hackers? ...

  • Anónimo

    Olá pessoal, Você precisa de serviços de hackers? ...

  • Piyush Giri Goswami

    Apenas hago recomendaciones, pero quiero recomenda...

  • Piyush Giri Goswami

    Apenas hago recomendaciones, pero quiero recomenda...


Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Pesquisar

Pesquisar no Blog  



subscrever feeds