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Os inimigos da sociedade

por Licínio Nunes, em 28.11.13
A medida mais importante do século XIX, aprovada por corrupção, auxiliada e instigada pelo homem mais puro dos Estados Unidos.

Thaddeus Stevens, a respeito da aprovação da 13ª Emenda à Constituição dos USA, proibindo a escravatura.


Tenho duas opiniões pessoais a respeito do Lincoln do Spielberg. A primeira, é que a Academia de Hollywood tem mesmo um grande problema entre mãos, porque qualquer actor que venha a interpretar uma figura histórica, vai ser comparado com a interpretação do Daniel Day-Lewis e vai ficar em maus lençóis. A segunda é que, com qualquer outro realizador, o filme teria ganho o Óscar para o melhor filme, mas para o Spielberg a fasquia está sempre mais elevada e ainda bem. Não se percebe minimamente qual a origem da oposição daqueles congressistas democratas, alguns vindos de estados onde a escravatura nunca foi legal.

Para além disso, muitos dos factos descritos e resumidos naquela frase inicial, parecem mais não fazer do que confirmar o velho aforismo segundo o qual, quem quer que goste de democracia ou de salsichas, nunca deve contemplar a forma como qualquer destas coisas são feitas. Mas a conclusão de Taddeus Stevens levanta algumas questões e essas questões são centrais, nomeadamente, para a compreensão da crise que, mais uma vez, leva este continente-mártir na direcção do caos. Vejamos.


  • A primeira é a de saber se os métodos de Lincoln — que ele prosseguiu de forma implacável — são ou não válidos. Sustento que sim, e não, esta não é a velha falácia dos meios e dos fins, lá chegaremos.

  • A segunda questão é implícita, mas atravessa incontornavelmente todo aquele processo histórico. Abraham Lincoln conta-nos como o seu próprio pai tinha abandonado o seu estado-natal do Kentucky, por ter percebido que um pequeno lavrador independente nunca conseguiria competir, ou sequer sobreviver, paredes meias com a grande propriedade, assente na mão-de-obra escrava. Por isso, quando ele finalmente fala com os delegados da confederação, nem sequer responde à observação do respectivo vice-presidente, "...é o fim da nossa economia...", e traça apenas os termos para a rendição incondicional. De forma implícita, Lincoln nega que a sociedade americana, e por extensão, qualquer sociedade, possa ser organizada e estruturada por forma a proteger e propiciar uma forma concreta de organização económica. Sustento que esta negação tem que ser reforçada e alargada.

  • A questão final é a de saber se aquele "fabrico de salsichas", com todos os seus detalhes, algures entre o não recomendável e o simplesmente repugnante, pode, ou sequer, se deve ficar restrito aos "homens puros", na expressão de Stevens. A resposta é negativa, mas é claramente a mais complicada das três.




A estrutura lógica do problema -- recordemos que o problema é a crise muito profunda da Europa, aconselharia a que a questão central fosse abordada em primeiro lugar, porque, como todas as crises civilizacionais profundas, esta é uma crise do poder e da estrutura do poder. No entanto, este é um processo histórico que, como todos o são, é dominado pela sucessão de nexos causais que transformam a possibilidade em facto. Ora acontece que, até há poucas décadas, os conservadores conservavam. Desde a Revolução Francesa até ao início da década de oitenta do século passado, o "fabrico de salsichas" conservador, destinava-se a demorar, obstaculizar e a bloquear os processos de progresso (!) social. Todas as formas de actuação abertamente regressivas, assumiram um carácter autoritário, como na repressão ancien régime da Primavera dos Povos, ou o carácter totalitário do Marxismo institucional e do fascismo, europeu ou transladado para outras paragens.

Karl Popper reconheceu a existência destes problemas e deu-lhes a designação colectiva de paradoxos da liberdade e da democracia. Afirmou claramente que "Devemos portanto reclamar, em nome da tolerância, o direito a não tolerar o intolerante". No entanto, estes assuntos foram tratados quase apenas por completude lógica; as grandes ameaça à sociedade aberta assumiam invariavelmente um carácter totalitário.

É, de alguma forma irónico, que o "Grande Inimigo da Certeza" tenha sido apanhado por uma das suas bêtes noirs favoritas, isto é, por aquela aparente regularidade histórica que era a associação moderna entre totalitarismo e oposição a sociedades abertas e progressivas. É claro que a quebra dessa "lei" seria sempre apenas uma questão de tempo, mas havia mais uma surpresa guardada. Até ao fim da Segunda Guerra, a Universidade era O Templo da Inteligência, na formulação imortal de Miguel de Unamuno, e as violações do templo ocorriam, também elas, invariavelmente associadas a processos totalitários, do apoio de Heidegger ao nazismo à "genética" de Lysenko.

A Grande Agressão Regressiva nasceu nos ambientes calmos da universidade, ingenuamente confiantes na liberdade de inquérito racional; nasceu lá pelas margens do Lago Superior e transformou-se numa indústria local de grande sucesso, uma fábrica de salsichas; impróprias para consumo, humano ou animal; regressando a Unamuno, apenas um conjunto de "...paradoxos bárbaros e repugnantes...". Demorou tempo, uns quantos prémios Nobel, mas até a intocabilidade do método de revisão por pares foi violada e não tem mais sentido, ou será que alguém necessita de ser recordado da moscambilha da folha de cálculo?

Este assunto é vasto e não irá caber neste post, outros se lhe seguirão. Para além do enunciado daquelas três questões essenciais, irá ficar pela resposta à última pergunta e, neste momento, os últimos parágrafos parecem indicar conclusões contrárias à minha. Assim não é e quero fazer notar que o problema dos "homens puros" é um assunto de natureza processual. Existe uma necessidade de pureza processual, sim, mas não no plano mais geral da organização da sociedade. A universidade tem que reganhar aquele estatuto que Unamuno lhe deu, nomeadamente, mas não só, pela extinção das cátedras das faculdades de economia com nomes de bancos e pela expulsão dos seus detentores; a universidade tem que criar um selo de garantia que ateste terem quaisquer trabalhos admitidos como base para a discussão de políticas públicas, terem sido sujeitos a um processo de revisão por pares; limitado e falível como é, este é o mecanismo testado para detectar e eliminar patifes, e é com patifes que estamos a lidar.

No plano geral da organização da sociedade, a resposta é formal e não processual. As sociedades têm que ser capazes de definir princípios de progresso (!) e blindá-los contra a patifaria; nomeadamente, estabelecendo fronteiras quantitativas que não possam ser ultrapassadas. Isso pode ser feito e é isto que terá que ser feito. O fabrico de salsichas é sempre o que é, e aquilo que não podemos esquecer, é apenas que estamos a lidar com patifes e "devemos proclamar o direito a suprimi-los, se necessário até, pela força" (op. cit.)

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publicado às 15:06


1 comentário

De Manuel Tavares a 29.11.2013 às 10:55

Grande texto Licínio... Espero pelas cenas dos próximos capítulos !

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